domingo, 13 de janeiro de 2019

O ÓDIO NÃO DESTRÓI O ÓDIO


Siddharta Gautama, o Buda, nasceu no ano 556 antes de Cristo, numa região da Índia onde agora é o Nepal. Pertencente a linhagem nobre, filho de um rei e de uma rainha, vivia entregue à gula, ao luxo, aos gozos materiais, mas renunciou a esses prazeres e virou um mendigo, indo com trajes sumários para lugares remotos. Ele tinha, nessa época, menos de trinta anos. Queria encontrar a verdade, a qual, como disse o gramático e crítico latino Aulo Gélio, do século II, é “a filha do tempo”. Veritas filia temporis.
          Mergulhado em profundos pensamentos, Siddharta Gautama decidiu ficar de pernas cruzadas sob a copa de frondosa árvore, até receber a iluminação das criaturas sábias. Certa vez, enquanto permanecia assim, uma luz começou a refulgir no meio da sua testa. Sentindo-se ameaçado, Mara, o deus do mal, fez Siddharta ser atingido por visões perturbadoras, satânicas. Contudo, o peregrino não perdeu a calma e logo, devido a um alto grau de concentração, logrou alcançar o Nirvana, esse supremo estado de paz, de plenitude, de pureza, de sabedoria, de ausência completa do sofrimento.
          Após chegar a tão elevado nível de conquista espiritual, ele viu a terra tremer e uma chuva cariciosa, refrescante, cair do céu sem nuvens, limpidamente azul. Liberto de toda dor, ergueu-se do chão e se transformou no Buda, isto é, no “Iluminado”.
          A filosofia do Budismo se compõe de quatro verdades:
1.    O sofrimento é universal.
2.    O sofrimento é causado pelos desejos materiais.
3.    Eliminar os desejos materiais é descartar o sofrimento.
4.    Um caminho reto deve ser seguido, a fim de renascermos.
          Eis os oito passos do caminho reto do renascimento, proposto por Buda:
1.    Crença correta.
2.    Sentimentos corretos.
3.    Palavras corretas.
4.    Procedimento correto.
5.    Maneira de viver correta.
6.    Esforço correto.
7.    Memória correta.
8.    Concentração e meditação corretas.
          Se o crente seguir este caminho, ele se tornará um arhat, uma criatura que alcançou o Nirvana.
          Veja, amigo leitor, quanta sabedoria existe no Budismo, esta admirável religião filosófica:
          “O ódio não destrói o ódio, só o amor destrói o ódio. Sê como o sândalo, que perfuma o machado que o fere”.
          “A paz vem de dentro de você mesmo. Não à procure à sua volta”.
          “Um bom amigo, que nos aponta os erros e as imperfeições, e condena o mal, deve ser ouvido como se estivesse revelando o segredo de um oculto tesouro”.
          “É mais fácil ver os erros dos outros que os próprios. É muito difícil enxergar os próprios defeitos, pois espalhamos os defeitos alheios, como se fossem palhas ao vento, mas escondemos os nossos, como jogadores trapaceiros”.
          “Uma consciência culpada é um inimigo vivo”.
          “O dinheiro é o ladrão do homem”.
          “Em nossas vidas há momentos de alegria e de sofrimento. Se conseguirmos aceitar que sempre vamos ter bons e maus momentos, poderemos gradualmente não esperar somente os bons momentos e nem detestar os maus”.
          Acredite, amigo leitor, o Budismo é belo como muitas coisas simples. Belo como o sorriso de uma criancinha feliz, tão belo como a humilde gota de orvalho pousada na pétala de uma flor silvestre, na hora em que os pássaros cantam, saudando o nascer do dia.

______

Escritor e Jornalista Fernando Jorge é autor do livro Lutero e a Igreja do pecado, cuja 7ª edição foi lançada pela Editora Novo Século.

domingo, 6 de janeiro de 2019

DRUMMOND E SÉRGIO, NUMA BRIGA, ROLARAM NO CHÃO!


Carlos Drummond de Andrade me contou que no ano de 1934, redator em Belo Horizonte do Estado de Minas e do Diário da Tarde, foi para o Rio de Janeiro, quando Gustavo Capanema exercia as funções de ministro da Educação e da Saúde Pública, nomeado por Getúlio Vargas, eleito presidente da República pela Assembleia Constituinte daquele ano.
O poeta passou a ser o chefe do gabinete de Capanema. Um velho amigo seu, o advogado Rodrigo Melo Franco de Andrade, obteve o cargo de diretor do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Mais tarde Drummond se tornaria funcionário desse órgão.
Segundo as palavras do poeta, Rodrigo tinha o pseudônimo de Esmeraldino Olimpio. Era, pelo tronco paterno, bisneto de Rodrigo José Ferreira Bretas, primeiro biógrafo do Aleijadinho, e pelo tronco materno, sobrinho tetraneto de Francisco de Melo Franco, autor do célebre poema satírico O reino da estupidez, publicado em 1819.
Um tio de Rodrigo foi o excelente escritor Afonso Arinos, nascido na mineira Paracatu, autor de O mestre de campo, romance de costumes, e do drama histórico O contratador de diamantes, obra-prima do teatro brasileiro, com ação que decorre no Tijuco (atual Diamantina), e cujo personagem principal é Felisberto Caldeira Brant (o contratador), vítima do despotismo da Coroa Portuguesa. Daí a certeza: o vírus benfazejo da literatura estava no sangue de Rodrigo e o estimulou a gerar os contos do livro Velórios, aparecido em 1936, na época do inicio da Guerra Civil Espanhola.
A casa de Esmeraldino Olímpio, em Copacabana, transformou-se num ponto de reuniões de intelectuais. Drummond participava dessas reuniões e delas faziam parte o pintor Cândido Portinari, o historiador Otávio Tarquinio de Sousa, os poetas Vinicius de Moraes e Manuel Bandeira, os escritores Gastão Cruls, Lúcia Miguel Pereira, Francisco de Assis Barbosa, Afonso Arinos de Melo Franco, Sérgio Buarque de Holanda.
–Eu conversava horas a fio com o Sérgio – frisou Drummond – Ele me disse que em 1922, na casa de Ronald de Carvalho, situada na Rua Humaitá do Rio de Janeiro, ouviu o Mário de Andrade declamar o seu poema Pauliceia desvairada, marco do nosso Modernismo. Achavam-se presentes, nessa ocasião, o Teixeira Soares, o Peregrino Júnior, o Ribeiro Couto, o Osvaldo Orico, o Oswald de Andrade, o Manuel Bandeira, o Renato Almeida, o Austregésilo de Ataíde. A leitura produziu em todos forte impacto, mas escandalizou o Osvaldo Orico, poeta medíocre, enfadonho, futuro membro da Academia Brasileira de Letras.
Drummond me informou, em seguida, que no ano de 1924 o Sérgio Buarque de Holanda havia fundado, com Prudente de Moraes, neto, a revista Estética, de vanguarda e curta duração. Saíram apenas três números. Colaboraram nessa revista o próprio Drummond, o Aníbal Machado, o Graça Aranha, o Álvaro Moreyra.
Sempre curioso, perguntei ao poeta:
–Diga-me, você e o Sérgio se agarraram numa luta corporal? Luta tão feia, tão violenta, que fez ambos rolarem no chão? É verdade ou é mentira?
A resposta me surpreendeu:
–Pura verdade. Antes do pugilato o Sérgio se abria comigo, em confidências. Cheio de emoção, de nostalgia, revelou a mim que aos onze anos de idade o semanário infantil O Tico-Tico publicou a sua valsinha “Vitória-régia” e que aos dezoito anos escreveu o seu primeiro artigo, intitulado “Originalidade literária”.
–E o motivo da briga?
Drummond explicou:
O Sérgio Buarque de Holanda tinha uma namorada, lá no Ministério da Educação. Ela trabalhava no meu gabinete. Moça bonita, simpática, muito vaidosa, de bunda enorme, bem arredondada. Uma bunda abundante, como as das mulheronas dos quadros do pintor flamengo Rubens.
–Afinal de contas – perguntei sem conter o riso – o que levou o Sérgio a se engalfinhar com você?
–Em estado de fúria, espumejando, ele invadiu o meu gabinete, pois a bunduda lhe declarou que eu a assediava, queria transar com ela. Juro, não fiz isto, apenas me mostrava gentil, nada mais...

Diante do Sérgio, e sem se descontrolar, Drummond negou tudo, mas o possesso o agrediu com um soco. Os óculos do poeta voaram. Ambos se atracaram, como galos numa rinha. Sérgio berrava, chamando Drummond de canalha. Logo rolaram no chão e os dois tiveram que ser apartados.
O poeta concluiu:
–A nadeguda era leviana, Fernando, inventou a história para enciumar o Sérgio. De modo constante o ciúme, filho degenerado do amor ou da paixão, contrai matrimônio com a loucura. E veja a ironia, eu e o Sérgio deixamos de ser amigos, porém o Chico Buarque de Holanda, seu filho, gosta de mim, me abraça, vive me elogiando...
Após encerrar o comentário, Drummond quis conhecer a minha opinião sobre o livro mais famoso do ex-amigo, o ensaio Raízes do Brasil. Não hesitei:
–Essa obra do pai do Chico é de 1936, mas no meu raciocínio a sua tese, de que a colonização lusa foi vitoriosa no Brasil por causa da perfeita identificação do português com a nossa terra, a sua tese não é inovadora, original, pois três anos antes, em 1933, Gilberto Freyre já a defendera de modo mais minucioso, abrangente, no seu clássico livro Casa-Grande & Senzala, desdobramento de uma tese de Freyre apresentada em 1922 na Universidade de Colúmbia.
–Se é assim – Drummond deduziu – há lógica no seu julgamento. E contra ela, a lógica, a interpretação falsa se pulveriza, desmorona.
_______________________________________________________

Escritor e jornalista, Fernando Jorge é autor de “Drummond e o elefante Geraldão”, que acaba de ser lançado pela Editora Novo Século