domingo, 19 de abril de 2015

Fernando, vamos ser fuzilados?

No ano de 1965 apareceu o romance Falência das elites, assinado pela Adelaide Carraro, mas na verdade escrito pelo jornalista Hélio Siqueira, dos Diários Associados do Assis Chateaubriand. Eu redigi e assinei o texto das orelhas do livro, que narra o drama de um médico negro, visto com nojo, repulsa, num círculo de pessoas brancas da “elite”. A rigor, a obra é uma denúncia contra o preconceito racial.
O jornal O Globo, do Rio de Janeiro, informou na edição do dia 4 de abril de 1965, que por ordem do Ministério da Justiça, agentes do Serviço de Ordem Política e Social apreenderam o romance Falência das elites, considerado subversivo. Esta notícia reproduziu a minha opinião sobre o livro. Ao lê-la, disse a mim mesmo: vou ser processado pelos militares da Linha Dura, os “gorilas”.
Assim aconteceu. Fui intimado a ir depor numa sala de um edifício do Pátio do Colégio, da capital paulista. Dois soldados de capacetes brancos, munidos de metralhadoras, levaram-me num jipe até lá. Ao entrar na sala, escoltado pelos dois soldados como se eu fosse um prisioneiro de guerra, ouvi a seguinte pergunta do editor do livro, o judeu búlgaro Eli Behar, de pé junto à porta, pálido como quem se acha prestes a desmaiar:
-Fernando, vamos ser fuzilados?
Eu quis saber:
-Por quê?
Respondeu, cada vez mais pálido:
-Porque na Bulgária os réus iguais a nós, em casos desse tipo, são logo fuzilados.
Sorrindo, tentei acalmá-lo:
-Espero que não. O Brasil é diferente da Bulgária...
Cercado por soldados fortemente armados, sentei-me diante de um coronel do Exército, em cujo peito reluziam as suas condecorações. Ao lado dele, um escrivão e o promotor Dragamiroff, da Justiça Militar. O coronel, homem alto, imponente, de faces rubicundas, pronunciou esta frase:
-Fernando Jorge, o senhor, que escreveu um livro famoso sobre o Aleijadinho, faz de modo claro o jogo dos comunistas.
-Eu? Não estou entendendo.
-O romance Falência das elites, elogiado pelo senhor, garante que há preconceito de raça no Brasil. Tal preconceito não existe em nosso país. Somos a maior democracia racial do mundo, como declarou o seu colega Gilberto Freyre. Os que sustentam que há aqui aversão aos negros são os marxistas-leninistas, a fim de forçar o povo a se revoltar contra nós, os militares, as autoridades constituídas, por fecharmos os olhos diante desse preconceito.
Fiquei estupefato ao ouvir estas palavras, mas reagi:
-Senhor coronel, me desculpe, no Brasil existe esse preconceito.
-Não há, se existe quero que o senhor prove – replicou de cara brava.
-Eu não tenho as provas aqui, mas é um fato de conhecimento geral.
-Repito – disse o coronel, irritado – não há esse preconceito, é um plano diabólico dos marxistas-leninistas para jogar o povo contra nós, os militares, as autoridades constituídas. Prove a existência desse preconceito, eu exijo!
Os olhos do militar pareciam lançar fagulhas. Respondi, esforçando-me em me manter tranquilo:
-Senhor coronel, permita que eu me concentre, para me lembrar de uma prova e apresentá-la.
Ele respondeu, com voz enérgica:
-Autorizo o senhor a pensar.
Autorizado a pensar (que beleza!), eu me concentrei, buscando a tal prova. Junto de mim, branquíssimo, quase a desmaiar, o editor Eli Behar me olhava aflito, como alguém prestes a morrer sob uma rajada de metralhadora. De súbito, a minha boa memória me ajudou:
-Senhor coronel, se o senhor pedir a qualquer desses soldados para ir apanhar a prova, poderei mostrar como realmente existe o preconceito de raça no Brasil.
E apontei para um soldado com cara de buldogue e corpão de orangotango.
-Não – replicou o coronel – não precisa ser este soldado. Chamarei o meu ajudante-de-ordens.
Tocou uma campainha e logo apareceu um militar baixinho, que lhe fez continência. Solene, empertigado à maneira de feroz agente da Gestapo na Alemanha nazista, o coronel me encarou, determinando:
-Ordeno-lhe que diga o que quer.
-Peça ao seu ajudante-de-ordens, por favor, que vá às sedes dos principais jornais de São Paulo e traga exemplares dessas folhas do dia 10 deste mês.
O coronel deu a ordem, o auxiliar lhe fez outra vez continência e afastou-se. Suspenso o interrogatório, pensei: se a minha memória falhou, estarei frito.
Depois de quase duas horas, o ajudante-de-ordens surgiu com um pacote. Pedindo licença, colocou o embrulho em cima da mesa do coronel. Este, sempre pomposo, dirigiu-se a mim:
-Aí estão os jornais. Ordeno, agora, o senhor prove que existe realmente preconceito racial no Brasil.
Abri o pacote, o meu coração batia apressado, e examinei o primeiro jornal. Era o Diário da Noite. Rápido, achei nele a notícia sobre um casal de advogados, marido e mulher, impedidos de se hospedarem no Hotel Esplanada, devido ao fato de serem negros. Então, por causa disso, o casal resolveu processar os donos do hotel, evocando a Lei Afonso Arinos, que proíbe o preconceito racial. Dobrei o jornal e o exibi:
-Aqui está a prova, senhor coronel.
Ele ficou surpreso, mas não quis se dar por vencido:
-Trata-se de um episódio isolado. Continuo a afirmar, não existe preconceito racial no Brasil. Apresente-me outra prova.
Solicitei, com voz suave:
-O senhor permite que eu me concentre?
Vacilou um pouco, mas consentiu:
-Autorizo o senhor a pensar.
Autorizado pela segunda vez a pensar (que beleza!), concentrei-me e falei, após dois minutos:
-Senhor coronel, não conheço nenhum almirante da nossa gloriosa Marinha de Barroso e Tamandaré que é preto retinto. É mais uma prova.
Soltei estas palavras de cabeça baixa, sem fitar o seu rosto, e ia dizer, senhor coronel, também não conheço nenhum general do nosso glorioso Exército de Caxias e Osório que é negro como o Pelé. Ia dizer, mas desisti, silenciei, pois quando ergui a cabeça ele me olhava com a cara de um criminoso sádico, bebedor de sangue.
No fim do interrogatório, após eu assinar um documento, o coronel rugiu:
-Levante-se. Ordeno que o senhor se retire.
Aliviado, fui embora. Ficou lá, tremebundo, quase a se derreter como manteiga aquecida, o Eli Behar, editor do “livro subversivo” Falência das elites, da Adelaide Carraro.
Jô Soares ouviu tudo isto no seu programa, ao me entrevistar pela primeira vez (entrevistou-me duas vezes). Depoimento prestado por mim, no meu lar, à Comissão Nacional da Verdade, estando presente a senhora Maria Luci Buff Migliori, de Brasília, consultora dessa comissão.
Aliás, o preconceito racial continua a existir no Brasil. Há pouco tempo o professor de economia Manoel Luiz Malaguti, da Universidade Federal do Espírito Santo, confessou aos seus alunos que se tivesse de “escolher entre um médico branco e um negro, escolheria o branco”. O Ministério Público Federal instaurou, contra esse racista, procedimento investigativo criminal (O Globo, 6-11-2014).

domingo, 25 de janeiro de 2015

Chamei de cagão, na frente dele, o governador de São Paulo

Antes de contar porque chamei de cagão o governador de São Paulo, na frente dele, preciso dizer uma coisa. O que vou narrar aqui foi gravado pela Comissão Nacional da Verdade, com a presença da consultora Maria Luci Buff Migliori, de Brasília. A comissão esteve no meu lar por este motivo: fui processado quatro vezes, na época do regime militar, como “escritor e jornalista, perigoso, subversivo.”
Passo a expor a história do xingamento. A Editora Mc-Graw-Hill do Brasil, cuja sede é em Nova York, no ano de 1976 incumbiu-me de escrever um livro sobre o governo Geisel, de caráter documental. Então produzi, em dois meses, a obra As diretrizes governamentais do presidente Ernesto Geisel – Subsídios e documentos para a história do Brasil Contemporâneo. O brasilianista Thomas Skidmore, professor de História da América Latina na Universidade de Wisconsin, recomendou a leitura desse meu trabalho no capítulo VI do seu livro He politics of military rule in Brazil 1969 - 85.
Mesmo contra a minha vontade, a Mc-Graw-Hill resolveu enviar uma cópia do original para o ministro Golbery do Couto e Silva, chefe do gabinete civil do presidente Ernesto Geisel. Sete dias depois os americanos me chamaram com urgência à editora. Lá, na presença do gerente Jan Rais, ouvi estas palavras de um gringo louro, cujo rosto largo, redondo, corado, parecia uma rósea bunda feminina bem nutrida:
-Sanhorr Farrnandu, ministru Gulbirri telafunou di Brrázilia i nus acunsilhô a non publicar seo livrru.
Devolveram-me o original e veloz, sem perda de tempo, procurei um editor que o aceitou, apesar de ter lhe contado tudo, a proibição do general Golbery, etc. O livro logo saiu. Eu era, na época, chefe da Divisão Técnica de Biblioteca da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo.
Certo dia, uma semana após o lançamento da obra, encerrado o expediente da minha seção, achava-me sozinho na biblioteca da Assembleia. Eram oito horas da noite. De súbito entraram no recinto seis homens mal encarados. Vi que carregavam armas, revolveres, fuzis. Aproximaram-se de mim, acompanhados pelo investigador Wilson de Barros Consani, da Secretaria da Assembleia. Um desses fulanos declarou:
-Somos policiais da Secretaria da Segurança e recebemos ordens para levar o senhor preso até o DOPS.
Surpreso, indaguei:
-Por qual motivo?
A resposta veio firme, incisiva:
-É porque o senhor escreveu um livro.
-Ué, agora escrever livro é crime?
-O senhor escreveu um livro sobre o presidente Geisel e a obra foi considerada perigosa, subversiva. E além disso, por causa do senhor, o governador Paulo Egydio não dormiu a noite inteira.
-Por minha causa?
-É, por sua causa, pois o governador soube que aparece no seu livro. Ele não quer que o presidente Geisel pense que é amigo de um escritor perigoso, subversivo.
-Incrível, não acredito! – respondi – O senhor está falando sério, o governador ficou sem dormir à noite inteira, por minha causa?
-Sim, repito, não dormiu a noite inteira por sua causa. A esposa dele está preocupada. Abatido, nervoso, às sete horas da manhã o governador chamou o coronel Erasmo Dias, secretário da Segurança, e pediu para ele tomar enérgicas providências. O coronel telefonou para o Palácio da Alvorada, em Brasília, e obteve do ministro Golbery a autorização de mandar prender o senhor, de levá-lo até o DOPS.
Reagi, de maneira rápida:
-Ah, São Paulo não merece isto! São Paulo, juro, não merece isto!
Os policiais arregalaram os olhos, não entenderam. Continuei:
-São Paulo, o heróico estado dos corajosos bandeirantes Borba Gato e Raposo Tavares, dos bravos soldados da Revolução Constitucionalista de 1932, não merece isto, não merece isto!
-Não merece o quê?
-Não merece estar sendo dirigido por um governador medroso, cagão!
O chefe dos policiais aconselhou:
-Acalme-se, não se revolte, estamos cumprindo ordens. É melhor o senhor no acompanhar.
Tranquilo repliquei, embora com o meu esbraseado sangue árabe fervendo nas veias:
-Só sairei daqui se os senhores me algemarem e me arrastarem, porém advirto, a situação agora é outra. Lembrem-se da morte do Herzog e do operário Manuel Filho. Não ficarei muito tempo preso. Assim que sair do DOPS, vou processar o governador Paulo Egydio e o secretário Erasmo Dias, porque estou totalmente inocente, Consequência, o governador vai ficar com fama de cagão, de palhaço, de sujeito apavorado, ridículo.
Vendo a minha reação, o investigador Wilson de Barros Consani (ele está vivo, é testemunha) pegou o telefone e ligou para o doutor Romeu Tuma, diretor do DOPS, a fim de explicar o que estava acontecendo. Em seguida o Tuma quis falar comigo. Calmo, esclareci:
-Doutor Tuma, recuso-me a ir preso até o DOPS. Não cometi nenhum crime. Sou inocente. Se eu for, terá de ser à força, terei de ser algemado e arrastado. E reafirmo, após sair do DOPS, vou processar o governado Paulo Egydio e o secretário Erasmo Dias, devido a este ato de arbítrio, de violência injustificável. O governador vai fazer o papel de palhaço, de cagão, e ficará desmoralizado.
O diretor do DOPS respondeu:
-Não precisará agir assim, doutor Fernando. Pedirei ao coronel Erasmo Dias para revogar a ordem da sua prisão. Só lhe peço o obséquio de conceder o seu depoimento aí mesmo, na Assembleia. Vou mandar um escrivão e duas testemunhas. Concorda?
Aceitei. E permaneci na Biblioteca da Assembleia até às cinco horas da madrugada, respondendo a dezenas de perguntas cretinas, registradas por um escrivão nissei.
O meu livro sobre o governo Geisel logo foi publicado. Enviei um exemplar para o ministro Golbery, que o havia proibido, e ele cinicamente agradeceu, classificando a obra de “honesta”, de “valiosíssimo documentário”. Roguei dez pragas contra esse general...
Um ano depois o editor da quarta edição do meu livro sobre o Aleijadinho, um português, apresentou-me numa Bienal do Livro, no stand da sua editora, a DIFEL, ao ex-governador Paulo Egydio Martins:
-Governador, tenho a honra de lhe apresentar o escritor Fernando Jorge.
Olhei a cara do Paulo Egydio, um homem alto, encorpado, e soltei estas palavras:
-Recuso-me a cumprimentá-lo. O senhor é um cagão, pois ficou uma noite inteira sem dormir, com medo que o presidente Geisel pensasse que é meu amigo. São Paulo não mereceu ter sido governado por um borrador de cuecas.
Sou meio louco, pronunciei estas palavras com voz bem alta, para mais de cinquenta pessoas no amplo stand da DIFEL ouvirem. O editor e o ex-governador ficaram brancos como neve, pareciam que iam desmaiar. Sentindo-me vingado, eu me afastei triunfante, de cabeça erguida, a transbordar de alegria.
Indiscutível, o estadista e filósofo inglês Francis Bacon (1561-1626) proclamou a verdade ao afirmar no capítulo IV dos seus Essays: “a vingança é uma forma de justiça selvagem.” Revenge is a kind of wild justice.



domingo, 18 de janeiro de 2015

AS LÁGRIMAS DE JUSCELINO KUBITSCHEK


Num dos meus encontros, em 1975, com Juscelino Kubitschek no Banco Denasa, do qual ele era presidente do Conselho de Administração (o banco era dos seus genros), Juscelino me contou que teve uma crise de choro em Belo Horizonte no Palácio da Liberdade, quando o doutor João Pi­nheiro Neto, seu oficial de gabinete (Juscelino era o governador de Minas), começou a lhe dar informações, na manhã do dia 24 de agosto de 1954, sobre o suicídio de Getúlio Vargas. Eu ousei dizer ao criador de Brasília, naque­la ocasião:

-Presidente, além das suas lágrimas derramadas pela morte do Getúlio, eu sei que o senhor teve outra crise de choro.

Surpreso, abrindo mais os olhos, ele pediu:

-Então me conte como eu tive esta outra crise. Quero ver se você é um escritor muito bem informado.

Comecei a narrar:

-No mês de junho de 1964, devido a uma iniciativa do general Costa e Silva, o seu mandato de senador foi cassado. E os militares, estimulados pelo Costa, também suspenderam os direitos políticos do senhor por dez anos. Não é verdade?

Juscelino concordou:

- Pura verdade. E confesso, decidi sair do Brasil por causa disso. Viajei para a Europa no dia 14 de junho de 1964. Mas prossiga.

Os olhos do ex-presidente, que às vezes forneciam a impres­são de ser de um chinês, revelavam uma viva curiosidade. Eu continuei:

-Centenas de pessoas o acompanharam na sua despedida. Um gru­po de homens ergueu o senhor no ar e o carregou sob palmas, aclamações, até a escada do avião. Repito, eram centenas de pessoas que gritavam “vivas”, e o senhor, emocionado, agitava um lenço branco.

Juscelino confirmou:

verdade, eu me emocionei, senti o amor de povo, o seu

carinho por mim.

-Dentro do avião - prossegui - o senhor não pôde mais se con­trolar e caiu num choro forte. Levou o seu lenço branco ao rosto e o encharcou com as suas lágrimas.

Cheio de espanto, Juscelino Kubitschek admitiu:

-Também é verdade, mas como veio a saber desses fatos?

-Presidente, quem me contou esses fatos foi o meu amigo Silveira Bueno, catedrático de filologia portuguesa da Universidade de São Paulo. Ele já se encontrava naquele avião, quando o senhor entrou. Viu o seu embarque, de uma das janelas do aparelho, e o seu choro, pela fresta de uma cortina grossa. O lugar em que o senhor se acomodou era isolado, no fundo do avião, mas o professor Silveira Bueno estava sentado junto da cortina...

O ex-presidente fez o seguinte comentário:

- Se você escrever a minha biografia, decerto evocará este episódio. Chorei muito, lá dentro do avião, porque eu vi, ao embarcar para o exílio, como o povo brasileiro me amava.

E Juscelino também não impediu o jorro das lágrimas em outra ocasião, pois no ano de 1973, graças a iniciativa do empresário João Abujamra,o Clube Nacional da capital paulista o homenageou com um almoço.

rios oradores enalteceram o estadista nascido na cidade mineira de Dia­mantina. Mas ao ouvir o discurso do meu pai, o grande orador Salomão Jor­ge, que descreveu a sua infância de menino pobre, descalço, filho de uma heróica e modesta professora, Juscelino chorou copiosamente. Ali, naquele momento, todos puderam ouvir até os seus soluços. João Abujamra, leal ami­go do “Peixe Vivo", é testemunha desse fato.

            Um pensamento de Franz Grillpazer (1791-1872), poeta e dramaturgo alemão:

As lágrimas são o sagrado direito da dor.”

(“Die Thränen sind dês Schmerzes helig Recht!”)

domingo, 11 de janeiro de 2015

O ASSALTO DO GOVERNO LADRÃO


Sujeira, porcaria, fez o presidente Collor, antes do confisco da poupança decretado por ele, como revela esta manchete da edição do dia 22 de agosto de 1992 do “Jornal do Brasil”:

          “Collor e PC Farias escaparam do bloqueio dos cruzados em 1990”.

          E eis a manchete, também de primeira página, na mesma data, da “Folha de S.Paulo”:

          Dinheiro de Collor foi sacado na véspera do confisco da poupança.

          No dia 13 de março de 1990, véspera do feriado bancário, a senhora Ana Acioli, secretária do presidente, retirou da conta deste, no BMC de Brasília, uma quantia que hoje corresponde a 443 milhões de reais. Segundo o depoimento da secretária à CPI, “nunca saiu um centavo daquele banco, sem o prévio conhecimento de Collor”.

          Portanto, como salientou o “Jornal do Brasil”, o presidente, poucas horas antes do bloqueio do dinheiro, “tratou de salvar a própria pele”. Aqui podemos evocar a velha frase de um político desonesto, porém “moralista” para efeitos externos:

          -Façam o que eu digo, mas não façam o que eu faço.

          Já existe esta outra prova: os assessores da ex-ministra Zélia Cardoso de Mello receberam 320 mil dólares do Esquema PC. Uma empreiteira, de modo suspeito, fez a reforma do seu apartamento, reforma que custaria agora, corrigidos pela variação do câmbio livre, 351 milhões de reais! E Zélia era “uma mulher pobre, sem recursos”.

          Quando houve o sequestro do suado dinheiro do povo, um grupo de jornalistas foi entrevistar a ex-ministra. Sentados em várias cadeiras, aguardavam as suas declarações, quando ouviram as gargalhadas que ela soltava através da porta semi-aberta, junto dos seus assessores:

          -Ha, ha, ha, ha! Este zé-povinho estava pensando que eu era mole! Ha, ha, ha, ha, ha, ha! Eu não sou mole, não! Ha, ha, ha, ha! Este zé-povinho está muito mal acostumado, só quer consumir! Mas comigo vai ser duro, pois eu sou a Margareth Tatcher, a dama de ferro da economia brasileira! Ha, ha, ha, ha! E essa gente pode desmaiar e até morrer lá nas filas dos bancos, das agências das caixas-econômicas, porque comigo é assim, não tem conversa, não! Ha, ha, ha, ha, ha, ha!

          Oito jornalistas ouviram estas palavras e estas gargalhadas da Zélia, atrás da porta. Tenho no meu arquivo o depoimento deles, narrando isto, com as assinaturas reconhecidas em tabelionatos.

          Logo após o confisco do dinheiro, determinado pelo governo Collor, o senhor Lourival Ricardo Drewnick, de sessenta e um anos, sofreu um derrame cerebral. Ele morava em Santos, num apartamento da Praia Grande, e tinha 750 mil cruzeiros numa caderneta de poupança. Quis retirar esse dinheiro bloqueado, com o objetivo de tratar da saúde, mas o Banco Central não permitiu. Drewnick se sentia humilhado, profundamente deprimido, por ter de pedir empréstimos a parentes e amigos. Técnico em sistemas de refrigeração, o sexagenário recebia, na qualidade de aposentado, cerca de 60 mil cruzeiros mensais, dinheiro insuficiente para cobrir as despesas do seu tratamento médico. Repleto de angústia, de desespero, ele resolveu suicidar-se no Dia do Aposentado, como forma de protesto. Disparou um tiro na cabeça e deixou este bilhete:

          “Deus me perdoe, mas não aguento mais tanta dor e ver a miséria chegando. Maldito Collor, ladrão de velhos e aposentados. Dedico a ele a minha morte”.

          (Consultar a notícia “Poupança presa leva aposentado ao suicídio”, publicada na edição do dia 21 de janeiro de 1991 do jornal “O Estado de S. Paulo”).

          Ao decretar o confisco da poupança, ao trair a sua palavra, Collor apunhalou o povo pelas costas. Naquela época eu comentei:

          -Estamos diante de uma canalhice monumental, de uma prova sólida, incontestável, de absoluta falta de caráter.

          O assalto do governo Collor, desse governo ladrão, gerou uma crise gravíssima no comércio e na indústria. Esta deixou de produzir e o comércio de vender, pois o consumo caiu verticalmente. Ninguém tinha dinheiro. Consequência: veio a crise social, a recessão, o desemprego.

domingo, 14 de dezembro de 2014

A ignorância é a maldição de Deus


Quem costuma soltar muitos erros de português é o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que é também professor. Ele é como o Collor, não conhece a regência do verbo assistir. Olhem estas frases de um dos seus discursos:

“Nós, hoje, acabamos de assistir algumas apresentações...

Eu assisti, das fundações Roberto Marinho e Norberto Odebrecht, esforços na mesma direção... Hoje, nós assistirmos aqui esses chamamentos à sociedade..." (Discurso pronunciado no Rio de Janeiro e reproduzido na edição do dia 18 de março de 1995 do jornal O Estado de S. Paulo).

Vamos corrigir os três erros de português do ex-presidente. Na primeira frase, “assistir algumas apresentações'" não está certo, é “assistir a algumas apresentações'. E o Fernandinho não pode "assistir esforços", ele “assiste a esforços”. Também na última frase esse grande erro de português continua a aparecer. Não é “nós assistirmos aqui esses chamamentos". Falta um a: é “nós assistirmos aqui a esses chamamentos".

            Mais adiante, em outra passagem da arenga, o Fernando Henrique vomitou este erro:

            ”Se tivermos errados, nós mudaremos...”

            Senhor ex-presidente, aprenda agora ou volte a ser aluno de uma escola de ensino fundamental: não é “se tivermos errados”, é “se estivermos errados”. O senhor aprendeu ou quer que eu repita a lição?

            Trecho de outra arenga do professor Fernando Henrique:

            “...cidade, Estado e União são capazes de atender aos reclames da população" (Discurso pronunciado no metrô de Recife e reproduzido na edição do dia 25 de janeiro de 1997 do jornal O Estado de S. Paulo).

            Fernandinho, não é “reclames da população”, é reclamos. Trate de memorizar as minhas palavras: reclames são anúncios comerciais e reclamos são gritos, clamores, reclamações. Entendeu?

Num outro discurso proferido na capital de Pernambuco, o rei Fernando II salientou:

“... lá no Rio Grande do Sul, na terra do nosso ministro dos Transportes, o problema da escravidão pesava como uma nódoa...” (OESP, 25-1-1997).

Que imagem absurda! Desde quando uma nódoa pesa como o chumbo, o aço, o ferro, um soco do Mike Tyson?

A verdade é a seguinte: os discursos do professor Fernando Henrique Cardoso exibem disparates, gravíssimos erros de português e frases obscuras, mal construídas. Dei apenas alguns exemplos. Ele é um verborrágico, e à semelhança do José Sarney e do Fernando Collor de Mello, tem torturado metodicamente a língua portuguesa. Esta, martirizada pelos três, não para de gritar:

            -Socorro, socorro, me salvem! O Sarney, o Collor e o Fernando Cardoso estão me matando, eu não aguento mais! Acudam-me! Deus, Jesus Cristo, Maomé, Buda, padre Cícero, Nossa Senhora Aparecida, me ajudem, sintam pena de mim!

            Concluo este bate-papo citando a seguinte frase que Shakespeare colocou no ato quarto da sua peça Henrique VI:

“A ignorância é a maldição de Deus; o saber, a asa que nos ajuda a voar até o céu”.

                        (“Igonorance is the curse of God,

                          Knowlodge the wing wherewith we

                          fly to heaven”)

domingo, 23 de novembro de 2014

A MEMÓRIA DE ROBERTO MARINHO ESTÁ SENDO DESRESPEITADA


Fátima Sá, editora do Segundo Caderno de O Globo, por favor, corte as besteiras, os disparates, os erros de português da Adriana Calcanhotto. Vejamos algumas imbecilidades da Adriana. Leiam estas palavras da sua crônica. “A verdade dói”, de 23 de março de 2014:

“O Brasil só faz... alianças pragmáticas em vez de programáticas e loteamento de cargos”.

Absurdo, loteamento de cargos corresponde a venda de cargos, a corrupção! Adriana, você estava alcoolizada ao dizer que o nosso país deve lotear cargos?

Admirem outra resplandecente cretinice da Calcanhotto:

“...do hotel para fora estou em Portugal, do hotel para dentro na Península Ibérica” (crônica “O cheiro das ruinas”, 8-4-2014).

Eu pergunto: o país de Gil Vicente saiu dessa península? Agora se acha no Canal da Mancha?

Evocando o falecido ator José Wilker, a colunista o chama de “sedutor irresistível, cachorro”, na crônica “Pirueta felomenal” (20-4-2014). Wilker era buldogue, latia? Ela foi mordida por ele?

Um conselho da Adriana:

“Não classifique as coisas como boas ou más, chiques ou cafonas, certas ou erradas. As coisas são o que são” (crônica “Leve um agasalho”, 4-5-2014).

Genial! Então, segundo este raciocínio, o roubo é aceitável, o assassinato é normal...

Mais um bom conselho da colunista de O Globo, na mesma crônica:

“Não peça um copo d’água a ninguém, levante-se e vá buscar.”

Daí se deduz que um doente na cama, febril e sedento, sem poder andar, deve morrer de sede, como o Tântalo da mitologia grega...

Comentário asnático da Adriana:

“...amam jogar bola jogando bola” (crônica “E começa a partida”, 18-5-2014).

Sensacional! Graças à notável Calcanhotto podemos nos expressar assim: gostam de beber bebendo, de falar falando, de comer comendo.

Fiquei deslumbrado ao ler isto num dos seus textos:

“Canção inventada de maneira inventada” (crônica “Mea culpa”, 27-7-2014).

Puxa, eu não sabia que aula deve ser dada de maneira dada, que espirro deve ser espirrado, que recibo deve ser recebido!

Arregalei os olhos, pois um cachorro vira-lata, segundo a Calcanhotto, “mija os pneus do ônibus” (crônica “Crise de alegria”, 21-9-2014). Meu Deus, como um cão consegue mijar pneus? Como? Por que ele também não mija garrafas e canivetes?

E os erros de português da Adriana? Parecem não ter fim. Se o doutor Roberto Marinho estivesse vivo, ele jamais permitiria que ela fosse dona de uma coluna em O Globo. Aí vão alguns dos seus atentados ao nosso idioma:

“...quando deixando-lhe...” (crônica “Fevereiro e o poeta”, 9-2-2014).

Correção: quando lhe. O quando, advérbio ou conjunção, atrai o pronome.

“...sentado em uma mesa...” (crônica “E começa a partida”, 18-5-2014).

Correção: sentado à mesa. O fulano não pôs a sua bunda em cima da mesa. E há um cacófato: mama. A Calcanhotto aconselha o leitor a mamar?

“...chamou ela...” (crônica “Assinado: SOS”, 1-6-2014).

Correção: chamou-a.

“...tem visão do todo, inteligência, precisão, que engana o zagueiro...” (crônica “A camisa 10”, 15-6-2014).

Correção: que enganam, pois este verbo se refere a três coisas. Erro primário de concordância.

“...aparentemente injuntaveis...” (crônica “Mea culpa”, 27-7-2014).

Correção: a palavra injuntavel não existe, tanto no singular como no plural.
 
“...o que estranhou-se...” (crônica “De galho em galho”, 7-9-2014).
Correção: “o que se estranhou”, pois o pronome relativo influi na colocação dos pronomes pessoais, objetivos e terminativos.
Bem, e os cacófatos ou cacofonias da Calcanhotto? Ela não para de expelir palavras que dão lugar a outras, de sentido diferente ou ridículo. Citaremos apenas três cacófatos dessa gramaticida (assassina da gramática).
“E por rápido” ... (crônica “Pirueta felomenal”, 20-4-2014).
Cacófato: porrá. Esperma de quem? De porco? De homem? De macaco?
“...uma máquina” ... (crônica “Expectativa”, 13-7-2014).
Cacófato: mamá. Adriana quer mamar, virou bebê? Ela agora canta a marchinha de Jararaca e Vicente Paiva, do carnaval de 1937:
 
“Mamãe eu quero,
mamãe eu quero,
mamãe eu quero mamar...
Dá a chupeta,
dá a chupeta,
dá a chupeta
pro bebê não chorar”.
 
Terceiro cacófato: “...que ela tinha” ... (crônica “Ela e os passarinhos”, 24-8-2014). Latinha. De cerveja ou de guaraná?
Confesso, quatro inconformados jornalistas de O Globo me incentivaram a descer o cacete nos solecismos, nos desconchavos, na alta pirâmide de cacaborradas da apedeuta Adriana Calcanhotto.
A memória de Roberto Marinho, zeloso defensor da lógica e da linguagem correta, está sendo desrespeitada no jornal que ele tanto engrandeceu, amou e dignificou.
 
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Escritor e jornalista, Fernando Jorge é autor de Drummond e o elefante Geraldão, que acaba de ser lançado pela Editora Novo Século e cuja quarta edição já está quase esgotada.
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Este artigo foi publicado numa rede composta de 40 jornais de São Paulo e de 60 de outros estados.
A acusação de Fernando Jorge também tem sido feita em programas de televisão.
 

domingo, 9 de novembro de 2014

CAÇAS ÀS BRUXAS


As autoridades da Arábia Saudita executaram uma mulher que foi condenada por praticar magia e feitiçaria. Essa mulher, Amina bin Abdul Halin bin Salen Nasser, sofreu a decapitação, cortaram-lhe a cabeça na província de Jawf, no norte do país.

De acordo com Abdullah Al-Mohsen, chefe de polícia, a feiticeira prometia curar doenças e cobrava até oitocentos dólares dos enfermos.

A legislação da Arábia Saudita segue de modo fiel a Sharia. Tal lei islâmica proíbe a bruxaria e inflinge a pena de morte a quem a pratica, em qualquer circunstância.

No meu livro Lutero e a Igreja do pecado, já na sétima edição, lançada pela editora Novo Século, eu evoquei diversos casos de feitiçaria, ocorridos na Idade Média. O que aconteceu agora, na Arábia Saudita, nada mais é do que a sobrevivência de um costume bárbaro, imposto pelo fanatismo religioso.

Reproduzo aqui, neste bate-papo, alguns trechos do capitulo décimo de Lutero e a Igreja do pecado, obra ricamente documentada e traduzida para o italiano pela professora Rina Malerbi Ricci, da Universidade de São Paulo.

No Livro do Êxodo, da Bíblia, a bruxaria é punida com a pena de morte. Está registrado no seu texto:

“Não deixarás a feiticeira viver” (22:18).

Mulheres loucas ou desequilibradas se proclamavam seguidoras de Belzebu ou do Grande Bode Negro de Três Cornos. Segundo informam alguns autores, inúmeras vezes eram queimadas nas fogueiras da Europa, num só dia, mais de trezentas bruxas. Estas, nas noites de sábado, voavam montadas em cima de bodes ou de cabos de vassoura, para ir ao sabá, a medonha reunião presidida por Satã. Ficava sob suspeita a mulher que dormia com a janela aberta, pois decerto ia lançar-se pelos ares, montada num desses cabos de vassoura... Até os católicos acreditavam em tais absurdos. Lendo a Bíblia, vemos Belzebu aparecer no Evangelho de São Lucas, quando Cristo desmoraliza uma calúnia dos fariseus:

“Jesus estava a expulsar um demônio, o qual era mudo. E aconteceu que, saindo o demônio, o mudo falou e a multidão ficou admirada. Mas alguns disseram: ‘É por Belzebu, príncipe dos demônios, que ele expulsa os demônios’” (11:14,15).

No século V, o código dos visigodos, na Espanha, punia com o chicote e a escravidão os “maléficos”, os “geradores de tempestades”, os “evocadores de Satã” e os “perturbadores do espírito”.

Meninos de pouca idade foram queimados vivos, porque se supunha que existiam crianças feiticeiras, “uma das mais hábeis astúcias do diabo”.

Intensas, no território germânico sob a jurisdição da Igreja, eram as “caças às bruxas”, principalmente em Treves, Bamberg, Würzburg, Ellwangen e Mergentlein.

A senhora Alice Kyteler, no ano de 1324, não conseguiu escapar da acusação de ter praticado vários atos diabólicos, junto de outras pessoas. Um bispo a denunciou, Richard de Ledrede, ex-monge franciscano. Isto aconteceu em Kilkenny, na Irlanda. Vejam os crimes da feiticeira, citados no tribunal: infanticídio, assassinatos dos seus esposos, sacrifícios de toda espécie aos demônios, extração da gordura de cadáveres humanos. E ela, além disso, foi acusada de copular com o próprio diabo, que lhe aparecia sob as formas de um gato, ou de um peludo cão selvagem, ou de um indivíduo preto, armado de longa barra de ferro.

Metida numa prisão, após ser excomungada pelo tal bispo, Alice escapou da cela e fugiu para a Inglaterra, porém a sua criada, Petronilla de Meath, e alguns dos seus “cúmplices”, condenados por magia, acabaram morrendo em fogueiras.

Como o amigo leitor pode ver, por estas informações extraídas do meu livro sobre Lutero, as feiticeiras sempre foram execradas pelos líderes religiosos, ao longo dos séculos.