sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Brasileiro: pare de ser macaco do americano!

Não sou inimigo de nenhum povo e de nenhum país e sim dos governos de certas nações. Um amigo dotado de bela cultura, jornalista de “O Estado de S.Paulo”, que me viu ser entrevistado no programa “Provocações”, do Antônio Abujamra, da TV Cultura, e que leu a entrevista que concedi ao colega Gilberto Amendola do “Jornal da Tarde”, publicada na edição do dia 8 de julho de 2009 desse periódico, o referido amigo chegou a esta conclusão:
-Fernando Jorge, você é um anarquista, um fiel seguidor do italiano Enrico Malatesta e do russo Mikhail Aleksandrovitch Bakunin.
Não posso negar: sempre tive uma entusiástica admiração pelos anarquistas. Desde jovem eu lia e aplaudia os textos do inglês William Godwin (1756-1836), paladino da tese de que o homem pode tornar-se perfeito pela educação e pela razão, e se conseguir criar uma sociedade livre de qualquer coercitivo governo autoritário. Sonho utópico, irrealizável? Depois mergulhei na leitura das obras de Bakunin (“Deus e o Estado”, “O catecismo revolucionário”, “Os princípios da revolução”), cuja escola se opunha vigorosamente ao socialismo ditatorial de Karl Marx e defendia uma espontânea ação revolucionária, com o objetivo de destruir o “desumano capitalismo” da época moderna. Confesso também li e reli, e até adorei, o livro “A doutrina anarquista ao alcance de todos”, do professor José Oiticica (1882-1957), um homem puro, honrado, profundo conhecedor do nosso idioma, tão conhecedor que lecionou Filologia Portuguesa na Universidade de Hamburgo.
Diversas vezes perguntei a mim mesmo: sou ou não sou um anarquista? Bem, se ser anarquista é rebelar-se contra a macaqueação do brasileiro diante do americano, contra a sua mania de querer falar bem o inglês e mal o português, então de fato eu sou um fanático adepto de Peter Alexievitch Kropotkin (1842-1921), autor, entre outros livros, das “Palavras de um revoltado” e de “A conquista do pão”, lidos e relidos por mim, o primeiro publicado em 1885, e o segundo em 1892.
Repito, não sou inimigo de nenhum povo e de nenhum país, mas não aceito, não me conformo, esculhambo, meto o porrete nessa paranóia de milhões de brasileiros se obstinarem em serem macacos dos americanos. Isto para mim é falta de cultura, de caráter, de personalidade, de patriotismo.
Você liga o rádio e só ouve a música cacofônica dos Estados Unidos. Os brasileiros americanizados, ou melhor, americanalhados, metidos a besta, acham que é prova de mau gosto, de atraso, ouvir um tango argentino, uma canção italiana, mexicana ou francesa. Ouvimos mais a ensurdecedora música cacofônica americana do que a nossa, a da Bethânia, da Gal, da Zizi Possi, do Caetano Veloso. E se ligarmos a televisão, é só filme americano de quinta ou oitava categoria, exibindo cretinices, assassinatos, barbaridades. Filmes para os criminosos se sentirem estimulados a assaltar, a estrangular, a fuzilar, a cortar cabeças.
O brasileiro é tão macaco do americano, tão complexado, tão sem personalidade, que hoje, em dezenas de lojas comerciais, quando deseja anunciar uma grande liquidação, ele coloca as palavras inglesas off e sale.
Lá no Rio de Janeiro, os jovens da alta classe média copiam nas praias os jogos da americana National Football League. É o Superbowl! É o Touchdown! Eles mal sabem se expressar em português, mas gritam, no decorrer das partidas:
-Field goals! (Gol de campo!)
-Tight-end! (Bloqueio!)
-Safety! (Vale dois pontos!)
-Defensive tackies! (Jogar pelo meio da defesa!)
-Defensive ends! (Defender as pontas!)
-Quaterbaks! (Armação das jogadas de ataque!)
As mocinhas americanizadas do Leblon, de Ipanema, de Copacabana, da Barra da Tijuca, vendo as partidas dos simiescos garotões, vomitam estas palavras, como se estivessem soltando orgasmos:
-Wonderful! (Maravilhoso!)
-Beauty! (Beleza!)
-What a bit of luck! (Que sorte!)
-Gracious goodness!, good gracious! (Ora essa, céus, meu Deus!)
-That makes us square! (Agora estamos quites!)
-Over again! (Outra vez!)
-Well, I’m jiggered! (Por essa eu não esta esperava!)
Entrevistada por uma repórter de televisão, uma das tais mocinhas assim se expressou:
-Prefiro falar o inglês do que o português. Acho tão feia, tão cafona a nossa língua! Take my Word for it. (Dou-lhe a minha palavra). My dream (meu sonho) é conhecer, em New York City, o Music and Dance Booth, no Bryant Park. Take my word for it! (Dou-lhe a minha palavra!)
Ao ver esta fulana na televisão, eu pensei: amanhã, se os Estados Unidos invadirem o Brasil, milhões de jovens como ela vão renegar a sua nacionalidade, trair o seu país, virar americanos ou americanas de carteirinha.
Na pátria do Lula existem idosos americanizados. Rubem Fonseca, nascido em Juiz de Fora, Minas Gerais, no dia 11 de maio de 1925, não parece um escritor brasileiro e sim americano. Os textos dos seus contos e romances se assemelham às narrativas de John Steinbeck, Ernest Hemingway e Jerome David Salinger. Aliás, Rubem imita este último na vida pessoal, usa o estratagema de nunca dar entrevistas, a fim de se mostrar difícil, estranho, singular... É oportuno dizer que esse escritor cem por cento americanizado, estudou administração e comunicação nas universidades de Boston e de Nova York.
João Ubaldo Ribeiro, no artigo “Vergonha da mesóclise” (“O Globo”, 2-6-2009), provou como o fascínio pelo inglês dos americanos está mudando, de forma corrosiva, horrenda, a língua portuguesa falada em nosso país.
Brasileiro, você quer continuar a ser macaco do americano? Peça para ficar numa jaula de um jardim zoológico dos Estados Unidos, a fim de nela pular, guinchar, fazer caretas, empinar o rabo e comer bananas, pipoca e amendoim, em frente dos olhos aparvalhados dos visitantes.
Brasileiro, tenha um pouco de vergonha na cara, pare de ser macaco do americano!

sábado, 24 de outubro de 2009

O HOMEM QUE ESTÁ CANSADO DE SUA PRÓPRIA ESPOSA

Jamais gostei de dar conselhos, porque não me julgo nenhum sábio, mas agora estou numa posição especial, que me força a violentar o meu temperamento. Um leitor de Santos enviou-me uma carta, descrevendo o seu drama íntimo. Ele declara, em determinado trecho da carta:
“Peço ao senhor que me responda, numa de suas crônicas. Não sou egoista. Pode ser que meu caso não seja o único. Deste modo um outro indivíduo, que esteja em idêntica situação, poderá aproveitar os seus conselhos, os quais, tenho certeza, serão respeitosamente acolhidos.”
Examinemos o problema desse leitor. Homem de meia-idade, diz ele, tem quatro filhos e está casado há quase trinta anos com uma senhora que conta igual número de outonos. De uns tempos para cá, sem conseguir explicar a razão, sente-se nervoso, aflito. Tudo o fatiga, tudo o aborrece. Já não suporta a presença da dedicada companheira. Ela, sempre fiel, calma, discreta, causa-lhe um mal-estar indefinível. A fisionomia abatida, murcha e um pouco enrugada da paciente esposa, e os seus cabelos já meio brancos, provocam no espírito do meu leitor um certo desencanto, uma profunda melancolia... Confessou-me que se acha cansado da própria mulher. Não descobre nela nada mais que o seduza.
Aqui vai um conselho ao meu leitor: não menospreze a sua esposa. Procure ver quanta beleza existe nos seus cabelos algo prateados. Cada um dos fios brancos da sua cabeça é a marca de uma fidelidade silenciosa.
Vou evocar, para o meu agoniado leitor, a crise psicológica de um nobre europeu. A história é verdadeira.
A condessa de Eglington, uma das mulheres mais lindas da Escócia, tinha ultrapassado a casa dos quarenta anos. O seu marido pretendia, de maneira obstinada, ganhar um herdeiro, e a condessa lhe dera sete filhas. Desesperado pelo fato de não ter um sucessor, o conde, tipo excêntrico, resolveu separar-se para sempre da esposa. Propôs que consentisse no divórcio.
- Sem dúvida - disse a condessa - mas eu não devo, nem posso consentir na separação, enquanto o senhor não me devolver tudo que recebeu de mim.
Esta foi a resposta do conde:
- Concordo. Não somente pretendo devolver o dote que recebi de sua pessoa, como também concedo à senhora, da mesma forma, uma pensão vitalícia.
- O senhor não me compreendeu - replicou a condessa - guarde o meu dote e todos os seus bens. Não é disso que eu falo. Para que nos separemos é necessário, primeiro, a devolução da minha mocidade. Em seguida, a da minha beleza de jovem. Depois, senhor conde, quero a entrega de minha condição de solteira, pois o senhor haverá de convir que recebeu de mim essas três coisas muito preciosas.
Impressionado com o pedido, o conde de Eglington abaixou os olhos, reconhecendo a injustiça que praticara. E nunca mais falou em divórcio.
Agora, meu insatisfeito leitor, disposto a acabar com o seu casamento, permita-me fazer esta pergunta, baseado na história acima narrada: após trinta anos de convivência, o senhor poderá devolver à sua esposa a mocidade que ela possuia e que lhe entregou, e também a sua beleza de jovem, as suas ilusões, a sua condição de solteira? Se puder devolver-lhe tudo isto, o senhor terá o direito, na minha opinião, de abandoná-la e de andar de cabeça erguida, até o fim da sua vida.

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Escritor e jornalista, Fernando Jorge é autor do livro “Vida e poesia de Olavo Bilac”, cuja 5ª edição foi lançada pela editora Novo Século.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

UMA CALÚNIA CONTRA JESUS CRISTO

Desde 1983 até 1995, ano do seu falecimento, o jornalista Amaral Netto quis legalizar a pena de morte em nosso país. Julgando que a maioria da população lhe dava apoio para realizar esse projeto, encaminhou como deputado, na Câmara Federal, a emenda destinada a estabelecer um plebiscito. Sua iniciativa repercutiu no mundo inteiro e ele recebeu um minucioso documento, com o protesto de mais de oitenta nações.
Eu costumava ver na televisão as entrevistas do Amaral Netto. Uma coisa me surpreendia: ele tinha o hábito de declarar que o próprio Jesus Cristo era a favor da pena de morte. Ora, basta ler a “Bíblia” com atenção para saber como isto não é verdade. Jesus nunca pronunciou qualquer frase ou qualquer palavra, a fim de apoiar a pena capital.
Mas descobri o motivo que instigava o Amaral a espalhar aquela mentira. Foi quando examinei o seu livro “A pena de morte”, lançado pela Editora Record em 1991, pois ele, depois de ler o prefacio do padre Emílio Silva de Castro para a sua obra, passou a acreditar que de fato o Salvador dera apoio a essa pena. O padre modificou uma frase de Jesus no Sermão da Montanha, isto é, o texto do versículo 21 do capitulo quinto do Evangelho de São Mateus. Eis a frase de Cristo, adulterada pelo padre, e que o Salvador nunca proferiu:
“Não matarás e quem matar será réu de morte” (página 21 do livro de Amaral Netto).
A expressão “réu de morte” designa “o que está condenado à morte por crime”, segundo esclarece um verbete da página 4.452 do volume quinto do “Grande e novíssimo dicionário da língua portuguesa”, de Laudelino Freire (Livraria José Olympio Editora, 3ª edição, Rio de Janeiro, 1957).
Jesus Cristo nunca se expressou desta forma – “Não matarás, e quem matar será réu de morte” - porque a rigor a frase do Filho de Deus é assim, segundo a “Bíblia” traduzida diretamente dos originais pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma:
“Não matarás, e quem matar será submetido a juízo”, (Mat. V. 21).
Cristo não podia apoiar a pena de morte, pois ele abrogou a Lei de Talião, do “olho por olho, dente por dente”, a lei da chamada “vingança justa”, conforme se vê no versículo 28 desse capítulo do Evangelho de São Mateus. Ao ser preso no Jardim do Getsêmani, informam os versículos 51 e 52 do capítulo vigésimo sexto do mesmo evangelho, o Rabi da Galiléia aconselhou a um discípulo, que ali, com a sua espada, havia cortado a orelha de um homem:
"Guarda a tua espada, porque todos que pegam a espada pela espada, perecerão".
Mais uma vez, portanto, ele condenou o espírito de vingança, de represália, salientando apenas isto: a violência gera a violência e causa a destruição, o aniquilamento. Não é correto, por conseguinte, dizer que Cristo nesta passagem apoiou a pena de morte, como dá a entender o Amaral Netto na página 80 do seu livro. Aliás, segundo os versículos 17, 18 e 19 do capítulo décimo do Evangelho de São Mateus, pondo-se Jesus a caminho, um homem correu ao seu encontro, e após se ajoelhar, perguntou-lhe:
-Bom mestre, que farei para herdar a vida eterna?
O Nazareno exaltou a bondade de Deus e respondeu:
-Tu conheces os mandamentos, “não matarás”...
As provas são esmagadoras. Todavia, mesmo assim, oh fato incrível!, o padre Emilio Silva de Castro, no prefácio do livro de Amaral Netto, obrigou o Redentor a apoiar a pena de morte! É por isto que o Amaral vivia proclamando: até Jesus Cristo foi um defensor dessa pena. O jornalista aceitou sem pestanejar a adulteração do padre, mas agiu de boa fé, não sabia que estava sendo enganado.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

AS BESTEIRAS DA “TEÓLOGA” MARCELLA

Li a entrevista que a “teóloga” Marcella Althaus - Reid concedeu à repórter Eliane Brum, da revista “Época”, e fiquei chocado. Nascida em Rosário, na Argentina, a senhora Marcella leciona Ética Cristã e Teologia Prática na Universidade de Edimburgo. Verborrágica, embrulhona, ela adora a confusão, a complicação, o excesso de palavras inúteis. Lá na Escócia publicou dois livros caóticos, “Indecent Theology” (“Teologia Indecente”), e “The Queer Good” (“O Deus Gay”). Nessas obras a autora defende a tese de que a teologia precisa resgatar a sexualidade! Vejam o disparate. Ciência que trata de Deus, a teologia não tem nada a ver com os problemas da sexualidade humana.
Marcela é obcecada por sexo. Propõe uma teologia “sem roupas íntimas”, isto é, nua, bem peladinha. Sua “Indecent Theology”, segundo afirmou, corresponde a “levantar as saias de Deus”. É tão obcecada por sexo, essa senhora de fisionomia maltratada pelo tempo, que ela vomitou a seguinte besteira, registrada por Eliane Brum:
“A ‘Bíblia’ está cheia de metáforas sexuais. O Cristianismo vem de uma metáfora sexual - um Deus que tem amores com uma mulher e dessa relação amorosa nasceu Cristo. Sai tudo de uma matriz sexual que querem sempre dessexualizar.”.
Vamos corrigir a besteira. Primeiro, não é a “Bíblia” que está repleta de metáforas sexuais e sim a cabeça da Marcella. Segundo, Deus não se casou com a Santíssima Virgem e sim José, carpinteiro por profissão (Mateus, capítulo 1, versículo 18; Lucas, capítulo 3, versículo 23).
Essa “teóloga” trapalhona não aceita a imagem do “Deus perfeito”, dotado de “sabedoria suprema”. Para ela, o Criador comete erros e também é palhaço! Leiam estas suas palavras absurdas:
“Falo de um deus que abre seu armário e diverte seus amigos, dizendo: ‘Agora sou Marlene Dietrich’.”
Quanta idiotice! A senhora Marcella devia ter vergonha na cara, a fim de não espalhar esta blasfêmia: fazer o Todo Poderoso imitar a atriz alemã cujas longas pernas esculturais, cobertas por uma meia preta, apareceram com destaque no filme “Der Blaue Engel” (“O Anjo Azul”), dirigido em 1930 pelo vienense Josef von Sternberg.
Mais adiante, na entrevista concedida a Eliane Brum, a nossa “teóloga” declarou:
“... quero reivindicar um Deus que é marginal. Sou indecente, graças a Deus"
Admire este disparate, amigo leitor, um Deus traficante de drogas, um Deus Fernandinho Beira Mar! É necessário corrigir outra vez a senhora Marcella Althaus - Reid: ela não é indecente, graças a Deus, e sim graças ao diabo!
Sempre obcecada pelo sexo, a “notável teóloga” voltou a abrir a torneira do seu interminável besteirol. Aí vai uma de suas cretinices:
“Que sabemos da sexualidade de Jesus? Nada. O que dizem os Evangelhos? Dizem que foi circuncidado... Então, por que não assumir que Jesus teria outra sexualidade? E qual teria sido? Busco elaborar um Bi-Cristo.”
Ah, prezado leitor, o Nazareno não merece isto, ser crucificado outra vez! E agora por essa criatura que quer transformar a Teologia numa pornografia. Juro, o Salvador não merece isto!
Incapaz de se libertar da sua obsessão pelo sexo, a "teóloga” fez a sua cabeça de miolos enfermos gerar outra blasfêmia fedorenta:
"Estou convencida de que a Igreja tem um falo (órgão sexual masculino) muito grande e, ao mesmo tempo, tem uma base homossexual muito grande".
Mundo imundo! Incrível! Marcella Althaus - Reid é professora de Teologia da Universidade de Edimburgo. Pobre Teologia, pobre universidade! Ela leciona Ética Cristã. Como pode lecionar ética cristã quem não tem ética cristã? Mundo imundo! Ficaria bem mais limpo sem a presença dessa pornógrafa, dessa ofensora de Deus, de Jesus Cristo, dos católicos, dos protestantes, dos evangélicos, dos espíritas, dos fiéis leitores da nossa santa, querida e maravilhosa “Bíblia”.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

EU DEFENDO AS SOGRAS

Evoquei no meu bate-papo “A sogra, esta incompreendida”, uma conversa com um motorista de táxi, que me disse que detestava a sogra, porque esta comia todos os seus franguinhos colocados na geladeira. Tenho vários amigos taxistas. No automóvel fico ao lado deles, para conversar. Pois bem, outro dia um desses profissionais, após me narrar vários episódios de sua vida, fez a seguinte confissão:
-A minha mulher me trata mal, vive dizendo que eu chego tarde em casa pelo motivo de ter uma amante.
-E você tem?
-Não, doutor, nunca tive, mas a peste não acredita, é super desconfiada. Quem me defende é a minha sogra, que é um anjo.
Como podemos ver, de modo bem claro, o meu amigo taxista pertence à classe dos amigos das sogras. Já dissertei sobre os inimigos dessas criaturas tão injustiçadas. É justo, portanto, que eu agora evoque dois homens de valor que eram amigos de suas sogras.
Amigo da sogra foi o grande romancista russo Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski (1821-1881). Sua segunda esposa, Anna Grigoriev¬na Dostoievskaia, reproduziu no livro “Meu marido Dostoievski” (traduzido para o nosso idioma por Zoia Prestes) as palavras desse escritor dirigidas à futura sogra:
“Claro que a senhora já sabe que pedi a mão de sua filha em casamento. Ela concordou em ser minha mulher e estou muito feliz. Gostaria que aceitasse a sua escolha. Anna Grigorievna me falou tão bem da senhora, que me acostumei a respeitá-la. Dou-lhe a minha palavra que farei o possível e o impossível para que ela seja feliz. Para a senhora serei um genro dedicado e amoroso.”
A esposa do autor de “Crime e castigo” admitiu:
“Devo reconhecer que Fiódor Mikhailovitch, realmente, durante os quatorze anos de casamento, sempre foi muito gentil e atencioso com a minha mãe, tratando-a com amor e estima.”
Outro escritor insigne, Edgar Allan Poe (l809-l849), também era amigo de sua sogra, a senhora Marie Clemm. Esta lhe arranjava dinheiro quando ele não tinha um níquel, consolava-o nas desventuras, fazia-o adormecer perpassando a mão rechonchuda pela sua atormentada fronte. Edgar amou-a como se fosse sua mãe. Numa carta, das últimas que escreveu, ele assim se referiu a ela:
“Você tem sido... tudo para mim, querida e sempre amada mãe, a mais querida e verdadeira amiga.”
Depois da morte de Poe, a sua sogra declarou:
“Jamais gostava de ficar sozinho, e eu costumava sentar-me com ele, muitas vezes até as quatro horas da madrugada. Ele, na sua mesa, escrevendo, e eu cochilando na minha cadeira. Quando estava compondo ‘Eureka’, costumávamos passear para lá e para cá no jardim, abraçados um ao outro, até ficar eu tão cansada, a ponto de não poder mais andar... Sempre me sentava perto dele quando estava escrevendo e dava-lhe uma xícara de café quente, de uma ou de duas em duas horas... Durante todos os anos em que viveu comigo, não me recordo de uma só noite em que tenha deixado de vir beijar sua ‘mãe’, como me chamava, antes de ir para a cama.”
Aconselho os inimigos das sogras a seguir os exemplos de Dostoiévski e Edgar Allan Poe, pois a sografobia, a aversão às sogras, além de complicar a vida, ataca logo o fígado, os nervos e a cabeça...

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Fraude não é o Chico Buarque, é o Diogo Mainardi!

Diogo Mainardi, no seu insosso texto “Edna entendeu tudo”, publicado na “Veja” de 15 de julho de 2009, garante que o Chico Buarque é uma fraude. O Dioguinho endossa a opinião da péssima romancista irlandesa Edna O’Brien, autora de obras soporíferas, uma das participantes da Flip, da festa literária de Paraty, na qual escritores movidos a cachaça, nacionais e estrangeiros, vagam no porre pelas ruelas da cidadezinha sem rede de esgoto, mijando e defecando. No decorrer dessa festa mais etílica que literária, o fedor da urina e do cocô se torna insuportável, asfixiante.
O Dioguinho Maisnada, aliás, Mainardi, esculhambou também um escritor de talento, Milton Hatoum. Todavia, eu pergunto: quem é Dioguinho Maisnada, aliás Mainardi, para condenar a literatura do Chico e do Milton? Respondo: ele é apenas o Dioguinho Maluquinho da “Veja”, sem a graça do Menino Maluquinho do Ziraldo.
Por que esse apedeuta meteu o pau nos dois? Explica-se, o desvairado colunista, - energúmeno-mor da imprensa brasileira, - é um invejoso crônico, incurável. Não se conforma com o sucesso literário alheio. Deve ter sofrido um forte ataque de invejeite aguda, ao saber que o livro “Leite derramado”, Best-seller de Chico Buarque, vai ser lançado na Itália pela editora Feltrinelli. Estava certo Pierre Corneille (1606-1684), o criador da tragédia francesa, quando colocou estas palavras na cena segunda do ato V da sua peça “Suréna”:
“Nunca um invejoso perdoa o mérito”.
(“Jamais un envieux ne pardonne au mérite”)
Há anos leio as cretinices, os disparates, os insultos, as cacaborradas, os gravibundos erros de sintaxe do hidrófobo Dioguinho Maisnada. E fico espantado, pois a revista “veja” é excelente, assemelha-se a uma bela e confortável casa, onde seus leitores se sentem à vontade. Mas eu pergunto: qual é a casa, por mais moderna que seja, que não tem a sua latrina?
Vejamos se o Dioguinho sabe escrever, se revela cultura para execrar os livros do Chico Buarque e do Milton Hatoum.
Erro de português do Dioguinho no texto “Vamos soltar os bandidos”:
“A gente é menos primário” (“Veja”,4-5-2005).
Correção: “A gente é menos primária”, pois gente, aqui, é substantivo feminino.
Erro de português do Dioguinho no texto “Sai, Lula, sai”:
“Sai, Lula, sai. Sai rápido daí” (“Veja”, 13-7-)
Correção: “Saia, Lula, saia. Saia rápido daí.” O indouto Dioguinho, sempre apressadinho, não percebeu que sai é a terceira pessoa do presente do indicativo do verbo sair. É um conselho dele e não a descrição de uma saída no tempo presente.
Erro de português do Dioguinho no texto “O resumo da ópera”:
“O resultado foram a perda de controle do Congresso e a eleição de Severino Cavalcanti” (“Veja”, 7-9-2005).
Correção: “Os resultados foram...” Erro berrante, tão tonitruante como a peidorrada de um porco-do-mato peidorreiro.
Erro de português do Dioguinho no texto “Para entender o caso Nahas”:
“O governo rachou ao meio”.
Correção: “O governo rachou-se ao meio”. Aí o verbo rachar é pronominal. Foi o governo que se rachou, ele não rachou outra coisa.
Erro de português do Dioguinho no texto “Atear fogo no PSDB?”
“Do Canadá, onde foi passar férias, telefonava a José Serra, para garantir-lhe seu apoio”... (“Veja”, 22-3-2006).
Correção: “...para lhe garantir seu apoio...” A preposição para atrai o pronome, como nesta passagem do canto IV do poema “Os Lusíadas” de Camões:
“Já para se entregar quase rendidos
a fortuna das forças africanas”.
Ou como na seguinte frase de um sermão do padre Antônio Vieira:
“Por isso não teve ocasião para o estimar, nem boca para o aplaudir, nem olhos para o ver”.
Erro de português do Dioguinho no texto “Ginecomastia, sanfoneiros, pobres”:
“Nos últimos quatro anos, Lula enriqueceu” (“Veja”, 23-8-2006).
Correção: “...Lula se enriqueceu”. O verbo, aí, é pronominal. Dioguinho Maisnada, aliás Mainardi, quis dizer que Lula ficou rico e não que ele enriqueceu outra pessoa...
Erro de portugues do Dioguinho no texto “O mensalão das artes”:
“A Petrobras é o maior patrocinador cultural do Brasil” (“Veja”, 30-8-2006).
Correção: “A Petrobras”, é a maior patrocinadora”. Se fosse “O Petrobras”, vá lá. Dioguinho Dioguinho, menininho malvadinho e ignorantesinho!
Erro de português do Dioguinho no texto “A voz do PT”:
“Devolve o dinheiro aí, José Dirceu” (“Veja”, 6-9-2006).
Correção: “Devolva o dinheiro aí, José Dirceu”. O Dioguinho está dando um conselho. Portanto, salta à vista, o correto é devolva. Ele não conhece de modo seguro os três tempos fundamentais do verbo: presente, passado e futuro.
Erros de português do Dioguinho no texto “A imprensa lubrificada”:
“Quando ‘IstoÉ’ publicou a entrevista com o chefe dos sanguessugas... Agora a CPI dos sanguessugas... Para combinar a entrevista com o chefe dos sanguessugas... Um dos articuladores da entrevista com o chefe dos sanguessugas” (“Veja”, 29-11-2006)
Correção: quatro vezes o Dioguinho provou que não sabe que o substantivo sanguessuga é feminino, pois devemos dizer a sanguessuga e não o sanguessuga. Todos os bons dicionários da língua portuguesa ensinam isto, como o do Cândido de Figueiredo, o do Caldas Aulete, o do Laudelino Freire, o do Antenor Nascentes, o do Silveira Bueno, o do Aurélio, o do Antônio de Moraes Silva.
Agora, amigo leitor, diga-me se o Dioguinho Maisnada, aliás, Mainardi, tem capacidade para criticar os livros do Chico Buarque e do Milton Hatoum. Tem? Se ele tem, a ignorância no Brasil atual vale muito mais do que a cultura e a inteligência. E notem, eu não mostrei os intermináveis erros de português dos livrecos do Dioguinho. Isto fica para outra ocasião.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Brasileiro: pare de ser macaco do americano!

Não sou inimigo de nenhum povo e de nenhum país e sim dos governos de certas nações. Um amigo dotado de bela cultura, jornalista de “O Estado de S.Paulo”, que me viu ser entrevistado no programa “Provocações”, do Antônio Abujamra, da TV Cultura, e que leu a entrevista que concedi ao colega Gilberto Amendola do “Jornal da Tarde”, publicada na edição do dia 8 de julho de 2009 desse periódico, o referido amigo chegou a esta conclusão:
-Fernando Jorge, você é um anarquista, um fiel seguidor do italiano Enrico Malatesta e do russo Mikhail Aleksandrovitch Bakunin.
Não posso negar: sempre tive uma entusiástica admiração pelos anarquistas. Desde jovem eu lia e aplaudia os textos do inglês William Godwin (1756-1836), paladino da tese de que o homem pode tornar-se perfeito pela educação e pela razão, e se conseguir criar uma sociedade livre de qualquer coercitivo governo autoritário. Sonho utópico, irrealizável? Depois mergulhei na leitura das obras de Bakunin (“Deus e o Estado”, “O catecismo revolucionário”, “Os princípios da revolução”), cuja escola se opunha vigorosamente ao socialismo ditatorial de Karl Marx e defendia uma espontânea ação revolucionária, com o objetivo de destruir o “desumano capitalismo” da época moderna. Confesso também li e reli, e até adorei, o livro “A doutrina anarquista ao alcance de todos”, do professor José Oiticica (1882-1957), um homem puro, honrado, profundo conhecedor do nosso idioma, tão conhecedor que lecionou Filologia Portuguesa na Universidade de Hamburgo.
Diversas vezes perguntei a mim mesmo: sou ou não sou um anarquista? Bem, se ser anarquista é rebelar-se contra a macaqueação do brasileiro diante do americano, contra a sua mania de querer falar bem o inglês e mal o português, então de fato eu sou um fanático adepto de Peter Alexievitch Kropotkin (1842-1921), autor, entre outros livros, das “Palavras de um revoltado” e de “A conquista do pão”, lidos e relidos por mim, o primeiro publicado em 1885, e o segundo em 1892.
Repito, não sou inimigo de nenhum povo e de nenhum país, mas não aceito, não me conformo, esculhambo, meto o porrete nessa paranóia de milhões de brasileiros se obstinarem em serem macacos dos americanos. Isto para mim é falta de cultura, de caráter, de personalidade, de patriotismo.
Você liga o rádio e só ouve a música cacofônica dos Estados Unidos. Os brasileiros americanizados, ou melhor, americanalhados, metidos a besta, acham que é prova de mau gosto, de atraso, ouvir um tango argentino, uma canção italiana, mexicana ou francesa. Ouvimos mais a ensurdecedora música cacofônica americana do que a nossa, a da Bethânia, da Gal, da Zizi Possi, do Caetano Veloso. E se ligarmos a televisão, é só filme americano de quinta ou oitava categoria, exibindo cretinices, assassinatos, barbaridades. Filmes para os criminosos se sentirem estimulados a assaltar, a estrangular, a fuzilar, a cortar cabeças.
O brasileiro é tão macaco do americano, tão complexado, tão sem personalidade, que hoje, em dezenas de lojas comerciais, quando deseja anunciar uma grande liquidação, ele coloca as palavras inglesas off e sale.
Lã no Rio de Janeiro, os jovens da alta classe média copiam nas praias os jogos da americana National Football League. É o Superbowl! É o Touchdown! Eles mal sabem se expressar em português, mas gritam, no decorrer das partidas:
-Field goals! (Gol de campo!)
-Tight-end! (Bloqueio!)
-Safety! (Vale dois pontos!)
-Defensive tackies! (Jogar pelo meio da defesa!)
-Defensive ends! (Defender as pontas!)
-Quaterbaks! (Armação das jogadas de ataque!)
As mocinhas americanizadas do Leblon, de Ipanema, de Copacabana, da Barra da Tijuca, vendo as partidas dos simiescos garotões, vomitam estas palavras, como se estivessem soltando orgasmos:
-Wonderful! (Maravilhoso!)
-Beauty! (Beleza!)
-What a bit of luck! (Que sorte!)
-Gracious goodness!, good gracious! (Ora essa, céus, meu Deus!)
-That makes us square! (Agora estamos quites!)
-Over again! (Outra vez!)
-Well, I’m jiggered! (Por essa eu não esta esperava!)
Entrevistada por uma repórter de televisão, uma das tais mocinhas assim se expressou:
-Prefiro falar o inglês do que o português. Acho tão feia, tão cafona a nossa língua! Take my Word for it. (Dou-lhe a minha palavra). My dream (meu sonho) é conhecer, em New York City, o Music and Dance Booth, no Bryant Park. Take my word for it! (Dou-lhe a minha palavra!)
Ao ver esta fulana na televisão, eu pensei: amanhã, se os Estados Unidos invadirem o Brasil, milhões de jovens como ela vão renegar a sua nacionalidade, trair o seu país, virar americanos ou americanas de carteirinha.
Na pátria do Lula existem idosos americanizados. Rubem Fonseca, nascido em Juiz de Fora, Minas Gerais, no dia 11 de maio de 1925, não parece um escritor brasileiro e sim americano. Os textos dos seus contos e romances se assemelham às narrativas de John Steinbeck, Ernest Hemingway e Jerome David Salinger. Aliás, Rubem imita este último na vida pessoal, usa o estratagema de nunca dar entrevistas, a fim de se mostrar difícil, estranho, singular... É oportuno dizer que esse escritor cem por cento americanizado, estudou administração e comunicação nas universidades de Boston e de Nova York.
João Ubaldo Ribeiro, no artigo “Vergonha da mesóclise” (“O Globo”, 2-6-2009), provou como o fascínio pelo inglês dos americanos está mudando, de forma corrosiva, horrenda, a língua portuguesa falada em nosso país.
Brasileiro, você quer continuar a ser macaco do americano? Peça para ficar numa jaula de um jardim zoológico dos Estados Unidos, a fim de nela pular, guinchar, fazer caretas, empinar o rabo e comer bananas, pipoca e amendoim, em frente dos olhos aparvalhados dos visitantes.
Brasileiro, tenha um pouco de vergonha na cara, pare de ser macaco do americano!

Palavras para a minha esposa morta

Querida Artemisia, durante um ano, vendo o seu grande sofrimento, quantas vezes eu chorei às escondidas! Quantas vezes os seus olhos se encheram de lágrimas ao me olhar! Quantas vezes você beijou a minha mão, sussurrando:
-Você é o meu amor, a paixão da minha vida!
Querida, você era como uma flor humilde do campo, florzinha modesta, orvalhada, porém tão bela na sua despretensão, na sua singeleza, como a mais perfumada e a mais esplêndida das rosas!
A nossa união durou cinquenta anos. Não foi apenas um amor puro, sincero, o que já é muito, mas também amizade inabalável, compreensão total, solidariedade nas horas difíceis e de dor. O seu coração pulsava junto do meu e o meu junto do seu. Era como se dois corações tivessem se transformado num só.
Quem me devolverá o seu amor, a sua amizade, a sua lealdade, a sua compreensão, a sua mãozinha beijando a minha mão? Creio que Deus me devolverá tudo isto, um dia ou em breve...
O amor eterno é aquele que é despercebido, que parece só amizade, que sereno atravessa o tempo. Ele é silencioso e cria raízes profundas na alma. E quando a Morte inexorável chega, ela dá a impressão de arrancar brutalmente este amor de nós. Mas não, a Morte não consegue destrui-lo. Pelo contrário, a Morte o aviva ainda mais, embora nos cause uma dor indescritível.
Obrigado, querida, por me acompanhar nos momentos mais amargos da minha vida, quando eu chorei por causa da perda dos meus irmãos, dos meus pais, dos meus amigos.
Obrigado, querida, por ter me tratado tão bem nos dias em que estive enfermo. Sua voz, seu olhar, seus cuidados, seu carinho, me curavam mais do que os remédios.
Obrigado, querida, pelas horas de alegria que você me deu, pela sensação de felicidade, vinda exclusivamente de você.
Obrigado, querida, pela sua permanente dedicação ao lar, no qual nunca faltou a ordem, o asseio, o alimento, o amor.
Obrigado, querida, pelos momentos em que você pacificou o meu coração, após este ter sido ferido pelas inevitáveis ingratidões humanas.
Obrigado, querida, pela oferta de duas jóias: os nossos dois filhos.
Querida, espero que Deus me permita reencontrá-la. Se este encontro não for na sua Mansão Celeste, sonorizada por sinos de ouro, que seja pelo menos em qualquer lugar do mundo espiritual.
Querida, querida Artemísia, único amor da minha vida, você era a minha própria vida!
Querida! Querida! Querida! Querida! Lancei tudo isto aqui para que Deus leia e mostre estas palavras a você. É a confissão, por escrito, do meu amor pela minha insubstituível amada.

terça-feira, 23 de junho de 2009

A MULHER, NO FUTURO, FICARÁ CARECA?

Tenho um amigo que se lamenta e se desespera porque está perdendo os pêlos do crânio. Cada manhã, ao passar o pente, este lhe arranca um punhado de cabelos, com raiz e tudo. Já experimentou uma grande quantidade de remédios. De nada valeu. Passou, então, a empregar o óleo de rícino, a gema de ovo, o azeite, e até, pasme o amigo leitor, matérias mal cheirosas... Esforço inútil, sua cabeça continua a ser devastada, à semelhança de uma floresta que não resiste à fúria do vendaval. No começo eu costumava lhe perguntar:
-Como é, os cabelos ainda estão caindo?
Ele fazia uma cara tão aborrecida que eu ficava com pena, não me atrevendo a articular nenhuma frase de consolo. Agora me calo... Porém vejo que o meu amigo se encontra cada vez mais calvo. O que lhe falta, sem dúvida, é resignação, espírito esportivo. Julga a calvície uma calamidade, olvidando que diversos indivíduos a temem por causa desse espantalho horrendo, denominado convencionalismo.
O homem é que inventa, inchado de vaidade, os seus figurinos estéticos. Se fosse hábito rotineiro toda gente andar de crânio à mostra, ninguém ficaria triste, deprimido.
Entre os caldeus, a plebe usava a cabeça completamente raspada. O mesmo acontecia com os assírios e babilônios. No velho Egito, o povo e os escravos tinham costume semelhante. Apenas a aristocracia enfeitava a caixa craniana com suntuosas cabeleiras postiças, das quais restam alguns exemplares nas coleções arqueológicas.
Mas tudo isso é relativo. Variam os cânones de beleza. Há quem se extasie diante de um quadro cubista e sinta náuseas contemplando uma paisagem de Corot.
O bípede implume de Platão é o ser mutável por excelência. Daqui a uns cem ou duzentos anos, derrubará talvez quase todos os padrões consagrados. Muita coisa que hoje é feia, ridícula, amanhã possivelmente será bela e graciosa.
Informa Tom Antongini que ao contrário de Júlio César e de Domiciano, o poeta e escritor Gabriele D’Annunzio nunca se queixou da sua calvície. Certo dia ele chegou mesmo a responder a uma dama impertinente, que lhe indagara a opinião a esse respeito:
-Minha senhora, a beleza futura será calva.
Os poetas às vezes se tornam videntes. D’Annunzio fez esta declaração antes dos prognósticos efetuados pelos cientistas contemporâneos, os quais asseguram que nos séculos vindouros a mulher ostentará uma cabeça lisa, pelada e brilhante. Na hipótese de que esta previsão se concretize, a célebre sentença de Schopenhauer sobre a mulher pode ficar desprovida de sentido, pois ela não será mais “um animal de inteligência curta e cabelos compridos”. Aliás, ela nunca foi burra ou pouco inteligente. Burros e pouco inteligentes são os homens que não conseguem compreendê-la.
Afrânio Peixoto, no seu livro Trovas Brasileiras, publicado em 1944 pela Companhia Editoria Nacional, divulgou esta quadra:

Esse teu cabelo louro
É que me faz confusão;
Nas tranças deste cabelo
Perdeu-se o meu coração.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Eu acuso o gramaticida Evanildo Bechara!

Sim, eu acuso o gramaticida Evanildo Bechara, coordenador da equipe da ABL que preparou a 5ª edição do “Vocabulário ortográfico da língua portuguesa”, de ser o culpado pela publicação de trinta erros nessa obra. Cleo Guimarães, jornalista de “O Globo”, também informou isto na seção “Gente Boa” do seu jornal, no dia 31 de maio de 2009.
A pressa, o despreparo, o assanhamento, estas três coisas fizeram o Evanildo autorizar logo a publicação do calhamaço de 887 páginas, com 349.737 palavras e expressões. Um livrão bem caro, pois custa quase cem reais. Eu indago: e esta gente que iludida comprou a porcaria ortográfica, não vai receber o seu dinheiro de volta? Ela terá de aceitar os trinta erros, apontados por mim e pela jornalista de “O Globo”?
Eu acuso o gramaticida Evanildo Bechara, membro da estéril, inútil e grotesca Academia Brasileira de Letras, de não ter feito um trabalho em conjunto com a Academia de Ciências de Lisboa, na elaboração desse vocabulário coxo: sem consultar o outro grêmio, a ABL se antecipou, revelando que é fascista, nazista, mussolinica, hitleriana.
Eu acuso o gramaticida Evanildo Bechara, por haver tomado decisões unilaterais. Quem o autorizou a transformar vagalume e regabofe, sem traços, em vaga-lume e rega-bofe com traços? Quem? A Hebe Camargo? O Ronaldinho? O Kim Jong-il, ditador da Coreia do Norte, com a ameaça de arremessar na Academia Brasileira de Letras uma bomba atômica de 30 quilotons, superior à de 21 quilotons que destruiu a cidade japonesa de Nagasaki, em 1945?
Eu acuso o gramaticida Evanildo Bechara de ter agido como o paranoico Heinrich Himmler, chefe da SS na Alemanha nazista, responsável pelo extermínio de milhões de judeus, porque ele, o funesto Evanildo, sem consultar a Academia de Ciências de Lisboa, desprezando-a, agiu como um Himmler da língua portuguesa, impôs de modo arbitrário, sem nenhum motivo justo, o desaparecimento do hífen nas expressões a-toa, auto-escola, extra-oficial, dia-a-dia, fim-de-semana, infra-estrutura, neo-expressionismo, semi-árido.
Eu acuso o gramaticida Evanildo Bechara de “normatizar” o que não era necessário, como por exemplo colocar o hífen em ziguezague (zigue-zague), em zunzum (zum-zum), em lengalenga (lenga-lenga), palavras que não exigem pausas, intervalos, pois a rigor são onomatopaicas, imitam ou sugerem determinados sons ou ruídos, como as onomatopeias verbais e etimológicas assoviar, chimpar, bambolear, bebericar, escarrar, espocar, gorgear, gargalhar, murmurar, rasgar, retumbar, ribombar, silvar, sussurrar, trombetear, zurrar.
Eu acuso o gramaticida Evanildo Bechara de derreter as cacholas dos falantes com as suas esdruxularias (extravagâncias). Os dogmas dele, tão errados como o português do Paulo Coelho, tornam dificílima a aglutinação dos vocábulos compostos. Evanildo complica tudo. À semelhança de Reinhard Heydrich, o comandante das SS na “noite das longas facas”, Bechara ordenou nazistamente que o hífen só deve aparecer, nas palavras compostas, quando estas apresentarem “unidade sintagmática e semântica”. E valendo-se de tal linguagem nauseabunda, capaz de impressionar os intelectualoides metidos a besta, o babélico Evanildo, mestre na arte de parir imbróglios, abortos linguísticos, estabeleceu o seguinte: é permitido usar o hífen nos “compostos por justaposição que não contêm formas de ligação e cujos elementos possuem natureza nominal, adjetival, numeral e verbal”. Apenas faltou ele dizer: “e também natureza asnal ou fecal”.
Eu acuso o gramaticida Evanildo Bechara de estuprar a prosódia dos ditongos nas paroxítonas (vocábulos nos quais o acento tônico cai na penúltima sílaba). Por causa do pançudo ditador da ABL, não se acentuam mais, ilogicamente, os ditongos ei e oi de timbre aberto. Agora, devido a esta imbecilidade, jóia é jôia, bóia é bôia, colméia é colmêia, idéia é idêia (coloquei o acento circunflexo de propósito, a fim de mostrar como a nova ortografia destas palavras deve soar nos ouvidos de uma criança que está sendo alfabetizada).
Eu acuso o gramaticida Evanildo Bechara de ter imposto, sem consulta prévia a comissões de professores, escritores e jornalistas, uma reforma cretina, desnecessária. O acordo, ou melhor, o desacordo, “é impreciso, ambíguo e anticientífico”. Juízo do professor Gabriel Antunes de Araújo, linguista da Universidade de São Paulo, que afirma num artigo publicado na edição do dia 21 de maio de 2009 do “Jornal do Brasil”:
“Os argumentos dos defensores da anulação do acordo são razoáveis: a reforma não auxiliará no combate ao analfabetismo e nem ajudará o português a se tornar uma língua internacional. Não será a abolição de tremas ou regras de emprego do hífen que tornarão a tarefa de alfabetizar mais simples ou a língua portuguesa mais prestigiada”
E este professor da USP enfatizou:
“A língua inglesa convive com as normas britânica e norte-americana: isso não impediu que se tornasse global e que o analfabetismo, nesses países, fosse praticamente erradicado. Além disso, o acordo carece de embasamento científico e coerência interna”.
Eu acuso o gramaticida Evanildo Bechara, por ter redigido um acordo que conforme garantiu o deputado português Vasco Graça Moura, “é um acúmulo de disparates”.
Eu acuso o gramaticida Evanildo Bechara de ter criado um caos ortográfico, uma bagunça em nosso idioma, sem respeito à etimologia das palavras.
Eu acuso o gramaticida Evanildo Bechara, por ser autor de uma péssima gramática e por não saber escrever. Afinal de contas, ele é um gramaticida... Faltou-lhe competência, portanto, para nos obrigar a engolir o monstruoso feto sifilítico defecado pela sua mioleira. Como ele redige mal, como é pernóstico! Leiam esta passagem do seu teratológico artigo sobre palavras compostas, publicado na edição do dia 22 de fevereiro de O Estado de S.Paulo:
“Além dos princípios gerais o utente tem de conhecer também as exceções, exceções que não são exclusivas da língua...”
Olhem o pernosticismo, o uso do substantivo utente, em vez de usuário. E a repetição do plural exceções, provando como o seu vocabulário é fraquíssimo, gago, vesgo, cambaleante, necessitado urgentemente de muletas, ou melhor, de uma bem mortífera câmara de gás...

sexta-feira, 29 de maio de 2009

O erro primário e fatal de Guiomar de Grammont

A historiadora mineira Guiomar de Grammont, no livro Aleijadinho e o aeroplano, lançado pela Civilização Brasileira, afirma que o seu conterrâneo Antônio Francisco Lisboa, conhecido pelo apelido de Aleijadinho, nunca existiu, é uma ficção inventada pelo historiador Rodrigo José Ferreira Bretas.
No entender da desconfiadíssima senhora Grammont, as obras do nosso genial escultor são uma “criação coletiva”. Antes de exibir o seu erro primário e fatal, que destrói completamente a sua afirmativa, vamos apresentar três erros graves que ela cometeu.
Primeiro erro grave da senhora Guiomar de Grammont. Sem nenhuma prova, denegriu a memória de Rodrigo Ferreira Bretas, o primeiro biógrafo do Aleijadinho, pois sustenta que ele o “inventou”. Ora, Bretas era um homem honrado. Conforme informo no meu livro sobre o Aleijadinho, já na sétima edição, ele veio à luz em Cachoeira do Campo, no ano de 1814, e faleceu em 1866. Advogou na localidade de Bonfim do Paraopeba, onde fundou e dirigiu um colégio. De 1852 a 1861, em quatro legislaturas, foi atuante deputado à Assembléia Provincial. Também exerceu o cargo de secretário do governo mineiro e lecionou filosofia em Barbacena. Além de ter sido diretor do Ensino Público de Minas Gerais e sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, ele dirigiu o Colégio de Congonhas do Campo. Alguns dos seus discursos, pronunciados na Assembleia Provincial, foram reunidos num opúsculo, hoje bastante raro. Em 1861, o governo mineiro o designou para representá-lo na instalação da vila de São Paulo de Muriaé, fato que revela como era bem respeitado e gozava de prestígio.
A desconfiadíssima senhora Guiomar, sem nenhuma prova, mostra Rodrigo Bretas como um vigarista, um “especialista em retórica”. Chega ao cúmulo de dizer, também sem nenhuma prova, que ele “inventou” um pai para o Aleijadinho, o arquiteto português Manuel Francisco Lisboa. E ainda sem nenhuma prova, garante que Bretas “incorporou” dados da vida de Miguel Ângelo à vida do Aleijadinho. Mas o historiador mineiro apenas coloca diante de nós algumas semelhanças entre o artista brasileiro e o artista italiano, mais nada...
Segundo erro grave da senhora Guiomar de Grammont. Ela despreza os depoimentos dos viajantes estrangeiros que estiveram em Minas Gerais no século XVIII, como o francês Saint-Hilaire e o inglês Sir Richard Burton, Tais depoimentos provam que o Aleijadinho existiu realmente. Os dois fazem referência à sua deformidade. Aliás, três anos antes da morte do Aleijadinho, o barão Guilherme de Eschwege visitou Minas em 1811 e depois escreveu no seu Journal von Brasilien:
“O principal escultor que aqui se salientou era um homem aleijado, com as mãos paralíticas.”
Terceiro erro grave da senhora Guiomar de Grammont. Não há nenhuma prova de que o Estado Novo de Getúlio Vargas, instituído em 10 de novembro de 1937, criou o “mito Aleijadinho”, para ele adquirir a imagem de “herói nacional”. Este herói já existia: é Tiradentes. A tese da senhora Guiomar é tão ilógica, tão absurda, tão desprovida de fundamento como a da senhora Isolde Helena Brans Venturelli, que em 1979 quis provar, a todo custo, que os doze profetas esculpidos em pedra sabão pelo Aleijadinho, no adro do Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas do Campo, representam os vultos da Inconfidência Mineira...
E agora o erro mais grave da historiadora Guiomar de Grammont. Erro primário e fatal, repito, e que destrói completamente esta afirmativa: o Aleijadinho nunca existiu. Prezada e desconfiadíssima senhora Guiomar, meu Deus do Céu, como a senhora pôde cometer este erro tão grande, tão impressionante? Se foram vários os artistas que executaram as obras atribuídas a Antônio Francisco Lisboa, como se explica que ao longo de mais de quarenta anos os recibos assinados pelo Aleijadinho apresentam sempre a mesma grafia? A assinatura dele era bem característica. O livro primeiro de Receita e Despesa da Ordem de São Francisco de Assis de Ouro Preto é a prova disso. A conclusão é lógica, se fossem vários os Antônio Francisco Lisboa, as assinaturas seriam diferentes. Basta examinar os recibos descobertos pelos pesquisadores do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. A afirmativa da desconfiadíssima senhora Guiomar, portanto, desmorona, fica reduzida a pó. Ela se esqueceu desse pormenor, que é fundamental, mas logrou convencer, com a sua tese maluca, até um jornalista calejado como o Zuenir Ventura, de O Globo...
Aconselho a desconfiadíssima senhora Guiomar de Grammont a memorizar esta frase do filósofo Francis Bacon (1561-1626), inserida no capítulo 31 de seus Essays:
“Nada induz o homem a desconfiar muito, como saber pouco.”
(“There is nothing makes a man suspect much more than to know little”)

domingo, 24 de maio de 2009

Todo o estado do Acre se revolta contra o acordo fascista!

Os acreanos (escrevo assim e não acrianos) se sentem revoltados. Eles não engolem a agressão do Evanildo Bechara e de outros deformadores do nosso idioma (deformadores e não reformadores) que impuseram a mudança da grafia acreano, gentílico do qual tanto se orgulham. Bechara e os demais “gênios” da capenga reforma ortográfica, condenam esta grafia. Para o grupo o certo é acriano. Resultado: o brioso e glorioso Acre está fremindo de indignação. A Assembleia Legislativa desse estado criou um blog, “O Acreano”, a fim de acolher os milhares de protestos contra a desarrazoada medida. E o governador Binho Marques ordenou que a estatal Agência de Notícias deve continuar a usar a grafia acreano. Binho obteve até o apoio da deputada Perpétua de Almeida, do PCdoB. Ela declarou:
“Queremos salvar o jeito acreano de ver o mundo e nos apresentar como um povo consciente de suas verdades, tradições e cultura.”
Viva a revolta dos acreanos! Mostraram que possuem amor-próprio e coragem, que não são capachos de gramaticoides, de apedeutas. Enfim, no Brasil, um povo inteiro se levantou contra o aborto parido pela incompetente comissão da Reforma Ortográfica, na qual pontificou com seu ar de gordanchudo conselheiro Acácio, o sonífero Evanildo Bechara, filólogo idêntico à maconha, porque seus textos e a sua conversa entorpecem, geram a confusão mental. Dou a prova. Leiam esta passagem de um horripilante artigo do Bechara, “O não emprego do hífen”, publicado na edição de 8 de março de 2009 de O Estado de S.Paulo:
“Ainda neste terreno, tínhamos de exigir de quem escrevia saber distinguir um à-toa hifenado, se era locução adjetiva (trata-se de um problema à-toa). Ou ainda um dia-a-dia, locução substantiva com o sentido de ‘cotidiano’ (Meu dia-a-dia é agradável), de dia a dia, locução adverbial, valendo por ‘diariamente’ (A criança cresce dia a dia)”.
Entenderam? O que é isto? Masturbação gramatical? Aqui vai outro exemplo desse onanismo lexicográfico, divulgado no artigo “Distinguindo casos do acordo”, aparecido na edição de 29 de março de 2009 do jornal dos Mesquitas:
“O que ocorre é que o caso de guarda (verbo) não se enquadra no princípio que relaciona a ocorrência do 1º elemento terminado por vogal com a consoante inicial do 2º elemento para o uso do hífen...”
Volto a perguntar: o que é isto? O labirinto de Creta? Um argumento com dor de barriga, prisão de ventre? Ah, já sei, é a esquálida lombriga expelida pelo ânus de um nordestino flagelado por uma seca do Ceará. É o que eu chamo de estilo Tênia, por ser retorcido como um verme intestinal. A cabeça do Evanildo Bechara precisa tomar um purgante.
Em Portugal a rebelião contra o fascista Acordo Ortográfico aumenta cada vez mais. O abaixo-assinado de cem mil pessoas já vai ter meio milhão de assinaturas, e o escritor Vasco Graça Moura atacou de forma violenta a calamitosa reforma feita pela ABL, num artigo publicado no “Diário de Notícias” de Lisboa. Afirma o escritor:
“Tudo isso é uma chuçadeira. Um país que preza verdadeiramente a sua cultura e a sua língua deve sentir e exprimir a mais profunda das vergonhas pelo que está a acontecer. E devia exigir que não seja assim.”
Empregado por Vasco Graça Moura, o substantivo feminino chuçadeira, oriundo do verbo chuçar, significa bom negócio ou caçoada, zombaria, escárneo. De fato esse acordo fascista é um bom negócio. As gráficas vão ganhar muito dinheiro com os milhões de livros que devem ser reimpressos, a fim de obedecerem à nova ortografia. E se trata mesmo de um escárneo, pois os redatores do acordo devem estar rindo dos trouxas que o apoiaram de maneira incondicional, como escravos submissos aceitam receber vigorosas chibatadas nas nádegas.
Membro da circense Academia Brasileira de Letras, o professor Arnaldo Niskier insiste em defender a quadrupedal Reforma Ortográfica, feita mais com patas do que com mãos. Se houvesse um concurso entre muares, essa reforma tiraria o primeiro lugar, seria a mais relinchante das mulas vitoriosas, capaz de dar patadas homéricas, como o coice que a bela mula preta do papa Bonifácio, após esperar sete anos para se vingar, aplicou no traseiro do patife Tistet Védène. Quem narra este episódio é Alphonse Daudet no seu clássico livro “Les lettres de mon moulin” (“As cartas do meu moinho”), publicado em 1866.
Pois é, embora pertença a uma raça heroica, barbaramente perseguida, torturada e assassinada pelos seguidores do monstro Adolf Hitler, o habilidoso Arnaldo Niskier se encarniça na tarefa de louvaminhar a jumental reforma. Niskier, meta na sua cabeça: esta reforma é também nazista! Ela tem a alma do Führer do III Reich, porque o Evanildo Bechara e os seus cúmplices nesse crime linguistico, não ouviram a opinião de comissões de escritores, professores, jornalistas, intelectuais, etc. Obrigaram todos nós a aceitá-la fascistamente, nazistamente. Tal ato de arbítrio levou o editor Jorge Michalany a enviar as seguintes palavras à revista “Agitação”, do Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE):
“Até quando os experts da língua portuguesa irão parar de brincar com a gente? Na minha infância e adolescência – estou com 92 anos – seguíamos a lógica da ortografia etimológica, o que facilitava a compreensão do inglês e francês, por sinal, idiomas imutáveis. Mas no Brasil não se respeita a tradição, até na língua”.
Meu caro Michalany, antes a ortografia era de fato etimológica. Hoje é zoológica e do especial agrado dos que zurram, soltam coices e comem capim...
O Desacordo Ortográfico do Evanildo, além de exibir o seu caráter nazi-fascista, é também deficiente mental. Não unifica a língua portuguesa, separa os seus falantes. Tem regras que deviam ser internadas num manicômio, e com camisas-de-força.
Regra louca da debiloide: o trema é eliminado. Lingüiça (com trema) se transforma em linguiça (sem trema), e tranqüilo (também com trema) agora é tranquilo (sem trema). Entretanto os Bechara do Desacordo Ortográfico admitem o trema em nomes próprios estrangeiros e seus derivados. Por quê? Qual é a lógica? Absoluta incoerência! Legítimo atentado à prosódia!
As novas regras sobre o hífen equivalem ao caos, parecem o produto de uma arteriosclerose cerebral, do amolecimento dos miolos de um mijoso e baboso membro da Academia Brasileira de Letras.
Concluindo, saliento que usei neste artigo a grafia escárneo e não escárnio, pelo fato de ser a correta, utilizada por dois grandes escritores da língua portuguesa, Alexandre Herculano e o padre Antônio Vieira. Aqui no Brasil quem a usou foi o excelente gramático João Ribeiro.

sábado, 9 de maio de 2009

Um filho que tem mãe, tem todos os parentes

Reproduzi num álbum os mais belos versos e os mais expressivos pensamentos sobre as mães. Do poeta santista Martins Fontes, que evoquei no meu livro Vida e poesia de Olavo Bilac (Editora Novo Século, 5ª edição) são estes dois lindos versos:

"Ao pé das nossas mães, todos nós somos crentes...
Um filho que tem mãe, tem todos os parentes”

Eis aqui a mais bela quadra popular sobre as mães:

"Eu vi minha mãe rezando
Aos pés da Virgem Maria:
Era uma santa escutando
O que outra santa dizia."

Guerra Junqueiro, na opinião de Unamuno, era "el primeiro de los poetas portugueses" e também "uno de los mayores del mundo". Estas palavras do insigne ensaista se acham no livro “Por tierras de Portugal y de España.” O entusiasmo de Unamuno se justificava, pois Junqueiro foi um poeta extraordinário, dotado de imenso talento verbal, conforme podemos constatar, lendo estes versos do seu livro “A velhice do Padre Eterno”:

"Minha mãe, minha mãe! ai que saudade imensa
Do tempo em que ajoelhava, orando, ao pé de ti.
Caía mansa a noite, e andorinhas aos pares
Cruzavam-se voando em torno dos seus lares
Suspensos do beiral da casa onde nasci.
Era a hora em que já sobre o feno das eiras,
Dormia quieto e manso o impávido lebréu.
Vinham-nos da montanha as canções das ceifeiras,
E a lua branca, além, por entre as oliveiras,
Como a alma dum justo, ia em triunfo ao céu!...
E, mãos postas, ao pé do altar do teu regaço,
Vendo a lua subir, muda, alumiando o espaço,
Eu balbuciava a minha infantil oração,
Pedindo ao Deus que está no azul do firmamento
Que mandasse um alívio a cada sofrimento,
Que mandasse uma estrela a cada escuridão.
Por todos eu orava e por todos pedia,
Pelos mortos no horror da terra negra e fria,
Por todas as paixões e por todas as máguas,...
Pelos míseros que entre os uivos das procelas
Vão em noite sem lua e num barco sem velas
Errantes através do turbilhão das águas.
O meu coração puro, imaculado e santo
Ia ao trono de Deus pedir, como inda vai,
Para toda a nudez um pano do seu manto,
Para toda a miséria o orvalho do seu pranto
E para todo o crime o seu perdão de Pai!"

Foi o indestrutível amor materno que deu ao grande lírico português a inspiração para compor esta magnífica poesia. Talvez alguns amantes da poesia moderna a julguem retórica, verbosa, palavrosa, mas um insigne poeta moderno, Stéphane Mallarmé, após ouvir uma queixa do pintor Degas, soltou a seguinte afirmação:
- Não é com idéias que se fazem versos, é com palavras.
Sim, é a pura verdade, pois as palavras são para os poetas o que os sons são para os músicos...

quarta-feira, 6 de maio de 2009

A revolta contra o fascista Acordo Ortográfico

É lamentável que Lula, um homem que se considera de Esquerda, tenha apoiado um acordo de caráter fascista, a medida imposta por pequeno grupo de acadêmicos, sem qualquer consulta aos intelectuais, aos jornalistas, aos professores, aos estudantes, ao povo.
Há uma grande reação em Portugal contra o Acordo Ortográfico, esse monstrengo com cara de Mussolini. Um abaixo-assinado de mais de cem mil pessoas, lá na “santa terrinha”, exige a revisão do assunto. Vários escritores lusos chamam a decisão de “bizarrice” e acusam o texto do Acordo de conter “inúmeras contradições e até mesmo equívocos”. Só três jornais de lá resolveram adotar o novo procedimento. Magoado por causa desses fatos, o “imortal” mortal Arnaldo Niskier declarou no artigo “A reação à bizarrice”, publicado pela “Folha de S.Paulo”:
“O que dói um pouco, nisso tudo, é a posição de alguns escritores de Lisboa. Escrevem contra o Acordo e contra o Brasil, acusando-nos de tentativa de neocolonialismo” (11-3-2009).
Niskier, esses escritores não exageraram. Trata-se, é inquestionável, de uma tentativa de neocolonialismo lingüístico, estúpida como todas as tentativas dessa natureza.
Vasco Graça Moura, escritor português de prestígio, condena o Acordo e acha difícil a sua implementação na pátria de Gil Vicente. Nascida em Coimbra, no ano de 1962, a escritora Inês Pedrosa também se mostra contra o aborto parido pela Academia Brasileira de Letras. Ela recebeu em Portugal o Prêmio Máxima de Literatura, com o livro “Nas tuas mãos”, e afirma, categórica:
“Sou contra, porque, para começar, o Acordo é um produto falso, um produto pirata. Na verdade, ele não estabelece um acordo. Significa, então, jogar livros fora”.
O repórter da “Folha de S.Paulo” que a entrevistou, no inicio de 2009, quis saber o motivo pelo qual ela não vê o novo sistema como um acordo. Inês Pedrosa respondeu:
“Porque ele cria muita confusão, é inútil e prejudicial. É um acordo em desacordo. O hífen, por exemplo, gera confusão” (4-1-2009).
Mas a revolta contra o código fascista não ocorre apenas em Portugal. Acontece também no Brasil. Informa Ancelmo Gois, de “O Globo”, no comentário “Desacordo na ABL”: circula no meio editorial um e-mail atribuído a Sérgio Pachá, contendo pesadas críticas a essa lei de unificação do idioma português. Pachá, chefe do Serviço de Lexicografia e Lexicologia da Academia Brasileira de Letras, é um gramático competente. Ele estava sob as ordens do acadêmico Evanildo Bechara, o principal responsável pela gestação do Acordo, este feto repulsivo. Aqui vai um trecho do citado e-mail:
“As mudanças impostas pelos podres poderes da República, não pedem menos que a rejeição maciça [do Acordo] por parte da sociedade” (“O Globo”, 25-3-2009).
Baiano de Itaparica, ocupando na ABL a cadeira número 34, o escritor João Ubaldo Ribeiro meteu o pau no mussolinico regulamento-jumento, durante uma entrevista concedida ao “Correio Braziliense”. Segundo ele, autor de mais de um milhão de livros vendidos em dezesseis países, “ninguém vai levar muito a sério esta reforma”. Na sua tranquila opinião, ela contribuirá para piorar o conhecimento da língua portuguesa. Eis como Ubaldo explica a quase geral falta de respeito pela amalucada alteração ortográfica:
“Porque, em primeiro lugar, é muito perfunctória, pequena, apesar de afetar um número grande de palavras. Para mim, não enriquece em nada o entendimento da língua com qualquer um dos seus falantes. Sinceramente, não vejo nessa reforma nenhuma perspectiva realmente nova, a não ser dinheiro trocando de mãos” (“Correio Braziliense”, 4-1-2009).
A reforma, no entender de Ubaldo, criou a confusão e ainda por cima despesas, programas de texto para computador. Como exemplo da bagunça, ele diz que devido ao fim do trema, hoje ninguém sabe se a pronúncia correta é liquidificador (sem trema) ou liqüidificador (com trema).
Disparates se tornaram bem visíveis no acordo fascista. Um deles: não deve mais ser usado o acento diferencial entre as palavras homógrafas (com a mesma grafia). Exemplos: para (conjugação do verbo parar) e para (preposição simples); pelo (conjugação do verbo pelar) e pelo (substantivo). Todavia, foi mantido o acento diferencial da palavra pôde (terceira pessoa do singular do pretérito perfeito do indicativo do verbo poder), a fim de distingui-la de pode (terceira pessoa do singular do presente do indicativo do mesmo verbo). Quanta complicação e confusão!
Vejam agora a seguinte frase da manchete de um jornal:
“Crise mundial para o comércio”
Esta frase, por causa da reforma ortográfica, é ambígua. A crise parou o comércio ou apenas o ameaça?
Outra insensatez: o acento gráfico dos ditongos ei, eu, oi, desaparece nas palavras paroxítonas (vocábulos nos quais o acento tônico cai na penúltima sílaba), como idéia, epopéia, assembléia, bóia, jibóia. Todos sem acento. No entanto, em compensação, o acento agudo permanece nas palavras oxítonas (vocábulos nos quais o acento tônico cai na última sílaba), como rói, dói, herói, anéis, pastéis, céu, réu, troféu, papéis, chapéus.
Coitado do povo! Para escrever certo, ou melhor, errado, precisa compreender estas sutilezas gramaticais, aceitar estas regras esdrúxulas!
Jornal cheio de boas intenções, “O Estado de S.Paulo” convidou Evanildo Bechara para esclarecer em artigos dominicais as dúvidas sobre a reforma. Evanildo escreve corretamente mal. Dos seus textos retorcidos como cólicas hepáticas, pinga a chatice. Lê-lo é mergulhar não no sono, mas num pesadelo. E como é pernóstico! Em vez de usar a palavra usuário, emprega a palavra utente. Adora o substantivo ortógrafo. O seu estilo complicadíssimo é mais indigesto do que uma azeda macarronada coberta de mofo, baratas e percevejos. Amostra da sua linguagem trevosa, tediosa e misteriosa:
“Emprega-se o hífen nas palavras compostas por justaposição que não contêm formas de ligação e cujos elementos, de natureza nominal, adjetival, numeral ou verbal, constituem uma unidade sintagmática e semântica e mantêm acento próprio, podendo dar-se o caso de o primeiro elemento estar reduzido”.
Entenderam? Foi assim, com a sua escrita idêntica a um tenesmo (forte desejo de defecar ou urinar, acompanhado de sensação dolorosa), que o Evanildo ganhou fama...
Concluindo: ele produziu diversos artigos para O Estadão e é como se não tivesse feito nenhum.

domingo, 5 de abril de 2009

Ladrões de livros

Inúmeras vezes, no Brasil, as livrarias têm sido, para os intelectuais, agradáveis centros de reunião. Pelo menos foi assim no Rio de Janeiro de outrora. Quem penetrasse na Garnier, das quatro às seis da tarde, veria Sílvio Romero, Machado de Assis, Joaquim Nabuco, Olavo Bilac, Alberto de Oliveira, Raimundo Correira, sem falar em dezenas de outros. A Livraria Briguiet, situada na Rua do Ouvidor, era preferida por Pandiá Calógeras, Graça Aranha, José Veríssimo, Rui Barbosa, Medeiros e Albuquerque. E na Laemmert, que se localizava também na mesma rua, podiam ser encontrados Euclides da Cunha, João Ribeiro, Múcio Teixeira, Gonzaga Duque, Afonso Celso, Inglês de Sousa... Bons tempos, aqueles! Havia fraternidade. Os escritores se mostravam mais puros, menos preocupados com as famigeradas panelinhas e a hipotética glória literária.
Hoje, nas livrarias, não há mais tertúlias de escritores, mas sim de ladrões de livros. Já vi fulanos cometendo esses roubos. Agem às vezes em grupos, como se fossem professores realizando uma pesquisa bibliográfica. Roubam as obras não para ler, tornarem-se cultos, e sim para as vender nos sebos ou de outra maneira.
A classe desses ladrões é curiosa, eclética, e apresenta figuras bem pitorescas, dignas de serem estudadas pelos psicanalistas.
Afirmam alguns cronistas que Sir Edward Fitzgerald se viu condenado a dois anos de prisão, devido ao fato de ter surrupiado, em Paris, uma Bíblia rara...
Larápios de livros... Que se pode deduzir, quando tais tipos proliferam? Amor excessivo à cultura? Paixão invencível, descontrolada, que leva à insânia, a atos reprováveis? Em algumas ocasiões, acredito, é cleptomania. Em outras, trata-se de sem-vergonhice, de assalto.
Anatole France escreveu um romance intitulado O crime de Silvestre Bonnard, onde narra, com fino humor, a história de um velhote erudito, que rapta uma jovem para dá-la em casamento a um rapaz. Como dote, o encanecido tutor oferece aquilo que mais ama na existência: os seus preciosos livros. Mas à noite, no silêncio da casa adormecida, Silvestre levantava-se, saía furtivamente do quarto e ia retirar, da biblioteca, os volumes prediletos.
O rapto da protegida não se afigurava um crime, perante a consciência do bibliomano. Pouco versado em leis, desconhecia a gravidade do delito. Todavia, o roubo de vários livros, embora fossem seus, causou-lhe remorsos. É que Silvestre furtava o dote da moça. Quebrando a palavra empenhada, estabelecia uma brecha no sua dignidade. E isto, aos olhos de um cidadão honrado, torna-se uma falta imperdoável.
Merece indulgência um sujeito que age desta maneira? Sim. O motivo é tão humano que temos de ser complacentes.
Os plagiários são mais nocivos que os larápios de livros. É que estes roubam materialmente, enquanto os primeiros furtam raciocínios e imagens, ou melhor, as criações felizes da nossa inteligência, os frutos da árvore frondosa da nossa imaginação.
Quem me tira um livro da estante se apodera de um objeto amado, mas eu sei, no íntimo, que posso adquirir outro exemplar, em tudo idêntico ao que foi subtraído, caso a obra não esteja esgotada. Aquele, no entanto, que me despoja de uma bela frase e de um nobre pensamento, está me esbulhando de um tesouro. Nesta circunstância, asseguro, sinto-me lesado, expropriado.
É mais difícil caracterizar um plágio do que um roubo comum, pois há larápios super-habilidosos, exímios na arte de furtar idéias, de vesti-las com roupagens elegantes.
Aqui entre nós, leitor, quero confessar uma coisa. Para mim todo plagiário é um assaltante manhoso e sub-reptício, que rouba o produto do nosso cérebro empregando a mesma desenvoltura e o mesmo cinismo de um esperto ladrão de livros.

domingo, 15 de março de 2009

O CARRO CELESTIAL DE AYRTON SENNA - Artigo mais lido.


Livro inédito:
FHC, COLLOR, ITAMAR, MALUF, SARNEY E ENEAS SEM MÁSCARAS

(E TAMBÉM ACM, ROBERTO MARINHO, BRESSER PEREIRA, JÂNIO QUADROS, JUSCELINO KUBITSCHEK, ETC)


Capitulo: XXXIV

O CARRO CELESTIAL DE AYRTON SENNA

Evoquei neste livro as figuras de várias dos nossos políticos. Apareceram o Fernando Henrique, o Collor, o Maluf, o Sarney, o ltamar Franco, o Enéas, o Amaral Netto, o Antônio Carlos Magalhães, o Jânio Quadros, o Juscelino Kubitschek, etc, etc. Políticos vivos e mortos. Descrevi os lances de suas existências e, de alguns, os seus negativos aspectos morais. Confesso: ao narrar certos fatos me senti enojado. Pois bem, a fim de formar um contraste com esses aspectos negativos e com esses fatos, eu resolvi evocar, no Ultimo capitulo deste livro, um brasileiro já falecido, que não era político, que nunca ocupou qualquer cargo público, mas cuja vida curta foi um belo exemplo e um grande estimulo para todos nós, filhos de uma pátria onde a política se tornou sinônimo dos substantivos ‘mentira, hipocrisia, ladroeira, falsidade, incapacidade, corrupção’. Refiro-me a Ayrton Senna.
Eu não sou esportista e nunca fui adepto de nenhum esporte. Não sei nadar, nunca corri como um atleta e detesto as lutas de boxe. Também não gosto de automobilismo. Sou apenas um escritor, um cerebral, um homem apaixonado por livros e pela cultura. Não há para mim maior prazer do que o de ler e escrever, mas confesso que a morte do piloto Ayrton Senna me causou uma profunda emoção. Fiquei muito triste e o meu coração se encheu de pena.
Apesar de não gostar de automobilismo, no qual enxergo uma loucura e não um esporte, eu admirava a coragem de Senna. O seu patriotismo me comovia. Mesmo sem querer, lutando contra os meus próprios sentimentos, a emoção se apoderava da minha alma, quando via Ayrton Senna agitar a nossa bandeira, após ser o vencedor de uma corrida internacional. Um nó se formava na minha garganta e eu engolia a seco. Aquele rapaz modesto, erguendo a nossa bandeira, me devolvia o orgulho de ser brasileiro e conseguia tirar do meu coração, por alguns momentos, o ódio, a fúria, a revolta, que nunca deixei de alimentar contra os nossos políticos corruptos.
Ayrton Senna, nesses instantes, foi para mim a imagem do Brasil dinâmico, valente, idealista, vitorioso. Os dois se mesclavam, Senna e o Brasil. Ambos eram campeões, ou Senna era o Brasil e este era o Senna.
Quem poderia, como ele, encher o nosso peito de orgulho? O Antonio Rogério Magri, ex-ministro do Trabalho e da Previdência Social, que aceitou um suborno de 30 mil dólares? O deputado José Geraldo, do PMDB de Minas Gerais, que metendo a mão nos cofres públicos os criou três entidades sociais fantasmas, com sedes também fantasmas? O risonho, o vaidosíssimo Fernando Henrique Cardoso, deslumbrado presidente da Republica que entregou o Brasil aos agiotas do FMI e que não fez nada, absolutamente nada, em prol do seu país?
Esta gente sempre nos desiludiu. Mas Ayrton Senna estufava o nosso peito, fazia desabrochar em nossas caras, mesmo que não fosse na primavera, a nacarada flor do sorriso, da alegria apetecida. Ofertava esse prazer ao povo e ainda o socorria, pois só agora se sabe, depois de sua morte, que ele ajudou em segredo, às ocultas, deficientes físicos e entidades assistenciais. Deu milhares de dólares à Fundação Abrinq, à Associação de Assistência a Criança Defeituosa, ao Centro de Reabilitação do Hospital das Clinicas. Graças aquele piloto de ar tímido e gestos simples, máquinas caríssimas foram adquiridas no Exterior, como o aparelho Cybex, utilizado nas avaliações musculares. Com o dinheiro que ganhava nas pistas, arriscando a vida, Ayrton Senna patrocinou o tratamento de centenas de crianças carentes, portadoras de distúrbios cerebrais ou neurológicos.
Ele salvou a vida da jovem Regiane Maria dos Reis, que sofria de cirrose hepática crônica e necessitava urgentemente de um transplante de fígado. Os 65 mil dólares doados por Senna pagaram a operação da moça. E a sua bondade também favoreceu, no estado do Acre, uma instituição de assistência médica a índios e seringueiros, fundada pelo Chico Mendes. Inimigo do espalhafato, da caridade ruidosa e ostensiva, Senna exigia que essas ações jamais fossem reveladas.
Rapaz de olhar meio triste, Ayrton Senna declarava que durante as corridas, quase sempre, tinha o costume de conversar com Deus. Aliás, em 1988, após conquistar os seu primeiro título mundial no Japão, ele afirmou que havia contemplado Jesus Cristo num trecho do autódromo, antes do fim da prova. Leiam as suas palavras:
- Eu estava agradecendo a Deus pela vitória. Deus me presenteou. Era um presente enorme, essa vitória. Mesmo rezando eu estava superconcentrado, me preparando para uma curva longa, de 180 graus, quando vi a imagem de Jesus. Ele era tão grande, tão grande... Não estava no chão. Estava suspenso, com a roupa de sempre, e uma luz em volta. O seu corpo inteirinho subia para o céu, alto, alto, alto, ocupando todo o espaço. Eu vi essa imagem incrível, enquanto guiava o carro de corrida. Guiava com precisão, com força, com...
Ai, nesse momento, Ayrton Senna ficou mais emocionado, os seus olhos se umedeceram e ele acrescentou:
- É de enlouquecer, não é? É de enlouquecer...
Que moço estranho, o Ayrton Senna! Pairava no seu rosto a melancolia das criaturas que morrem cedo. Ayrton era um místico, um médium com o dom de ter visões, um ser repleto de bondade, de espiritualidade.
Agora eu o vejo como um espírito de luz, guiando no espaço negro da morte um belíssimo e resplandecente carro de corrida. Para onde vai esse carro etéreo, mais veloz do que os carros de corrida do nosso planeta? Vai em direção a Luz Suprema, à luz de todas as luzes, à luz que ressuscita os mortos e que se chama Deus. E de onde vem a força desse carro celestial do Ayrton? Vem de sua alma, da sua bondade, da sua piedade, da humana ternura do seu coração sensível e extremamente generoso...

A mocidade é bela, mas a desses cretinos é horrenda

No dia 10 de fevereiro de 2009, o calouro Bruno Ferreira, de vinte e um anos, do curso de Medicina Veterinária da Faculdade Anhanguera, em Leme, no interior do estado de São Paulo, foi levado em coma alcoólico para a Santa Casa daquela cidade. Dezenas de veteranos, aos berros, ou melhor, aos zurros, no decorrer de um trote, agrediram Bruno e outros calouros com chibatadas, obrigando-os a comer ração de cachorro, a nadar numa lama fedorenta, a ingerir grande quantidade de vodca e cachaça, a tomar banho no meio de montes de estrume, de restos de animais mortos. Um espetáculo ignóbil, de pura selvageria, de legitimo sadismo.
Na Universidade Federal de Goiás, os veteranos também embebedaram os calouros. Depois puseram coleiras neles. Uma jovem de dezenove anos desmaiou, mergulhada na embriaguês. Foi conduzida às pressas, em agudo estado de coma etílico, para o Hospital de Urgência de Goiânia.
Priscila Muniz, grávida de três meses, caloura de dezoito anos, teve de ser internada num hospital da cidade de Santa Fé do Sul, a 625 quilômetros de São Paulo, após sofrer no trote queimaduras de segundo grau, tanto nas costas como nas pernas e nos braços. A veterana que a atacou, valendo-se de forte mistura líquida de tiner e creolina, é aluna do curso de Pedagogia, ambiciona ser professora... Ela se aproximou da vítima e garantiu:
-Se eu não pegar você agora, vou pegar amanhã.
Tentando escapar, Priscila respondeu que estava grávida, mas mesmo assim a cretina despejou o líquido. Atingida, bem queimada, a caloura começou a passar mal, a perder os sentidos, antes de ser atendida no pronto-socorro.
O trote violento, bárbaro, tornou-se instituição sagrada no Brasil, pois os que o praticam, na maioria das vezes, não são punidos. A lei não existe para esses criminosos sádicos.
Em 1999, o estudante Edison Tsung Chi Hsueh morreu afogado numa piscina na USP, durante um trote regado a álcool, maconha e lança-perfume. Vomitando insultos, palavrões, os veteranos do curso de Medicina dessa universidade, mais de cinquenta, atiravam os calouros na água e pisavam nas mãos dos que, agarrados às bordas da piscina, queriam sair. Edison, rapaz tímido, de pesados óculos de grau, não sabia nadar. Ao fazer a autópsia, os legistas não encontraram, no seu cadáver, vestígios de álcool ou de drogas.
O DHPP, o Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa, investigou o caso. Logo veio a público um vídeo onde Frederico Carlos Jana Neto, o “Ceará”, sextanista do curso de Medicina, afirmou sorridente numa choperia, junto de vários amigos:
-Eu matei o japonês. Sim, eu matei o japonês que se afogou!
Interrogado pela polícia, ele disse:
-Juro, isto foi apenas uma brincadeira de mau gosto!
“Ceará” ficou quatro dias preso. Alunos e mestres da Faculdade de Medicina protestaram contra a sua detenção. Oito professores da USP o visitaram, hipotecando-lhe solidariedade.
Quatro veteranos, acusados de causar a morte de Edison, livraram-se da ação penal no ano de 2006, porque o Supremo Tribunal de Justiça trancou a ação, devido a “falta de justa causa para embasar a denúncia”.
Hsueh Feng Ming, engenheiro civil e pai do estudante Edison Tesung Chi Hsueh, perdeu a esperança de ver a condenação dos assassinos do seu filho e morreu de desgosto em 2008.
Amigo leitor, faço questão de salientar: rapazes como esses estudantes criminosos pensam que ser jovem é mostrar-se perverso, imbecil, débil mental. Não, seus idiotas. Ser jovem é agir como criatura inteligente, repleta de alma, de coração, de sentimentos nobres.
A mocidade é bela, mas a desses cretinos é horrenda

Sou, modéstia à parte, um escritor e jornalista superorganizado. Nunca abro a boca, nos debates dos programas de rádio ou de televisão, para falar sobre assuntos que não conheço. Já deixei nesses debates muita gente em situação difícil, pois estou extremamente bem informado. Documento tudo, posso provar tudo, graças às informações extraídas do meu rico arquivo, fruto de mais de quarenta anos de minuciosas pesquisas, de cuidadoso recolhimento de dados.
Adoto também esse método para escrever os meus livros e os meus artigos. Portanto o que vou informar aqui não pode ser posto em dúvida.
No ano de 1962, os veteranos de Medicina da PUC de Sorocaba, agarraram um calouro e o despiram. Em seguida ele foi colocado num barril cheio de água e volumosa quantidade cal. Consequência: o calouro morreu com a pele em fogo, toda queimada. E observem, os jovens cretinos que fizeram isto eram estudantes de Medicina! Imagine agora, amigo leitor, quantos pacientes eles mataram, se lograram concluir os seus cursos...
Em 1973, calouros da Escola Superior de Agronomia Luiz de Queiroz, de Piracicaba, foram obrigados a comer grama com urina de porco. Resultado: tiveram diarréias e vários pegaram graves infecções intestinais.
Em 1980, num trote, o jovem Carlos Alberto Sousa, por não permitir o corte dos seus cabelos, recebeu golpes nos rins, no estômago, no fígado, no peito. O agressor teve uma pena leve: apenas cinco anos de prisão.
Ainda em 1980, na Academia Militar de Realengo, do Rio de Janeiro, um calouro, depois de ser amarrado a trilhos de trem, sofreu um enfarte fatal.
Em 1992, surrado por veteranos do curso de Educação Física da Faculdade Maria Teresa, de Niterói, o calouro Roberto Alcântara de Oliveira quase perdeu a vida.
Em 1994, os veteranos queimaram vinte calouros com o corrosivo nitrato de prata, na Escola Técnica Conselheiro Antônio Prado (ETECAP), de Campinas.
Em 1997, desfigurado por socos e pontapés, a sangrar, o calouro Mário César Caliman tentou fugir do ataque dos veteranos, internando-se num matagal, onde aranhas venenosas o picaram, Submetido aos cuidados de médicos e enfermeiras de um hospital, Mário conseguiu sobreviver.
Em 2006, quinze veteranos da Universidade Federal de Uberlândia, forçaram um calouro a se deitar sobre um enorme formigueiro. O moço, sob centenas de picadas, ficou com o corpo todo ferido, inchado, ensanguentado. Dores insuportáveis o atenazaram no leito de um hospital, ele nem podia dormir. Dois dos seus agressores foram expulsos da universidade e treze ficaram suspensos por quatro meses. Pena leve...
A ferocidade dos jovens cretinos se expande de todas as maneiras. Orgulham-se de ser burros e perversos. As feras carniceiras – os tigres, os leões, os abutres, os crocodilos – são melhores do que eles, porque matam por imposição da lei da sobrevivência, mas os jovens cretinos ferem, espezinham, torturam, assassinam, por cálculo e sadismo, pelo exclusivo prazer de causar o mal.
Há poucos dias um estudante da Universidade Mackenzie agrediu sem nenhuma razão, no Jardim Guanabara de Campinas, o mendigo Irenaldo Onofre Salvador Júnior, homem fraco, doente, quase cego. O estudante raspou-lhe a cabeça, quebrou os seus dentes e encharcou as suas roupas com álcool.
Eu sinto pena do Brasil, ao olhar esses jovens degenerados. Poderemos confiar neles, quando se tornarem médicos, advogados, professores, engenheiros, políticos?
O poeta latino Ovídio escreveu estas palavras nas “Heroïdes”, coletânea de versos elegíacos:
“Ars fit, ubi a teneris crimen condiscitur annis” (verso 25 do capítulo IV).
É um verso que pode ser traduzido assim, de modo mais extenso:
“Quem desde os seus primeiros anos se acostuma com a maldade, faz logo do crime uma arte”.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Ricardo Noblat, de “O Globo”, não errou!

Leitora assídua da coluna de Ricardo Noblat, do jornal “O Globo”, a professora carioca Ana Rocha Moreira não se conforma com as críticas que ele vem sofrendo no referido matutino, por parte de uma equipe chefiada pelo Aluizio Maranhão. Leiam um trecho da carta de Ana, enviada a mim:
“Aluizio Maranhão condenou o Noblat, da sucursal de Brasília, porque ele disse no texto ‘Boa sorte, Obama!’, publicado na edição do dia 10 de novembro de 2008 de ‘O Globo’, que ‘Lula desfruta de uma popularidade de que presidente algum desfrutou”. Sublinhei o ‘desfruta de’. No entender do Aluizio e do seu grupo, a frase do Ricardo contém um vistoso erro de português, pois o verbo desfrutar, alegam eles, ‘não pede preposição’. Para o grupo o correto é assim: “desfruta uma popularidade”. Ora, volta e meia eu vejo em livros, jornais e revistas, à farta, este verbo com a preposição de. É uma regência aceita no Brasil, há dezenas de anos. Nas questões de linguagem, o uso, em casos dessa natureza, faz a regra. Concorda?”
Eu concordo professora. Basta dizer que no verbete desfrutar, inserido na página 484 do “Dicionário de usos do português do Brasil”, coordenado pelo professor Francisco S. Borba (Editora Ática, São Paulo, 2002), foram registradas estas três construções:
“...o passarinho de minha história desfruta de liberdade ampla e irrestrita.”
“O Brasil desfrutou de condições muito favoráveis.”
“O Sr. Gabriel Bernardes desfrutou de elevado conceito.”
A primeira frase é do jornal “O Popular”, de Goiânia; a segunda é do livro “Os servos da morte”, de Adonias Filho, lançado em 1965; e a terceira é do diário “Correio do Povo”, de Porto Alegre. Exemplos eloqüentes de uma regência adotada por jornais sérios e um escritor culto. Não se justifica, portanto, a crítica do Aluizio Maranhão e da sua equipe ao texto do Ricardo Noblat. Ele, Aluizio, e a tal equipe, precisam atualizar-se e deixar de agir como cegos fiscais da língua portuguesa.
Todavia, a história não acaba aqui. Mereceu mais uma censura da professora Ana Rocha Moreira a crítica irracional do Aluizio e do seu grupo a um outro texto do Ricardo Noblat, intitulado “Como jabuticaba”, aparecido na edição do dia 17 de novembro de 2008 de “O Globo”. Procedendo como um Hitler, como os ditadores do III Reich da Gramaticolândia, eles reprovaram fascistamente, nazistamente, esta construção do Noblat:
“...5% da receita do município servem para pagar os vereadores...”
Correção do Aluizio e da sua turma:
“...servem para pagar aos vereadores”...
Aluizio e o seus cupinchas não evoluíram, só aceitam, com o verbo pagar, o objeto indireto de pessoa. Esconjuram a sintaxe pagar alguém. Ora, Antonio de Moraes e Silva, no clássico “Diccionario da lingua portugueza”, cuja primeira edição é de 1813, já havia apoiado esta regência ao dar quatro exemplos:

I – Pagar as tropas.
II – Pagar os criados.
III – Pagar os trabalhadores.
IV – Pagar as dívidas.

Como observou Antenor Nascentes no livro “O problema da regência”, a primitiva transitoriedade direta do verbo pagar é que permitiu, ao nosso idioma, transformá-lo num transitivo direto, com objeto de pessoa.
Concluindo: a crítica do Aluizio Maranhão e de seus auxiliares aos textos do Ricardo Noblat não foi só injusta. Foi antes de tudo desastrosa e trouxe à nossa memória estas palavras do moralista francês Vauvenargues (1715-1747), colocadas nas “Réflexions et Maximes”:
“O erro é a noite dos espíritos e a armadilha da inocência”.
(“L’erreur est la nuit des esprits et le piège de l’innocence”).

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Escritor e jornalista, Fernando Jorge é autor do romance satírico “O grande líder”, cuja 5ª edição foi lançada pela Geração Editorial.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

O gringo que veio ao Brasil para insultar Santos Dumont

Quem me chamou a atenção para o insulto, o jato de lama podre arremessado por um gringo na imagem de Santos Dumont, foi o meu amigo Emil Farhat, autor de algumas obras clássicas da moderna literatura brasileira:
- Fernando, saiu na “Folha de S. Paulo” um ataque contra Santos Dumont, feito por um jornalista norte-americano. Ele afirmou que o Pai da Aviação "não é ninguém”.
Fui logo comprar a “Folha”, pois sou um dos biógrafos do genial inventor, um dos mais belos símbolos da nossa nacionalidade, autor de “As lutas, a glória e o martírio de Santos Dumont”, obra que me fez ganhar dois prêmios: o diploma Pioneiros da Aeronáutica, da Fundação Santos Dumont, e o diploma e a medalha Ordem do Mérito Aeronáutico, concedidos pela Comissão de Alto Nível do Ministério da Aeronáutica, durante a gestão do brigadeiro Paulo Salema Ribeiro.
O gringo que procurou enxovalhar o imperecível Santos Dumont se chama Barth Schwartz. Eis como ele se refere ao nosso patrício: '
"Tinha um quê de obsessão e talvez de megalomania. Se Brasília não for obsessão e megalomania, então não sei o que pode ser. Se Kubitschek não foi um megalomaníaco, ninguém mais foi. E fracassou. Assim como o Brasil, e Santos Dumont".
Difamador profissional, Barth Schwartz insultou de uma só vez o presidente Juscelino Kubitschek, o Brasil e Santos Dumont, que no seu entender não passam de "três fracassos". Depois este americano arrogante ainda teve a coragem de ridicularizar a Força Aérea Brasileira, da qual Santos Dumont é patrono:
"Fui a Petrópolis e me mostraram a casa de Santos Dumont. Não pude entrar, porque havia a banda da Força Aérea, tocando em homenagem ao Pai da Aviação. Era uma banda felliniana. Todos de uniforme. Sempre que um americano vê um latíno-americano de uniforme, não o leva a sério. Todas as associações com uma república de bananas vêm à cabeça".
Na ânsia de insultar o Brasil, o grosseiro Barth Schwartz observou, referindo-se ao nosso grande inventor.
"É interessante que ele fosse brasileiro. O fracasso dele é muito brasileiro".
Portanto, na sua opinião, Santos Dumont foi um fracassado, como fracassados somos todos nós, brasileiros. Vitoriosos são os filhos do Tio Sam, que levaram uma surra monumental na guerra do Vietnã e que agora, no campo da eletrônica, da tecnologia e da indústria automobilística, estão sendo esmagados pelos japoneses...
Um fato é incontestável: Santos Dumont, em 23 de outubro de 1906, conseguiu voar com o seu 14-bis. Esse vôo foi realizado diante dos membros do Aero Clube de Paris e de uma imensa multidão. Quanto a isto não há dúvidas, e a revista “The Illustrated London News”, a mais importante da Inglaterra, informou no seu número 3.524, do dia 3 de novembro de 1906, evocando essa proeza:
"The first flight of a machine heavier than air: Santos Dumont winning the Archdeacon Prize".
("O primeiro vôo de um aparelho mais pesado que o ar: Santos Dumont ganha o Prémio Archdeacon")
Por que Barth Schwartz está enlameando a glória de Santos Dumont? É simples: ele nasceu em Dayton, no Ohio, na mesma cidadezinha dos irmãos Wright. E o vôo de ambos, segundo asseveram os ianques, ocorreu em Kitty Hawk, na Carolina do Norte, no dia 17 de dezembro de 1903. Mas até os historiadores norte-americanos da aviação duvidam desse vôo, pois David C. Cooke indaga no seu livro “Who really invented the airplane”:
"Será que os Wrights realmente voaram naquele dia, na Colina Kill Devil? E se de fato o fizeram, foram os primeiros a elevar-se nos ares com asas construídas pelo homem? Será que inventaram mesmo o avião"? .
A fúria desvairada de Barth Schwartz contra Santos Dumont, se a analisarmos de modo frio, é o ódio impotente de um gringo que foi derrotado pela verdade histórica.
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Escritor e jornalista, Fernando Jorge é autor do livro “As lutas, a glória e o martírio de Santos Dumont”, cuja 5ª edição foi lançada pela Geração Editorial.