sábado, 16 de fevereiro de 2013

RONALDO QUER SER PÁSSARO...



Ronaldo Andrade é um poeta de talento. Nasceu em Pernambuco, no ano de 1979, e vive em São Paulo, mas à semelhança de muitos intelectuais de valor, de talento, que se tornaram famosos, ele trabalhou em vários setores. Foi ajudante de caminhoneiro, fabricante de cal na cidade do seu nascimento, Santa Maria do Cambucá. E no solo do “caçador de esmeraldas”, do bandeirante enaltecido por Olavo Bilac, exerceu estas profissões: servente de pedreiro, pintor de residências, camelô, balconista numa adega, empregado num empório.
Autodidata, concluiu os seus primeiros estudos na capital de São Paulo. Hoje está matriculado em curso de Letras, pois Ronaldo Andrade ama os livros, a cultura, a literatura, enriquecendo incessantemente, com conhecimentos ecléticos, a sua inteligência viva, brilhante. Ele pensa como o poeta e ensaísta inglês Matthew Arnold (1822-1888), o arguto ensaista de Culture and anarchy:
“A cultura é a nossa tomada de conhecimento do melhor que se tem sabido e dito no mundo, e portanto da história do espírito humano.”
(“Culture, the acquainting ourselves with the best that has been know and said in the world, and thus with the history of the human spirit”)
O ardente amor de Ronaldo Andrade pela cultura o impulsionou a se transformar em leitor voraz, em assíduo frequentador de sebos e livrarias. Se corresse a notícia de que esse bibliômano havia desaparecido, sem deixar vestígios, não seria difícil encontrá-lo: decerto o achariam numa livraria da Paulicéia. Ronaldo não é como quase todos os nossos políticos que, conforme eu disse certa vez ao crítico Agrippino Grieco, só entram em livrarias nos dias de chuva, de forte temporal, a fim de não apanhar gripes ou pneumônias. Ronaldo não sofre de bibliofobia aguda. Ele sofre de bibliofilia aguda.
A sua vocação para versejar, poetar, nasceu quando era menino, ao ouvir as emboladas, os improvisos dos repentistas nordestinos. Então começou a gostar dos versos rimados, das poesias fluentes, espontâneas, naturais como os gorjeios dos sabiás de Gonçalves Dias nas palmeiras brasílicas. Aliás, Ronaldo até deseja ser pássaro, conforme revela nesta sua quadra:

“Eu chego a perder o sono
Pensando em ti, minha flor,
Não quero ser seu dono,
E sim o seu beija-flor.”

Sim, Ronaldo quer ser pássaro, como Cruz e Sousa:

“Ah, ser pássaro, ter toda a amplidão dos ares
para as asas abrir, ruflantes e nervosas,
dos parques através e dos moitais de rosas,
nos floridos jardins, nas hortas e pomares.

Ser pássaro, cantar, subir, voar na altura,
pelos bosques sem fim, perder-se nas florestas,
das folhagens do campo em meio da espessura,
das auroras de abril nas cristalinas festas.”
           
            Os seguintes versos desse poema “Ser pássaro”, do autor dos Broquéis, expressam a aspiração secreta de Ronaldo:

“Voar, voar, voar, voar eternamente,
extinguir-se a voar, no matinal gorjeio,
é ser pássaro, é ter em cada asa fremente
um sol para aquecer o frio de algum seio”.

            Mas por amar todos os seres da natureza, como um verdadeiro panteísta, Ronaldo Andrade também quer ser abelha. Vejam esta quadra, com o título de “Boquinha aveludada”:

“Queria ser uma abelha,
Pra pousar nessa boquinha,
Aveludada e vermelha,
Que parece uma florzinha”.

            Poetas cândidos, do tipo do Ronaldo, usam os bichos para produzir imagens originais, como na seguinte quadra do poema “O marroeiro”, de Catulo da Paixão Cearense:

“Os pesinho da cabôca
Quando dançava o baião,
Parecia dois pombinho
A mariscá pulo no chão!”


Thomas Antônio Gonzaga, na lira XXX, assim cantou os olhos da sua adorada Marília:

“Os astros que andam
Na esfera pura,
quando cintilam
na noite escura,
não são humanos,
tão lindos como
seus olhos são,
que ao sol excedem
na luz que dão.”

Pois bem, a quadra intitulada “Pergunte ao coração”, do nosso brasileiríssimo Ronaldo Andrade, é tão bela como os versos aqui reproduzidos da lira de Gonzaga:

“Os olhos da noite estão
Onde os seus não podem ver,
Pergunte ao seu coração,
Se ele sabe lhe dizer.”

A sonoridade dos versos de Ronaldo é explicável, porque o nosso troveiro começou escrevendo letras de música, com a ambição de ser compositor. Entretanto, no fundo, Ronaldo é um poeta músico, como o foi Vinicius de Moraes. Na minha opinião, a poesia é a música das palavras e a música é a poesia dos sons.
Parece que o meu amigo pernambucano coloca no papel, frequentes vezes, as trovas que escuta de um anjo vindo do Paraíso e apaixonado por uma terráquea... Contudo, aqui entre nós, amigo leitor, a musa de Ronaldo é a sua esposa Amanda.
Ronaldo Andrade, você é um poeta singelo, com P grande, e me orgulho de ser seu amigo.
 

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

ANALISANDO DILMA ROUSSEFF



Em junho de 2010, a candidata Dilma Rousseff criticou os abusos do MST, do Movimento dos Sem Terra:
“Ninguém que governe um país, um estado ou um município, pode ser complacente com a ilegalidade. Invasão de terras, de centro de pesquisas, de prédios públicos, é ilegalidade. E ilegalidade não é permitida.”
Muitas pessoas comentaram, influenciadas por estas palavras:
            –A Dilma não é mais comunista,  pois o MST é um movimento marxista-leninista.
Eu dizia a essa gente:
–Ignoro se ela é ainda adepta do Marxismo, porém a sua afirmativa não significa que tenha deixado de o ser. Um governo de Esquerda nunca admite movimentos considerados ilegais. Basta lembrar que em janeiro de 1968, o líder Alexander Dubcek, do Partido Comunista da Tchecoslováquia, quis conciliar o Marxismo com as liberdades individuais, dando-lhe um aspecto mais suave. Os líderes do Kremlim, no entanto, tentaram convencer Dubcek a abandonar a experiência democrática. Fracassaram. Então centenas de milhares de soldados da Polônia, da Hungria, da Bulgária, da Alemanha Oriental e da URSS, sob o comando do general Ivan Pavlósvski, vice-ministro da defesa soviético, invadiram Praga na noite do dia 20 de agosto de 1968. Trinta tchecos morreram e mais de trezentos ficaram feridos. Foi a “Primavera de Praga”. Diante dos tanques russos, o líder Alexander Dubcek percebeu que não tinha escolha. Rendeu-se à União Soviética e restringiu a abertura democrática.
*   *   *
O advogado búlgaro Pétar Russév, pai de Dilma, que alterou o nome para Pedro Rousseff, a fim de aportuguesá-lo e sugerir uma ascendência francesa, envolveu-se com a política e filiou-se ao Partido Comunista da Bulgária. Era apaixonado por livros, amigo de vários poetas e escritores, inclusive de Elisaveta Bagriana, um dos principais expoentes da literatura do seu país.
Sem dúvida – é uma ilação razoável – Pedro Rousseff, um homem de quase dois metros de altura e de rosto liso, feições delicadas, olhar tranquilo, deve ter influenciado Dilma, do ponto de vista ideológico. Mas o professor de Marxismo da filha de Pedro, quando ela estava com dezesseis anos e era aluna do Colégio Estadual Central de Belo Horizonte, foi o senhor Apolo Heringer Lisboa. A adolescente o nomeou seu guru. Ambos pertenciam à Polop (Política Operária), grupo esquerdista que combatia a ditadura militar. Lisboa transmitiu-lhe os fundamentos teóricos do Marxismo e dissertava sobre a crise do Capitalismo, a luta de classes, o materialismo histórico, a evolução do proletariado. E fez isto tão bem, que antes de ser presa em janeiro de 1970, e levada para a sede da Operação Bandeirantes (Oban), a jovem Dilma esteve bem junto dos operários, ministrando-lhes aulas de Marxismo-Leninismo. A informação consta do processo sobre a sua maneira de agir, na época do regime militar instaurado após o golpe de 31 de março de 1964. Declara um documento do Departamento de Ordem Política e Social de São Paulo (DOPS), de maio de 1970, sobre a futura presidenta do nosso país:
“Pertenceu ao Comando Geral do Colina (Comando de Libertação Nacional). Coordenadora da VAR – Palmares de São Paulo, como também do Setor de Operações. Manipulava grandes quantias da VAR-Palmares. É antiga militante de esquemas subversivos-terroristas. Outrossim, através do seu interrogatório, verifica-se ser uma das molas-mestras e um dos cérebros dos esquemas revolucionários postos em prática pelas esquerdas radicais. Trata-se de pessoa de dotação intelectual bastante apreciável.”
Como estamos vendo, os milicos, na época da repressão, das torturas monstruosas infligidas aos opositores daquele regime fascista, reconheceram que Dilma Rousseff possuía um superior nível mental. Imaginem agora como eles ficariam surpresos, boquiabertos, se pudessem prever que ela, no futuro, iria tornar-se a primeira mulher a ser eleita presidenta do Brasil...

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

A BURRICE É INCURÁVEL



Eu costumo afirmar: a burrice é incurável. Quando uma pessoa é burra, ela não muda, será sempre burra. Pode até se esforçar para adquirir um pouco mais de inteligência, estudar, ler dezenas de bons livros, comer peixes, a fim de nutrir o cérebro com fósforo. Tarefas estéreis, inúteis. Burro é burro, como o sapo é um batráquio e o macaco um símio. A burrice só será eliminada se um dia houver transplantes de cérebros.
Prefiro um canalha inteligente do que um burro chapado, se eu tiver de optar, antes de fechar um negócio, pois o burro, de forma quase invariável, nos prejudica, e o canalha inteligente, por ser inteligente, pode agir de maneira correta, durante algum tempo.
Já encontrei, ao longo da minha vida, diversos tipos de burros: o burro orgulhoso, o burro mau, o burro doutor, o burro rico, o burro bonito, o burro elegante, o burro recalcado, o burro deputado, o burro prefeito, o burro bundudo, o burro corno, etc.
Outro dia eu vi um desses burros andando pela Avenida Paulista. Deteve-se, zurrou, isto é, cumprimentou-me, e as suas palavras idiotas soaram nos meus ouvidos como os relinchos de um muar faminto. Senti a imperiosa vontade de colocar, no seu focinho comprido, um capim bem verde, vem viçoso, e de lhe dizer:
-Jumentos como você, caminhando pelas calçadas, contrariam as posturas municipais. Recolha o seu rabo e vá logo, na rua, puxar uma carroça.
Mas o burro não tem culpa de ser burro, como o gambá de ter fedor. A propósito disso, evoco aqui o caso do jornalista que após escrever um texto cretino contra o polígrafo Nestor Vítor, assim se desculpou na frente dele:
-Você sabe, Nestor, eu não fiz por mal...
O polígrafo respondeu:
-Eu sei, você não fez por mal, você fez porque é burro.
Amigo leitor, não se irrite, se receber os coices de um jerico da raça humana, pois é da sua natureza aplicar patadas, do mesmo modo que é da natureza da doninha catinguenta levantar a cauda e as patas traseiras ao se ver ameaçada, e esguichar um líquido de cheiro insuportável.
Uma atriz lindíssima, porém curta de inteligência, soltou estas palavras diante de Sophie Arnould (1744-1802), célebre e espirituosa cantora de Ópera:
-Os meus admiradores não me dão sossego. É um verdadeiro exército a me perseguir!
Sophie Arnould aconselhou-a:
-Ora, é muito fácil você derrotar esse exército. Basta abrir a boca e falar.
Inúmeras pessoas são como essa atriz, pois a burrice as leva a defecar asneiras em jorro contínuo, a bostejar pela boca, e a feiúra das suas pobrezas de inteligência forma um estarrecedor contraste com a beleza dos seus rostos.
Devemos aceitar a burrice e até gostar dos burros, dar valor a eles. Como poderíamos saber o que é a inteligência, se a burrice não existisse? Nunca se deve revoltar contra ela, nunca! Estava certo o poeta e dramaturgo alemão Johann Christoph Friedrich Schiller (1759-1805), por ter colocado a seguinte frase no ato III da sua peça Die Jungfrau von Orleans (“A donzela de Orleans”):
“Os próprios deuses lutam em vão com a burrice.”
(“Mit der Dummheit kämpfen Götter selbst vergebens”).

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Escritor e jornalista, Fernando Jorge é autor de “Drummond e o elefante Geraldão”, que acaba de ser lançado pela Editora Novo Século e cuja primeira edição já está quase esgotada.