domingo, 27 de setembro de 2020

Morra o racismo! Todos nós somos iguais!

 


A Comissão do Negro e de Assuntos Antidiscriminatórios da Ordem dos Advogados do Brasil, seção São Paulo (OAB-SP), recebe atualmente, a cada dois dias, uma denúncia de discriminação racial contra os negros, na capital paulista. Quem informa isto é o presidente desse órgão, Marco Antônio Zito Alvarenga.

Aqui vai outro exemplo. No dia 3 de fevereiro de 2004, em Santana, região da Zona Norte da cidade de São Paulo, policiais militares da Força Tática do 5º Batalhão, todos brancos, mataram a tiros o dentista negro Flávio Ferreira, de vinte e oito anos. Ele foi confundido com um assaltante e nem pôde defender-se. Era negro, portanto um criminoso... Para disfarçar o erro fatal, os policiais brancos colocaram uma pistola 357 na mão direita do cadáver e, no bolso deste, a carteira do comerciante Antônio Alves dos Anjos, vítima do assalto de um bandido.

Ao prestar na delegacia o seu primeiro depoimento, o comerciante declarou: Flávio havia disparado vários tiros contra os policiais. Mas no segundo depoimento, voltando à delegacia, admitiu ter sido pressionado a mentir.

Em frente de tantas evidências, os policiais confessaram que o dentista Flávio Ferreira ergueu os braços, sem esboçar qualquer resistência.

Acusados de atirar no inocente, pelo fato de ele ser negro, o tenente Carlos Alberto de Sousa Santos e o soldado Luciano José Dias, foram condenados a dezessete anos e seis meses de prisão, por homicídio, fraude processual e porte ilegal de arma.

Na noite em que perdeu a vida, o dentista negro retornava do Aeroporto Internacional de Guarulhos, na Grande São Paulo.

Outro negro, o baiano Januário Alves Santana, de trinta e nove anos, vigilante na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP, foi humilhado e espancado por ter sido confundido com um bandido, no dia 7 de agosto de 2009. A agressão ocorreu no hipermercado do Carrefour de Osasco, também na região metropolitana de São Paulo. Cinco seguranças brancos o surraram, durante vinte minutos.

Após o espancamento, muito machucado, cheio de dores, Januário emagreceu oito quilos em duas semanas. Sua dentadura se quebrou, devido a série de socos dos seguranças, e ele passou a alimentar-se com sucos e sopas, pois a gengiva superior do vigilante ficou deslocada, em carne viva. Cabisbaixo, ele confessou:

“Morri naquele dia. O que mais dói é saber que não foi a primeira vez e que pode não ser a última."

Conforme a segunda edição do Relatório Anual das Desigualdades Raciais no Brasil, de 2009, feito a partir de dados do SUS e coordenado por Marcelo Paixão, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, entre 2006 e 2007 foram mortos por hora em nosso país, acredite o amigo leitor, 3,5 negros, enquanto a proporção entre brancos chegou a apenas, 1,7.

Tombaram assassinados, no citado período, em números absolutos, 52.059 negros e 29.982 brancos. Indago se nesta estatística não há a sombra do racismo, mesmo admitindo que muitos dos negros mortos eram criminosos. Outra pergunta: quantos deles, totalmente inocentes, sucumbiram nas garras dos policiais racistas?

Morra o racismo! Todos nós somos iguais!

É na televisão da pátria de Drummond que se nota, de maneira forte, a presença do preconceito racial. Joel Zito Araújo analisou este fato no livro “A negação do Brasil - O negro na telenovela brasileira,” lançado pela Editora SENAC. Ele mostra: os produtores das telenovelas nacionais defendem o branqueamento da nossa sociedade, não se interessam por atores negros e atrizes negras. Preferem as moças e os galãs de cabelos louros e olhos azuis, como Hitler gostava de vê-los nos filmes da Alemanha nazista. O negro nas telenovelas, salientou Joel numa entrevista, faz sempre papel de "bundão", de pessoa boba, mole. E as negras ou as mulatas, nessas histórias, são objetos sexuais do homem branco, destruidoras de lares, só feitas para transar...

O editor José Olympio, em 1964, apresentou-me ao sociólogo Gilberto Freyre. Conversando com este, eu quis saber:

-Na sua opinião o Brasil ainda é a maior democracia racial do mundo?

Gilberto Freyre respondeu, exibindo um sorriso brejeiro:

-Claro que é. Veja a nossa enorme quantidade de mulatos.

Hoje duvido desta afirmativa, pois acho que a mestiçagem, ou melhor, a miscigenação, estudada de modo profundo pelo sociólogo anglo-americano E.B. Reuter no livro “The mulatto in the United States,” publicado em 1918, a miscigenação deixou de ser, se já foi, a prova definitiva da ausência do preconceito racial. Existe uma outra espécie de racismo, oriundo do mulato não querer ser mulato e do negro não querer ser negro, quando ambos, por causa da ascensão social, negam a própria raça e procuram agir como brancos.

Orgulho-me de ser anti racista. Para mim a humanidade é toda igual, não existe raça superior a outra raça. Gosto de citar, como símbolo do povo brasileiro, a nossa notável pintora e desenhista Djanira da Mota e Silva (1914-1979), primeira artista latino-americana a ter uma obra aceita pelo Museu do Vaticano, em 1971. Suas telas retratam o povo e as paisagens do Brasil, com um saboroso lirismo algo ingênuo. Djanira descendia de índios guaranis pelo pai e pela mãe de italianos. A avó era austríaca, chamava-se Maria Elizabeth Pliger. No ano de 1943, em plena época da Segunda Guerra Mundial, essa pintora esteve nos Estados Unidos e despertou a admiração de Eleanor Roosevelt, esposa do presidente Franklin Delano Roosevelt, que por causa disso escreveu uma crônica sobre ela.

Reafirmo, não existe raça superior a outra raça e sim, acrescento, diferenças econômicas e sociais, como o demonstrou, valendo-se de farta documentação, A. Niceforo na obra “Antropologia delle classi povere,” onde prova o seguinte: o trabalho, as profissões, o gênero de vida, a riqueza ou a pobreza, determinam e fixam os caracteres físicos e mentais do indivíduo, dando aspecto próprio a uma região, a uma classe ou a uma sociedade.

Morra o racismo! Todos nós somos iguais!

 

domingo, 30 de agosto de 2020

RAIMUNDO MAGALHÃES JÚNIOR: AGENTE DE UMA DITADURA DE MODELO FASCISTA

Na seção “Mistifório”, de O trem (maio de 2013), o meu colega Marcos Caldeira Mendonça informou que Mariza Guerra de Andrade lançará em breve, pela editora Autêntica, o livro Anel Encarnado, biografia do jornalista cearense Raimundo Magalhães Júnior. Todas biografias devem ser bem-vindas, se estão documentadas com firmes, inabaláveis alicerces fincados no solo da verdade. A colega Mariza, brilhante colaboradora desse mensário, possui credenciais para realizar o seu trabalho de biógrafa, mas vou descrever aqui episódios desconhecidos da vida do Magalhães. Acontecimentos lamentáveis.

Em 1963, o meu livro Vida e poesia de Olavo Bilac permanecia na lista dos mais vendidos, como se viu por uma pesquisa do jornal O Globo, divulgada na edição do dia 18 de outubro desse matutino, no citado ano. Devido a tal fato e a algumas revelações do livro que geraram escândalo, polêmicas, o jornalista Justino Martins, diretor da revista Manchete, quis publicar uma reportagem sobre a obra, pois pela primeira vez no Brasil um biografia se tornara best-seller. Convidado, fui à redação da revista e lá, enquanto falava com o secretário Arnaldo Niskier, ouvi gritos, um berreiro, o barulho forte de uma briga, de uma discussão feroz. Surpreso, indaguei ao Niskier:

-Diga-me, está havendo aqui um briga?

Arnaldo Niskier, futuro presidente da Academia Brasileira de Letras, confirmou a minha impressão:

-Sim, está havendo uma briga. É o Raimundo Magalhães Júnior que discute com o Justino Martins, porque este quer mandar fazer uma reportagem sobre o seu livro e o Magalhães não quer. Ele alega que a documentação da sua obra é suspeita.

Vermelho de cólera, eu reagi:

-Suspeita? Pois então quero que ele prove isto!

Sorridente, o Arnaldo Niskier bateu com a mão direita no cotovelo do seu braço esquerdo e me acalmou:

-Não se irrite, Fernando, o Raimundo está com dor-de-cotovelo, com uma bruta inveja do sucesso do seu livro, porque as biografias dele não são muito vendidas, ficam encalhadas nas livrarias...

A reportagem sobre a minha obra, apesar da oposição do Magalhães, saiu na edição do dia 23 de novembro de 1963 da Manchete, a revista mais importante do Brasil, naquela época. Ela foi feita pelo jornalista Esdras Passaes, ocupa três páginas e recebeu o seguinte título: “Olavo Bilac passado a limpo”. Eis início da reportagem:

“Um homem magro (eu, Fernando Jorge), meio místico, ar de profeta oriental, surge no cenáculo literário com um livro-bomba na mão, causando uma das maiores celeumas dos últimos tempos entre os homens de letras”.

Fulo de ódio, devorado pela inveja, o Magalhães publicou no Diário Carioca, em 24 de novembro de 1963, logo depois do aparecimento da reportagem, um extenso artigo contra o meu livro. O texto exibia este título, “Um biógrafo de Olavo Bilac”, e no fim da lenga-lenga o autor defecou esta cretinice:

“...podendo incidir num anátema de Fernando Jorge, direi francamente: ainda prefiro um bom chute do Pelé.”

Entrevistado por Flávio Cavalcanti, no seu programa de televisão, ele quis saber de mim:

-O que você achou da frase do Raimundo Magalhães Júnior sobre o seu livro, ao afirmar que prefere, em vez de sua obra, um bom chute do Pelé?

Respondi, de forma natural:

-Eu também prefiro um bom chute do Pelé, mas com uma condição: desde que a bola seja a cabeça horrorosa do Raimundo Magalhães Júnior...

Indo depois à casa do meu amigo Vianna Moog, membro da Academia Brasileira de Letras (casa número 23, da rua Marquês de Pinedo, no bairro carioca de Laranjeiras), o ensaísta de Heróis da decadência me esclareceu:

-Fernando, o Magalhães tem atacado o seu livro porque você cortou a asa dele. Antes do lançamento do seu livro, ele vivia dizendo, lá na Academia, que ia publicar a biografia definitiva do Olavo Bilac, mas aí apareceu a sua e o Raimundinho se sentiu frustrado.

Lembro-me de apenas ter respondido isto ao escritor gaúcho:

-Que inveja a desse sujeito, hem? Na minha opinião ele não devia chamar-se Magalhães e sim Cagalhães, já que bosteja até pela boca.

Ainda ouço, transcorridos tantos anos, a gargalhada retumbante do inesquecível Vianna Moog...

 

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Agora mostrarei como o biografado por Mariza Guerra de Andrade era agente de uma ditadura de modelo fascista. Desculpe-me, Mariza, se vou desiludi-la.

O meu amigo Carlos Heitor Cony me contou, em 1975, no decorrer de um almoço na sede da Manchete, que quando o Magalhães trabalhava com ele nessa revista, uma noite o cearense nascido em Ubajara se excedeu na bebida e meio alto, porém lúcido, resolveu confessar:

-Sabe de uma coisa, Cony? A maior ambição da minha vida era ser diplomata, eu queria ser cônsul ou embaixador, entrar para o Itamaraty. Fui então procurar, em 1927, o Otávio Mangabeira, ministro das Relações Exteriores no governo do presidente Washington Luís. Expus a ele o meu desejo e o Mangabeira, friamente, afirmou que eu nunca poderia ser diplomata, porque sou vesgo, muito feio, e a minha estatura é bem baixa, quase a de um anão!

Perguntei ao Carlos Heitor Cony:

-E depois, ele se abriu ainda mais?

-Abriu-se. Soltou estas palavras: mas me vinguei, Cony, me vinguei do Otávio Mangabeira, porque quando ele, como inimigo do Getúlio, estava exilado em Nova York, eu me dirigi à sede do Reader’s Digest, onde o Otávio fazia traduções do inglês para o português e declarei aos diretores dessa revista, na minha função de agente do Estado Novo, que se eles continuassem a lhe dar trabalho, o ditador Getúlio Vargas, meu chefe, não iria permitir a circulação do Reader’s Digest no Brasil. E por causa disso o Mangabeira foi demitido de modo sumário.

Não pude deixar de comentar:

-Que baixeza, que ato torpe!

Contei ao Cony, em seguida, que fui confidente do jornalista Paulo Duarte. Este me disse que também estando exilado em Nova York, como inimigo da ditadura do Getúlio, onde produzia na grande cidade uma crônica diária para a National Broadcasting, o Raimundo foi até a sede dessa emissora e pediu, em nome do ditador do Brasil e da política da boa vizinhança, o imediato afastamento do “perigoso” Duarte. Consequência: o jornalista perdeu o emprego na hora.

Depois o Magalhães se apressou a ir até o Museu de Arte Moderna de Nova York, situado na West 53rd Street, na qual o Paulo Duarte, para sobreviver, incumbido pelo museu, executava inocentes trabalhos de pesquisa. O dedo-duro compareceu diante do senhor Philips Goodwin, diretor do estabelecimento, e começou a explicar:

-Vim à sua presença a fim de informá-lo, com autorização do governo do meu país, que o presidente Roosevelt dos Estados Unidos e o ditador Getúlio Vargas do Brasil, ligados por uma aliança política, militar e econômica, não querem que o subversivo Paulo Duarte trabalhe no seu museu.

Imperturbável, o senhor Philips Goodwin levantou-se da sua cadeira e todo rígido, empinado, pronunciou estas duas frases:

-Fique o senhor sabendo que o presidente Roosevelt e o ditador Getúlio Vargas não mandam nada aqui, no Museu de Arte Moderna de Nova York. E por favor, queira retirar-se.

Foi assim, conforme me narrou o próprio Paulo Duarte, que o senhor Philips Goodwin “botou para fora o Raimundo Magalhães Júnior, sujeito sem predicados”, agente de uma ditadura de modelo fascista num país da América do Sul...

 

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Escritor e jornalista, Fernando Jorge é autor de “Drummond e o elefante Geraldão”, que acaba de ser lançado pela Editora Novo Século e cuja primeira edição já está quase esgotada.


domingo, 9 de agosto de 2020

O HOMEM QUE ESTÁ CANSADO DE SUA PRÓPRIA ESPOSA

Jamais gostei de dar conselhos, porque não me julgo nenhum sábio, mas agora estou numa posição especial, que me força a violentar o meu temperamento. Um leitor de Santos enviou-me uma carta, descrevendo o seu drama íntimo. Ele declara, em determinado trecho da carta: “Peço ao senhor que me responda, numa de suas crônicas. Não sou egoísta. Pode ser que meu caso não seja o único. Deste modo um outro indivíduo, que esteja em idêntica situação, poderá aproveitar os seus conselhos, os quais, tenho certeza, serão respeitosamente acolhidos.” Examinemos o problema desse leitor. Homem de meia-idade, diz ele, tem quatro filhos e está casado há quase trinta anos com uma senhora que conta igual número de outonos. De uns tempos para cá, sem conseguir explicar a razão, sente-se nervoso, aflito. Tudo o fatiga, tudo o aborrece. Já não suporta a presença da dedicada companheira. Ela, sempre fiel, calma, discreta, causa-lhe um mal-estar indefinível. A fisionomia abatida, murcha e um pouco enrugada da paciente esposa, e os seus cabelos já meio brancos, provocam no espírito do meu leitor um certo desencanto, uma profunda melancolia... Confessou-me que se acha cansado da própria mulher. Não descobre nela nada mais que o seduza. Aqui vai um conselho ao meu leitor: não menospreze a sua esposa. Procure ver quanta beleza existe nos seus cabelos algo prateados. Cada um dos fios brancos da sua cabeça é a marca de uma fidelidade silenciosa. Vou evocar, para o meu agoniado leitor, a crise psicológica de um nobre europeu. A história é verdadeira. A condessa de Eglington, uma das mulheres mais lindas da Escócia, tinha ultrapassado a casa dos quarenta anos. O seu marido pretendia, de maneira obstinada, ganhar um herdeiro, e a condessa lhe dera sete filhas. Desesperado pelo fato de não ter um sucessor, o conde, tipo excêntrico, resolveu separar-se para sempre da esposa. Propôs que consentisse no divórcio. - Sem dúvida - disse a condessa - mas eu não devo, nem posso consentir na separação, enquanto o senhor não me devolver tudo que recebeu de mim. Esta foi a resposta do conde: - Concordo. Não somente pretendo devolver o dote que recebi de sua pessoa, como também concedo à senhora, da mesma forma, uma pensão vitalícia. - O senhor não me compreendeu - replicou a condessa - guarde o meu dote e todos os seus bens. Não é disso que eu falo. Para que nos separemos é necessário, primeiro, a devolução da minha mocidade. Em seguida, a da minha beleza de jovem. Depois, senhor conde, quero a entrega de minha condição de solteira, pois o senhor haverá de convir que recebeu de mim essas três coisas muito preciosas. Impressionado com o pedido, o conde de Eglington abaixou os olhos, reconhecendo a injustiça que praticara. E nunca mais falou em divórcio. Agora, meu insatisfeito leitor, disposto a acabar com o seu casamento, permita-me fazer esta pergunta, baseado na história acima narrada: após trinta anos de convivência, o senhor poderá devolver à sua esposa a mocidade que ela possuia e que lhe entregou, e também a sua beleza de jovem, as suas ilusões, a sua condição de solteira? Se puder devolver-lhe tudo isto, o senhor terá o direito, na minha opinião, de abandoná-la e de andar de cabeça erguida, até o fim da sua vida. 

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Escritor e jornalista, Fernando Jorge é autor do livro “Cale a boca, jornalista!”, cuja 7ª edição foi lançada pela editora Novo Século.