segunda-feira, 24 de agosto de 2015

O Percival e o Suplicy estão sendo humilhados!



Homem franco, enérgico, de personalidade forte, inimigo de qualquer tipo de hipocrisia, eu acuso: estão sendo humilhados o jornalista Percival de Souza e o ex-senador Eduardo Suplicy (PT-SP), o primeiro pelo Marcelo Resende, na TV Record, e o segundo pela presidenta Dilma Rousseff.
No programa Cidade Alerta, da referida emissora, o Marcelo não cessa de menosprezar o Percival. Além de não dar a este a merecida atenção, a oportunidade de opinar mais, o Marcelo o humilha volta e meia. Sentado numa cadeira de espaldar alto, que parece um trono, o veterano jornalista, após falar rapidamente, em poucos segundos, sobre qualquer fato apresentado no programa, ouve do Marcelo as seguintes palavras:
-Você está repetindo tudo o que eu disse!
Ou então escuta isto, em tom de escárnio:
-Acho que você está com febre.
Se o Marcelo Resende acolhe o juízo do Percival, ele costuma perguntar:
-Você tomou algum remédio?
É como se o cérebro do jornalista, por ser débil, precise com urgência de uma injeção, a fim de poder funcionar a contento...
Frequentes vezes o Marcelo Resende indaga:
-Por que você balança tanto o pé?
E acrescenta:
-Pare de balançar o pé!
A cara do Percival, em tais ocasiões, exibe o seu constrangimento. Ele procura sorrir, disfarçar, mas a humilhação se torna bem visível. Em suma, o Percival de Souza, no programa Cidade Alerta, apresentado quase todos os dias, a partir das 17 horas, é menosprezado, ridicularizado, zombado, ofendido pelo Marcelo Resende.
Um amigo meu comentou:
-Fernando, talvez isto que vem acontecendo é combinado.
Mas se é combinado, não deixa de ser humilhação, nojenta falta de respeito a um jornalista experiente, de talento, várias vezes premiado, professor universitário, ex-comentarista da TV Globo, um dos fundadores do Jornal da Tarde, autor de dez livros valiosos, entre os quais destaco O crime da rua Cuba, Eu, o cabo Anselmo, Autópsia do medo – Vida e morte do delegado Sérgio Paranhos Fleury.
Percival: largue o programa Cidade Alerta, não aceite essas humilhações, mande às favas o Marcelo Resende. Primeiro defenda o seu amor próprio. Você engole as ofensas, as grosserias do Marcelo, porque o programa dele é em rede nacional de televisão. No entanto não vale a pena ficar conhecido no Brasil inteiro às custas do aviltamento da sua pessoa. É um preço muito alto.
Além disso, Percival, você já é idoso, é um pré-cadáver como eu, pois nasceu em 1943, tem mais de 70 anos. Envelheça com brio, com dignidade!

*       *      *

Vejam a humilhação sofrida pelo Eduardo Suplicy.
Segundo a Folha de S.Paulo, após dois anos de espera, a presidenta Dilma Rousseff desmarcou uma reunião com o ex-senador, atual secretário de Direitos Humanos da Prefeitura de São Paulo. E o mesmo jornal salienta: Suplicy havia enviado 19 cartas à presidenta, desde junho de 2013. Agora ele prepara a vigésima carta. O ex-marido da Marta declarou:
-Eu já tinha contado para meus amigos, familiares e alunos que a presidenta me receberia. Estou entristecido.
Suplicy, você não está entristecido, você está humilhado. Há dois anos tenta falar com a Dilma sobre o seu projeto da Renda Básica de Cidadania. Dois anos, Suplicy, dois anos! Você enviou 19 cartas a Dilma, e nada! E quer remeter mais uma! Suplicy, por favor, tenha vergonha na cara, rompa com a presidenta, mande-a lamber sabão. Grave na sua memória esta frase do capítulo XLIV do Don Quijote de Cervantes:
“Mais vale vergonha na cara que desonra no coração”.
(Mas vale vergüenza en cara, que mancilla en el corazón)
Dentro em breve, Suplicy, se Deus permitir, você chegará aos 80 anos. Portanto deixe de se humilhar, de se rebaixar, não se emporcalhe, não cubra de merda a sua velhice, para ela não ficar fedendo.
E Dilma, quanta indelicadeza, quanto desprezo! Por que se mostrar tão difícil com esse homem desprovido de personalidade forte? O cargo que a senhora ocupa é efêmero, daqui a pouco deixará de ser presidenta, o tempo – fera voraz – logo vai comer o seu mandato como um tigre faminto devora o filhote de uma zebra.
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Escritor e jornalista, Fernando Jorge é autor do livro Se não fosse o Brasil, jamais Barack Obama teria nascido, cuja 6ª edição foi lançada pela Editora Novo Século


domingo, 26 de julho de 2015

Vida, Obra e Época de PAULO SETUBAL – Um homem de alma ardente, 2ª Edição, Geração Editorial, 2008.

A obra revela ao leitor o contexto dos fenômenos políticos, jurídicos, econômicos e sociais na seara internacional e nacional nos idos anos 1920 e 1930, exteriorizadas pela maneira peculiar de ser do sensível Paulo Setúbal, um homem de alma ardente, cuja sua essência era de elevada espiritualidade cristã, tendo como exemplo de vida o seu professor primário o seu Chico Pereira na sua singela cidade natal de Tatuí/SP, indelevelmente marcada na sua pobre infância, acrescida posteriormente de um profundo conhecimento enciclopédico, filosófico, social, jurídico e histórico deste imortal mestre do romance, exercendo varias funções desde promotor de justiça, advogado militante, deputado estadual, sendo um dos maiores arautos das liberdades individuais, democrata fervoroso, patriota paulistano, herói de nossa epopeia, cuja doença uma tuberculose crônica não o abateu, pois que naquela época dos anos 20 e 30 a tuberculose não tinha cura, pelo contrario senso, a doença despertou o gênio, o poder mais tremendo do que todas as bombas nucleares do talento do espirito humano, que havia dentro de si. Paulo Setúbal superou todas as adversidades e foi à luta, colocou ‘mãos as obras’ para não malbaratar o seu tempo na terra. Transformou o isolamento e a solidão numa caixa de pandora. Assim, pôs em ação, verdadeiras joias da literatura e obras de vida: As Molequices do Imperador, A Marquesa de Santos, O Príncipe de Nassau, Um Sarau no poço de São Cristóvão, revelações inéditas de D. Pedro I, Chalaça, José Bonifácio de Andrade e Silva, Dona Leopoldina, A Bandeira de Fernão Dias, Nos Bastidores da Historia... Paulo Setúbal foi aguerrido combatente das travestidas e famigeradas ditaduras ao irradiar o poder constituinte aos paulistas a serviço do Brasil no movimento constitucionalista de 1932, junto com seus nobres contemporâneos. Pena que Humberto de Campos, também desenganado pelos médicos, em janeiro de 1928, ao saber que sofria de uma grave enfermidade denominada hipertrofia da hipófise não ouviu os sábios conselhos e experiências de Paulo Setúbal ao transformar a dor e o sofrimento de sua enfermidade física em tesouros e obras de vida, cujos resultados foram além dos sonhos mais promissores. Paulo Setúbal, sem tergiversar, mostrou-nos que de fato a fé realmente move montanhas. Paulo Setúbal foi o gigante Herculano, utilizando de sua mente subconsciente para a ascensão e gloria de toda humanidade, expandindo a maravilhosa criação divina. Apostolo empírico da justiça do bem, amor, bondade à nossa gente à nossa terra, terra dos bandeirantes a serviço do Brasil com seu profundo amor à natureza e ao Criador Eterno, em Cristo Jesus. Noutro dizer, árduo defensor de princípios, hoje esquecidos ou até desconhecidos dos nossos elementos constitutivos: família, religião e politica honesta da bem articulada e rica língua de Camões. E muito mais, lutou contra as ervas daninhas de todo mal, tais como: as desigualdades sociais, a falsa moralidade e de caráter, os canalhas, traidores trasvestidos em bons samaritanos e salvadores da pátria...   Só um jornalista intrépido como Fernando Jorge poderia trazer a lume a biografia viva deste monumental personagem de nossa história como vida, obra e época de Paulo Setúbal.
Fernando Jorge sinceramente não tenho palavras para agradecê-lo. Seus livros e biografias tais como este, deveriam ser adotados em todas as escolas. 

São Paulo, 20 de julho de 2015.

Prof. Dr. Marco Antonio Azkoul

IVETE SANGALO, NÃO ODEIE OS GATOS PRETOS!

Informou o meu colega Joaquim Ferreira dos Santos, colunista do jornal "O Globo", que a Ivete Sangalo se tornou persona non grata no Instituto de Proteção aos Animais. O presidente dessa entidade, Mauricio Esteves, ficou indignado com a cantora, pois ela garantiu, num programa de televisão:
-Se eu avistar um gato preto, em qualquer sexta-feira 13, mando matá-lo.
Ivete Sangalo, por favor, não odeie esses pobres felinos. Esta sua atitude é a conseqüência de velha superstição da Idade Média, de um tempo no qual os gatos pretos eram olhados como encarnações do diabo. Naquela época, durante a noite de São João, lançavam centenas deles nas fogueiras. Uma barbaridade oriunda da ignorância, da incurável estupidez humana.
Pessoas supersticiosas sempre ligaram o gato preto ao azar, à desgraça. E nem figuras ilustres deixaram de crer nessa história. Napoleão, pouco antes de batalha de Warterloo, travada em 18 de junho de 1815, quando foi derrotado pelos exércitos do britânico Wellington e do prussiano Blücher, viu em sonho um gato preto que corria várias vezes, de um lado para o outro. Apesar de ser corajoso, Napoleão assustou-se...
Fato interessante, nos séculos VI e XVII, na fase das grandes navegações, um gato, com a condição de que fosse inteiramente preto, trazia felicidade total aos navios. No batismo destes, a madrinha dava um gato preto à tripulação. Os marinheiros o protegiam e o felino, bem nutrido, gordo, satisfeito, não fugia. Se escapava, procuravam o bicho por toda a parte, até nos lugares distantes, pois se não o encontrassem, logo teriam uma difícil ou perigosa travessia dos oceanos.
Após ler isto, a Ivete Sangalo pode concluir que depende de nós enxergar no gato preto um animal que trás o azar ou a boa sorte. Em minha opinião, um gato preto é simplesmente um gato preto, como a escritora norte-americana Gertrude Stein (1874-1946) afirmava que uma rosa é apenas uma rosa, nada mais.
Permita-me lhe oferecer um conselho, Ivete Sangalo: ame os gatos de qualquer cor, seguindo o exemplo da francesa Du Gast. Esta senhora, na primeira década do século XX, inaugurou em Paris, no Boulevard Berthier, um confortável asilo para gatos, onde eles tinham pratos especiais, móveis adequados, camas superpostas e até um vasto campo de recreação.
Sim, Ivete Sangalo, ame os gatos, como os amava a escritora Colette, pseudônimo de Sidonie Gabrielle, que no romance “A gata” (“La chatte”), publicado em 1933, descreveu magistralmente a gata Saha.
Siga o meu conselho, Ivete Sangalo, não odeie os gatos pretos ou de qualquer cor. Ame-os como a princesa Vitória Schleswig-Holstein também os amava. Apaixonada por eles, essa princesa foi a dona de vinte e seis gatos. Construiu para os seus amiguinhos, no parque do Castelo de Windsor, antes da guerra de 1914, uma casa própria, minúscula e proporcional. O telhado e o primeiro pavimento podiam. ser retirados, como a tampa de uma caixa. Eram desmontáveis, a fim de assegurar o asseio dos compartimentos. Nome da residência: Seymour-Lodge.
Ivete Sangalo, inspire-se nos fatos aqui evocados. Pegue um gato bem preto e o beije, e o acaricie, mesmo que seja numa sexta-feira 13...

domingo, 19 de abril de 2015

Fernando, vamos ser fuzilados?

No ano de 1965 apareceu o romance Falência das elites, assinado pela Adelaide Carraro, mas na verdade escrito pelo jornalista Hélio Siqueira, dos Diários Associados do Assis Chateaubriand. Eu redigi e assinei o texto das orelhas do livro, que narra o drama de um médico negro, visto com nojo, repulsa, num círculo de pessoas brancas da “elite”. A rigor, a obra é uma denúncia contra o preconceito racial.
O jornal O Globo, do Rio de Janeiro, informou na edição do dia 4 de abril de 1965, que por ordem do Ministério da Justiça, agentes do Serviço de Ordem Política e Social apreenderam o romance Falência das elites, considerado subversivo. Esta notícia reproduziu a minha opinião sobre o livro. Ao lê-la, disse a mim mesmo: vou ser processado pelos militares da Linha Dura, os “gorilas”.
Assim aconteceu. Fui intimado a ir depor numa sala de um edifício do Pátio do Colégio, da capital paulista. Dois soldados de capacetes brancos, munidos de metralhadoras, levaram-me num jipe até lá. Ao entrar na sala, escoltado pelos dois soldados como se eu fosse um prisioneiro de guerra, ouvi a seguinte pergunta do editor do livro, o judeu búlgaro Eli Behar, de pé junto à porta, pálido como quem se acha prestes a desmaiar:
-Fernando, vamos ser fuzilados?
Eu quis saber:
-Por quê?
Respondeu, cada vez mais pálido:
-Porque na Bulgária os réus iguais a nós, em casos desse tipo, são logo fuzilados.
Sorrindo, tentei acalmá-lo:
-Espero que não. O Brasil é diferente da Bulgária...
Cercado por soldados fortemente armados, sentei-me diante de um coronel do Exército, em cujo peito reluziam as suas condecorações. Ao lado dele, um escrivão e o promotor Dragamiroff, da Justiça Militar. O coronel, homem alto, imponente, de faces rubicundas, pronunciou esta frase:
-Fernando Jorge, o senhor, que escreveu um livro famoso sobre o Aleijadinho, faz de modo claro o jogo dos comunistas.
-Eu? Não estou entendendo.
-O romance Falência das elites, elogiado pelo senhor, garante que há preconceito de raça no Brasil. Tal preconceito não existe em nosso país. Somos a maior democracia racial do mundo, como declarou o seu colega Gilberto Freyre. Os que sustentam que há aqui aversão aos negros são os marxistas-leninistas, a fim de forçar o povo a se revoltar contra nós, os militares, as autoridades constituídas, por fecharmos os olhos diante desse preconceito.
Fiquei estupefato ao ouvir estas palavras, mas reagi:
-Senhor coronel, me desculpe, no Brasil existe esse preconceito.
-Não há, se existe quero que o senhor prove – replicou de cara brava.
-Eu não tenho as provas aqui, mas é um fato de conhecimento geral.
-Repito – disse o coronel, irritado – não há esse preconceito, é um plano diabólico dos marxistas-leninistas para jogar o povo contra nós, os militares, as autoridades constituídas. Prove a existência desse preconceito, eu exijo!
Os olhos do militar pareciam lançar fagulhas. Respondi, esforçando-me em me manter tranquilo:
-Senhor coronel, permita que eu me concentre, para me lembrar de uma prova e apresentá-la.
Ele respondeu, com voz enérgica:
-Autorizo o senhor a pensar.
Autorizado a pensar (que beleza!), eu me concentrei, buscando a tal prova. Junto de mim, branquíssimo, quase a desmaiar, o editor Eli Behar me olhava aflito, como alguém prestes a morrer sob uma rajada de metralhadora. De súbito, a minha boa memória me ajudou:
-Senhor coronel, se o senhor pedir a qualquer desses soldados para ir apanhar a prova, poderei mostrar como realmente existe o preconceito de raça no Brasil.
E apontei para um soldado com cara de buldogue e corpão de orangotango.
-Não – replicou o coronel – não precisa ser este soldado. Chamarei o meu ajudante-de-ordens.
Tocou uma campainha e logo apareceu um militar baixinho, que lhe fez continência. Solene, empertigado à maneira de feroz agente da Gestapo na Alemanha nazista, o coronel me encarou, determinando:
-Ordeno-lhe que diga o que quer.
-Peça ao seu ajudante-de-ordens, por favor, que vá às sedes dos principais jornais de São Paulo e traga exemplares dessas folhas do dia 10 deste mês.
O coronel deu a ordem, o auxiliar lhe fez outra vez continência e afastou-se. Suspenso o interrogatório, pensei: se a minha memória falhou, estarei frito.
Depois de quase duas horas, o ajudante-de-ordens surgiu com um pacote. Pedindo licença, colocou o embrulho em cima da mesa do coronel. Este, sempre pomposo, dirigiu-se a mim:
-Aí estão os jornais. Ordeno, agora, o senhor prove que existe realmente preconceito racial no Brasil.
Abri o pacote, o meu coração batia apressado, e examinei o primeiro jornal. Era o Diário da Noite. Rápido, achei nele a notícia sobre um casal de advogados, marido e mulher, impedidos de se hospedarem no Hotel Esplanada, devido ao fato de serem negros. Então, por causa disso, o casal resolveu processar os donos do hotel, evocando a Lei Afonso Arinos, que proíbe o preconceito racial. Dobrei o jornal e o exibi:
-Aqui está a prova, senhor coronel.
Ele ficou surpreso, mas não quis se dar por vencido:
-Trata-se de um episódio isolado. Continuo a afirmar, não existe preconceito racial no Brasil. Apresente-me outra prova.
Solicitei, com voz suave:
-O senhor permite que eu me concentre?
Vacilou um pouco, mas consentiu:
-Autorizo o senhor a pensar.
Autorizado pela segunda vez a pensar (que beleza!), concentrei-me e falei, após dois minutos:
-Senhor coronel, não conheço nenhum almirante da nossa gloriosa Marinha de Barroso e Tamandaré que é preto retinto. É mais uma prova.
Soltei estas palavras de cabeça baixa, sem fitar o seu rosto, e ia dizer, senhor coronel, também não conheço nenhum general do nosso glorioso Exército de Caxias e Osório que é negro como o Pelé. Ia dizer, mas desisti, silenciei, pois quando ergui a cabeça ele me olhava com a cara de um criminoso sádico, bebedor de sangue.
No fim do interrogatório, após eu assinar um documento, o coronel rugiu:
-Levante-se. Ordeno que o senhor se retire.
Aliviado, fui embora. Ficou lá, tremebundo, quase a se derreter como manteiga aquecida, o Eli Behar, editor do “livro subversivo” Falência das elites, da Adelaide Carraro.
Jô Soares ouviu tudo isto no seu programa, ao me entrevistar pela primeira vez (entrevistou-me duas vezes). Depoimento prestado por mim, no meu lar, à Comissão Nacional da Verdade, estando presente a senhora Maria Luci Buff Migliori, de Brasília, consultora dessa comissão.
Aliás, o preconceito racial continua a existir no Brasil. Há pouco tempo o professor de economia Manoel Luiz Malaguti, da Universidade Federal do Espírito Santo, confessou aos seus alunos que se tivesse de “escolher entre um médico branco e um negro, escolheria o branco”. O Ministério Público Federal instaurou, contra esse racista, procedimento investigativo criminal (O Globo, 6-11-2014).

domingo, 25 de janeiro de 2015

Chamei de cagão, na frente dele, o governador de São Paulo

Antes de contar porque chamei de cagão o governador de São Paulo, na frente dele, preciso dizer uma coisa. O que vou narrar aqui foi gravado pela Comissão Nacional da Verdade, com a presença da consultora Maria Luci Buff Migliori, de Brasília. A comissão esteve no meu lar por este motivo: fui processado quatro vezes, na época do regime militar, como “escritor e jornalista, perigoso, subversivo.”
Passo a expor a história do xingamento. A Editora Mc-Graw-Hill do Brasil, cuja sede é em Nova York, no ano de 1976 incumbiu-me de escrever um livro sobre o governo Geisel, de caráter documental. Então produzi, em dois meses, a obra As diretrizes governamentais do presidente Ernesto Geisel – Subsídios e documentos para a história do Brasil Contemporâneo. O brasilianista Thomas Skidmore, professor de História da América Latina na Universidade de Wisconsin, recomendou a leitura desse meu trabalho no capítulo VI do seu livro He politics of military rule in Brazil 1969 - 85.
Mesmo contra a minha vontade, a Mc-Graw-Hill resolveu enviar uma cópia do original para o ministro Golbery do Couto e Silva, chefe do gabinete civil do presidente Ernesto Geisel. Sete dias depois os americanos me chamaram com urgência à editora. Lá, na presença do gerente Jan Rais, ouvi estas palavras de um gringo louro, cujo rosto largo, redondo, corado, parecia uma rósea bunda feminina bem nutrida:
-Sanhorr Farrnandu, ministru Gulbirri telafunou di Brrázilia i nus acunsilhô a non publicar seo livrru.
Devolveram-me o original e veloz, sem perda de tempo, procurei um editor que o aceitou, apesar de ter lhe contado tudo, a proibição do general Golbery, etc. O livro logo saiu. Eu era, na época, chefe da Divisão Técnica de Biblioteca da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo.
Certo dia, uma semana após o lançamento da obra, encerrado o expediente da minha seção, achava-me sozinho na biblioteca da Assembleia. Eram oito horas da noite. De súbito entraram no recinto seis homens mal encarados. Vi que carregavam armas, revolveres, fuzis. Aproximaram-se de mim, acompanhados pelo investigador Wilson de Barros Consani, da Secretaria da Assembleia. Um desses fulanos declarou:
-Somos policiais da Secretaria da Segurança e recebemos ordens para levar o senhor preso até o DOPS.
Surpreso, indaguei:
-Por qual motivo?
A resposta veio firme, incisiva:
-É porque o senhor escreveu um livro.
-Ué, agora escrever livro é crime?
-O senhor escreveu um livro sobre o presidente Geisel e a obra foi considerada perigosa, subversiva. E além disso, por causa do senhor, o governador Paulo Egydio não dormiu a noite inteira.
-Por minha causa?
-É, por sua causa, pois o governador soube que aparece no seu livro. Ele não quer que o presidente Geisel pense que é amigo de um escritor perigoso, subversivo.
-Incrível, não acredito! – respondi – O senhor está falando sério, o governador ficou sem dormir à noite inteira, por minha causa?
-Sim, repito, não dormiu a noite inteira por sua causa. A esposa dele está preocupada. Abatido, nervoso, às sete horas da manhã o governador chamou o coronel Erasmo Dias, secretário da Segurança, e pediu para ele tomar enérgicas providências. O coronel telefonou para o Palácio da Alvorada, em Brasília, e obteve do ministro Golbery a autorização de mandar prender o senhor, de levá-lo até o DOPS.
Reagi, de maneira rápida:
-Ah, São Paulo não merece isto! São Paulo, juro, não merece isto!
Os policiais arregalaram os olhos, não entenderam. Continuei:
-São Paulo, o heróico estado dos corajosos bandeirantes Borba Gato e Raposo Tavares, dos bravos soldados da Revolução Constitucionalista de 1932, não merece isto, não merece isto!
-Não merece o quê?
-Não merece estar sendo dirigido por um governador medroso, cagão!
O chefe dos policiais aconselhou:
-Acalme-se, não se revolte, estamos cumprindo ordens. É melhor o senhor no acompanhar.
Tranquilo repliquei, embora com o meu esbraseado sangue árabe fervendo nas veias:
-Só sairei daqui se os senhores me algemarem e me arrastarem, porém advirto, a situação agora é outra. Lembrem-se da morte do Herzog e do operário Manuel Filho. Não ficarei muito tempo preso. Assim que sair do DOPS, vou processar o governador Paulo Egydio e o secretário Erasmo Dias, porque estou totalmente inocente, Consequência, o governador vai ficar com fama de cagão, de palhaço, de sujeito apavorado, ridículo.
Vendo a minha reação, o investigador Wilson de Barros Consani (ele está vivo, é testemunha) pegou o telefone e ligou para o doutor Romeu Tuma, diretor do DOPS, a fim de explicar o que estava acontecendo. Em seguida o Tuma quis falar comigo. Calmo, esclareci:
-Doutor Tuma, recuso-me a ir preso até o DOPS. Não cometi nenhum crime. Sou inocente. Se eu for, terá de ser à força, terei de ser algemado e arrastado. E reafirmo, após sair do DOPS, vou processar o governado Paulo Egydio e o secretário Erasmo Dias, devido a este ato de arbítrio, de violência injustificável. O governador vai fazer o papel de palhaço, de cagão, e ficará desmoralizado.
O diretor do DOPS respondeu:
-Não precisará agir assim, doutor Fernando. Pedirei ao coronel Erasmo Dias para revogar a ordem da sua prisão. Só lhe peço o obséquio de conceder o seu depoimento aí mesmo, na Assembleia. Vou mandar um escrivão e duas testemunhas. Concorda?
Aceitei. E permaneci na Biblioteca da Assembleia até às cinco horas da madrugada, respondendo a dezenas de perguntas cretinas, registradas por um escrivão nissei.
O meu livro sobre o governo Geisel logo foi publicado. Enviei um exemplar para o ministro Golbery, que o havia proibido, e ele cinicamente agradeceu, classificando a obra de “honesta”, de “valiosíssimo documentário”. Roguei dez pragas contra esse general...
Um ano depois o editor da quarta edição do meu livro sobre o Aleijadinho, um português, apresentou-me numa Bienal do Livro, no stand da sua editora, a DIFEL, ao ex-governador Paulo Egydio Martins:
-Governador, tenho a honra de lhe apresentar o escritor Fernando Jorge.
Olhei a cara do Paulo Egydio, um homem alto, encorpado, e soltei estas palavras:
-Recuso-me a cumprimentá-lo. O senhor é um cagão, pois ficou uma noite inteira sem dormir, com medo que o presidente Geisel pensasse que é meu amigo. São Paulo não mereceu ter sido governado por um borrador de cuecas.
Sou meio louco, pronunciei estas palavras com voz bem alta, para mais de cinquenta pessoas no amplo stand da DIFEL ouvirem. O editor e o ex-governador ficaram brancos como neve, pareciam que iam desmaiar. Sentindo-me vingado, eu me afastei triunfante, de cabeça erguida, a transbordar de alegria.
Indiscutível, o estadista e filósofo inglês Francis Bacon (1561-1626) proclamou a verdade ao afirmar no capítulo IV dos seus Essays: “a vingança é uma forma de justiça selvagem.” Revenge is a kind of wild justice.



domingo, 18 de janeiro de 2015

AS LÁGRIMAS DE JUSCELINO KUBITSCHEK


Num dos meus encontros, em 1975, com Juscelino Kubitschek no Banco Denasa, do qual ele era presidente do Conselho de Administração (o banco era dos seus genros), Juscelino me contou que teve uma crise de choro em Belo Horizonte no Palácio da Liberdade, quando o doutor João Pi­nheiro Neto, seu oficial de gabinete (Juscelino era o governador de Minas), começou a lhe dar informações, na manhã do dia 24 de agosto de 1954, sobre o suicídio de Getúlio Vargas. Eu ousei dizer ao criador de Brasília, naque­la ocasião:

-Presidente, além das suas lágrimas derramadas pela morte do Getúlio, eu sei que o senhor teve outra crise de choro.

Surpreso, abrindo mais os olhos, ele pediu:

-Então me conte como eu tive esta outra crise. Quero ver se você é um escritor muito bem informado.

Comecei a narrar:

-No mês de junho de 1964, devido a uma iniciativa do general Costa e Silva, o seu mandato de senador foi cassado. E os militares, estimulados pelo Costa, também suspenderam os direitos políticos do senhor por dez anos. Não é verdade?

Juscelino concordou:

- Pura verdade. E confesso, decidi sair do Brasil por causa disso. Viajei para a Europa no dia 14 de junho de 1964. Mas prossiga.

Os olhos do ex-presidente, que às vezes forneciam a impres­são de ser de um chinês, revelavam uma viva curiosidade. Eu continuei:

-Centenas de pessoas o acompanharam na sua despedida. Um gru­po de homens ergueu o senhor no ar e o carregou sob palmas, aclamações, até a escada do avião. Repito, eram centenas de pessoas que gritavam “vivas”, e o senhor, emocionado, agitava um lenço branco.

Juscelino confirmou:

-É verdade, eu me emocionei, senti o amor de povo, o seu

carinho por mim.

-Dentro do avião - prossegui - o senhor não pôde mais se con­trolar e caiu num choro forte. Levou o seu lenço branco ao rosto e o encharcou com as suas lágrimas.

Cheio de espanto, Juscelino Kubitschek admitiu:

-Também é verdade, mas como veio a saber desses fatos?

-Presidente, quem me contou esses fatos foi o meu amigo Silveira Bueno, catedrático de filologia portuguesa da Universidade de São Paulo. Ele já se encontrava naquele avião, quando o senhor entrou. Viu o seu embarque, de uma das janelas do aparelho, e o seu choro, pela fresta de uma cortina grossa. O lugar em que o senhor se acomodou era isolado, no fundo do avião, mas o professor Silveira Bueno estava sentado junto da cortina...

O ex-presidente fez o seguinte comentário:

- Se você escrever a minha biografia, decerto evocará este episódio. Chorei muito, lá dentro do avião, porque eu vi, ao embarcar para o exílio, como o povo brasileiro me amava.

E Juscelino também não impediu o jorro das lágrimas em outra ocasião, pois no ano de 1973, graças a iniciativa do empresário João Abujamra,o Clube Nacional da capital paulista o homenageou com um almoço.

Vários oradores enalteceram o estadista nascido na cidade mineira de Dia­mantina. Mas ao ouvir o discurso do meu pai, o grande orador Salomão Jor­ge, que descreveu a sua infância de menino pobre, descalço, filho de uma heróica e modesta professora, Juscelino chorou copiosamente. Ali, naquele momento, todos puderam ouvir até os seus soluços. João Abujamra, leal ami­go do “Peixe Vivo", é testemunha desse fato.

            Um pensamento de Franz Grillpazer (1791-1872), poeta e dramaturgo alemão:

“As lágrimas são o sagrado direito da dor.”

(“Die Thränen sind dês Schmerzes helig Recht!”)

domingo, 11 de janeiro de 2015

O ASSALTO DO GOVERNO LADRÃO


Sujeira, porcaria, fez o presidente Collor, antes do confisco da poupança decretado por ele, como revela esta manchete da edição do dia 22 de agosto de 1992 do “Jornal do Brasil”:

          “Collor e PC Farias escaparam do bloqueio dos cruzados em 1990”.

          E eis a manchete, também de primeira página, na mesma data, da “Folha de S.Paulo”:

          Dinheiro de Collor foi sacado na véspera do confisco da poupança.

          No dia 13 de março de 1990, véspera do feriado bancário, a senhora Ana Acioli, secretária do presidente, retirou da conta deste, no BMC de Brasília, uma quantia que hoje corresponde a 443 milhões de reais. Segundo o depoimento da secretária à CPI, “nunca saiu um centavo daquele banco, sem o prévio conhecimento de Collor”.

          Portanto, como salientou o “Jornal do Brasil”, o presidente, poucas horas antes do bloqueio do dinheiro, “tratou de salvar a própria pele”. Aqui podemos evocar a velha frase de um político desonesto, porém “moralista” para efeitos externos:

          -Façam o que eu digo, mas não façam o que eu faço.

          Já existe esta outra prova: os assessores da ex-ministra Zélia Cardoso de Mello receberam 320 mil dólares do Esquema PC. Uma empreiteira, de modo suspeito, fez a reforma do seu apartamento, reforma que custaria agora, corrigidos pela variação do câmbio livre, 351 milhões de reais! E Zélia era “uma mulher pobre, sem recursos”.

          Quando houve o sequestro do suado dinheiro do povo, um grupo de jornalistas foi entrevistar a ex-ministra. Sentados em várias cadeiras, aguardavam as suas declarações, quando ouviram as gargalhadas que ela soltava através da porta semi-aberta, junto dos seus assessores:

          -Ha, ha, ha, ha! Este zé-povinho estava pensando que eu era mole! Ha, ha, ha, ha, ha, ha! Eu não sou mole, não! Ha, ha, ha, ha! Este zé-povinho está muito mal acostumado, só quer consumir! Mas comigo vai ser duro, pois eu sou a Margareth Tatcher, a dama de ferro da economia brasileira! Ha, ha, ha, ha! E essa gente pode desmaiar e até morrer lá nas filas dos bancos, das agências das caixas-econômicas, porque comigo é assim, não tem conversa, não! Ha, ha, ha, ha, ha, ha!

          Oito jornalistas ouviram estas palavras e estas gargalhadas da Zélia, atrás da porta. Tenho no meu arquivo o depoimento deles, narrando isto, com as assinaturas reconhecidas em tabelionatos.

          Logo após o confisco do dinheiro, determinado pelo governo Collor, o senhor Lourival Ricardo Drewnick, de sessenta e um anos, sofreu um derrame cerebral. Ele morava em Santos, num apartamento da Praia Grande, e tinha 750 mil cruzeiros numa caderneta de poupança. Quis retirar esse dinheiro bloqueado, com o objetivo de tratar da saúde, mas o Banco Central não permitiu. Drewnick se sentia humilhado, profundamente deprimido, por ter de pedir empréstimos a parentes e amigos. Técnico em sistemas de refrigeração, o sexagenário recebia, na qualidade de aposentado, cerca de 60 mil cruzeiros mensais, dinheiro insuficiente para cobrir as despesas do seu tratamento médico. Repleto de angústia, de desespero, ele resolveu suicidar-se no Dia do Aposentado, como forma de protesto. Disparou um tiro na cabeça e deixou este bilhete:

          “Deus me perdoe, mas não aguento mais tanta dor e ver a miséria chegando. Maldito Collor, ladrão de velhos e aposentados. Dedico a ele a minha morte”.

          (Consultar a notícia “Poupança presa leva aposentado ao suicídio”, publicada na edição do dia 21 de janeiro de 1991 do jornal “O Estado de S. Paulo”).

          Ao decretar o confisco da poupança, ao trair a sua palavra, Collor apunhalou o povo pelas costas. Naquela época eu comentei:

          -Estamos diante de uma canalhice monumental, de uma prova sólida, incontestável, de absoluta falta de caráter.

          O assalto do governo Collor, desse governo ladrão, gerou uma crise gravíssima no comércio e na indústria. Esta deixou de produzir e o comércio de vender, pois o consumo caiu verticalmente. Ninguém tinha dinheiro. Consequência: veio a crise social, a recessão, o desemprego.