sábado, 19 de setembro de 2015

O CEMITÉRIO DOS VELHACOS

Um comerciante de Pindamonhangaba afixou, à porta do seu estabelecimento, enorme quadro com di­versas sepulturas desenhadas. A tela chama-se "Cemi­tério dos Velhacos". À medida que os fregueses pouco habituados a saldarem suas dívidas vão se esquecendo de pagá-las, ele coloca, numa das covas, o nome do caloteiro.
-Esse método de "enterrar" os devedores relapsos - diz o comerciante - está surtindo ótimos efeitos.
O problema das dívidas é muito complexo, porque deparamos com casos especiais. Condenar, sistematicamente, qualquer fulano que não soluciona os seus compromis­sos econômicos, é ser rigoroso em demasia. Acusar, de modo indiscriminado, os credores, constitui outro erro. Afinal de contas, para tudo existe exceção. Estamos diante da vida como um sujeito que presencia ruidoso espetáculo de variedades, ora dramático, ora cômico.
Há um estado de espírito que merece o estudo dos psiquiatras: denomina-se obsessão pelas dívidas. Vultos eminentes padeceram dessa neurose.
O pavor aos credores provoca fugas rocambolescas. Alexandre Dumas, em apertos econômicos, refugiou-se na Bélgica, onde se avistou com Víctor Hugo. Era um exilado financeiro encontrando-se com um exilado político.
Charles Dickens, um dos grandes romancistas da Inglaterra, curtiu uma infância melancólica, escutando as ameaças e os impropérios dos agiotas que vinham cobrar contas do seu progenitor. Volta e meia os oficiais de justiça arrancavam um traste da casa de John Dickens. A fome era a única inquilina satisfeita no lar miserável. Por fim o pai de Dickens foi preso, e o filho, em tenra idade, teve de também prover o sustento da numerosa família, empregando-se numa fábrica de graxa.
E os habilíssimos estratagemas utilizados pelos devedores insolventes? Enumerá-los seria tarefa infindável. Limitar-me-ei a narrar um episódio quase ignorado.
Durante a Revolta da Armada, o advogado Lopo de Godefroi ajudava Floriano Peixoto nas investigações contra os insurretos. Certa manhã apareceu no gabinete e logo segredou ao Consolidador da República:     
-Marechal, acabo de averiguar que determinado capitalista fornece meios para fomentar a revolta.
Floriano, após saber o nome por extenso do acusado, ordenou a sua detenção imediata. O homem compareceu trêmulo, lívido, perante o sucessor de Deodoro:
-Senhor marechal - balbuciou - não conheço inimigo capaz de me caluniar, a não ser um: o advogado Lopo de Godefroi. Ele me assinou uma promissória de vários contos de réis, vencida exatamente no dia em que fui detido. Recusei-me a reformá-la. Talvez venha dele essa denúncia falsa. Seria uma forma de furtar-se ao compromisso.
Floriano ouviu com toda atenção o acusado. Apurando a verdade, não vacilou em mandar substituir, no cárcere, o inocente credor pelo causídico infame.
As dívidas são verrumas que Iaceram a consciência de alguns, deixando sulcos profundos, às vezes indelé­veis. Em outras ocasiões, conforme o devedor, pesam menos que uma pluma...
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Escritor e jornalista, Fernando Jorge é autor do livro Se não fosse o Brasil, jamais Barack Obama teria nascido, cuja 6ª edição foi lançada pela Editora Novo Século

2 comentários:

Ana Carolina disse...

Olá! Estou fazendo um trabalho sobre o seu livro "Cale a boca, Jornalista!" na Universidade e gostaria de fazer algumas perguntas para você. Por favor, entre em contato comigo! Att., Ana Carolina

Ana Carolina disse...

Por favor, me responda!! Aguardo ansiosamente a sua resposta.