domingo, 23 de março de 2014

Carta para Dilma


Presidente Dilma Rousseff:

Isento de qualquer paixão política, sinto-me no dever moral de alertar a presidenta do meu país no sentido de aconselhar o Ministério da Cultura a não dar apoio financeiro a espetáculos teatrais que ferem os sentimentos cristãos do povo brasileiro. Refiro-me à peça Jesus Cristo Superstar, onde o Redentor é mostrado como amante de Maria Madalena, os apóstolos como bêbados, Judas como figura simpática, etc.

A peça irrita profundamente os católicos, os protestantes, os evangélicos, os batistas, os espiritas, que somados representam milhões de votos.

Foi um ato burro, cretino, do Ministério da Cultura, de fornecer o vultoso apoio financeiro de mais de 5 milhões de reais a essa blasfêmia. O procedimento do Ministério joga os cristãos contra o seu governo, prejudicando a sua pessoa, a sua segunda candidatura à presidência da República.

Junto a esta o artigo de minha autoria, já largamente divulgado numa grande rede de jornais.

 Fernando Jorge

domingo, 16 de março de 2014

O BODE VEREADOR


Diário do Nordeste
No ano de 1955, o eleitorado de Jaboatão, em Pernambuco, elegeu vereador um bode. O animal chamava-se Cheiroso e teve 460 votos, o dobro do que necessitava um cidadão daquele município para se eleger seu representante. Três anos depois, candidato à Câmara dos Vereadores de São Paulo, o rinoceronte Cacareco foi o mais votado. Em seguida, decorridos vários anos, o macaco Tião, do Jardim Zoológico do Rio de Janeiro, teve a sua candidatura fictícia lançada pelo também fictício PBB (Partido Bana­nista Brasileiro). E há pouco tempo, no Balneário Camboriú, de Santa Cata­rina, um cachorro de rua, o Sorriso, tornou-se candidato a deputado. O seu comitê de propaganda era dirigido pelo jornalista Nagel de Mello...

O eleitor desses lugares, bastante desiludido com a política, fez bem em votar num bode, num rinoceronte, num macaco e num cachor­ro. Votos do protesto, da revolta.

            É melhor eleger um bode do que certos cidadãos da nossa infeliz República. Lá no Nordeste o sertanejo costuma dizer:

            “Deus te dê o que deu ao bode: catinga, barba e bigode.”

Mas é mil vezes preferível o fedor do bode, a sua catin­ga, do que o cheiro nauseabundo da alma dos nossos políticos corruptos. Um esgoto furado não fede tanto como a alma podre desses canalhas.

É preferível votar num rinoceronte do que em certos fulanos da nossa infeliz República, porque ele, o rinoceronte, mamífero de pele espessa e dura, não sabe roubar. Só sabe roncar e comer capim. Além ser muito perigoso, esse bicho nunca meteu as suas patas no orçamento federal e o lesou.

É preferível votar num macaco do que em certos sujeitos da nossa infeliz República, porque o macaco, se sabe brincar, guinchar, pular de galho em galho, comer banana, fazer caretas, por outro lado não sabe trair, mentir e apoderar-se do dinheiro público, a fim de o esconder nos bancos da Suíça e nos paraísos fiscais. Viva pois o macaco e as suas macaquices! 

Abaixo o político corrupto e as suas canalhices! É preferível votar num cachorro do que em certos políticos cachorros da nossa infeliz Republica, porque ele, o cachorro, como disse Victor Hugo, é “a virtude transformada em animal”, e o político corrup­to é a podridão mais asquerosa transformada em gente. Aliás, chamar um des­ses crápulas de cachorro equivale a xingar os cães.

A safadeza de dezenas dos nossos políticos gerou estas palavras de Rui Barbosa:

“De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.”

                Quando o povo decidiu votar nos animais evocados neste bate-papo, pelo menos não apoiou os patifes que ganharam milhões com obras superfaturadas. Juro, amigo leitor, prefiro ouvir os berros do bode, os bramidos do rinoceronte, os assobios do macaco, os uivos do cachorro, do que as palavras cínicas dos nossos políticos salafrários, exímios na arte de mentir, de enganar, de roubar, de afivelar no rosto a máscara da hipocrisia.

            Os fariseus da política brasileira falam como moralistas e agem como ladrões. Se exibissem no rosto as suas verdadeiras naturezas - a imundice de suas almas - os nossos estômagos ficariam embrulhados, vo­mitariamos de nojo.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Adriana Calca em Outro


Recebi dezenas de e-mails de todas as partes do nosso país, dizendo que a cantora Adriana Calcanhotto se apoderou da tese de um livro de minha autoria. O livro, do qual já foram vendidos 118 mil exemplares, intitula-se Se não fosse o Brasil, jamais Barack Obama teria nascido, da editora Novo Século, e nele provo isto: a obsessão da mãe de Obama pelo filme Orfeu Negro, de 1959, baseado numa peça de Vinicius de Moraes e dirigido pelo francês Marcel Camus (1912-1982), causou o nascimento do atual presidente dos Estados Unidos.
Num dos referidos e-mails, o pesquisador Marcelo de Almeida, da cidade paulista de São José dos Campos, situada no Vale do Paraíba, declarou o seguinte:

“A pré-quinquagenária Adriana Calcanhotto, com a maior cara-de-pau, não teve nenhum escrúpulo ao empalmar a tese do escritor Fernando Jorge. Ela precisa fazer uma alteração no seu nome, passar a se chamar Adriana Calca em Outro e não Adriana Calcanhotto. O outro é Fernando Jorge. Calca, presente do indicativo do verbo calcar, funciona aqui como sinônimo do verbo decalcar, que significa plagiar, imitar servilmente”.

Prezado Marcelo, o amigo está sendo demasiado severo. A Adriana não furtou de maneira direta a minha tese, pois atribuiu a autoria desta ao José Miguel Wisnik, a fim de o agradar, de lisonjeá-lo. Mas ele, Wisnik, bem antes do texto da Adriana, havia reconhecido que eu, Fernando Jorge, sou o autor da tese, em seu artigo “Obama, filho do Brasil”, publicado na edição do dia 12 de junho de 2010 do jornal O Globo. Palavras de Wisnik, no início do artigo:

“Se não fosse o Brasil, jamais Barack Obama teria nascido. O título amalucado do livro de Fernando Jorge ganha ao longo da obra a forma reiterada e obsessiva de um bordão. Entre informações biográficas, dados históricos sobre o racismo americano e brasileiro, sobre literatura, teatro e música, sobre relações políticas, diplomáticas e culturais entre os dois países, o argumento se fecha obstinadamente a cada passo, com o refrão que dá nome ao livro. Tudo conspira para provar que o primeiro presidente mulato americano, que afinal chegou antes do previsto pelo famoso romance de Monteiro Lobato (O presidente negro), só veio a nascer graças ao toque de magia de um filme baseado por sua vez na obra de um outro escritor brasileiro – Vinicius de Moraes”.

Após expender estas considerações, José Miguel Wisnik acrescentou:

“O mais maluco é que eu também acho que a tese de Fernando Jorge tem fundamento. Só que é bom deixar cada maluco com o seu sintoma. O de Fernando Jorge investe na forma contumaz da ideia fixa. Repetindo sem parar a sua obsessão...”

Meu comentário: se sou doido, o Wisnik é igual a mim, pois me apoiou... E ele salienta:

“Fernando Jorge, em sua furiosa busca da prova literal, repisa a semelhança de Breno Mello, ator que representou Orfeu no filme de Camus, com Obama pai”.

Sim, é inegável. A mãe de Obama, por ter ficado apaixonadíssima pelo filme Orfeu Negro, baseado na peça Orfeu da Conceição, de Vinicius de Moraes, apresentada no Teatro Municipal do Rio de Janeiro em 1956 (o filme é de 1959, como informei), viu no pai de Obama, belo moço negro nascido na África, o sósia, o irmão gêmeo, a transposição do gaúcho Breno Mello, e não resistiu, entregou-se a ele. Dessa união entre uma jovem americana completamente branca, nascida no Kansas, e um rapaz africano completamente negro, nascido no Quênia, surgiu o mulato Barack Hussein Obama, que pela primeira vez arregalou os seus pequeninos olhos perspicazes em Honolulu, capital do Havaí, destino turístico internacional, no dia 4 de agosto de 1961.
Embora José Miguel Wisnik, num artigo publicado em 2010 no jornal O Globo, tivesse dado apoio à tese do meu livro, a cantora e compositora Adriana Calcanhotto resolveu atribuir a autoria dessa tese a ele, o honesto Wisnik. O texto de Adriana, intitulado “Vai Vai Vai Vai Vai”, apareceu na edição do dia 20 de outubro de 2013 desse periódico. Segundo Adriana, foi Wisnik quem descobriu que Vinicius de Moraes “inventou o primeiro presidente americano negro”. Ela endossa a minha tese, atribuindo a sua criação, no entanto, ao Wisnik, e opondo-se à insofismável eloquência da verdade:


“...sem o Vinicius, aquela branca americana não se apaixonaria por um queniano parecido com o ator que fez o papel de Orfeu no filme de Marcel Camus”.
 
José Antônio Rubino Martinez, de São Paulo, enviou estas linhas à seção “Dos leitores” de O Globo:
“A interessante crônica de Adriana Calcanhotto sobre Vinicius de Moraes (20-10) merece um reparo: quem descobriu, na verdade, que o poetinha inventou o primeiro presidente americano negro, não foi Zé Miguel Wisnik e sim o escritor e jornalista Fernando Jorge, como revela no seu livro Se não fosse o Brasil, jamais Barack Obama teria nascido. Zé Miguel até escreveu um artigo sobre o livro, publicado nesse jornal em 2010, e deu apoio à afirmativa de Fernando Jorge”.
Lendo a crônica de Adriana, verifiquei outra coisa: ela atribuiu a si mesma a descoberta da fonte inspiradora do “Soneto de fidelidade”, do Vinicius, feita por mim. Fui o descobridor dessa fonte, que é este verso do poeta Henry de Régnier:
“L’amour est eternel tant qu’il dure”
(“O amor é eterno enquanto dura”)
E acentuei no meu livro sobre Obama, para eliminar qualquer dúvida: o “Soneto de fidelidade”, escrito em Oxford, na Inglaterra, é de 1939, e Henry de Régnier faleceu no ano de 1936. Assim sendo, o soneto de Vinicius veio à luz cinco anos depois da morte do poeta francês, nostálgico evocador de Versailles no livro La cité des eaux (“A cidade das águas”), publicado em 1902.
Nas Histórias sem data, livro de contos, o nosso Machado de Assis classifica o plágio de “embrião da ladroeira”, e Alfred de Musset (1810-1857), na poesia “La coupe et les lèvres” (“A taça e os lábios”), confessa que odeia o plagiário como odeia a morte” (“Je hais comme la mort l’état de plagiaire”), mas proclama com orgulho:
“Meu copo não é grande, porém bebo no meu copo”.
(“Mon verre n’est pas grand, mais je bois dans mon verre”).
Discordo de Machado de Assis. Para mim o plágio não é o “embrião da ladroeira”. Ele, a rigor, é a própria ladroeira. Todavia, não odeio o plagiário, à semelhança de Alfred de Musset. O plagiário me faz rir, diverte-me, como acho graça num larápio desastrado...
Agora pergunto: será que o cidadão Marcelo de Almeida acertou, por garantir que a cantora Adriana Calcanhotto precisa alterar o seu nome e passar a se chamar Adriana Calca em Outro?



domingo, 15 de dezembro de 2013

Os livros dos três Emediatos


Um acontecimento literário singular ocorreu na Saraiva Megastore do Shopping Pátio Higienópolis, da cidade de São Paulo: três escritores, ao mesmo tempo, autografaram os seus livros. E daí, indagará o leitor desta coluna muito lida numa grande rede de jornais, e daí, aonde está a singularidade do fato? O acontecimento literário singular é este: um pai, Luiz Fernando Emediato, a sua filha, Fernanda Emediato, e o filho de Luiz, o garoto Antonio Alselmo Emediato, nascido em 2005, e portanto de apenas oito anos, autografaram os belos livros escritos por eles. Nunca houve um fato dessa natureza em nossa vida literária.

Darcy Ribeiro, pouco antes de falecer, soltou a seguinte frase:

“O Brasil ficou grandão, fortão, jogador de futebol e imbecil.”

Pura verdade. Se essa imbecilidade não atingisse também a mídia, dezenas de jornais, revistas, emissoras de televisão do nosso caótico país, o singular acontecimento teria sido divulgado em ampla escala, porque além de ser um fato inédito, os três autores possuem admirável talento literário.

Luiz Fernando Emediato autografou a segunda edição, revista e aumentada, do seu Não passarás o Jordão, mescla de romance e livro de memórias. É obra indispensável para quem deseja compreender, de forma abrangente, os absurdos, as violências, as torturas, os atos de arbítrio, a repressão doida, alucinada, da época da ditadura militar brasileira, imposta depois do Golpe de 1964. Ditadura da qual me tornei vítima, pois fui processado quatro vezes como “escritor e jornalista subversivo”, apesar de ser um democrata, um fogoso paladino da justiça, da liberdade, dos direitos humanos.

Não passarás o Jordão magnetiza o leitor da primeira até a última página. O estilo claro e límpido dessa obra, trouxe à minha memória esta frase de Monteiro Lobato sobre o escritor Camilo Castelo Branco, inserida numa carta enviada a Godofredo Rangel, conforme podemos ver no livro A barca de Gleyre, publicado em 1944 pela Companhia Editora Nacional:

“Camilo escrevia com a mesma naturalidade com que um homem de boa saúde mija.”

A naturalidade envolvente do livro de Luiz vai transformar-se num filme. E esse filme, acredito, alcançará sucesso em 2014, cinquenta anos depois do Golpe de 1964.

O livro de Fernanda Emediato se intitula A menina perdida. É a história de uma garota chamada Micaela Maria. Outros personagens dessa narrativa singela, bem escrita, reveladora de fértil imaginação: José Maria e Maria José, pais de Micaela, a princesa Charlotte XI, o rei George e a rainha Margot, a bruxa Mauzeb.

A história de Fernanda Emediato é da lavra de uma alma delicada, extremamente sensível. Pensei, ao terminar de lê-la: a filha do Luiz deve ter uma sensibilidade à flor da pele, é capaz de chorar nos momentos de melancolia. O seu livro A menina perdida se acha repleto de alma, de emoção. Impressionou-me, além disso, o destino da bruxa Mauzeb, pois Fernanda humanizou-a no fim da história, tirou-lhe a maldade...

Surpreende a inteligência, o talento literário do menino Antonio Anselmo Emediato, autor do livro Minha família. Fiquei emocionado com a sua bondade, com a sua pureza, com o seu profundo amor às suas duas famílias. Neste mundo cheio de almas torvas, sem luz, me comove contemplar a ternura de Antonio, a sua inocência, e peço ao Criador que o proteja sempre, que o defenda do ódio, da inveja e das armadilhas dos perversos. Lendo o seu livro, lembrei-me que Victor Hugo disse que quando a criança olha para nós, Deus nos sonda (“quand l’enfant nous regarde, on sent Dieu nous sonder”) e também deste verso do poeta inglês Swinburne (1837-1909), no poema “A song of welcome”:

“Onde não há crianças, não existe o céu.”

(“Where children are not, heaven is not”).

Após ler os três livros dos três Emediatos – o da Fernanda e o do Antonio com lindas ilustrações de Mance – cheguei a esta firme conclusão: o talento literário, algumas vezes, é hereditário.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Liza Minelli quis suicidar-se, por causa do Edu Lobo


Liza Minelli
Fui amigo íntimo de Ênio Silveira, diretor da editora Civilização Brasileira, e troquei com ele dezenas de cartas, que o escritor Gabriel Kwak, secretário geral da UBE, pretende divulgar num livro. Aliás, devido a esse relacionamento, tive de depor na Polícia Federal, pois o meu querido amigo, na época do regime militar, era secretário do Partido Comunista. Um delegado alto, forte, corpudo, perguntou a mim:

-O senhor sabia que Ênio Silveira é comunista?

Respondi:

-Sabia.

-E sobre o que conversavam?

-Conversávamos sempre, antes do Golpe de 1964, sobre livros, literatura, arte, Castro Alves, Raul Pompéia, Machado de Assis, Capistrano de Abreu, Gilberto Freyre, etc, etc. E não pertenço a nenhum partido, mas sou um democrata, um amante da liberdade, um defensor do direito de cada cidadão pensar como quiser, desde que se oponha a regimes de natureza nazi-fascista.

De cara brava, o homenzarrão afirmou:

-Fica bem claro, o senhor é um inocente útil, fecha os olhos diante das ações subversivas dos marxistas-leninistas.

Amigo do Ênio, um funcionário da Polícia Federal descreveu para ele como foi o interrogatório a que fui submetido. Rindo, o Ênio comentou:

-Meu caro “inocente útil”, se a coisa continuar assim, logo até o Carlos Lacerda vai ter que depor...

Eu indaguei:

-Você foi amigo do Carlos?

-Fui, mas nos separamos. O seu direitismo não combinava com o meu esquerdismo. Entretanto, depois de cair em desgraça junto dos milicos golpistas, que apoiara, um dia ele telefonou para mim e disse: Ênio, quero reatar a nossa amizade, sinto saudades das nossas conversas, você aceita? Condescendi, passamos novamente a nos encontrar.

Esta minha conversa com o Ênio ocorreu na sede de sua editora, uma casa velha da rua Muniz Barreto, número 715/721, do bairro carioca de Botafogo. O meu amigo tirou de uma gaveta um retrato em bom tamanho do Carlos Lacerda, no qual vi carinhosa dedicatória. Informou-me:

-Penso que ele me deu esta foto por gratidão.

-Como assim?

-Ajudei-o a sair de uma enrascada. Combinamos um almoço num restaurante do Leblon. Eu cheguei primeiro e quando o Carlos apareceu, veio na minha direção com passo incerto, vacilante, sinuoso. A distância era de uns vinte metros, porém notei, pelo seu andar e pela sua fisionomia, que estava alcoolizado. No meio da sala do restaurante havia uma grande e arredondada mesa de frios, de saladas. Pois bem, o Carlos se achava tão bêbado que desabou em cima dela, derrubando os pratos, os talheres, as verduras, as beterrabas, os pepinos, os tomates, os ovos cozidos. Parecia o estouro de um raio.

-E o que você fez?

-Levantei-me depressa, e aturdido, com a ajuda de vários garçons, procurei erguê-lo, mas foi difícil. O seu corpo pesava como alto monte de chumbo. E Fernando, que luta para o pôr de pé e o enfiar no automóvel! Travei em seguida outra peleja, a fim de impedir a divulgação desse desmoronamento nos jornais, nas revistas, nas emissoras de rádio e de televisão. Agora você pode compreender porque ele me enviou o seu retrato com a dedicatória carinhosa...

Contemplando meu olhar surpreso, o Ênio prosseguiu:

-Além do Carlos Lacerda, outra pessoa bêbada me deixou atrapalhado.

-Quem?

-A Liza Minelli.

Respondi, sacando o meu caderninho do bolso, com o objetivo de registrar as suas palavras:

-Explique-me como isto aconteceu.

Tranquilo, o Ênio Silveira começou a narrar:

-Após chegar aqui, no Rio de Janeiro, a Liza Minelli gostava de conversar comigo. Eu a convidei para escrever as suas memórias, a fim de serem lançadas simultaneamente pela minha editora e por uma editora americana. Achou interessante a proposta, mas logo desistiu de apoiar o projeto, pois se apaixonou pelo compositor Edu Lobo. Ele se tornou a sua ideia fixa, não quis saber de mais nada. Liza o chamava de wolf in sheepis skin (“lobo com pele de ovelha”).

-Paixão voraz, Ênio?

-Paixão lelé da cuca, Fernando, paixão de doida internada num manicômio. Essa americana gemia, soluçava de paixão. Desejando acalmá-la, apagar as labaredas daquele fogo vulcânico da estrela do filme Cabaré, de 1972, levei-a até a cidade litorânea de Cabo Frio, onde eu veraneava numa casa em cima de um penhasco. E disse a Liza: o Edu Lobo é casado com uma bela moça, chamada Wanda Sá, e a ama muito.

-A sua reação?

-Soltou, ou melhor, rosnou estas palavras, i don’t care a hang (“pouco me importa”). E garantiu, the course of true love never did run smooth (“o caminho do amor verdadeiro nunca foi fácil”).

-Ouvindo isto, você ainda tentou apagar o incêndio talvez vaginal do corpo histérico da Liza Minelli?

-Tentei. No afã de distraí-la, de desviar o seu maníaco pensamento da figurinha esquelética do Edu Lobo, fui com ela aos locais turísticos de Cabo Frio, às salinas, à lagoa de Araruama, ao forte de São Mateus, à ponte Feliciano Sodré, à igreja de Santa Maria dos Anjos, etc, etc. e não adiantou nada, a gringa só falava do Edu Lobo, volta e meia dizia, love at first sight (“foi amor à primeira vista”). Mas eu não parei de insistir, Liza, o Edu é casado, adora a sua esposa, e a americana replicava, all’s fair in love and war (“no amor e na guerra, tudo vale”).

-Puxa, que paixão, Ênio! Essa mulher sofria de um teimoso desarranjo mental, em vez de ser vítima de um passageiro desarranjo intestinal!

-É, Fernando, o seu cérebro ficou avariado. Uma noite, lá na casa do penhasco, após comer bastante feijão preto no almoço, ela me pediu para lhe dar bebida (give me to drink, some drink). E exigiu uma “bebida intoxicante” (an intoxicating drink). Peguei a garrafa do uísque Black and White e enchi com ele a metade de um copo. Liza protestou, queria “beber como um tubarão” (to drink like a shark), de um só trago (to drink off in one gulp). Esvaziou a garrafa em menos de uma hora e agarrando outra, do uísque Old Smuggler, não cessou de o entornar na garganta roxa, de veias intumescidas.

Ênio Silveira fez uma pausa e não tardou a continuar:

-Meu leal amigo Fernando Jorge, agora vem a parte mais dramática. A Liza Minelli pulou da cadeira e disse, com voz rouca, que “morria de tristeza”, que “todas as suas esperanças se desfizeram” (die of broken heart, all our hopes fell to the ground). Sonhava em “ter apenas uma palavra” do Edu Lobo, (a word with you). E jurou estar “a morrer de amor” (to die of love), porém disposta “a encarar a morte de maneira firme” (to look death stead fastly in the face). Aproximou-se da porta de entrada da casa e tonta, assumindo um ar trágico, bêbada como uma cachaceira, implorou a presença da morte para a “libertar da sua vida desgraçada” (a death, come and put an end to my wretched existence).

-Meu Deus! E ai, Ênio?

-Aí, Fernando, ela abriu a porta de entrada da casa e citou este provérbio americano: one pair of heels is often worth two pairs of hands (“um par de calcanhares, às vezes, vale por dois pares de mãos”). Provérbio que corresponde à nossa expressão “pernas pra que te quero?” Nervoso, agitado, compreendi imediatamente, Liza ia suicidar-se, jogando o corpo nos rochedos. Lembrei-me, num átimo, do suicídio em 1969 de sua mãe, Judy Garland, encontrada morta no banheiro do seu apartamento londrino, depois de ter ingerido uma cavalar quantidade de vodca e de pílulas para dormir. Ligeiro, segurei a Liza Minelli pela cintura, impedindo-a de se atirar no penhasco. Embora bem pesada, entupida de álcool, consegui arrastar o seu corpo e colocá-la numa cama, onde se afundou, roncou e peidou, durante quase um dia inteiro.

E o Ênio Silveira concluiu:

-Repito, Fernando, o Carlos Lacerda e a Liza Minelli foram as duas pessoas no pileque que mais me deixaram atrapalhado...

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Escritor e jornalista, Fernando Jorge é autor de Drummond e o elefante Geraldão, que acaba de ser lançado pela Editora Novo Século e cuja primeira edição já está quase esgotada.

 

sábado, 14 de setembro de 2013

JÂNIO QUADROS COMIA MARMITA?


Sou um fiel leitor de dicionários e enciclopédias. Tenho na minha eclética biblioteca, de 30 mil volumes, cerca de 4 mil dicionários e enciclopédias sobre todos os assuntos. Estou lendo os verbetes da “Nova Enciclopédia Ilustrada Ana Maria”, lançada pela Editora Abril. Trata-se de uma obra bem impressa e de leitura agradável. Aliás, a Editora Abril merece toda a nossa admiração, pois ela sempre contribuiu para aumen­tar a cultura do povo brasileiro. Infelizmente essa “Nova Enciclopédia Ilustrada Ana Maria” contém vários erros. Passarei a mostrar alguns, com a esperança de que a Editora Abril os corrija, antes de publicar a segunda edição dessa obra.

Na página 17 do primeiro volume, no verbete sobre a Academia Brasileira de Letras, o tímido Machado de Assis aparece como o fundador dessa instituição. Garanto, não é verdade. Quem fundou a ABL, em 1897, foi o jornalista Lúcio de Mendonça. Provei tal fato no meu livro "A Academia do fardão e da confusão - A Academia Brasileira de Letras e os seus 'imortais' mortais”, um lançamento da Geração Editorial. Machado de Assis tornou-se, isto sim, o primeiro presidente da ABL.

Folheando a enciclopédia ao acaso, encontrei, na página 55 do volume quarto, a seguinte informação: o livro "O Mandarim”, de Eça de Queiroz, é um romance. Não está certo, é uma novela. Eça escreveu-a em 1880 para o "Diário de Portugal” e a sua tradução em francês surgiu em 1884, na “Revue Universelle Internationale”, de Paris.

Num verbete sobre a imperatriz Leopoldina, esposa do nosso D. Pedro I, na página 63 do sétimo volume, há uma informação errada. O verbete assegura: em 1823 a imperatriz começou "a perder a popularidade e o prestígio para a amante do marido, a Marquesa de Santos” Desminto, nunca a virtuosa Leopoldina perdeu a popularidade e o prestígio. Pelo contrário, ela ficou ainda mais popular e querida em 1823, porque o povo se solidarizou com a imperatriz, compreendeu o seu infortúnio.

Também há um erro sobre Monteiro Lobato, na página 83 do sétimo volume. O livro “Urupês”, de Lobato, não é uma coletânea de contos só a respeito do Jeca Tatu, pois este personagem não aparece na maioria desses contos.

Outro erro, agora na página 24 do oitavo volume: não foi a Marquesa de Santos que rompeu em 1829 a sua ligação com D. Pedro I e sim ele, desejoso de se casar, após a morte de Leopoldina, com a princesa Amélia de Leuchtenberg. Alberto Rangel provou isto no seu clássico livro “Dom Pedro Primeiro e a Marquesa de Santos”, publicado em 1916.

Mais um erro, e no verbete sobre Mário Quintana, da página 56 do décimo volume: “A rua dos cata-ventos”, livro desse poeta, não é composto de poemas e sim de sonetos.

Ainda no décimo volume, o verbete sobre Júlio Ribeiro, da página 103, informa que este escritor reuniu no livro “Uma polêmica célebre”, em 1935, uma série de artigos contra um padre português. Indago: como o Júlio Ribeiro, falecido em 1º de novembro de 1890, conseguiu realizar essa proeza no ano de 1935? Ele ressuscitou?

Aconselho os responsáveis pela “Nova Enciclopédia Ilustrada Ana Maria”, da Editora Abril, a tomarem mais cuidado na elaboração dos textos, pois no verbete sobre Jânio Quadros, da página 49 do décimo volume, podemos ler estas palavras:

“...nas campanhas eleitorais costumava comer marmita...”

Comer marmita? Juro, eu não sabia que o Jânio devorava panelas de metal! Os dentes dele eram de aço?

 

Quem autorizou o senhor a morrer?


Os 26 mil habitantes de Biritiba-Mirim, na Grande São Paulo, foram proibidos de morrer, pois o prefeito Roberto Pereira da Sil­va, do PSDB, conhecido como “Jacaré”, havia enviado à Câmara Municipal dessa cida­de um projeto de lei, a fim de propor isto. Biritiba-Mirim é dona de um só cemitério, que está superlotado, com túmulos até nos seus corredores. Jazi­gos foram ocupados por mais de duas famílias e polêmica resolução federal impedia o prefeito de mandar construir uma nova necrópole, devido a questões ambientais. Eis o começo do projeto:

“Roberto Pereira da Silva, prefeito municipal de Biritiba-Mirim, no uso das atribuições que lhe são conferidas por lei, faço saber que a Câmara Municipal aprovou e eu promulgo a seguinte lei:

            Artigo 1º - Fica proibido morrer em Biritiba-Mirim.

            Parágrafo único. Os infratores responderão pelos seus atos.

            Artigo 2º - Esta lei vigorará até a construção de um novo cemitério municipal.

            Artigo 3º - Os munícipes deverão cuidar da saúde para não falecer”.

Depois de concluir a leitura do projeto, lembrei-me de um verso da Divina Comédia de Dante Alighieri, o 46 do canto III do ln­ferno: ­

            “Questi no hanno speranza di morte”

            ("Estes não tem a esperança de morrer")

O poeta italiano, nessa passagem, mostra uma multidão desesperada, a agitar-se no vestíbulo do reino dos demônios. Apenas a morte a libertaria, trazendo-lhe a paz... Como esses condenados descritos por Dante, os biritibanos jamais poderiam ir para a cidade dos pés juntos. A lei os obrigaria a permanecer vivos. Se um deles parasse de respirar, o prefeito Roberto lhe faria esta pergunta:

            -Quem autorizou o senhor a morrer?

            Resposta do defunto:

            -Aconteceu, prefeito, eu não tenho culpa.

            -Tem sim. O senhor violou o artigo 1º da Lei Anti-Defunto.

            -Juro, doutor Jacaré, aconteceu.

            -Se o senhor esticou a canela, foi porque também desrespeitou o artigo 3º da referida lei, que determina que os munícipes, para não morrer, deverão cuidar da saúde.

            -Mas eu estava com saúde perfeita! Morri de repente.

            -E quem mandou o senhor morrer de repente?

            -Aconteceu, sei lá!

            -Olhe, as suas palavras não me convencem. Então o senhor não sabia que aqui, em Biritiba-Mirim, é proibido morrer?

-Eu sabia, doutor Jacaré, eu sabia, mas repito, aconteceu!

            -Ouça, o parágrafo único do artigo 1º da Lei Anti-Defunto especifica que os infratores responderão pelos seus atos. Portanto, eu or­deno: volte a viver. Ressuscite, vamos!

-Doutor Jacaré, como é que eu vou fazer tal coisa?

-Ressuscite, não seja teimoso!

-Juro, eu não consigo, não consigo!

-Trate de dar um jeito. Peça a ajuda do salvador do Brasil, o Lula.

-Se eu fizer isto, morrerei mais uma vez.

Aí, nesse momento, o prefeito se enfureceria, chamaria um policial e berraria:

-Prenda esse defunto estúpido! Eu lhe ofereci a chance de ressuscitar e ele não quis. Que fique na cadeia, até o dia do seu jul­gamento!