domingo, 14 de outubro de 2012

O erro do Toninho Mendes



Toninho Mendes é idealista e inteligente, mas deixou aparecer este grande erro na página 17 do primeiro volume da História da ditadura militar, obra útil e bem redigida, lançada pela Editora Sampa:
“Le Bresil n’est pas un pays sérieux”
(O Brasil não é um país sério)
Charles De Gaulle, recusando-se a receber Carlos Lacerda, que fora a Paris como representante pessoal do presidente Castello Branco, para explicar a Revolução.”
Ora, De Gaulle nunca declarou que “o Brasil não é um país sério.” Tal frase, na verdade, saiu da boca do diplomata brasileiro Carlos Alves de Souza. Este mostrou a origem da frase no livro Um embaixador em tempos de crise, publicado pela Editora Francisco Alves no ano de 1979. Narra o diplomata, nas páginas 316 e 317 do citado livro, que certo dia, durante a ridícula “Guerra da Lagosta”,os dois se encontraram em Paris, ele e o general De Gaulle. Ambos analisaram, de modo afável, o problema dos pesqueiros franceses, nas proximidades das nossas águas territoriais. Depois, concluída a entrevista, o embaixador foi a uma recepção na casa do deputado Chaban-Delmas e ali, segundo as suas palavras, aconteceu o seguinte:
“Repentinamente, surgiu diante de mim o jornalista Luiz Edgar de Andrade, hoje editor-chefe da TV Globo (estas linhas do embaixador são de 1979). Insistiu para que eu lhe dissesse algo sobre minha entrevista com o general De Gaulle. Respondi-lhe que não daria nenhuma entrevista. Mas, não poderia deixar de ter uma conversa amistosa com uma pessoa por quem sempre tive a maior consideração. Falei-lhe sobre o tal samba carnavalesco, ‘A lagosta é nossa’, as caricaturas do presidente De Gaulle e terminei a conversa dizendo: Luiz Edgar, ‘le Brésil n’est pas un pays sérieux’. Provavelmente ele telegrafou ao Brasil, não deixando claro se a frase era minha ou do general De Gaulle, com quem me avistara poucas horas antes desse nosso encontro casual.”
Na última linha do seu livro, o embaixador Carlos Alves de Souza afirmou: é de sua autoria, e não da autoria do general De Gaulle, a frase “o Brasil não é um país sério”. E Alves de Souza repetiu esta afirmativa numa entrevista concedida a Jacinto de Thormes, publicada na edição de 9 de maio de 1979 do Jornal do Brasil.
Portanto, Toninho Mendes, eu o aconselho a suprimir, na segunda edição da História da ditadura militar, o erro por mim aqui apontado.
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Escritor e jornalista, Fernando Jorge é autor de Drummond e o elefante Geraldão, que acaba de ser lançado pela Editora Novo Século e cuja primeira edição já está quase esgotada.

domingo, 30 de setembro de 2012

Vejam o absurdo, a insensatez



A notícia, publicada pela Folha de S.Paulo, chocou a minha sensibilidade: o Ceará pagou mais de 3 milhões de reais ao tenor espanhol Plácido Domingo, para ele participar do show de inauguração de um megacentro de eventos na capital desse estado. O megacentro foi erguido, na maior parte, com o dinheiro público do governo cearense e custou 467 milhões de reais.
Vejam o absurdo, a insensatez. Lá no Ceará o governo de um estado pobre, carente, sujeito a secas, deu mais de 3 milhões de reais a um tenor medíocre, já em decadência, a fim de ouvir, naquele lugar de nababos, durante 40 minutos, os seus trinados de pássaro idoso, de voz enfraquecida, fatigada. Mais de 3 milhões de reais, repito, nessa terra cheia de miseráveis castigados pela fome, pelas secas devastadoras.
Que governo é este, o do senhor Cid Gomes, do PSB? É o governo de um irresponsável ou de um louco?
O tenor Plácido Domingo recebeu o dinheirão, explicou o perdulário Cid, por ser um dos cantores preferidos da presidenta Dilma Rousseff. No fundo, portanto, a escolha correspondeu a um ato de bajulação, de servilismo, de agachamento diante do governo federal. Mas a presidenta Dilma, talvez envergonhada ou enojada, não compareceu no evento, e enviou, à inauguração do luxuoso megacentro, a ministra Gleisi Hoffmann, da Casa Civil, como sua representante.
Cerca de 3 mil convidados, de barrigas intumescidas, gulosas, estiveram lá, sorrindo, comendo, bebendo, arrotando, enquanto milhares de cearenses se acham na miséria, famintos, sedentos, sob as garras aduncas da seca assassina.
Que governo é este, o do Ceará? Infeliz povo cearense! Agora me vem à memória os versos do eloquente e genial Guerra Junqueiro, nos quais descreveu a fome na terra de José de Alencar, no decorrer de uma anterior seca devastadora:

“E por sobre esta imensa, atroz calamidade,
Sobre a fome, o extermínio, a viuvez, a orfandade,
Sobre os filhos sem mãe e os berços sem amor,
Pairam sinistramente em bandos agoireiros
Os abutres, que são as covas e os coveiros,
Dos que nem terra têm para dormir, Senhor!”

Durma bem, governador Cid Gomes, durma bem depois de autorizar o pagamento de mais de 3 milhões de reais ao decadente tenor Plácido Domingo, para este soltar o seu gorgeio já algo danificado pelos corrosivos ácidos do tempo. Ronque muito, governador, com a consciência em paz, tranquila, e dispare melodiosos puns durante o sono, pois o megacentro de Fortaleza custou apenas a bagatela de 467 milhões de reais, quantia indigna de ser usada no socorro de milhares de cearenses açoitados pela seca, torturados pela fome. E o grande orador romano Marco Túlio Cícero acertou de maneira total quando escreveu isto no seu De petitione consulatus:
“A estupidez é a mãe de todos os males.”
(“Omnium malorum stultitia est mater”)

SOU A FAVOR DOS DIREITOS DA MULHER



Foi marcante a influência de Victor Hugo na literatura brasileira. Sentimos isto, de modo muito marcante, nos versos de  Castro Alves, repletos de imagens arrojadas.
Admirem agora o pujante lirismo do paralelo que Victor Hugo traçou entre o homem e a mulher, a extraordinária força poética das suas comparações:
“O homem é a mais sublime das criaturas; a mulher, o mais sublime dos ideais.
Deus fez para o homem um trono; para a mulher um altar. O trono exalta, o altar santifica.
O homem é o cérebro; a mulher o coração. O cérebro produz a luz, o coração produz o amor. A luz fecunda, o amor ressuscita.
O homem é um gênio; a mulher um anjo. O gênio é incomensurável, o anjo indefinível. O incomensurável é contemplado, o indefinível é admirado.
A aspiração do homem é a suprema glória; a aspiração da mulher é a virtude suprema. A glória cria a grandeza, a virtude a divindade.
O homem tem a supremacia; a mulher, a preferência. A supremacia significa a força, a preferência o direito.
O homem é forte pela razão, a mulher é invencível pelas lágrimas. A razão convence, as lágrimas comovem.
O homem é capaz de todos os heroísmos; a mulher, de todos os martírios. O heroísmo enobrece, o martírio purifica.
O homem é um código; a mulher um sacrário. Ante o templo nos descobrimos, mas ante o sacrário nos ajoelhamos.
O homem pensa, a mulher sonha. Pensar é ter no cérebro uma lava, sonhar é ter na fonte uma auréola.
O homem é um oceano, a mulher é um lago. O oceano tem a pérola que embeleza, o lago tem a poesia que deslumbra.
O homem é a águia que voa; a mulher, o rouxinol que canta. Voar é dominar o espaço, cantar é conquistar a alma.
O homem tem um fanal: a consciência; a mulher tem uma estrela: a esperança. O fanal guia, a esperança salva.
O homem, enfim, está colocado onde termina a Terra; a mulher, onde começa o céu...”
As feministas de hoje talvez achem que Victor Hugo era um machista. Jamais poderão aceitar estas afirmativas do insigne poeta: o homem é o cérebro, a mulher é o coração; ele é o gênio, ela é o anjo; ele aspira “a suprema glória”, ela “a virtude suprema”... Mas as nossas feministas, se condenaram o poeta por causa de tais comparações, esqueceram-se deste fato importante: Victor Hugo foi um cidadão do século XIX, de uma época onde o romantismo se caracterizou pelo predomínio da sensibilidade e da imaginação sobre as frias leis da lógica.
Sou a favor dos direitos da mulher. Ela, em minha opinião, tem sido vítima dos estúpidos e milenários preconceitos masculinos. Contudo, os movimentos femininos geraram centenas de mulheres viris, masculinizadas. Felizmente ainda existem milhões de feministas bem femininas. Viva a mulher que é bem mulher, mil vezes viva!

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Escritor e jornalista, Fernando Jorge é autor de “Drummond e o elefante Geraldão”, que acaba de ser lançado pela Editora Novo Século e cuja primeira edição já está quase esgotada.

domingo, 5 de agosto de 2012

O AUXÍLIO-CUECA


A Justiça determinou: a Assembleia Legislativa de São Paulo está impedida de pagar o auxílio-paletó, correspondente a 40 mil reais em duas parcelas, aos 94 nobres representantes do povo da terra de Rodrigues Alves.
Eu chamava esse auxílio (por achar mais apropriado), de auxílio-cueca. Era um salário-extra, pago no começo e no término de cada ano, a todos os senhores deputados do Legislativo paulista (o qual se caracteriza pela imensa austeridade), poderem comprar roupas novas, camisas, gravatas, paletós, calças, meias, e principalmente, acredito, lindas e cheirosas cuecas de seda, de cor marrom (da cor das fezes), ou azul, ou vermelha, ou cor-de-rosa gay, ou verdes-e-amarelas, como prova indiscutível de berrante patriotismo, de demagógoca paixão pelo Brasil...
Em sentença de oito páginas, o meritíssimo juiz Luís Fernando Camargo de Barros Vidal, da 3ª Vara da Fazenda Pública da capital paulista, acolheu a ação civil do Ministério Público Estadual e impôs, ao Poder Legislativo, o corte da verba que é denominada “ajuda de custo”, também conhecida como “verba de enxoval”.
A ação para eliminar o auxílio-cueca tornou-se uma iniciativa, em 2011, dos promotores Saad Mazloum e Sílvio Antônio Marques, membros da Promotoria de Justiça do Patrimônio Público e Social, braço do Ministério Público cujo escopo é realizar investigações sobre atos de desmandos, de corrupção, de improbidade administrativa.
O auxílio-cueca foi previsto no artigo 1º da Lei 11.328, de 2002, e no artigo 88 do Regimento Interno da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, mas os promotores Saad e Sílvio, na ação, mostraram a inconstitucionalidade da vantagem instituída. Além de violar o artigo 18 da Constituição do Estado, no entender de ambos, o auxílio-cueca “feria de morte a moralidade”.
Após esse “humanitário” auxílio ter sido suspenso, o deputado Barros Munhoz, do PSDB, presidente da Assembleia, declarou de modo firme, sob o domínio de uma raiva mal disfarçada:
“Não enxergo problemas no benefício. Existem coisas muito mais imorais em outras instituições do nosso país. O auxílio é legal, é claro, é transparente, sem nada de errado”.
Sua excelência se expressou de forma infeliz, porque salientou que há coisas mais imorais em nossa pátria. Ora, então eu pergunto: o auxílio-cueca, por ser “menos imoral”, deixa de ser imoral?
Juro, amigo leitor, eu compreendo a oculta indignação do deputado Barros Munhoz. E sinto enorme pena dos seus 93 colegas da Assembleia Legislativa de São Paulo, pois cada um deles, pobrezinhos, só conta, todos os meses, com o auxílio moradia de 2.250 reais; com o curto salário de 20 mil reais; com os ridículos 23 mil reais para certos gastos, como Correios, gasolina e compra de jornais; com a miséria de apenas 94 mil reais mensais, destinados à verba de gabinete, ao pagamento dos pouquíssimos 32 assessores de cada um...
Vejam agora os milhões e milhões de reais que os 94 parlamentares de São Paulo custam aos cofres públicos. Só o auxílio-cueca custava, todos os anos, mais de 3 milhões de reais a esses cofres.
Reprovo a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo por ter decidido não recorrer da sentença judicial que acabou com o poético auxílio. Tal medida, tomada pela Mesa Diretora, teve o respaldo unânime dos líderes de todos partidos.
Deputado Barros Munhoz e demais parlamentares, eu sustento: os senhores foram duros, insensíveis, maus, pelo fato de não contestarem o fim do abnegado auxílio-cueca, pois causaram uma grande mágoa às perfumadas cuecas paulistas de seda. As coitadinhas estão infelizes, pesarosas, chorando. Elas sentiam tanto orgulho em resguardar as vossas bem nutridas bundas! Quem as consolará, quem? O Paulo Salim Maluf? O prefeito João Izael, de Itabira, que sofre de bibliofobia aguda?

A MÁQUINA CONTRA A CORRUPÇÃO


Desfechado o Golpe de 1964, os militares alçaram a bandei­ra da luta contra o comunismo e a corrupção. No entanto, nunca houve tanta corrupção no pais como a que nós vimos ao longo do chamado “Movi­mento de 31 de março de 1964”. Espalhou-se o fedor das mordomias, das sinecuras, dos peculatos, dos estarrecedores escândalos financeiros cau­sados por empresas falidas, mas ajudadas pelo Banco Central, o cheiro nauseabundo dos casos do Halles, do Grupe Lume, da Crecif, da Audi, da Copeig, da Capemi, da Copersucar, da Coroa-Brastel, da Corretora Laurea­no. Só esta, por exemplo, trouxe prejuízos à nação da ordem de 46 bi­lhões de cruzeiros, uma soma que permitiria construir, de maneira folgada, cerca de 4.400 casas populares.
            Um dos líderes no Senado da campanha pela redemocratiza­ção, o gaúcho Paulo Brossard, sintetizou tudo na seguinte frase, em 1978:
“A democracia neste pais é relativa, mas a corrupção é absoluta.”
Tancredo Neves, no dia 16 de janeiro de 1985, foi eleito presidente da República. Eu liguei a minha televisão nesse dia e vi um repórter da TV Globo perguntar isto ao Fernando Henrique Cardoso, Iá no Congresso Nacional:
-Professor, agora, com a eleição do doutor Tancredo, ainda vai haver corrupção no Brasil?
Fernando Henrique respondeu, muito eufórico:
-Ah, isto não, isto não, nunca mais, nem daqui a cem anos!
O repórter quis saber:
-E por quê?
Verboso como sempre, o Fernando Henrique explicou:
-Não vai haver mais corrupção no Brasil porque nós, do PMDB, montamos uma esplêndida máquina para fiscalizar a máquina do Es­tado. A nossa máquina vai funcionar dia e noite, sem parar. Qualquer ato de corrupção será imediatamente descoberto e denunciado por nós!
Essa engrenagem, se ela existiu, nunca funcionou, pois do contrário, de 1990 a 1992, os deputados Cid Carvalho, Manoel Moreira e Genebaldo Carvalho não teriam lesado o Orçamento Federal. Citei apenas os três porque eles eram do PMDB, do partido que havia montado, segundo Fernando Henrique, a tal máquina capaz de denunciar os atos de corrupção. Aliás, como informa a edição do dia 28 de junho de 1990 do jornal O Estado de S. Paulo, o senhor Almir Candury, do PMDB de Rondônia, candi­datou-se a deputado e prometeu:
            -Vou ser o mais corrupto dos deputados. Estou comprando votos e disposto a fazer qualquer acordo, com papel passado em cartório, para me eleger.
Depois ele acrescentou:
-Quero ficar milionário com o meu mandato... O importante é que, de fato, sou o candidato da corrupção. Roubar todos roubam hoje em dia no Brasil.
Incrível, quanta desfaçatez! Cadê a máquina do PMDB contra a corrupção, ó Fernando Henrique? Ela é tão eficaz como a máquina de explorar o tempo do livro de H. G. Wells? E me responda, amigo leitor: acha que eu exagerei, quando disse que o outro nome do Brasil é Corruptolândia?

domingo, 13 de maio de 2012

É MUITO PERIGOSO FICAR LENDO UM ÚNICO LIVRO

Eu mostrei num artigo os erros de português e de latim do professor Luiz Geraldo Fonseca e Guerra, o mestre que lá no Recife se acha realmente numa posição superior, pois ele mora no alto do Mandu, o seu Olimpo, lugar de onde lança raios como um Júpiter pernambucano. Gosto muito do Recife e dos recifenses, dos nomes antigos dos seus becos e de suas ruas: Beco da Luxúria, Beco do Cirigado, Rua do Fogo, Rua do Peixe Frito, Rua dos Sete Peados Mortais... São lindos o Teatro Santa Isabel, os sobrados do Cais Martins de Barros, os rios Capibaribe, Beberibe e Jaboatão. E as frutas da capital de Pernambuco? O sabor afrodisíaco da manga, da mangaba, do caju, do sapoti, do abacaxi, do tamarindo! Pois é, gosto tanto do Recife e dos recifenses, que chego até a gostar do professor Guerra! Mas voltemos ao nosso assunto. Apreciem uma confissão desse professor: “...sou homem de um único livro.” Isto significa que o trovejante pedagogo do Alto do Mandu só lê um livro, como ele declarou: um exemplar de uma edição, de 1966, do Pequeno dicionário brasileiro da língua portuguesa, do Aurélio Buarque de Holanda. E incoerente, o professor Guerra é admirador da seguinte frase: “Timeo hominem unius libri” (“Temo o homem de um só livro”) Salienta Renzo Tosi, no Dizionario delle sentenze latine e greche, lançado em Milão no ano de 1991, pelo Editora Rizzoli: esta máxima de origem desconhecida, é atribuída a Santo Tomás de Aquino e serve “para ridicularizar a pessoa que, tendo uma única leitura, pretende conhecer a fundo determinado assunto, ensiná-lo e dissertar sobre ele”. Aliás, Renzo Tosi citou três variantes da máxima. Uma é em italiano: “Dio mi guardi da chi studia un libro solo” (“Deus me proteja de quem estuda num só livro”) Renzo alude à “troça que se faz do padre que só reza missa se tiver o missal diante de si”. Ora, o professor Luiz Geraldo se orgulha de ser “homem de um único livro”... Professor, meu angélico professor, isto é perigoso para a sua pessoa, é perigo-síssimo! É tão perigoso como só comer, todos os dias, uma salada de alfaces e de pepinos. Veja, professor, assim como o nosso organismo precisa de alimentos mais substanciosos, ricos em proteínas, vitaminas e sais minerais, o nosso cérebro, o nosso espírito, a nossa cultura, também não podem ser nutridos apenas com um só livro. Percorrer o texto de um só livro, ao longo da vida, é o mesmo que limitar a visão da nossa mente. É a miopia do intelecto, mas sem óculos... Os nazistas só liam um livro, o Mein Kampf (“Minha Luta”) de Adolf Hitler, e dessa obra repleta de ódio louco, selvagem, nasceu a fúria monstruosa dos fanáticos seguidores do Führer do Terceiro Reich contra a democracia representativa, os direitos humanos, a liberdade de imprensa, de expressão e de religião, o sadismo contra as raças, que eles chamavam de “inferiores”, dos judeus, ciganos, eslavos, índios e negros. Lamentou o escritor e poeta inglês Georg Herbert (1593-1633) nas sua obra Jacula Prudentum: (“ai de quem não lê mais que um livro!”) (“Woe to him that reads but one book”) Ficar a vida inteira lendo um único livro é como só conseguir ver uma árvore, ao penetrar em esplêndida e imensa floresta tropical.

domingo, 22 de abril de 2012

LAURO JARDIM DIVULGOU FATOS JÁ CONHECIDOS, COMO SE FOSSEM NOVIDADES SENSACIONAIS

Ri bastante com o procedimento do meu colega Lauro Jardim. Ele escreveu estas palavras na sua seção “Panorama – Radar”, da revista Veja: “Um Getúlio Vargas surpreendente emerge das páginas de Getúlio, o primeiro volume da trilogia que o jornalista Lira Neto lança pela Companhia das Letras em maio.” Após escrever isto, o meu colega acrescentou: “Uma das revelações do livro é o discurso de formatura do jovem Vargas, na Faculdade de Direito de Porto Alegre, em 1907. Ali, aos 25 anos, surge um Vargas seduzido pela filosofia de Nietzsche (‘esse alucinado genial’) e crítico à condição da mulher de então (‘amesquinhada, ser inferior, serpente tentadora do mal’)”. Dotados de excelente cultura, vários amigos meus se divertiram, quando leram as linhas acima. Um deles, o professor Luís Alberto Coutinho, de História do Brasil, fez diante dos seus alunos o seguinte comentário: -O senhor Lauro Jardim divulgou na seção “Panorama-Radar”, da revista Veja, fatos já conhecidos, como se fossem novidades sensacionais, pois o escritor Fernando Jorge, no segundo volume de sua obra Getúlio Vargas e o seu tempo, publicada com sucesso em 1994, portanto há mais de dezesseis anos, já havia narrado o que o Lira Neto contou. A obra de Fernando teve tanta repercussão, que ganhou o Prêmio Clio, da Academia Paulistana de História. E o professor leu, em voz alta, os trechos do meu livro nos quais evoco o discurso de formatura do moço Getúlio Dornelles Vargas, analisado por mim nas páginas 140, 141 e 142: “A cerimônia efetuou-se no salão nobre da Faculdade, em 25 de dezembro de 1907... O filósofo Nietzsche, na opinião de Getúlio, era um ‘alucinado genial’... Defende a mulher, não a considera um ser desprezível, a ‘serpente tentadora do mal’”... Luís Alberto Coutinho, tranquilo, continuou a ler para os seus alunos o texto que Lauro inseriu na seção “Panorama-Radar”, mostrando como novidade sensacional a mesma coisa já narrada por mim. Todos alunos riram, gracejaram. E um deles falou, repleto de ironia: -Roberto Civita, editor da Veja, e o Euripedes Alcântara, diretor de redação desse semanário, precisam aconselhar o Lauro Jardim a não divulgar fatos já conhecidos, como se fossem novidades sensacionais. Não fica bem numa revista séria e de categoria como a Veja, aparecer notícias velhas, sabidas por todos, à maneira de quem acha que está exibindo algo novo de grande importância... No encerramento da aula, o professor Luís Alberto Coutinho leu o epílogo do texto do Lauro Jardim, a respeito do livro de Lira Neto. Ainda julgando que ia divulgar uma bela novidade, um fato completamente desconhecido, o Lauro salientou: “Se hoje tal discurso (o da formatura de Getúlio) já causaria polêmica para um político, há 100 anos impediria qualquer carreira de decolar. Por isso os anos se passaram e Vargas trancafiou o libelo...” Depois Lauro informa que Alzira, a filha do gaúcho de São Borja, aconselhou a Fundação Getúlio Vargas a nunca divulgar o discurso: “Não pode e não deve ser publicado, sob hipótese alguma.” Lauro Jardim concluiu: “A orientação, ainda bem, não foi respeitada por Lira Neto”. Em frente dos seus alunos atentos, o professor Luís Alberto Coutinho pronunciou estas palavras: -Vejam agora, após eu ler um trecho do livro do Fernando Jorge, como o Lira Neto e o Lauro Jardim se especializaram no ofício de publicar notícias idosas, atacadas de reumatismo crônico. Os alunos – cabe aqui a vetusta expressão – riram a bandeiras despregadas. E com ar sarcástico o professor leu esta passagem da página 142 da minha biografia de Vargas: “Transcorridos mais de trinta anos, ao notar o interesse da filha Alzira pelo seu discurso de colação de grau, Getúlio declarou: -E agora não pode ser mais lido, quanto mais publicado.” Sentença do professor Luís Alberto Coutinho: -Tanto o Lira Neto como o Lauro Jardim, por divulgarem fatos superconhecidos, que pensam ser novidades sensacionais, parecem dois arrombadores de portas abertas... A gargalhada dos alunos estremeceu as vidraças da sala de aula. Uma até se partiu... Enviei uma carta ao Lauro, solicitando-lhe o obséquio de informar isto aos leitores da Veja: antes do Lira Neto, eu havia comentado o discurso de formatura do Getúlio, no meu livro de 1994. Lauro Jardim não me atendeu. Decerto raciocinou desta forma: -Se eu atender esse sujeito, a minha imagem na Veja poderá ficar danificada, pois fornecerei uma prova eloquente de ser um falso novidadeiro. Não quero arriscar-me. Que o Fernando Jorge vá para os confins do Inferno!