Terça-feira, 23 de Junho de 2009

A MULHER, NO FUTURO, FICARÁ CARECA?

Tenho um amigo que se lamenta e se desespera porque está perdendo os pêlos do crânio. Cada manhã, ao passar o pente, este lhe arranca um punhado de cabelos, com raiz e tudo. Já experimentou uma grande quantidade de remédios. De nada valeu. Passou, então, a empregar o óleo de rícino, a gema de ovo, o azeite, e até, pasme o amigo leitor, matérias mal cheirosas... Esforço inútil, sua cabeça continua a ser devastada, à semelhança de uma floresta que não resiste à fúria do vendaval. No começo eu costumava lhe perguntar:
-Como é, os cabelos ainda estão caindo?
Ele fazia uma cara tão aborrecida que eu ficava com pena, não me atrevendo a articular nenhuma frase de consolo. Agora me calo... Porém vejo que o meu amigo se encontra cada vez mais calvo. O que lhe falta, sem dúvida, é resignação, espírito esportivo. Julga a calvície uma calamidade, olvidando que diversos indivíduos a temem por causa desse espantalho horrendo, denominado convencionalismo.
O homem é que inventa, inchado de vaidade, os seus figurinos estéticos. Se fosse hábito rotineiro toda gente andar de crânio à mostra, ninguém ficaria triste, deprimido.
Entre os caldeus, a plebe usava a cabeça completamente raspada. O mesmo acontecia com os assírios e babilônios. No velho Egito, o povo e os escravos tinham costume semelhante. Apenas a aristocracia enfeitava a caixa craniana com suntuosas cabeleiras postiças, das quais restam alguns exemplares nas coleções arqueológicas.
Mas tudo isso é relativo. Variam os cânones de beleza. Há quem se extasie diante de um quadro cubista e sinta náuseas contemplando uma paisagem de Corot.
O bípede implume de Platão é o ser mutável por excelência. Daqui a uns cem ou duzentos anos, derrubará talvez quase todos os padrões consagrados. Muita coisa que hoje é feia, ridícula, amanhã possivelmente será bela e graciosa.
Informa Tom Antongini que ao contrário de Júlio César e de Domiciano, o poeta e escritor Gabriele D’Annunzio nunca se queixou da sua calvície. Certo dia ele chegou mesmo a responder a uma dama impertinente, que lhe indagara a opinião a esse respeito:
-Minha senhora, a beleza futura será calva.
Os poetas às vezes se tornam videntes. D’Annunzio fez esta declaração antes dos prognósticos efetuados pelos cientistas contemporâneos, os quais asseguram que nos séculos vindouros a mulher ostentará uma cabeça lisa, pelada e brilhante. Na hipótese de que esta previsão se concretize, a célebre sentença de Schopenhauer sobre a mulher pode ficar desprovida de sentido, pois ela não será mais “um animal de inteligência curta e cabelos compridos”. Aliás, ela nunca foi burra ou pouco inteligente. Burros e pouco inteligentes são os homens que não conseguem compreendê-la.
Afrânio Peixoto, no seu livro Trovas Brasileiras, publicado em 1944 pela Companhia Editoria Nacional, divulgou esta quadra:

Esse teu cabelo louro
É que me faz confusão;
Nas tranças deste cabelo
Perdeu-se o meu coração.

Quarta-feira, 17 de Junho de 2009

Eu acuso o gramaticida Evanildo Bechara!

Sim, eu acuso o gramaticida Evanildo Bechara, coordenador da equipe da ABL que preparou a 5ª edição do “Vocabulário ortográfico da língua portuguesa”, de ser o culpado pela publicação de trinta erros nessa obra. Cleo Guimarães, jornalista de “O Globo”, também informou isto na seção “Gente Boa” do seu jornal, no dia 31 de maio de 2009.
A pressa, o despreparo, o assanhamento, estas três coisas fizeram o Evanildo autorizar logo a publicação do calhamaço de 887 páginas, com 349.737 palavras e expressões. Um livrão bem caro, pois custa quase cem reais. Eu indago: e esta gente que iludida comprou a porcaria ortográfica, não vai receber o seu dinheiro de volta? Ela terá de aceitar os trinta erros, apontados por mim e pela jornalista de “O Globo”?
Eu acuso o gramaticida Evanildo Bechara, membro da estéril, inútil e grotesca Academia Brasileira de Letras, de não ter feito um trabalho em conjunto com a Academia de Ciências de Lisboa, na elaboração desse vocabulário coxo: sem consultar o outro grêmio, a ABL se antecipou, revelando que é fascista, nazista, mussolinica, hitleriana.
Eu acuso o gramaticida Evanildo Bechara, por haver tomado decisões unilaterais. Quem o autorizou a transformar vagalume e regabofe, sem traços, em vaga-lume e rega-bofe com traços? Quem? A Hebe Camargo? O Ronaldinho? O Kim Jong-il, ditador da Coreia do Norte, com a ameaça de arremessar na Academia Brasileira de Letras uma bomba atômica de 30 quilotons, superior à de 21 quilotons que destruiu a cidade japonesa de Nagasaki, em 1945?
Eu acuso o gramaticida Evanildo Bechara de ter agido como o paranoico Heinrich Himmler, chefe da SS na Alemanha nazista, responsável pelo extermínio de milhões de judeus, porque ele, o funesto Evanildo, sem consultar a Academia de Ciências de Lisboa, desprezando-a, agiu como um Himmler da língua portuguesa, impôs de modo arbitrário, sem nenhum motivo justo, o desaparecimento do hífen nas expressões a-toa, auto-escola, extra-oficial, dia-a-dia, fim-de-semana, infra-estrutura, neo-expressionismo, semi-árido.
Eu acuso o gramaticida Evanildo Bechara de “normatizar” o que não era necessário, como por exemplo colocar o hífen em ziguezague (zigue-zague), em zunzum (zum-zum), em lengalenga (lenga-lenga), palavras que não exigem pausas, intervalos, pois a rigor são onomatopaicas, imitam ou sugerem determinados sons ou ruídos, como as onomatopeias verbais e etimológicas assoviar, chimpar, bambolear, bebericar, escarrar, espocar, gorgear, gargalhar, murmurar, rasgar, retumbar, ribombar, silvar, sussurrar, trombetear, zurrar.
Eu acuso o gramaticida Evanildo Bechara de derreter as cacholas dos falantes com as suas esdruxularias (extravagâncias). Os dogmas dele, tão errados como o português do Paulo Coelho, tornam dificílima a aglutinação dos vocábulos compostos. Evanildo complica tudo. À semelhança de Reinhard Heydrich, o comandante das SS na “noite das longas facas”, Bechara ordenou nazistamente que o hífen só deve aparecer, nas palavras compostas, quando estas apresentarem “unidade sintagmática e semântica”. E valendo-se de tal linguagem nauseabunda, capaz de impressionar os intelectualoides metidos a besta, o babélico Evanildo, mestre na arte de parir imbróglios, abortos linguísticos, estabeleceu o seguinte: é permitido usar o hífen nos “compostos por justaposição que não contêm formas de ligação e cujos elementos possuem natureza nominal, adjetival, numeral e verbal”. Apenas faltou ele dizer: “e também natureza asnal ou fecal”.
Eu acuso o gramaticida Evanildo Bechara de estuprar a prosódia dos ditongos nas paroxítonas (vocábulos nos quais o acento tônico cai na penúltima sílaba). Por causa do pançudo ditador da ABL, não se acentuam mais, ilogicamente, os ditongos ei e oi de timbre aberto. Agora, devido a esta imbecilidade, jóia é jôia, bóia é bôia, colméia é colmêia, idéia é idêia (coloquei o acento circunflexo de propósito, a fim de mostrar como a nova ortografia destas palavras deve soar nos ouvidos de uma criança que está sendo alfabetizada).
Eu acuso o gramaticida Evanildo Bechara de ter imposto, sem consulta prévia a comissões de professores, escritores e jornalistas, uma reforma cretina, desnecessária. O acordo, ou melhor, o desacordo, “é impreciso, ambíguo e anticientífico”. Juízo do professor Gabriel Antunes de Araújo, linguista da Universidade de São Paulo, que afirma num artigo publicado na edição do dia 21 de maio de 2009 do “Jornal do Brasil”:
“Os argumentos dos defensores da anulação do acordo são razoáveis: a reforma não auxiliará no combate ao analfabetismo e nem ajudará o português a se tornar uma língua internacional. Não será a abolição de tremas ou regras de emprego do hífen que tornarão a tarefa de alfabetizar mais simples ou a língua portuguesa mais prestigiada”
E este professor da USP enfatizou:
“A língua inglesa convive com as normas britânica e norte-americana: isso não impediu que se tornasse global e que o analfabetismo, nesses países, fosse praticamente erradicado. Além disso, o acordo carece de embasamento científico e coerência interna”.
Eu acuso o gramaticida Evanildo Bechara, por ter redigido um acordo que conforme garantiu o deputado português Vasco Graça Moura, “é um acúmulo de disparates”.
Eu acuso o gramaticida Evanildo Bechara de ter criado um caos ortográfico, uma bagunça em nosso idioma, sem respeito à etimologia das palavras.
Eu acuso o gramaticida Evanildo Bechara, por ser autor de uma péssima gramática e por não saber escrever. Afinal de contas, ele é um gramaticida... Faltou-lhe competência, portanto, para nos obrigar a engolir o monstruoso feto sifilítico defecado pela sua mioleira. Como ele redige mal, como é pernóstico! Leiam esta passagem do seu teratológico artigo sobre palavras compostas, publicado na edição do dia 22 de fevereiro de O Estado de S.Paulo:
“Além dos princípios gerais o utente tem de conhecer também as exceções, exceções que não são exclusivas da língua...”
Olhem o pernosticismo, o uso do substantivo utente, em vez de usuário. E a repetição do plural exceções, provando como o seu vocabulário é fraquíssimo, gago, vesgo, cambaleante, necessitado urgentemente de muletas, ou melhor, de uma bem mortífera câmara de gás...

Sexta-feira, 29 de Maio de 2009

O erro primário e fatal de Guiomar de Grammont

A historiadora mineira Guiomar de Grammont, no livro Aleijadinho e o aeroplano, lançado pela Civilização Brasileira, afirma que o seu conterrâneo Antônio Francisco Lisboa, conhecido pelo apelido de Aleijadinho, nunca existiu, é uma ficção inventada pelo historiador Rodrigo José Ferreira Bretas.
No entender da desconfiadíssima senhora Grammont, as obras do nosso genial escultor são uma “criação coletiva”. Antes de exibir o seu erro primário e fatal, que destrói completamente a sua afirmativa, vamos apresentar três erros graves que ela cometeu.
Primeiro erro grave da senhora Guiomar de Grammont. Sem nenhuma prova, denegriu a memória de Rodrigo Ferreira Bretas, o primeiro biógrafo do Aleijadinho, pois sustenta que ele o “inventou”. Ora, Bretas era um homem honrado. Conforme informo no meu livro sobre o Aleijadinho, já na sétima edição, ele veio à luz em Cachoeira do Campo, no ano de 1814, e faleceu em 1866. Advogou na localidade de Bonfim do Paraopeba, onde fundou e dirigiu um colégio. De 1852 a 1861, em quatro legislaturas, foi atuante deputado à Assembléia Provincial. Também exerceu o cargo de secretário do governo mineiro e lecionou filosofia em Barbacena. Além de ter sido diretor do Ensino Público de Minas Gerais e sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, ele dirigiu o Colégio de Congonhas do Campo. Alguns dos seus discursos, pronunciados na Assembleia Provincial, foram reunidos num opúsculo, hoje bastante raro. Em 1861, o governo mineiro o designou para representá-lo na instalação da vila de São Paulo de Muriaé, fato que revela como era bem respeitado e gozava de prestígio.
A desconfiadíssima senhora Guiomar, sem nenhuma prova, mostra Rodrigo Bretas como um vigarista, um “especialista em retórica”. Chega ao cúmulo de dizer, também sem nenhuma prova, que ele “inventou” um pai para o Aleijadinho, o arquiteto português Manuel Francisco Lisboa. E ainda sem nenhuma prova, garante que Bretas “incorporou” dados da vida de Miguel Ângelo à vida do Aleijadinho. Mas o historiador mineiro apenas coloca diante de nós algumas semelhanças entre o artista brasileiro e o artista italiano, mais nada...
Segundo erro grave da senhora Guiomar de Grammont. Ela despreza os depoimentos dos viajantes estrangeiros que estiveram em Minas Gerais no século XVIII, como o francês Saint-Hilaire e o inglês Sir Richard Burton, Tais depoimentos provam que o Aleijadinho existiu realmente. Os dois fazem referência à sua deformidade. Aliás, três anos antes da morte do Aleijadinho, o barão Guilherme de Eschwege visitou Minas em 1811 e depois escreveu no seu Journal von Brasilien:
“O principal escultor que aqui se salientou era um homem aleijado, com as mãos paralíticas.”
Terceiro erro grave da senhora Guiomar de Grammont. Não há nenhuma prova de que o Estado Novo de Getúlio Vargas, instituído em 10 de novembro de 1937, criou o “mito Aleijadinho”, para ele adquirir a imagem de “herói nacional”. Este herói já existia: é Tiradentes. A tese da senhora Guiomar é tão ilógica, tão absurda, tão desprovida de fundamento como a da senhora Isolde Helena Brans Venturelli, que em 1979 quis provar, a todo custo, que os doze profetas esculpidos em pedra sabão pelo Aleijadinho, no adro do Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas do Campo, representam os vultos da Inconfidência Mineira...
E agora o erro mais grave da historiadora Guiomar de Grammont. Erro primário e fatal, repito, e que destrói completamente esta afirmativa: o Aleijadinho nunca existiu. Prezada e desconfiadíssima senhora Guiomar, meu Deus do Céu, como a senhora pôde cometer este erro tão grande, tão impressionante? Se foram vários os artistas que executaram as obras atribuídas a Antônio Francisco Lisboa, como se explica que ao longo de mais de quarenta anos os recibos assinados pelo Aleijadinho apresentam sempre a mesma grafia? A assinatura dele era bem característica. O livro primeiro de Receita e Despesa da Ordem de São Francisco de Assis de Ouro Preto é a prova disso. A conclusão é lógica, se fossem vários os Antônio Francisco Lisboa, as assinaturas seriam diferentes. Basta examinar os recibos descobertos pelos pesquisadores do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. A afirmativa da desconfiadíssima senhora Guiomar, portanto, desmorona, fica reduzida a pó. Ela se esqueceu desse pormenor, que é fundamental, mas logrou convencer, com a sua tese maluca, até um jornalista calejado como o Zuenir Ventura, de O Globo...
Aconselho a desconfiadíssima senhora Guiomar de Grammont a memorizar esta frase do filósofo Francis Bacon (1561-1626), inserida no capítulo 31 de seus Essays:
“Nada induz o homem a desconfiar muito, como saber pouco.”
(“There is nothing makes a man suspect much more than to know little”)

Domingo, 24 de Maio de 2009

Todo o estado do Acre se revolta contra o acordo fascista!

Os acreanos (escrevo assim e não acrianos) se sentem revoltados. Eles não engolem a agressão do Evanildo Bechara e de outros deformadores do nosso idioma (deformadores e não reformadores) que impuseram a mudança da grafia acreano, gentílico do qual tanto se orgulham. Bechara e os demais “gênios” da capenga reforma ortográfica, condenam esta grafia. Para o grupo o certo é acriano. Resultado: o brioso e glorioso Acre está fremindo de indignação. A Assembleia Legislativa desse estado criou um blog, “O Acreano”, a fim de acolher os milhares de protestos contra a desarrazoada medida. E o governador Binho Marques ordenou que a estatal Agência de Notícias deve continuar a usar a grafia acreano. Binho obteve até o apoio da deputada Perpétua de Almeida, do PCdoB. Ela declarou:
“Queremos salvar o jeito acreano de ver o mundo e nos apresentar como um povo consciente de suas verdades, tradições e cultura.”
Viva a revolta dos acreanos! Mostraram que possuem amor-próprio e coragem, que não são capachos de gramaticoides, de apedeutas. Enfim, no Brasil, um povo inteiro se levantou contra o aborto parido pela incompetente comissão da Reforma Ortográfica, na qual pontificou com seu ar de gordanchudo conselheiro Acácio, o sonífero Evanildo Bechara, filólogo idêntico à maconha, porque seus textos e a sua conversa entorpecem, geram a confusão mental. Dou a prova. Leiam esta passagem de um horripilante artigo do Bechara, “O não emprego do hífen”, publicado na edição de 8 de março de 2009 de O Estado de S.Paulo:
“Ainda neste terreno, tínhamos de exigir de quem escrevia saber distinguir um à-toa hifenado, se era locução adjetiva (trata-se de um problema à-toa). Ou ainda um dia-a-dia, locução substantiva com o sentido de ‘cotidiano’ (Meu dia-a-dia é agradável), de dia a dia, locução adverbial, valendo por ‘diariamente’ (A criança cresce dia a dia)”.
Entenderam? O que é isto? Masturbação gramatical? Aqui vai outro exemplo desse onanismo lexicográfico, divulgado no artigo “Distinguindo casos do acordo”, aparecido na edição de 29 de março de 2009 do jornal dos Mesquitas:
“O que ocorre é que o caso de guarda (verbo) não se enquadra no princípio que relaciona a ocorrência do 1º elemento terminado por vogal com a consoante inicial do 2º elemento para o uso do hífen...”
Volto a perguntar: o que é isto? O labirinto de Creta? Um argumento com dor de barriga, prisão de ventre? Ah, já sei, é a esquálida lombriga expelida pelo ânus de um nordestino flagelado por uma seca do Ceará. É o que eu chamo de estilo Tênia, por ser retorcido como um verme intestinal. A cabeça do Evanildo Bechara precisa tomar um purgante.
Em Portugal a rebelião contra o fascista Acordo Ortográfico aumenta cada vez mais. O abaixo-assinado de cem mil pessoas já vai ter meio milhão de assinaturas, e o escritor Vasco Graça Moura atacou de forma violenta a calamitosa reforma feita pela ABL, num artigo publicado no “Diário de Notícias” de Lisboa. Afirma o escritor:
“Tudo isso é uma chuçadeira. Um país que preza verdadeiramente a sua cultura e a sua língua deve sentir e exprimir a mais profunda das vergonhas pelo que está a acontecer. E devia exigir que não seja assim.”
Empregado por Vasco Graça Moura, o substantivo feminino chuçadeira, oriundo do verbo chuçar, significa bom negócio ou caçoada, zombaria, escárneo. De fato esse acordo fascista é um bom negócio. As gráficas vão ganhar muito dinheiro com os milhões de livros que devem ser reimpressos, a fim de obedecerem à nova ortografia. E se trata mesmo de um escárneo, pois os redatores do acordo devem estar rindo dos trouxas que o apoiaram de maneira incondicional, como escravos submissos aceitam receber vigorosas chibatadas nas nádegas.
Membro da circense Academia Brasileira de Letras, o professor Arnaldo Niskier insiste em defender a quadrupedal Reforma Ortográfica, feita mais com patas do que com mãos. Se houvesse um concurso entre muares, essa reforma tiraria o primeiro lugar, seria a mais relinchante das mulas vitoriosas, capaz de dar patadas homéricas, como o coice que a bela mula preta do papa Bonifácio, após esperar sete anos para se vingar, aplicou no traseiro do patife Tistet Védène. Quem narra este episódio é Alphonse Daudet no seu clássico livro “Les lettres de mon moulin” (“As cartas do meu moinho”), publicado em 1866.
Pois é, embora pertença a uma raça heroica, barbaramente perseguida, torturada e assassinada pelos seguidores do monstro Adolf Hitler, o habilidoso Arnaldo Niskier se encarniça na tarefa de louvaminhar a jumental reforma. Niskier, meta na sua cabeça: esta reforma é também nazista! Ela tem a alma do Führer do III Reich, porque o Evanildo Bechara e os seus cúmplices nesse crime linguistico, não ouviram a opinião de comissões de escritores, professores, jornalistas, intelectuais, etc. Obrigaram todos nós a aceitá-la fascistamente, nazistamente. Tal ato de arbítrio levou o editor Jorge Michalany a enviar as seguintes palavras à revista “Agitação”, do Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE):
“Até quando os experts da língua portuguesa irão parar de brincar com a gente? Na minha infância e adolescência – estou com 92 anos – seguíamos a lógica da ortografia etimológica, o que facilitava a compreensão do inglês e francês, por sinal, idiomas imutáveis. Mas no Brasil não se respeita a tradição, até na língua”.
Meu caro Michalany, antes a ortografia era de fato etimológica. Hoje é zoológica e do especial agrado dos que zurram, soltam coices e comem capim...
O Desacordo Ortográfico do Evanildo, além de exibir o seu caráter nazi-fascista, é também deficiente mental. Não unifica a língua portuguesa, separa os seus falantes. Tem regras que deviam ser internadas num manicômio, e com camisas-de-força.
Regra louca da debiloide: o trema é eliminado. Lingüiça (com trema) se transforma em linguiça (sem trema), e tranqüilo (também com trema) agora é tranquilo (sem trema). Entretanto os Bechara do Desacordo Ortográfico admitem o trema em nomes próprios estrangeiros e seus derivados. Por quê? Qual é a lógica? Absoluta incoerência! Legítimo atentado à prosódia!
As novas regras sobre o hífen equivalem ao caos, parecem o produto de uma arteriosclerose cerebral, do amolecimento dos miolos de um mijoso e baboso membro da Academia Brasileira de Letras.
Concluindo, saliento que usei neste artigo a grafia escárneo e não escárnio, pelo fato de ser a correta, utilizada por dois grandes escritores da língua portuguesa, Alexandre Herculano e o padre Antônio Vieira. Aqui no Brasil quem a usou foi o excelente gramático João Ribeiro.

Sábado, 9 de Maio de 2009

Um filho que tem mãe, tem todos os parentes

Reproduzi num álbum os mais belos versos e os mais expressivos pensamentos sobre as mães. Do poeta santista Martins Fontes, que evoquei no meu livro Vida e poesia de Olavo Bilac (Editora Novo Século, 5ª edição) são estes dois lindos versos:

"Ao pé das nossas mães, todos nós somos crentes...
Um filho que tem mãe, tem todos os parentes”

Eis aqui a mais bela quadra popular sobre as mães:

"Eu vi minha mãe rezando
Aos pés da Virgem Maria:
Era uma santa escutando
O que outra santa dizia."

Guerra Junqueiro, na opinião de Unamuno, era "el primeiro de los poetas portugueses" e também "uno de los mayores del mundo". Estas palavras do insigne ensaista se acham no livro “Por tierras de Portugal y de España.” O entusiasmo de Unamuno se justificava, pois Junqueiro foi um poeta extraordinário, dotado de imenso talento verbal, conforme podemos constatar, lendo estes versos do seu livro “A velhice do Padre Eterno”:

"Minha mãe, minha mãe! ai que saudade imensa
Do tempo em que ajoelhava, orando, ao pé de ti.
Caía mansa a noite, e andorinhas aos pares
Cruzavam-se voando em torno dos seus lares
Suspensos do beiral da casa onde nasci.
Era a hora em que já sobre o feno das eiras,
Dormia quieto e manso o impávido lebréu.
Vinham-nos da montanha as canções das ceifeiras,
E a lua branca, além, por entre as oliveiras,
Como a alma dum justo, ia em triunfo ao céu!...
E, mãos postas, ao pé do altar do teu regaço,
Vendo a lua subir, muda, alumiando o espaço,
Eu balbuciava a minha infantil oração,
Pedindo ao Deus que está no azul do firmamento
Que mandasse um alívio a cada sofrimento,
Que mandasse uma estrela a cada escuridão.
Por todos eu orava e por todos pedia,
Pelos mortos no horror da terra negra e fria,
Por todas as paixões e por todas as máguas,...
Pelos míseros que entre os uivos das procelas
Vão em noite sem lua e num barco sem velas
Errantes através do turbilhão das águas.
O meu coração puro, imaculado e santo
Ia ao trono de Deus pedir, como inda vai,
Para toda a nudez um pano do seu manto,
Para toda a miséria o orvalho do seu pranto
E para todo o crime o seu perdão de Pai!"

Foi o indestrutível amor materno que deu ao grande lírico português a inspiração para compor esta magnífica poesia. Talvez alguns amantes da poesia moderna a julguem retórica, verbosa, palavrosa, mas um insigne poeta moderno, Stéphane Mallarmé, após ouvir uma queixa do pintor Degas, soltou a seguinte afirmação:
- Não é com idéias que se fazem versos, é com palavras.
Sim, é a pura verdade, pois as palavras são para os poetas o que os sons são para os músicos...

Quarta-feira, 6 de Maio de 2009

A revolta contra o fascista Acordo Ortográfico

É lamentável que Lula, um homem que se considera de Esquerda, tenha apoiado um acordo de caráter fascista, a medida imposta por pequeno grupo de acadêmicos, sem qualquer consulta aos intelectuais, aos jornalistas, aos professores, aos estudantes, ao povo.
Há uma grande reação em Portugal contra o Acordo Ortográfico, esse monstrengo com cara de Mussolini. Um abaixo-assinado de mais de cem mil pessoas, lá na “santa terrinha”, exige a revisão do assunto. Vários escritores lusos chamam a decisão de “bizarrice” e acusam o texto do Acordo de conter “inúmeras contradições e até mesmo equívocos”. Só três jornais de lá resolveram adotar o novo procedimento. Magoado por causa desses fatos, o “imortal” mortal Arnaldo Niskier declarou no artigo “A reação à bizarrice”, publicado pela “Folha de S.Paulo”:
“O que dói um pouco, nisso tudo, é a posição de alguns escritores de Lisboa. Escrevem contra o Acordo e contra o Brasil, acusando-nos de tentativa de neocolonialismo” (11-3-2009).
Niskier, esses escritores não exageraram. Trata-se, é inquestionável, de uma tentativa de neocolonialismo lingüístico, estúpida como todas as tentativas dessa natureza.
Vasco Graça Moura, escritor português de prestígio, condena o Acordo e acha difícil a sua implementação na pátria de Gil Vicente. Nascida em Coimbra, no ano de 1962, a escritora Inês Pedrosa também se mostra contra o aborto parido pela Academia Brasileira de Letras. Ela recebeu em Portugal o Prêmio Máxima de Literatura, com o livro “Nas tuas mãos”, e afirma, categórica:
“Sou contra, porque, para começar, o Acordo é um produto falso, um produto pirata. Na verdade, ele não estabelece um acordo. Significa, então, jogar livros fora”.
O repórter da “Folha de S.Paulo” que a entrevistou, no inicio de 2009, quis saber o motivo pelo qual ela não vê o novo sistema como um acordo. Inês Pedrosa respondeu:
“Porque ele cria muita confusão, é inútil e prejudicial. É um acordo em desacordo. O hífen, por exemplo, gera confusão” (4-1-2009).
Mas a revolta contra o código fascista não ocorre apenas em Portugal. Acontece também no Brasil. Informa Ancelmo Gois, de “O Globo”, no comentário “Desacordo na ABL”: circula no meio editorial um e-mail atribuído a Sérgio Pachá, contendo pesadas críticas a essa lei de unificação do idioma português. Pachá, chefe do Serviço de Lexicografia e Lexicologia da Academia Brasileira de Letras, é um gramático competente. Ele estava sob as ordens do acadêmico Evanildo Bechara, o principal responsável pela gestação do Acordo, este feto repulsivo. Aqui vai um trecho do citado e-mail:
“As mudanças impostas pelos podres poderes da República, não pedem menos que a rejeição maciça [do Acordo] por parte da sociedade” (“O Globo”, 25-3-2009).
Baiano de Itaparica, ocupando na ABL a cadeira número 34, o escritor João Ubaldo Ribeiro meteu o pau no mussolinico regulamento-jumento, durante uma entrevista concedida ao “Correio Braziliense”. Segundo ele, autor de mais de um milhão de livros vendidos em dezesseis países, “ninguém vai levar muito a sério esta reforma”. Na sua tranquila opinião, ela contribuirá para piorar o conhecimento da língua portuguesa. Eis como Ubaldo explica a quase geral falta de respeito pela amalucada alteração ortográfica:
“Porque, em primeiro lugar, é muito perfunctória, pequena, apesar de afetar um número grande de palavras. Para mim, não enriquece em nada o entendimento da língua com qualquer um dos seus falantes. Sinceramente, não vejo nessa reforma nenhuma perspectiva realmente nova, a não ser dinheiro trocando de mãos” (“Correio Braziliense”, 4-1-2009).
A reforma, no entender de Ubaldo, criou a confusão e ainda por cima despesas, programas de texto para computador. Como exemplo da bagunça, ele diz que devido ao fim do trema, hoje ninguém sabe se a pronúncia correta é liquidificador (sem trema) ou liqüidificador (com trema).
Disparates se tornaram bem visíveis no acordo fascista. Um deles: não deve mais ser usado o acento diferencial entre as palavras homógrafas (com a mesma grafia). Exemplos: para (conjugação do verbo parar) e para (preposição simples); pelo (conjugação do verbo pelar) e pelo (substantivo). Todavia, foi mantido o acento diferencial da palavra pôde (terceira pessoa do singular do pretérito perfeito do indicativo do verbo poder), a fim de distingui-la de pode (terceira pessoa do singular do presente do indicativo do mesmo verbo). Quanta complicação e confusão!
Vejam agora a seguinte frase da manchete de um jornal:
“Crise mundial para o comércio”
Esta frase, por causa da reforma ortográfica, é ambígua. A crise parou o comércio ou apenas o ameaça?
Outra insensatez: o acento gráfico dos ditongos ei, eu, oi, desaparece nas palavras paroxítonas (vocábulos nos quais o acento tônico cai na penúltima sílaba), como idéia, epopéia, assembléia, bóia, jibóia. Todos sem acento. No entanto, em compensação, o acento agudo permanece nas palavras oxítonas (vocábulos nos quais o acento tônico cai na última sílaba), como rói, dói, herói, anéis, pastéis, céu, réu, troféu, papéis, chapéus.
Coitado do povo! Para escrever certo, ou melhor, errado, precisa compreender estas sutilezas gramaticais, aceitar estas regras esdrúxulas!
Jornal cheio de boas intenções, “O Estado de S.Paulo” convidou Evanildo Bechara para esclarecer em artigos dominicais as dúvidas sobre a reforma. Evanildo escreve corretamente mal. Dos seus textos retorcidos como cólicas hepáticas, pinga a chatice. Lê-lo é mergulhar não no sono, mas num pesadelo. E como é pernóstico! Em vez de usar a palavra usuário, emprega a palavra utente. Adora o substantivo ortógrafo. O seu estilo complicadíssimo é mais indigesto do que uma azeda macarronada coberta de mofo, baratas e percevejos. Amostra da sua linguagem trevosa, tediosa e misteriosa:
“Emprega-se o hífen nas palavras compostas por justaposição que não contêm formas de ligação e cujos elementos, de natureza nominal, adjetival, numeral ou verbal, constituem uma unidade sintagmática e semântica e mantêm acento próprio, podendo dar-se o caso de o primeiro elemento estar reduzido”.
Entenderam? Foi assim, com a sua escrita idêntica a um tenesmo (forte desejo de defecar ou urinar, acompanhado de sensação dolorosa), que o Evanildo ganhou fama...
Concluindo: ele produziu diversos artigos para O Estadão e é como se não tivesse feito nenhum.

Domingo, 5 de Abril de 2009

Ladrões de livros

Inúmeras vezes, no Brasil, as livrarias têm sido, para os intelectuais, agradáveis centros de reunião. Pelo menos foi assim no Rio de Janeiro de outrora. Quem penetrasse na Garnier, das quatro às seis da tarde, veria Sílvio Romero, Machado de Assis, Joaquim Nabuco, Olavo Bilac, Alberto de Oliveira, Raimundo Correira, sem falar em dezenas de outros. A Livraria Briguiet, situada na Rua do Ouvidor, era preferida por Pandiá Calógeras, Graça Aranha, José Veríssimo, Rui Barbosa, Medeiros e Albuquerque. E na Laemmert, que se localizava também na mesma rua, podiam ser encontrados Euclides da Cunha, João Ribeiro, Múcio Teixeira, Gonzaga Duque, Afonso Celso, Inglês de Sousa... Bons tempos, aqueles! Havia fraternidade. Os escritores se mostravam mais puros, menos preocupados com as famigeradas panelinhas e a hipotética glória literária.
Hoje, nas livrarias, não há mais tertúlias de escritores, mas sim de ladrões de livros. Já vi fulanos cometendo esses roubos. Agem às vezes em grupos, como se fossem professores realizando uma pesquisa bibliográfica. Roubam as obras não para ler, tornarem-se cultos, e sim para as vender nos sebos ou de outra maneira.
A classe desses ladrões é curiosa, eclética, e apresenta figuras bem pitorescas, dignas de serem estudadas pelos psicanalistas.
Afirmam alguns cronistas que Sir Edward Fitzgerald se viu condenado a dois anos de prisão, devido ao fato de ter surrupiado, em Paris, uma Bíblia rara...
Larápios de livros... Que se pode deduzir, quando tais tipos proliferam? Amor excessivo à cultura? Paixão invencível, descontrolada, que leva à insânia, a atos reprováveis? Em algumas ocasiões, acredito, é cleptomania. Em outras, trata-se de sem-vergonhice, de assalto.
Anatole France escreveu um romance intitulado O crime de Silvestre Bonnard, onde narra, com fino humor, a história de um velhote erudito, que rapta uma jovem para dá-la em casamento a um rapaz. Como dote, o encanecido tutor oferece aquilo que mais ama na existência: os seus preciosos livros. Mas à noite, no silêncio da casa adormecida, Silvestre levantava-se, saía furtivamente do quarto e ia retirar, da biblioteca, os volumes prediletos.
O rapto da protegida não se afigurava um crime, perante a consciência do bibliomano. Pouco versado em leis, desconhecia a gravidade do delito. Todavia, o roubo de vários livros, embora fossem seus, causou-lhe remorsos. É que Silvestre furtava o dote da moça. Quebrando a palavra empenhada, estabelecia uma brecha no sua dignidade. E isto, aos olhos de um cidadão honrado, torna-se uma falta imperdoável.
Merece indulgência um sujeito que age desta maneira? Sim. O motivo é tão humano que temos de ser complacentes.
Os plagiários são mais nocivos que os larápios de livros. É que estes roubam materialmente, enquanto os primeiros furtam raciocínios e imagens, ou melhor, as criações felizes da nossa inteligência, os frutos da árvore frondosa da nossa imaginação.
Quem me tira um livro da estante se apodera de um objeto amado, mas eu sei, no íntimo, que posso adquirir outro exemplar, em tudo idêntico ao que foi subtraído, caso a obra não esteja esgotada. Aquele, no entanto, que me despoja de uma bela frase e de um nobre pensamento, está me esbulhando de um tesouro. Nesta circunstância, asseguro, sinto-me lesado, expropriado.
É mais difícil caracterizar um plágio do que um roubo comum, pois há larápios super-habilidosos, exímios na arte de furtar idéias, de vesti-las com roupagens elegantes.
Aqui entre nós, leitor, quero confessar uma coisa. Para mim todo plagiário é um assaltante manhoso e sub-reptício, que rouba o produto do nosso cérebro empregando a mesma desenvoltura e o mesmo cinismo de um esperto ladrão de livros.