quarta-feira, 16 de julho de 2014

O apelido de Lula era este: Taturana


Recebi de Luísa Nogueira Mortensen, minha estimada leitora, uma carta com estas palavras:

          “Já li os seus livros sobre Santos Dumont, o Aleijadinho e o intitulado Vida e poesia de Olavo Bilac. Estou lendo agora outra obra de sua autoria, o Lutero e a Igreja do pecado, cuja sétima edição acaba de ser lançada pela Editora Novo Século. Diga-me uma coisa, o senhor seria capaz de escrever uma biografia do Lula?”

          Cara Luísa, embora eu não seja do PT e eleitor do ex-presidente da República, afirmo que sim. E por uma simples razão: possuo, a respeito do Lula, um idôneo material informativo, colecionado ao longo de mais de vinte e cinco anos. Aliás, o meu arquivo, muito rico, me permite discorrer sobre centenas de assuntos. Orgulho-me de sempre agir como um escritor bem organizado. E sigo este conselho da Bíblia:

          “Tudo, porém, seja feito com decência e ordem”.

          (Epístola de São Paulo aos coríntios, capítulo 14, versículo 40)

          Jonathan Swift (1667-1745), o satírico autor das Viagens de Guliver, obra na qual escarnece da sociedade inglesa, estava certo quando garantiu que a ordem governa o mundo e que quem causa a confusão é o demônio...

          Luísa Nogueira Mortensen indaga, na sua carta, se posso lhe dar algumas informações curiosas sobre o Lula. Graças ao meu arquivo, onde há ordem e até capricho, extrai dele os dados aqui expostos.

          A mãe de lula era conhecida como dona Lindu. O seu pai, Aristides Inácio da Silva, foi carregador nas docas de Santos.

          No mês de dezembro de 1952, o menino Lula, nascido em 27 de outubro de 1945, enfrentou heroicamente, com a mãe e os irmãos, uma viagem de treze dias num caminhão pau-de-arara, desde Garanhuns, em Pernambuco, até a cidade de Santos. Nesta eles se decepcionaram, pois Aristides havia constituído nova família com uma prima.

          Lula trabalhou como ambulante e depois conseguiu emprego numa tinturaria. Ali o dono, um nipônico, tentou ensiná-lo a falar japonês. Em seguida o rapaz tornou-se office-boy. Decorrido pouco tempo, ingressou numa fábrica de parafusos. Permaneceu nela durante quatro anos, mas já fizera o curso primário, até a 5ª série.

          Em 1964, nas Industrias Villares de São Bernardo do Campo, ele trabalhava doze horas por dia, como torneiro-mecânico. Perdeu nessa época, numa prensa, o dedo mínimo de sua mão esquerda.

          Após isto começou a participar do movimento sindical. No ano de 1975, virou presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, e em 1980, ao lado de alguns políticos e intelectuais, fundou o Partido dos Trabalhadores.

          O resto da sua biografia todos conhecem. Apresentarei agora, entretanto, alguns fatos que não foram divulgados.

          Na adolescência, Lula recebeu o apelido de Taturana, porque se rebolava ao dançar nos bailes populares. Sem dinheiro, tinha o hábito de catar pontas de cigarros no chão, já que não podia comprar o seu preferido, o Continental. Frei Chico, irmão mais velho de Lula, certa vez lhe fez esta ameaça:

          -Se eu pegar você fumando, vou aplicar-lhe uma surra.

          Viúvo, Lula conheceu Marisa, a sua atual esposa, no Sindicato dos Metalúrgicos. Ligava para ela todos os dias e irritou-se ao saber que Marisa saía com outro homem. Então ele intimou:

          -Galega, você vai ter que decidir, ou você fica comigo ou fica com esse cara.

          A primeira mulher de Lula se chamava Maria de Lurdes. Casando-se pela segunda vez, o ex-operário teve quatro filhos com a discreta Marisa, que devido a eficientes operações plásticas, remoçou, e por causa da sua melhor situação econômica, está agora mais elegante.

          Gostou das minhas corretíssimas informações, prezada Luísa Nogueira Mortensen?

terça-feira, 17 de junho de 2014

Condeno os atos de nepotismo


O substantivo nepotismo se originou da palavra nepote, que em latim é "sobrinho". Alguns papas davam proteção especial aos seus sobrinhos, fazendo-os príncipes, duques, bispos, cardiais, e por causa desse amparo nasceu o referido substantivo, o qual agora designa na vida política o uso do dinheiro público, das verbas do Estado, a fim de se efetuar a contratação de parentes.

Ficou famoso em nosso país o nepotismo da oligarquia Acióli, do Ceará. Eu mostrei como ele funcionou na minha obra Getúlio Vargas e o seu tempo, lançada pela Editora T.A. Queiroz. Quem exercia as funções de governador do Ceará, no ano de 1910, era o doutor Nogueira Acióli, "o Babaquara". E o seu secretário do Interior se chamava José Acióli A direção da Secretaria da Higiene Pública coube ao doutor Meton de Alencar, cunhado de um filho de Acióli, e a da Inspeção Veterinária ao doutor Thomaz Pompeu Filho, sobrinho de Acióli. Este também nomeou o marido de uma das suas sobrinhas, o senhor Sebastião Araújo, para ocupar o cargo de diretor da Escola de Aprendizes Artífices, e entregou o comando do Batalhão de Segurança ao seu genro, o capitão Raimundo Borges. Um primo de Acióli, o deputado José Pinto, dirigia os Correios.

Os Aciólis se encontravam em toda parte, na Faculdade de Direito, na Escola Normal, na Intendência Municipal, na Assembleia Legislativa do estado e até no Senado da República. Se o amigo leitor quiser obter mais informações sobre estes fatos, deve consultar o livro O oligarca do Ceará - a crônica de um déspota, de Frota Pessoa, Obra publicada em 1910 no Rio de Janeiro, pela tipografia do “Jornal do Commercio”.

Após a queda de Getúlio Vargas, em outubro de 1945, a chefia do Poder Executivo caiu nas mãos do doutor José Linhares, presidente do Supremo Tribunal Federal. Durante três meses, até a posse do general Enrico Gaspar Dutra na presidência da República, o austero doutor Linhares não parou de dar empregos aos membros de sua família. E ele era um juiz, um magistrado!

Forneceram ótimos empregos às suas esposas, de acordo com as "belas tradições" da oligarquia Acióli, os parlamentares Jackson Pereira, Ubiratan Aguiar, Vicente Arruda e Salatiel Carvalho, todos do PSDB do Ceará, exceto o último. São "maridos exemplares", não se pode negar...

Dois parlamentares do Maranhão, da terra de José Sarney, nutrem grande amor por suas filhas, Davi Alves da Silva, do PFL desse estado, obteve um cargo para a senhorita Dilvana Souza Silva, e o senhor Costa Ferreira, do PMDB, abiscoitou um outro para a sua querida Ana Ruth Ferreira... Oh, que coisa linda e comovente, que pais meigos, repletos de ternura! Vou derramar algumas lágrimas enternecidas ... Como é bom, fácil, prático e econômico, oferecer provas de amor, de ternura, de amizade, de solidariedade, com a ajuda do dinheiro dos trouxas, isto é, com o dinheiro público!

Condeno os atos de nepotismo, aqui evocados. Acho imoral um deputado colocar parentes no seu gabinete, como assessores, às custas do dinheiro do povo. Afinal de contas, eleger um político não deve equivaler a arrumar um emprego para um parente desse político... Quando vejo um deputado, nepotista, logo me vem à memória aquela frase popular

"Mateus, primeiro os meus, depois os teus!"

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Marta dirige o Ministério da Cultura Diabólica?


Sempre fui inimigo de todos os tipos de censura, de restrição à liberdade de pensamento. O Estado de S. Paulo publicou há pouco tempo a minha entrevista concedida ao repórter Moacir Assunção, por estar esse jornal proibido de divulgar qualquer fato referente à Operação Boi Barrica, da Polícia Federal, efetuada em torno dos negócios do empresário Fernando Sarney, filho de José Sarney. Título da entrevista:

“Censura é medida fascista, diz escritor”.

Por ser inimigo de todos os tipos de censura, admiro muito os jornalistas de talento que se mostram corajosos, independentes, como o Mino Carta, o Hélio Fernandes, o Sebastião Nery, o Marcos Caldeira Mendonça. Isto não significa, porém, deixar de condenar o erro, a injustiça, a safadeza. Há crítica e há censura. Eu critico, não censuro.

Quando pela sétima vez o Amaury Jr. me entrevistou no seu programa de televisão, chamei de canalha o Dan Brown, pois no livro O Código Da Vinci ele descreveu Jesus Cristo como um revolucionário judeu que engravidou Maria Madalena e esta, depois, fugiu para o sul da França. Sinval de Itacarambi Leão, diretor da revista IMPRENSA, achava-se presente e depois me criticou:

-Fernando, você, como jornalista, não pode chamar ninguém de canalha.

Respondi, tranquilo:

-Sinval, eu, como jornalista, não chamei o Dan Brown de canalha. Eu o chamei de canalha como cristão.

Agora a ópera-rock Jesus Cristo Superstar, de Andrew Lloyd Weber e Tim Rice, volta a ser apresentada no Brasil, em nova montagem, com direção de Jorge Takla. Desde a época em que fui jurado de televisão, no programa do Flávio Cavalcanti, eu não paro de meter o pau nessa peça, autêntico achincalhe à figura de Jesus, onde nela este é amante de Maria Madalena, os apóstolos aparecem como bêbados, a Madalena a lhe fazer massagens eróticas, a cantar “para adormecer o seu macho”. Judas, nessa infâmia, interpretado por Alírio Netto, surge de maneira simpática, esculhambando o Salvador. Ele, Jesus, interpretado pelo ator Igor Rikli, é visto no palco de peito nu, de calça jeans arriada, quase a exibir o seu órgão genital. Quanta sordidez! Espetáculo nojento, tão asqueroso como contemplar numa sarjeta, a apodrecer sob os raios escaldantes do sol, um rato coberto de frenéticos vermes cor de pus.

A Folha de S. Paulo publicou um anúncio enorme, no qual o ator Igor Rikli ostenta o largo peito nu, o umbigo bem saliente, a calça jeans quase caindo, prestes a colocar a sua genitália em frente dos nossos olhos. Esse anúncio informa que o Ministério da Cultura está patrocinando a blasfêmia contra Jesus Cristo. Sim, pura verdade, a peça foi autorizada a captar R$ 5,7 milhões do ministério, pela Lei Rouanet (Folha de S. Paulo, 26-2-2014).

Com o apoio da Associação Sagrado Coração de Jesus, a Associação dos Devotos de Fátima pediu o fim do financiamento da peça difamatória. Texto da petição:

“Não é lícito ao Estado laico violentar barbaramente a fé de milhões de pessoas, promovendo, com o dinheiro dos contribuintes, o evento blasfemo...”

Palavras justas, corretíssimas. Respondendo, o Ministério da Cultura expeliu uma desculpa chocha, anêmica: a opera-rock Jesus Cristo Superstar se enquadra como “espetáculo teatral”. É, ministra Marta Suplicy? Enxovalhar Jesus pode ser espetáculo teatral para os canalhas, mas não para mim e para todos que o amam, que o respeitam, que veem nele a luz imorredoura das almas, “o caminho, a verdade e a vida”.

Indicado pela Arquidiocese de São Paulo para falar sobre a peça imunda, o padre Tarcísio Marques Mesquita, da paróquia Nossa Senhora do Bom Parto, assim se manifestou:

“O musical faz uma atualização da imagem de Cristo, mas é uma ficção que deve ser lida como tal. Obras como esta, que trazem questionamento sobre a fé, nos ajudam a amadurecer”.

Esse padre defecou pela boca duas fedidas besteiras. A imagem de Jesus não precisa de atualização, de se modernizar. A face de Cristo é imutável. Sua mensagem é única, eterna, rompe as dimensões do tempo. Peças como essa opera-rock não trazem questionamento, trazem achincalhamento ao Mártir do Calvário, à nossa fé, ao nosso amor santo por aquele cujo reino não é o reino material deste mundo.

Padre Tarcísio Marques Mesquita, o senhor é padre de Deus ou é padre de Satanás? Se é padre do Coisa Ruim, submeta-se a uma operação cirúrgica para ter pés de bode, focinho de porco, rabo de macaco, dentes de piranha. Berre, após a operação, como um caprino, ronque como um suíno, guinche como um símio, devore como um peixe predador. Tire antes a sua negra batina, se a usa, e a substitua por uma vermelha capa com cheiro de enxofre.

              Ministra Marta, eu indago: a senhora dirige o Ministério da Cultura Diabólica? Se dirige, continue a dar apoio financeiro à peça Jesus Cristo Superstar, agressão a Cristo em forma de opera-rock, e não deixe também de financiar outra edição de O Código Da Vinci, do nauseabundo Dan Brown, e mais uma edição dos Versículos satânicos, do não menos repulsivo Salman Rushdie, livro onde ele inventou que o profeta Maomé escreveu, transmitidos pelo Beiçudo, numerosos versículos do Alcorão, e que as putas de um bordel eram suas esposas.

              Ah, mais um conselho, dona Marta Suplicy. Mande incendiar o seu ministério, a fim de satisfazer o Bruxo do Inferno. Ele, o Maldito, ao ver o fogo, as altas e vorazes labaredas, vai sentir-se feliz, gargalhar e admitir:

              -O ministério da Marta é digno deste fogo, destas chamas, porque patrocinou a minha querida opera-rock Jesus Cristo Superstar...

domingo, 23 de março de 2014

Carta para Dilma


Presidente Dilma Rousseff:

Isento de qualquer paixão política, sinto-me no dever moral de alertar a presidenta do meu país no sentido de aconselhar o Ministério da Cultura a não dar apoio financeiro a espetáculos teatrais que ferem os sentimentos cristãos do povo brasileiro. Refiro-me à peça Jesus Cristo Superstar, onde o Redentor é mostrado como amante de Maria Madalena, os apóstolos como bêbados, Judas como figura simpática, etc.

A peça irrita profundamente os católicos, os protestantes, os evangélicos, os batistas, os espiritas, que somados representam milhões de votos.

Foi um ato burro, cretino, do Ministério da Cultura, de fornecer o vultoso apoio financeiro de mais de 5 milhões de reais a essa blasfêmia. O procedimento do Ministério joga os cristãos contra o seu governo, prejudicando a sua pessoa, a sua segunda candidatura à presidência da República.

Junto a esta o artigo de minha autoria, já largamente divulgado numa grande rede de jornais.

 Fernando Jorge

domingo, 16 de março de 2014

O BODE VEREADOR


Diário do Nordeste
No ano de 1955, o eleitorado de Jaboatão, em Pernambuco, elegeu vereador um bode. O animal chamava-se Cheiroso e teve 460 votos, o dobro do que necessitava um cidadão daquele município para se eleger seu representante. Três anos depois, candidato à Câmara dos Vereadores de São Paulo, o rinoceronte Cacareco foi o mais votado. Em seguida, decorridos vários anos, o macaco Tião, do Jardim Zoológico do Rio de Janeiro, teve a sua candidatura fictícia lançada pelo também fictício PBB (Partido Bana­nista Brasileiro). E há pouco tempo, no Balneário Camboriú, de Santa Cata­rina, um cachorro de rua, o Sorriso, tornou-se candidato a deputado. O seu comitê de propaganda era dirigido pelo jornalista Nagel de Mello...

O eleitor desses lugares, bastante desiludido com a política, fez bem em votar num bode, num rinoceronte, num macaco e num cachor­ro. Votos do protesto, da revolta.

            É melhor eleger um bode do que certos cidadãos da nossa infeliz República. Lá no Nordeste o sertanejo costuma dizer:

            “Deus te dê o que deu ao bode: catinga, barba e bigode.”

Mas é mil vezes preferível o fedor do bode, a sua catin­ga, do que o cheiro nauseabundo da alma dos nossos políticos corruptos. Um esgoto furado não fede tanto como a alma podre desses canalhas.

É preferível votar num rinoceronte do que em certos fulanos da nossa infeliz República, porque ele, o rinoceronte, mamífero de pele espessa e dura, não sabe roubar. Só sabe roncar e comer capim. Além ser muito perigoso, esse bicho nunca meteu as suas patas no orçamento federal e o lesou.

É preferível votar num macaco do que em certos sujeitos da nossa infeliz República, porque o macaco, se sabe brincar, guinchar, pular de galho em galho, comer banana, fazer caretas, por outro lado não sabe trair, mentir e apoderar-se do dinheiro público, a fim de o esconder nos bancos da Suíça e nos paraísos fiscais. Viva pois o macaco e as suas macaquices! 

Abaixo o político corrupto e as suas canalhices! É preferível votar num cachorro do que em certos políticos cachorros da nossa infeliz Republica, porque ele, o cachorro, como disse Victor Hugo, é “a virtude transformada em animal”, e o político corrup­to é a podridão mais asquerosa transformada em gente. Aliás, chamar um des­ses crápulas de cachorro equivale a xingar os cães.

A safadeza de dezenas dos nossos políticos gerou estas palavras de Rui Barbosa:

“De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.”

                Quando o povo decidiu votar nos animais evocados neste bate-papo, pelo menos não apoiou os patifes que ganharam milhões com obras superfaturadas. Juro, amigo leitor, prefiro ouvir os berros do bode, os bramidos do rinoceronte, os assobios do macaco, os uivos do cachorro, do que as palavras cínicas dos nossos políticos salafrários, exímios na arte de mentir, de enganar, de roubar, de afivelar no rosto a máscara da hipocrisia.

            Os fariseus da política brasileira falam como moralistas e agem como ladrões. Se exibissem no rosto as suas verdadeiras naturezas - a imundice de suas almas - os nossos estômagos ficariam embrulhados, vo­mitariamos de nojo.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Adriana Calca em Outro


Recebi dezenas de e-mails de todas as partes do nosso país, dizendo que a cantora Adriana Calcanhotto se apoderou da tese de um livro de minha autoria. O livro, do qual já foram vendidos 118 mil exemplares, intitula-se Se não fosse o Brasil, jamais Barack Obama teria nascido, da editora Novo Século, e nele provo isto: a obsessão da mãe de Obama pelo filme Orfeu Negro, de 1959, baseado numa peça de Vinicius de Moraes e dirigido pelo francês Marcel Camus (1912-1982), causou o nascimento do atual presidente dos Estados Unidos.
Num dos referidos e-mails, o pesquisador Marcelo de Almeida, da cidade paulista de São José dos Campos, situada no Vale do Paraíba, declarou o seguinte:

“A pré-quinquagenária Adriana Calcanhotto, com a maior cara-de-pau, não teve nenhum escrúpulo ao empalmar a tese do escritor Fernando Jorge. Ela precisa fazer uma alteração no seu nome, passar a se chamar Adriana Calca em Outro e não Adriana Calcanhotto. O outro é Fernando Jorge. Calca, presente do indicativo do verbo calcar, funciona aqui como sinônimo do verbo decalcar, que significa plagiar, imitar servilmente”.

Prezado Marcelo, o amigo está sendo demasiado severo. A Adriana não furtou de maneira direta a minha tese, pois atribuiu a autoria desta ao José Miguel Wisnik, a fim de o agradar, de lisonjeá-lo. Mas ele, Wisnik, bem antes do texto da Adriana, havia reconhecido que eu, Fernando Jorge, sou o autor da tese, em seu artigo “Obama, filho do Brasil”, publicado na edição do dia 12 de junho de 2010 do jornal O Globo. Palavras de Wisnik, no início do artigo:

“Se não fosse o Brasil, jamais Barack Obama teria nascido. O título amalucado do livro de Fernando Jorge ganha ao longo da obra a forma reiterada e obsessiva de um bordão. Entre informações biográficas, dados históricos sobre o racismo americano e brasileiro, sobre literatura, teatro e música, sobre relações políticas, diplomáticas e culturais entre os dois países, o argumento se fecha obstinadamente a cada passo, com o refrão que dá nome ao livro. Tudo conspira para provar que o primeiro presidente mulato americano, que afinal chegou antes do previsto pelo famoso romance de Monteiro Lobato (O presidente negro), só veio a nascer graças ao toque de magia de um filme baseado por sua vez na obra de um outro escritor brasileiro – Vinicius de Moraes”.

Após expender estas considerações, José Miguel Wisnik acrescentou:

“O mais maluco é que eu também acho que a tese de Fernando Jorge tem fundamento. Só que é bom deixar cada maluco com o seu sintoma. O de Fernando Jorge investe na forma contumaz da ideia fixa. Repetindo sem parar a sua obsessão...”

Meu comentário: se sou doido, o Wisnik é igual a mim, pois me apoiou... E ele salienta:

“Fernando Jorge, em sua furiosa busca da prova literal, repisa a semelhança de Breno Mello, ator que representou Orfeu no filme de Camus, com Obama pai”.

Sim, é inegável. A mãe de Obama, por ter ficado apaixonadíssima pelo filme Orfeu Negro, baseado na peça Orfeu da Conceição, de Vinicius de Moraes, apresentada no Teatro Municipal do Rio de Janeiro em 1956 (o filme é de 1959, como informei), viu no pai de Obama, belo moço negro nascido na África, o sósia, o irmão gêmeo, a transposição do gaúcho Breno Mello, e não resistiu, entregou-se a ele. Dessa união entre uma jovem americana completamente branca, nascida no Kansas, e um rapaz africano completamente negro, nascido no Quênia, surgiu o mulato Barack Hussein Obama, que pela primeira vez arregalou os seus pequeninos olhos perspicazes em Honolulu, capital do Havaí, destino turístico internacional, no dia 4 de agosto de 1961.
Embora José Miguel Wisnik, num artigo publicado em 2010 no jornal O Globo, tivesse dado apoio à tese do meu livro, a cantora e compositora Adriana Calcanhotto resolveu atribuir a autoria dessa tese a ele, o honesto Wisnik. O texto de Adriana, intitulado “Vai Vai Vai Vai Vai”, apareceu na edição do dia 20 de outubro de 2013 desse periódico. Segundo Adriana, foi Wisnik quem descobriu que Vinicius de Moraes “inventou o primeiro presidente americano negro”. Ela endossa a minha tese, atribuindo a sua criação, no entanto, ao Wisnik, e opondo-se à insofismável eloquência da verdade:


“...sem o Vinicius, aquela branca americana não se apaixonaria por um queniano parecido com o ator que fez o papel de Orfeu no filme de Marcel Camus”.
 
José Antônio Rubino Martinez, de São Paulo, enviou estas linhas à seção “Dos leitores” de O Globo:
“A interessante crônica de Adriana Calcanhotto sobre Vinicius de Moraes (20-10) merece um reparo: quem descobriu, na verdade, que o poetinha inventou o primeiro presidente americano negro, não foi Zé Miguel Wisnik e sim o escritor e jornalista Fernando Jorge, como revela no seu livro Se não fosse o Brasil, jamais Barack Obama teria nascido. Zé Miguel até escreveu um artigo sobre o livro, publicado nesse jornal em 2010, e deu apoio à afirmativa de Fernando Jorge”.
Lendo a crônica de Adriana, verifiquei outra coisa: ela atribuiu a si mesma a descoberta da fonte inspiradora do “Soneto de fidelidade”, do Vinicius, feita por mim. Fui o descobridor dessa fonte, que é este verso do poeta Henry de Régnier:
“L’amour est eternel tant qu’il dure”
(“O amor é eterno enquanto dura”)
E acentuei no meu livro sobre Obama, para eliminar qualquer dúvida: o “Soneto de fidelidade”, escrito em Oxford, na Inglaterra, é de 1939, e Henry de Régnier faleceu no ano de 1936. Assim sendo, o soneto de Vinicius veio à luz cinco anos depois da morte do poeta francês, nostálgico evocador de Versailles no livro La cité des eaux (“A cidade das águas”), publicado em 1902.
Nas Histórias sem data, livro de contos, o nosso Machado de Assis classifica o plágio de “embrião da ladroeira”, e Alfred de Musset (1810-1857), na poesia “La coupe et les lèvres” (“A taça e os lábios”), confessa que odeia o plagiário como odeia a morte” (“Je hais comme la mort l’état de plagiaire”), mas proclama com orgulho:
“Meu copo não é grande, porém bebo no meu copo”.
(“Mon verre n’est pas grand, mais je bois dans mon verre”).
Discordo de Machado de Assis. Para mim o plágio não é o “embrião da ladroeira”. Ele, a rigor, é a própria ladroeira. Todavia, não odeio o plagiário, à semelhança de Alfred de Musset. O plagiário me faz rir, diverte-me, como acho graça num larápio desastrado...
Agora pergunto: será que o cidadão Marcelo de Almeida acertou, por garantir que a cantora Adriana Calcanhotto precisa alterar o seu nome e passar a se chamar Adriana Calca em Outro?



domingo, 15 de dezembro de 2013

Os livros dos três Emediatos


Um acontecimento literário singular ocorreu na Saraiva Megastore do Shopping Pátio Higienópolis, da cidade de São Paulo: três escritores, ao mesmo tempo, autografaram os seus livros. E daí, indagará o leitor desta coluna muito lida numa grande rede de jornais, e daí, aonde está a singularidade do fato? O acontecimento literário singular é este: um pai, Luiz Fernando Emediato, a sua filha, Fernanda Emediato, e o filho de Luiz, o garoto Antonio Alselmo Emediato, nascido em 2005, e portanto de apenas oito anos, autografaram os belos livros escritos por eles. Nunca houve um fato dessa natureza em nossa vida literária.

Darcy Ribeiro, pouco antes de falecer, soltou a seguinte frase:

“O Brasil ficou grandão, fortão, jogador de futebol e imbecil.”

Pura verdade. Se essa imbecilidade não atingisse também a mídia, dezenas de jornais, revistas, emissoras de televisão do nosso caótico país, o singular acontecimento teria sido divulgado em ampla escala, porque além de ser um fato inédito, os três autores possuem admirável talento literário.

Luiz Fernando Emediato autografou a segunda edição, revista e aumentada, do seu Não passarás o Jordão, mescla de romance e livro de memórias. É obra indispensável para quem deseja compreender, de forma abrangente, os absurdos, as violências, as torturas, os atos de arbítrio, a repressão doida, alucinada, da época da ditadura militar brasileira, imposta depois do Golpe de 1964. Ditadura da qual me tornei vítima, pois fui processado quatro vezes como “escritor e jornalista subversivo”, apesar de ser um democrata, um fogoso paladino da justiça, da liberdade, dos direitos humanos.

Não passarás o Jordão magnetiza o leitor da primeira até a última página. O estilo claro e límpido dessa obra, trouxe à minha memória esta frase de Monteiro Lobato sobre o escritor Camilo Castelo Branco, inserida numa carta enviada a Godofredo Rangel, conforme podemos ver no livro A barca de Gleyre, publicado em 1944 pela Companhia Editora Nacional:

“Camilo escrevia com a mesma naturalidade com que um homem de boa saúde mija.”

A naturalidade envolvente do livro de Luiz vai transformar-se num filme. E esse filme, acredito, alcançará sucesso em 2014, cinquenta anos depois do Golpe de 1964.

O livro de Fernanda Emediato se intitula A menina perdida. É a história de uma garota chamada Micaela Maria. Outros personagens dessa narrativa singela, bem escrita, reveladora de fértil imaginação: José Maria e Maria José, pais de Micaela, a princesa Charlotte XI, o rei George e a rainha Margot, a bruxa Mauzeb.

A história de Fernanda Emediato é da lavra de uma alma delicada, extremamente sensível. Pensei, ao terminar de lê-la: a filha do Luiz deve ter uma sensibilidade à flor da pele, é capaz de chorar nos momentos de melancolia. O seu livro A menina perdida se acha repleto de alma, de emoção. Impressionou-me, além disso, o destino da bruxa Mauzeb, pois Fernanda humanizou-a no fim da história, tirou-lhe a maldade...

Surpreende a inteligência, o talento literário do menino Antonio Anselmo Emediato, autor do livro Minha família. Fiquei emocionado com a sua bondade, com a sua pureza, com o seu profundo amor às suas duas famílias. Neste mundo cheio de almas torvas, sem luz, me comove contemplar a ternura de Antonio, a sua inocência, e peço ao Criador que o proteja sempre, que o defenda do ódio, da inveja e das armadilhas dos perversos. Lendo o seu livro, lembrei-me que Victor Hugo disse que quando a criança olha para nós, Deus nos sonda (“quand l’enfant nous regarde, on sent Dieu nous sonder”) e também deste verso do poeta inglês Swinburne (1837-1909), no poema “A song of welcome”:

“Onde não há crianças, não existe o céu.”

(“Where children are not, heaven is not”).

Após ler os três livros dos três Emediatos – o da Fernanda e o do Antonio com lindas ilustrações de Mance – cheguei a esta firme conclusão: o talento literário, algumas vezes, é hereditário.