domingo, 18 de janeiro de 2015

AS LÁGRIMAS DE JUSCELINO KUBITSCHEK


Num dos meus encontros, em 1975, com Juscelino Kubitschek no Banco Denasa, do qual ele era presidente do Conselho de Administração (o banco era dos seus genros), Juscelino me contou que teve uma crise de choro em Belo Horizonte no Palácio da Liberdade, quando o doutor João Pi­nheiro Neto, seu oficial de gabinete (Juscelino era o governador de Minas), começou a lhe dar informações, na manhã do dia 24 de agosto de 1954, sobre o suicídio de Getúlio Vargas. Eu ousei dizer ao criador de Brasília, naque­la ocasião:

-Presidente, além das suas lágrimas derramadas pela morte do Getúlio, eu sei que o senhor teve outra crise de choro.

Surpreso, abrindo mais os olhos, ele pediu:

-Então me conte como eu tive esta outra crise. Quero ver se você é um escritor muito bem informado.

Comecei a narrar:

-No mês de junho de 1964, devido a uma iniciativa do general Costa e Silva, o seu mandato de senador foi cassado. E os militares, estimulados pelo Costa, também suspenderam os direitos políticos do senhor por dez anos. Não é verdade?

Juscelino concordou:

- Pura verdade. E confesso, decidi sair do Brasil por causa disso. Viajei para a Europa no dia 14 de junho de 1964. Mas prossiga.

Os olhos do ex-presidente, que às vezes forneciam a impres­são de ser de um chinês, revelavam uma viva curiosidade. Eu continuei:

-Centenas de pessoas o acompanharam na sua despedida. Um gru­po de homens ergueu o senhor no ar e o carregou sob palmas, aclamações, até a escada do avião. Repito, eram centenas de pessoas que gritavam “vivas”, e o senhor, emocionado, agitava um lenço branco.

Juscelino confirmou:

verdade, eu me emocionei, senti o amor de povo, o seu

carinho por mim.

-Dentro do avião - prossegui - o senhor não pôde mais se con­trolar e caiu num choro forte. Levou o seu lenço branco ao rosto e o encharcou com as suas lágrimas.

Cheio de espanto, Juscelino Kubitschek admitiu:

-Também é verdade, mas como veio a saber desses fatos?

-Presidente, quem me contou esses fatos foi o meu amigo Silveira Bueno, catedrático de filologia portuguesa da Universidade de São Paulo. Ele já se encontrava naquele avião, quando o senhor entrou. Viu o seu embarque, de uma das janelas do aparelho, e o seu choro, pela fresta de uma cortina grossa. O lugar em que o senhor se acomodou era isolado, no fundo do avião, mas o professor Silveira Bueno estava sentado junto da cortina...

O ex-presidente fez o seguinte comentário:

- Se você escrever a minha biografia, decerto evocará este episódio. Chorei muito, lá dentro do avião, porque eu vi, ao embarcar para o exílio, como o povo brasileiro me amava.

E Juscelino também não impediu o jorro das lágrimas em outra ocasião, pois no ano de 1973, graças a iniciativa do empresário João Abujamra,o Clube Nacional da capital paulista o homenageou com um almoço.

rios oradores enalteceram o estadista nascido na cidade mineira de Dia­mantina. Mas ao ouvir o discurso do meu pai, o grande orador Salomão Jor­ge, que descreveu a sua infância de menino pobre, descalço, filho de uma heróica e modesta professora, Juscelino chorou copiosamente. Ali, naquele momento, todos puderam ouvir até os seus soluços. João Abujamra, leal ami­go do “Peixe Vivo", é testemunha desse fato.

            Um pensamento de Franz Grillpazer (1791-1872), poeta e dramaturgo alemão:

As lágrimas são o sagrado direito da dor.”

(“Die Thränen sind dês Schmerzes helig Recht!”)

domingo, 11 de janeiro de 2015

O ASSALTO DO GOVERNO LADRÃO


Sujeira, porcaria, fez o presidente Collor, antes do confisco da poupança decretado por ele, como revela esta manchete da edição do dia 22 de agosto de 1992 do “Jornal do Brasil”:

          “Collor e PC Farias escaparam do bloqueio dos cruzados em 1990”.

          E eis a manchete, também de primeira página, na mesma data, da “Folha de S.Paulo”:

          Dinheiro de Collor foi sacado na véspera do confisco da poupança.

          No dia 13 de março de 1990, véspera do feriado bancário, a senhora Ana Acioli, secretária do presidente, retirou da conta deste, no BMC de Brasília, uma quantia que hoje corresponde a 443 milhões de reais. Segundo o depoimento da secretária à CPI, “nunca saiu um centavo daquele banco, sem o prévio conhecimento de Collor”.

          Portanto, como salientou o “Jornal do Brasil”, o presidente, poucas horas antes do bloqueio do dinheiro, “tratou de salvar a própria pele”. Aqui podemos evocar a velha frase de um político desonesto, porém “moralista” para efeitos externos:

          -Façam o que eu digo, mas não façam o que eu faço.

          Já existe esta outra prova: os assessores da ex-ministra Zélia Cardoso de Mello receberam 320 mil dólares do Esquema PC. Uma empreiteira, de modo suspeito, fez a reforma do seu apartamento, reforma que custaria agora, corrigidos pela variação do câmbio livre, 351 milhões de reais! E Zélia era “uma mulher pobre, sem recursos”.

          Quando houve o sequestro do suado dinheiro do povo, um grupo de jornalistas foi entrevistar a ex-ministra. Sentados em várias cadeiras, aguardavam as suas declarações, quando ouviram as gargalhadas que ela soltava através da porta semi-aberta, junto dos seus assessores:

          -Ha, ha, ha, ha! Este zé-povinho estava pensando que eu era mole! Ha, ha, ha, ha, ha, ha! Eu não sou mole, não! Ha, ha, ha, ha! Este zé-povinho está muito mal acostumado, só quer consumir! Mas comigo vai ser duro, pois eu sou a Margareth Tatcher, a dama de ferro da economia brasileira! Ha, ha, ha, ha! E essa gente pode desmaiar e até morrer lá nas filas dos bancos, das agências das caixas-econômicas, porque comigo é assim, não tem conversa, não! Ha, ha, ha, ha, ha, ha!

          Oito jornalistas ouviram estas palavras e estas gargalhadas da Zélia, atrás da porta. Tenho no meu arquivo o depoimento deles, narrando isto, com as assinaturas reconhecidas em tabelionatos.

          Logo após o confisco do dinheiro, determinado pelo governo Collor, o senhor Lourival Ricardo Drewnick, de sessenta e um anos, sofreu um derrame cerebral. Ele morava em Santos, num apartamento da Praia Grande, e tinha 750 mil cruzeiros numa caderneta de poupança. Quis retirar esse dinheiro bloqueado, com o objetivo de tratar da saúde, mas o Banco Central não permitiu. Drewnick se sentia humilhado, profundamente deprimido, por ter de pedir empréstimos a parentes e amigos. Técnico em sistemas de refrigeração, o sexagenário recebia, na qualidade de aposentado, cerca de 60 mil cruzeiros mensais, dinheiro insuficiente para cobrir as despesas do seu tratamento médico. Repleto de angústia, de desespero, ele resolveu suicidar-se no Dia do Aposentado, como forma de protesto. Disparou um tiro na cabeça e deixou este bilhete:

          “Deus me perdoe, mas não aguento mais tanta dor e ver a miséria chegando. Maldito Collor, ladrão de velhos e aposentados. Dedico a ele a minha morte”.

          (Consultar a notícia “Poupança presa leva aposentado ao suicídio”, publicada na edição do dia 21 de janeiro de 1991 do jornal “O Estado de S. Paulo”).

          Ao decretar o confisco da poupança, ao trair a sua palavra, Collor apunhalou o povo pelas costas. Naquela época eu comentei:

          -Estamos diante de uma canalhice monumental, de uma prova sólida, incontestável, de absoluta falta de caráter.

          O assalto do governo Collor, desse governo ladrão, gerou uma crise gravíssima no comércio e na indústria. Esta deixou de produzir e o comércio de vender, pois o consumo caiu verticalmente. Ninguém tinha dinheiro. Consequência: veio a crise social, a recessão, o desemprego.

domingo, 14 de dezembro de 2014

A ignorância é a maldição de Deus


Quem costuma soltar muitos erros de português é o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que é também professor. Ele é como o Collor, não conhece a regência do verbo assistir. Olhem estas frases de um dos seus discursos:

“Nós, hoje, acabamos de assistir algumas apresentações...

Eu assisti, das fundações Roberto Marinho e Norberto Odebrecht, esforços na mesma direção... Hoje, nós assistirmos aqui esses chamamentos à sociedade..." (Discurso pronunciado no Rio de Janeiro e reproduzido na edição do dia 18 de março de 1995 do jornal O Estado de S. Paulo).

Vamos corrigir os três erros de português do ex-presidente. Na primeira frase, “assistir algumas apresentações'" não está certo, é “assistir a algumas apresentações'. E o Fernandinho não pode "assistir esforços", ele “assiste a esforços”. Também na última frase esse grande erro de português continua a aparecer. Não é “nós assistirmos aqui esses chamamentos". Falta um a: é “nós assistirmos aqui a esses chamamentos".

            Mais adiante, em outra passagem da arenga, o Fernando Henrique vomitou este erro:

            ”Se tivermos errados, nós mudaremos...”

            Senhor ex-presidente, aprenda agora ou volte a ser aluno de uma escola de ensino fundamental: não é “se tivermos errados”, é “se estivermos errados”. O senhor aprendeu ou quer que eu repita a lição?

            Trecho de outra arenga do professor Fernando Henrique:

            “...cidade, Estado e União são capazes de atender aos reclames da população" (Discurso pronunciado no metrô de Recife e reproduzido na edição do dia 25 de janeiro de 1997 do jornal O Estado de S. Paulo).

            Fernandinho, não é “reclames da população”, é reclamos. Trate de memorizar as minhas palavras: reclames são anúncios comerciais e reclamos são gritos, clamores, reclamações. Entendeu?

Num outro discurso proferido na capital de Pernambuco, o rei Fernando II salientou:

“... lá no Rio Grande do Sul, na terra do nosso ministro dos Transportes, o problema da escravidão pesava como uma nódoa...” (OESP, 25-1-1997).

Que imagem absurda! Desde quando uma nódoa pesa como o chumbo, o aço, o ferro, um soco do Mike Tyson?

A verdade é a seguinte: os discursos do professor Fernando Henrique Cardoso exibem disparates, gravíssimos erros de português e frases obscuras, mal construídas. Dei apenas alguns exemplos. Ele é um verborrágico, e à semelhança do José Sarney e do Fernando Collor de Mello, tem torturado metodicamente a língua portuguesa. Esta, martirizada pelos três, não para de gritar:

            -Socorro, socorro, me salvem! O Sarney, o Collor e o Fernando Cardoso estão me matando, eu não aguento mais! Acudam-me! Deus, Jesus Cristo, Maomé, Buda, padre Cícero, Nossa Senhora Aparecida, me ajudem, sintam pena de mim!

            Concluo este bate-papo citando a seguinte frase que Shakespeare colocou no ato quarto da sua peça Henrique VI:

“A ignorância é a maldição de Deus; o saber, a asa que nos ajuda a voar até o céu”.

                        (“Igonorance is the curse of God,

                          Knowlodge the wing wherewith we

                          fly to heaven”)

domingo, 23 de novembro de 2014

A MEMÓRIA DE ROBERTO MARINHO ESTÁ SENDO DESRESPEITADA


Fátima Sá, editora do Segundo Caderno de O Globo, por favor, corte as besteiras, os disparates, os erros de português da Adriana Calcanhotto. Vejamos algumas imbecilidades da Adriana. Leiam estas palavras da sua crônica. “A verdade dói”, de 23 de março de 2014:

“O Brasil só faz... alianças pragmáticas em vez de programáticas e loteamento de cargos”.

Absurdo, loteamento de cargos corresponde a venda de cargos, a corrupção! Adriana, você estava alcoolizada ao dizer que o nosso país deve lotear cargos?

Admirem outra resplandecente cretinice da Calcanhotto:

“...do hotel para fora estou em Portugal, do hotel para dentro na Península Ibérica” (crônica “O cheiro das ruinas”, 8-4-2014).

Eu pergunto: o país de Gil Vicente saiu dessa península? Agora se acha no Canal da Mancha?

Evocando o falecido ator José Wilker, a colunista o chama de “sedutor irresistível, cachorro”, na crônica “Pirueta felomenal” (20-4-2014). Wilker era buldogue, latia? Ela foi mordida por ele?

Um conselho da Adriana:

“Não classifique as coisas como boas ou más, chiques ou cafonas, certas ou erradas. As coisas são o que são” (crônica “Leve um agasalho”, 4-5-2014).

Genial! Então, segundo este raciocínio, o roubo é aceitável, o assassinato é normal...

Mais um bom conselho da colunista de O Globo, na mesma crônica:

“Não peça um copo d’água a ninguém, levante-se e vá buscar.”

Daí se deduz que um doente na cama, febril e sedento, sem poder andar, deve morrer de sede, como o Tântalo da mitologia grega...

Comentário asnático da Adriana:

“...amam jogar bola jogando bola” (crônica “E começa a partida”, 18-5-2014).

Sensacional! Graças à notável Calcanhotto podemos nos expressar assim: gostam de beber bebendo, de falar falando, de comer comendo.

Fiquei deslumbrado ao ler isto num dos seus textos:

“Canção inventada de maneira inventada” (crônica “Mea culpa”, 27-7-2014).

Puxa, eu não sabia que aula deve ser dada de maneira dada, que espirro deve ser espirrado, que recibo deve ser recebido!

Arregalei os olhos, pois um cachorro vira-lata, segundo a Calcanhotto, “mija os pneus do ônibus” (crônica “Crise de alegria”, 21-9-2014). Meu Deus, como um cão consegue mijar pneus? Como? Por que ele também não mija garrafas e canivetes?

E os erros de português da Adriana? Parecem não ter fim. Se o doutor Roberto Marinho estivesse vivo, ele jamais permitiria que ela fosse dona de uma coluna em O Globo. Aí vão alguns dos seus atentados ao nosso idioma:

“...quando deixando-lhe...” (crônica “Fevereiro e o poeta”, 9-2-2014).

Correção: quando lhe. O quando, advérbio ou conjunção, atrai o pronome.

“...sentado em uma mesa...” (crônica “E começa a partida”, 18-5-2014).

Correção: sentado à mesa. O fulano não pôs a sua bunda em cima da mesa. E há um cacófato: mama. A Calcanhotto aconselha o leitor a mamar?

“...chamou ela...” (crônica “Assinado: SOS”, 1-6-2014).

Correção: chamou-a.

“...tem visão do todo, inteligência, precisão, que engana o zagueiro...” (crônica “A camisa 10”, 15-6-2014).

Correção: que enganam, pois este verbo se refere a três coisas. Erro primário de concordância.

“...aparentemente injuntaveis...” (crônica “Mea culpa”, 27-7-2014).

Correção: a palavra injuntavel não existe, tanto no singular como no plural.
 
“...o que estranhou-se...” (crônica “De galho em galho”, 7-9-2014).
Correção: “o que se estranhou”, pois o pronome relativo influi na colocação dos pronomes pessoais, objetivos e terminativos.
Bem, e os cacófatos ou cacofonias da Calcanhotto? Ela não para de expelir palavras que dão lugar a outras, de sentido diferente ou ridículo. Citaremos apenas três cacófatos dessa gramaticida (assassina da gramática).
“E por rápido” ... (crônica “Pirueta felomenal”, 20-4-2014).
Cacófato: porrá. Esperma de quem? De porco? De homem? De macaco?
“...uma máquina” ... (crônica “Expectativa”, 13-7-2014).
Cacófato: mamá. Adriana quer mamar, virou bebê? Ela agora canta a marchinha de Jararaca e Vicente Paiva, do carnaval de 1937:
 
“Mamãe eu quero,
mamãe eu quero,
mamãe eu quero mamar...
Dá a chupeta,
dá a chupeta,
dá a chupeta
pro bebê não chorar”.
 
Terceiro cacófato: “...que ela tinha” ... (crônica “Ela e os passarinhos”, 24-8-2014). Latinha. De cerveja ou de guaraná?
Confesso, quatro inconformados jornalistas de O Globo me incentivaram a descer o cacete nos solecismos, nos desconchavos, na alta pirâmide de cacaborradas da apedeuta Adriana Calcanhotto.
A memória de Roberto Marinho, zeloso defensor da lógica e da linguagem correta, está sendo desrespeitada no jornal que ele tanto engrandeceu, amou e dignificou.
 
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Escritor e jornalista, Fernando Jorge é autor de Drummond e o elefante Geraldão, que acaba de ser lançado pela Editora Novo Século e cuja quarta edição já está quase esgotada.
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Este artigo foi publicado numa rede composta de 40 jornais de São Paulo e de 60 de outros estados.
A acusação de Fernando Jorge também tem sido feita em programas de televisão.
 

domingo, 9 de novembro de 2014

CAÇAS ÀS BRUXAS


As autoridades da Arábia Saudita executaram uma mulher que foi condenada por praticar magia e feitiçaria. Essa mulher, Amina bin Abdul Halin bin Salen Nasser, sofreu a decapitação, cortaram-lhe a cabeça na província de Jawf, no norte do país.

De acordo com Abdullah Al-Mohsen, chefe de polícia, a feiticeira prometia curar doenças e cobrava até oitocentos dólares dos enfermos.

A legislação da Arábia Saudita segue de modo fiel a Sharia. Tal lei islâmica proíbe a bruxaria e inflinge a pena de morte a quem a pratica, em qualquer circunstância.

No meu livro Lutero e a Igreja do pecado, já na sétima edição, lançada pela editora Novo Século, eu evoquei diversos casos de feitiçaria, ocorridos na Idade Média. O que aconteceu agora, na Arábia Saudita, nada mais é do que a sobrevivência de um costume bárbaro, imposto pelo fanatismo religioso.

Reproduzo aqui, neste bate-papo, alguns trechos do capitulo décimo de Lutero e a Igreja do pecado, obra ricamente documentada e traduzida para o italiano pela professora Rina Malerbi Ricci, da Universidade de São Paulo.

No Livro do Êxodo, da Bíblia, a bruxaria é punida com a pena de morte. Está registrado no seu texto:

“Não deixarás a feiticeira viver” (22:18).

Mulheres loucas ou desequilibradas se proclamavam seguidoras de Belzebu ou do Grande Bode Negro de Três Cornos. Segundo informam alguns autores, inúmeras vezes eram queimadas nas fogueiras da Europa, num só dia, mais de trezentas bruxas. Estas, nas noites de sábado, voavam montadas em cima de bodes ou de cabos de vassoura, para ir ao sabá, a medonha reunião presidida por Satã. Ficava sob suspeita a mulher que dormia com a janela aberta, pois decerto ia lançar-se pelos ares, montada num desses cabos de vassoura... Até os católicos acreditavam em tais absurdos. Lendo a Bíblia, vemos Belzebu aparecer no Evangelho de São Lucas, quando Cristo desmoraliza uma calúnia dos fariseus:

“Jesus estava a expulsar um demônio, o qual era mudo. E aconteceu que, saindo o demônio, o mudo falou e a multidão ficou admirada. Mas alguns disseram: ‘É por Belzebu, príncipe dos demônios, que ele expulsa os demônios’” (11:14,15).

No século V, o código dos visigodos, na Espanha, punia com o chicote e a escravidão os “maléficos”, os “geradores de tempestades”, os “evocadores de Satã” e os “perturbadores do espírito”.

Meninos de pouca idade foram queimados vivos, porque se supunha que existiam crianças feiticeiras, “uma das mais hábeis astúcias do diabo”.

Intensas, no território germânico sob a jurisdição da Igreja, eram as “caças às bruxas”, principalmente em Treves, Bamberg, Würzburg, Ellwangen e Mergentlein.

A senhora Alice Kyteler, no ano de 1324, não conseguiu escapar da acusação de ter praticado vários atos diabólicos, junto de outras pessoas. Um bispo a denunciou, Richard de Ledrede, ex-monge franciscano. Isto aconteceu em Kilkenny, na Irlanda. Vejam os crimes da feiticeira, citados no tribunal: infanticídio, assassinatos dos seus esposos, sacrifícios de toda espécie aos demônios, extração da gordura de cadáveres humanos. E ela, além disso, foi acusada de copular com o próprio diabo, que lhe aparecia sob as formas de um gato, ou de um peludo cão selvagem, ou de um indivíduo preto, armado de longa barra de ferro.

Metida numa prisão, após ser excomungada pelo tal bispo, Alice escapou da cela e fugiu para a Inglaterra, porém a sua criada, Petronilla de Meath, e alguns dos seus “cúmplices”, condenados por magia, acabaram morrendo em fogueiras.

Como o amigo leitor pode ver, por estas informações extraídas do meu livro sobre Lutero, as feiticeiras sempre foram execradas pelos líderes religiosos, ao longo dos séculos.

domingo, 5 de outubro de 2014

O CARRO CELESTIAL DE AYRTON SENNA

Apesar de não gostar de automobilismo, no qual enxergo uma loucura e não um esporte, eu admirava a coragem de Senna. O seu patriotismo me comovia. Mesmo sem querer, lutando contra os meus próprios sentimentos, a emoção se apoderava da minha alma, quando via Ayrton Senna agitar a nossa bandeira, após ser o vencedor de uma ­corrida internacional. Um nó se formava na minha garganta e eu engolia a seco. Aquele rapaz modesto, erguendo a nossa bandeira, me devolvia o orgulho de ser brasileiro e conseguia tirar do meu coração, por alguns momentos, o ódio, a fúria, a revolta que nunca deixei de alimentar contra os nossos políticos corruptos.
Sim, ele estufava o nosso peito, fazia desabrochar em nossas caras, mesmo que não fosse na primavera, a nacarada flor do sorriso, da alegria apetecida. Ofertava esse prazer ao povo e ainda o socorria, pois só agora se sabe, depois de sua morte, que ele ajudou em segredo, às ocultas, deficientes físicos e à entidades assistenciais. Deu milhares de dólares à Fundação Abrinq, à Associação de Assistência à Criança Defeituosa, ao Centro de Reabilitação do Hospital das Clinicas. Graças aquele piloto de ar tímido e gestos simples, máquinas carissimas foram adquiridas no exterior, como o aparelho Cybex, utilizado nas avaliações musculares. Com o dinheiro que ganhava nas pistas, arriscando sua vida, Ayrton Senna patrocinou o tratamento de centenas de crianças carentes, portadoras de distúrbios cerebrais ou neurológicos.
Ele salvou a vida da jovem Regiane Maria dos Reis, que sofria de cirrose hepática crônica e necessitava urgentemente de um transplante de fígado. Os 65 mil dólares doados por Senna pagaram a operação da moça. E a sua bondade também favoreceu, no estado do Acre, uma instituição de assistência médica a índios e seringueiros, fundada pelo Chico Mendes. Inimigo do espalhafato, da caridade ruidosa e ostensiva, Senna exigia que essas ações jamais fossem reveladas.
Rapaz de olhar meio triste, Ayrton Senna declarava que durante as corridas, quase sempre, tinha o costume de conversar com Deus. Aliás, em 1988, após conquistar o seu primeiro titulo mundial no Japão, ele afirmou que havia contemplado Jesus Cristo num trecho do autódromo, antes do fim da prova. Leiam as suas palavras:
-Eu estava agradecendo a Deus pela vitória. Deus me presenteou.Era um presente enorme, essa vitória. Mesmo rezando, eu estava superconcentrado, me preparando para uma curva longa, de 180 graus, quando vi a imagem de Jesus. Ele era tão grande, tão grande... Não estava no chão. Estava suspenso, com a roupa de sempre, e umaluz em volta. O seu corpo inteirinho subia para o céu, alto, alto, alto, ocupando todo o espaço. Eu vi essa imagem incrível, enquanto guiava o carro de corrida. Guiava com precisão, com força, com...
Ai, nesse momento, Ayrton Senna ficou mais emocionado, os seus olhos se umedeceram e ele acrescentou:
de enlouquecer, não é? É de enlouquecer...      
Que moço estranho, o Ayrton Senna! Pairava no seu rosto a melancolia das criaturas que morrem cedo. Ayrton era um místico, um médium com o dom de ter visões, um ser repleto de bondade, de espiritualidade.
Agora eu o vejo como um espírito de luz, guiando no espaço negro da morte um belíssimo e resplandecente carro de corrida. Para onde vai esse carro etéreo, mais veloz do que os carros de corrida do nosso planeta? Vai em direção à Luz suprema, à Luz de todas as luzes, à Luz que ressuscita os mortos e que se chama Deus. E de onde vem a força desse carro celestial do Ayrton? Vem de sua alma, da sua bondade, da sua piedade, da humana ternura do seu coração sensível e extremamente generoso...

domingo, 14 de setembro de 2014

Jânio foi cassado por causa do seu beliscão numa bunda


Conforme narrei no meu livro Drummond e o elefante Geraldão, fui amigo íntimo do presidente Jânio Quadros. Ele morava perto do meu lar, numa casa térrea da rua 9 de Julho, número 880, em frente à Chácara Flora, no bairro Alto da Boa Vista, da cidade de São Paulo. Aos sábados, no período da manhã, Jânio costumava telefonar para mim. E muitas vezes ouvi esta súplica:

-Socorro, Fernandinho, socorro, estou morrendo!

Eu respondia:

-O senhor está doente, passando mal?

Palavras invariáveis do marido da dona Eloá:

-Estou morrendo de tédio, não aguento mais!

-Por que, presidente?

A explicação era dada num tom de angústia:

-Candidatos aos cargos de vereador, de deputado, e até de prefeito, invadem o meu tugúrio, o meu sacrossanto lar, na ânsia de serem fotografados junto de mim. Nem sequer os conheço! É gente de cabeça completamente vazia. Se fossem guilhotinados, como a Maria Antonieta, as suas cabeças subiriam aos ares como balões, perder-se-iam nas alturas!

Jânio então solicitava:

-Por favor, Fernandinho, almoce comigo. A Eloá vai servir o meu prato predileto, camarões com quiabo. Venha aqui e falaremos sobre arte, poesia, literatura, coisas elevadas. Comentaremos as parvoíces, os destrambelhos dos nossos políticos. Assim me sentirei melhor...

E eu, dezenas de vezes, ia almoçar com o Jânio. A conversa se estendia por horas a fio, só se encerrando ao anoitecer. Ele se abria comigo, não escondendo nada, nem mesmo pormenores de sua vida sexual, porém longe, é claro, da presença discreta da dona Eloá.

Quando a Adelaide Carraro (o sarcástico Agrippino Grieco a chamava de Adelaide Escarraro) lançou em 1963 o seu romance autobiográfico Eu e o governador, perguntei ao Jânio:

-Já leu este livro, presidente?

O mato-grossense não escondeu a verdade:

-Fiz fuki-fuki com a Adelaide, numa banheira, mas ela carecia de carne, era ossuda, e sou carnívoro como os tigres, os leões.

Rindo como um garoto travesso, prosseguiu:

-Sabe quem é o governador, no livro?

-Não.

-Sou eu.

Influenciado por esse depoimento de Jânio, coloquei no capítulo XIII do meu romance satírico O Grande líder, atualmente na sexta edição, a seguinte passagem, a fim de descrever um dos hábitos do personagem principal, Piranha da Fonseca Albuquerque:

“No palácio acolhia os secretários em cuecas, ou dentro da banheira, enquanto a impudica Joana D’Arc beijava as unhas dos pés do seu amado, sinuosas como roscas e orladas de preto.”

Certa vez eu e o Jânio estávamos à beira da piscina da sua casa, sentados em cadeiras de lona. De repente, bebendo uísque, ele soltou estas palavras:

-Perdi os meus direitos políticos, fui cassado em 1964, por causa do beliscão que dei numa bunda.

A princípio pensei que se tratava de brincadeira, mas ele continuou, de cara séria:

-Numa recepção, antes do Golpe de 1964, eu havia me excedido no uísque e belisquei a rechonchuda nádega esquerda da dona Yolanda Costa e Silva, esposa do comandante do II Exército, o general Artur da Costa e Silva. Ele tomou conhecimento desse episódio lamentável. Arrependo-me de ter agido de maneira tão soez, tão imprópria de um censor dos atos imorais.

-E como o Costa e Silva veio a saber disso?

-Creio que a própria dona Yolanda, mulher honrada, queixou-se a ele. Talvez ela tenha ficado com a bunda roxa, pois a belisquei fortemente.

Algo eufórico, sob o efeito dos vapores do uísque, o Messias do bairro de Vila Maria acrescentou:

-Fernandinho, sou um bundófilo, apaixono-me por nédios bumbuns femininos, gosto de comprimi-los, mas depois o remorso me atormenta. There is another man with’n me that’s angry with me.

Arregalei os olhos e ele me esclareceu:

-É uma frase do filósofo inglês Thomas Browne, no seu livro Religio Medici. Vou traduzi-la. “Dentro de mim há um outro homem que está contra mim.”

Perguntei como o vigoroso aperto na bunda da dona Yolanda gerou o processo causador da perda dos seus direitos políticos. Explicou:

-Logo após o Golpe de 1964, o general Humberto de Alencar Castelo Branco enviou-me um pedido. Queria que eu redigisse um documento, para incentivar os civis a apoiá-lo por sua investidura no cargo de presidente da República. Eu o atendi. O documento, assinado por mim, foi divulgado de forma ampla pelas emissoras de rádio e de televisão, pelos jornais do Brasil inteiro. Portanto, eu, Jânio Quadros, era visto com simpatia no círculo dos militares do Golpe, eles não me consideravam corrupto, ou subversivo, ou inimigo. O Castelo me admirava, pretendia convocar-me no futuro.

E aí, presidente?

-Aí, na primeira lista de cassações, o almirante Augusto Rademaker e o brigadeiro Francisco Assis Correia de Melo, integrantes do Comando Supremo do movimento revolucionário, não incluíram o meu nome nessa lista. Depois de examiná-la, o general Artur da Costa e Silva, ministro do Exército, lembrando-se do beliscão que apliquei na bunda da dona Yolanda, exigiu a inclusão do meu nome. Devido ao seu ódio, ao seu rancor, ao seu espírito vingativo, com base no Ato Institucional número 1 (AI-1), fui cassado no dia 10 de abril de 1964.

Teci este comentário:

-Presidente, pequenas causas, grandes efeitos. Evoco a afirmativa do filósofo Blaise Pascal: um diminuto grão de areia, un petit grain de sable, na bexiga de Olivier Cromwell, chefe da revolução inglesa de 1645 que destronou e executou o rei Carlos I, tirou a vida de Cromwell. Resultado, o grãozinho modifica a história da Inglaterra...

Jânio Quadros deduziu, após beber um gole de uísque:

-E querido amigo, o rumo da minha vida foi alterado por causa do meu beliscão no glúteo opulento, perturbador, da dona Yolanda.

Rimos a valer. Aliás, esse beliscão histórico é também descrito, sem as minucias aqui apresentadas, nas páginas 112 e 113 do livro As armadilhas do poder, do jornalista Gilberto Dimenstein, lançado em 1990 pela Summus Editorial e pela Folha de S.Paulo.

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Escritor e jornalista, Fernando Jorge é autor do livro Se não fosse o Brasil, jamais Barack Obama teria nascido, cuja 3ª edição foi lançada pela Editora Novo Século