domingo, 14 de setembro de 2008

Ler Paulo Coelho? Só se for para o corrigir

“A admiração, freqüentes vezes, é filha da ignorância”
Provérbio árabe

“O ignorante se irrita com o entendido”
Provérbio alemão

Vários estudantes dos cursos de jornalismo da PUC de Minas Gerais, da UCAM do Rio de Janeiro e da UFSM do Rio Grande do Sul, em cartas enviadas a mim, querem saber se os livros do Paulo Coelho são modelos de boa linguagem.
O autor de A bruxa de Portobello se enfureceu após eu afirmar, numa crônica, que ele ignora esta regra gramatical: não se separa por vírgula o verbo do sujeito. Paulo Coelho comentou, no decorrer de um programa de televisão apresentado em Belo Horizonte:
-E daí? Que importância tem que eu separe por vírgula o verbo do sujeito?
Ora, o escritor capaz de perpetrar este erro, mostra-se um apedeuta, um soberbo ignorante, pois o sujeito é o termo essencial da oração, indica o ser do qual se diz algo e revela, na maioria das vezes, quem executa a ação, o agente do processo verbal. Salientemos: a função sintática do sujeito pode ser exercida por um substantivo. Exemplo:
“A coruja piou durante toda a noite”.
Como o Paulo Coelho separa por vírgula o verbo do sujeito, esta frase nas suas mãos ficaria assim:
“A coruja, piou durante toda a noite”.
Do ponto de vista material, o Paulo é um vencedor. Cerca de 74 editoras, em todo o mundo, lançam os seus livros para mais de 100 milhões de leitores. É lido em 76 línguas e em 160 países. Recebeu mais de 70 prêmios. As honrarias o acompanham. Tornou-se membro da Academia Brasileira de Letras, o Mensageiro da Paz e o Embaixador Europeu da Cultura, pela ONU, um cavaleiro da Ordem Nacional da Legião de Honra da França, criada por Napoleão. Imensamente rico, Paulo Coelho vive num vasto apartamento parisiense do sofisticado Distrito XVI.
De que modo explicar a razão de tamanho sucesso? Ele é a nulidade literária vitoriosa, um escritor incorreto, mediocríssimo, de quinta ou oitava categoria. Eis as causas de sua fama imerecida:
I- A onda de esoterismo que o favoreceu desde o ano de 1987, quando estreou na subliteratura com o abominável Diário de um mago.
II- O despreparo, a falta de cultura dos seus leitores, que não sabem discernir, ponderar, pois é ela – a cultura – que fornece o senso crítico, a capacidade de avaliação. E hoje existem milhões de leitores ignorantes, até mesmo nos países mais cultos, como a França, a Inglaterra, a Itália, a Alemanha.
III- Paulo Coelho é assunto obrigatório da mídia. Se esta decide prestigiar alguém - por mais medíocre ou nulo que seja o beneficiado - os meios de comunicação, a tv, os jornais, as revistas, vão sempre lhe dar cobertura.
O último livro de Paulo Coelho é autêntica subliteratura. Possui um enredo cinematográfico, no pior sentido. Corresponde a um péssimo filme de terror, produzido na Boca-do-Lixo de São Paulo. Intitula-se O vencedor está só e foi inspirado, salta à vista, na história de Jack, o Estripador, o serial killer que em Londres, a partir do mês de agosto de 1888, assassinou diversas prostitutas, cortando-lhes a garganta, extraindo as suas vísceras, os seus úteros, os seus ovários, partes da bexiga.
Mas o que impressiona, no novo livreco do Paulo Coelho, mais do que a história frágil, anêmica, é a enorme quantidade de absurdos, de lugares-comuns, de erros de português, de impropriedades lingüísticas.
Coelho gosta de soltar disparates. Na opinião dele, depois de mais de cinco anos de casamento, o homem e a mulher, todos, sem exceção, querem cometer adultério. Papai tenta cornear mamãe e mamãe tenta cornear papai (página 229).
No seu último livro, que parece o aborto monstruoso de uma cafetina sifilítica, os lugares-comuns se sucedem: “foi obrigado a percorrer um caminho árduo” (página 139); “guerras sangrentas” (página 163); “passado remoto” (página 186); “verdadeiro clima de histeria” (página 272); “morrendo de tédio” (página 272); “custos proibitivos” (página 289); “camisa imaculadamente branca” (página 290); “tinha uma vida inteira pela frente” (página 344); “às vezes, os sonhos se transformam em pesadelos” (página 364).
Só os escritores insignificantes, sem talento, usam estas expressões gastas, estes lugares-comuns mais surrados do que uma gigolete por um gigolô...
Erros gravíssimos de português não faltam nas páginas do romanceco O vencedor está só. Assemelham-se ao desfile de um interminável exército composto de soldados capengas, descalços, famintos, em molambos.
Paulito Coelhito, por ser um escritor tão fraquito, não sabe que o correto é “sentar-se à mesa” e não “sentar-se na mesa”. Quem o lê tem a impressão de que ele, quando quer almoçar ou jantar lá em Paris, prefere pousar as suas bem nutridas nádegas em cima das mesas dos restaurantes Apicius, da avenida de Villiers; do Le Pré Catelan, do Bois de Boulogne; do Au Trou Gascon, da rua Taine; do Le Pavillon Montsouris, da rua Gazan... Aqui vai a prova:
“Depois da quinta pessoa a sentar em sua mesa” (página 20); “sentar-se na mesa para conversar” (página 110); “sentar-se na mesa sem pedir permissão” (página 113); “ sentou-se na mesa do canto” (página 368); “sentada naquela mesa” (página 372).
Portanto, amigo leitor, se você for a Paris e entrar no restaurante Le Train Bleu, em estilo Belle Époque, da Gare de Lyon, e ali puder ver o Paulo Coelho devorando uma suculenta salsicha lionesa, com a sua fofa região glútea posta em cima de uma das mesas cobertas de toalhas azuis, por favor, não se escandalize, pois a riqueza do escritor mais errado do nosso planeta lhe permite fazer qualquer extravagância...
Paulo continua a não saber usar a combinação da preposição em com o pronome demonstrativo aquele, na sua forma feminina, como se vê na página 131 de O vencedor está só:
...“terminava matando duas pessoas inocentes aquela manhã”.
Foi a manhã que matou as duas pessoas? Correção: “...naquela manhã”.
Ele também não sabe que a preposição para atrai o pronome se, nestas duas frases: “...para masturbar-se...”(página 201), e “...para distrair-se...” (página 345).
Na página 212 encontrei este despropósito: ...“parecia congelar de frio”. Pergunto: alguém se congela de quente? Além disso o verbo congelar, no trecho acima, é pronominal: congelar-se.
Vou parar aqui. Os erros gramaticais do Paulo Coelho são infindáveis e combinam com o seu sobrenome, pois eles se multiplicam mais do que os coelhos da Austrália.

9 comentários:

Cediaz disse...

Caro Fernando concordo inteiramente. Não foram poucas as vezes que ao comentar sobre a mediocridade do autor, como resposta fui informada de seu sucesso na Europa, e o que isso prova? Que na Europa a mediocridade também tem lugar. O autor aproveitou a onda do esoterismo e contou com o acolhimento da mídia. Será que daqui a 20 anos, alguém lembrará do autor e da obra?

garrafa e mar disse...

Mas o que tanta gente vê nele de bom?

Isso você não conseguiu responder. Fazer referência a uma "moda esotérica" é um lugar-comum, pois que eu saiba o esoterismo sempre fez parte de nós.

Abraços !

rúcula** disse...

conheci paulo -arghs - em cuiabá, qdo
esteve desenvolvendo um laboratório de teatro para jovens iniciantes na área. paulo cita em seu 1º livro a sua passagem por mato grosso e como,
a partir da experiência vivida, foi à cata de outros rumos.
da experiência aqui vivida deixou um saldo terrível:suicídio de jovem do interior em choque com o novo q lhe fora apresentado pelo mestre.
qto à onda de esoterismo é bom que se lembrem dos estudos medievais q
foram ocupando espaço nas salas de
aula de nossas universidades e que resultaram em trabalhos acadêmicos
de alto nível e reconhecidos em td
a europa.
a sua guinada para a bruxaria foi o
maior erro de interpretação de um
movimento histórico riquíssimo.
pena!

Ruy disse...

nao tenho nada contra Paulo Coelho, hahahhah nem a favor, achei interessante vosso comentario uma vez que nao gosto de ver pessoas fazendo sucesso sem merece-los,,,(oportunistas), talvez eu esteja errado, mas gostei do artigo.

ruy

carol disse...

Também não tenho nenhum comentário a fazer em relação as pronúncias de Paulo Coelho. Mas, não posso negar que acho muito difícil alguém usar corretamente o nosso Português que considero a lingua mais difícil de se aprender.

Marco Lima disse...

Parabens pelo texto. Definitivamente, desmitifica e esclarece a quem ainda tem suas duvídas.
Nada contra leitores de PC (com o perdão do trocadilho, “Pau no Cuelho”, como dizem uns) ou contra ele, e sim, contra a idéia que se formou em torno de alguém que de fato ganhou espaço com a onda exotérica do começo dos anos 90 mas que tem o mesmo valor de outros como Zibia Gaspareto, Augusto Cury, Dan Brown, etc. Ou seja, não serão póstumos como J. Saramago e Gabriel Garcia Marques porque independente de ser ficção ou não, tais autores (P. Coelho, D. Brown, etc) não tem uma literatura voltada para seu tempo. Daqui há 50 anos, não haverá nada para se aproveitar deles enquanto literatura de valor. Ao contrário de outros. Marcelo Paiva por exemplo tem uma literatura com olhos pra sua época e perigas ser póstumos apesar de erros de português. Até porque, erros de português, até Kafka e Pessoa cometiam. O problema que vejo é o conteúdo e nisso, Paulo Coelho não tem, logo, futuramente revisores podem acertar erros aqui e acolá, mas isso não fará sua obra ser respeitada no futuro.
A única vez que o li, isso a uns 10 anos antes de entrar na faculdade de Letras, foi o tal "O Alquimista". Naquela época queria entender a razão daquele alvoroço em cima dele. Terminei a leitura do livro decepcionado com o conteúdo e a linguagem. Anos depois, após ler outros mestres da nossa literatura e ignorar de propósito PC, outra decepção. Eis que tal escritor entra para os eternos na academia. Lamentavel mesmo é nivelarem por baixo Machado de Assis e Guimarães Rosa colocando-os no mesmo valor de um PC. Isso mostra que brasileiro (como diria Itamar Assumpção) é aculturado mesmo.

EQ01 disse...

Oi. Desculpe a minha ignorância. Mas o título do seu texto não seria "Ler Paulo Coelho? Só se for para corrigí-lo"?

ESSA É A VIDA disse...

A inveja é muita mais feia , do que os erros de portguês, todo mundo deve ter uma chance, inclusive quem é impecável no na gramática.

Antonio Candido disse...

Todos deveriam ler os livros de Paulo Coelho com bom senso e buscar motivos menos preconceituosos para tentar entender porque esse autor faz tanto sucesso.Dizer que seus leitores são medíocres é de uma estupidez sem limites,mostrando que há forte repúdio a uma classe menos privilegiada e incapaz de atingir um nível de escolaridade ideal tão importante ao exercício pleno da cidadania.
Chegaram ao absurdo de dizer que o PC não merece todo esse sucesso.Como assim,não merece?Quem determina isso são os leitores e não alguém com uma visão elitista,incapaz de reconhecer em PC um escritor de verdade.
Se for para corrigir a gramática do escritor,façam de uma maneira menos mesquinha e grosseira porque Paulo Coelho é um sucesso mundial e ninguém faz sucesso por acaso .