domingo, 14 de outubro de 2018

Um ensaio fascinante


Gabriel H. Kwak, com o livro O trevo e a vassoura: os destinos de Jânio Quadros e Adhemar de Barros, prova que é um ensaísta admirável. Dono de estilo límpido e fluente, ele magnetiza o leitor desde a primeira até a última página da sua obra. Sim, magnetiza, pois tudo que narra, que evoca, que comenta, é curioso, inédito, muito interessante. O estilo de Gabriel nos traz à memória a seguinte frase de Voltaire, colocada no prefácio da comédia L'enfant prodigue:
"Todos os gêneros são bons, exceto o gênero tedioso.”
("Tous les genres sont bons, hors le genre ennuyeux”).
Para escrever esta obra ricamente documentada, o autor entrevistou 114 pessoas. Colheu os depoimentos de ex-secretários de Estado, como Erasmo Dias. e Raphael Baldacci; de ex-ministros, como Delfim Netto e Jarbas Passarinho; de ex-governadores, como Paulo Egydio e Laudo Natel; de políticos prestigiosos, como Mário Beni, Gastone Righi, Farabulini Júnior, João Mellão Neto e José Aparecido de Oliveira; de expoentes da nossa imprensa, como Mino Carta, Israel Dias Novaes, Marcelo Coelho, Ruy Marcucci, Carlos Brickmann, João de Scantimburgo, José Yamashiro. E fato digno de ser salientado: a copiosa documentação, em nenhum momento, prejudicou a fluidez da linguagem de Gabriel H. Kwak, não a tornou pesada, indigesta. Pelo contrário, fez o texto ficar ainda mais leve e atraente.
Gabriel adotou o método do inglês Lytton Strachey, o arguto biógrafo das figuras da era vitoriana. Lytton mostrou isto nos seus livros: do conjunto de pormenores, da arte de apresentar certos episódios aparentemente insignificantes, nasce a visão geral de tudo, o quadro completo de uma vida multifacetada. Como disse B. Ifor Evans, em A short history of english literature, o minucioso Lytton Strachey quebrou a tradição das "biografias piedosas" do século XIX. À semelhança de Fustel de Coulanges, o fundador da ciência histórica na França, esse biógrafo da pátria de Churchill achava que o começo da pesquisa, no setor da História, consiste em duvidar, verificar e procurar. Outra coisa não tem feito, nas suas notáveis investigações de assíduo frequentador de arquivos e bibliotecas, o brasileiro Gabriel H. Kwak, jornalista, historiógrafo, professor, autor de excelentes artigos publicados nas revistas IMPRENSA e Cultura do Direito, esta da Fundação Getúlio Vargas.
Gabriel revela, na "Nota explicativa”, que se inspirou no exemplo das Vidas paralelas de Plutarco, obra na qual este descreve a existência de 46 homens célebres, gregos e romanos. Sob o estimulo de ardente amor às minúcias, Lytton Strachey deve ter haurido inspiração em Plutarco.
Saboreando as deliciosas minúcias do livro de Gabriel H. Kwak, eu experimentei a impressão de ver outra vez, na minha frente, o meu amigo Jânio da Silva Quadros, de quem fui confidente. Ele, Jânio, parece saltar das páginas desta obra, como se estivesse vivo. A figura aqui descrita de Adhemar de Barros, que frequentava a casa do meu pai, Salomão Jorge, líder na Assembleia Legislativa de São Paulo, causa-me a mesma impressão. É a força do talento de Gabriel H. Kwak. O seu fascinante ensaio confirma o juízo de Ramalho Ortigão, expresso no volume III de As farpas: “Uma biografia não pode ser outra coisa senão a investigação a posteriori das influências biológicas e sociais que, incidindo no individuo, determinam a série de movimentos a cujo conjunto se chama um destino.”

Nenhum comentário: