domingo, 5 de agosto de 2012

O AUXÍLIO-CUECA


A Justiça determinou: a Assembleia Legislativa de São Paulo está impedida de pagar o auxílio-paletó, correspondente a 40 mil reais em duas parcelas, aos 94 nobres representantes do povo da terra de Rodrigues Alves.
Eu chamava esse auxílio (por achar mais apropriado), de auxílio-cueca. Era um salário-extra, pago no começo e no término de cada ano, a todos os senhores deputados do Legislativo paulista (o qual se caracteriza pela imensa austeridade), poderem comprar roupas novas, camisas, gravatas, paletós, calças, meias, e principalmente, acredito, lindas e cheirosas cuecas de seda, de cor marrom (da cor das fezes), ou azul, ou vermelha, ou cor-de-rosa gay, ou verdes-e-amarelas, como prova indiscutível de berrante patriotismo, de demagógoca paixão pelo Brasil...
Em sentença de oito páginas, o meritíssimo juiz Luís Fernando Camargo de Barros Vidal, da 3ª Vara da Fazenda Pública da capital paulista, acolheu a ação civil do Ministério Público Estadual e impôs, ao Poder Legislativo, o corte da verba que é denominada “ajuda de custo”, também conhecida como “verba de enxoval”.
A ação para eliminar o auxílio-cueca tornou-se uma iniciativa, em 2011, dos promotores Saad Mazloum e Sílvio Antônio Marques, membros da Promotoria de Justiça do Patrimônio Público e Social, braço do Ministério Público cujo escopo é realizar investigações sobre atos de desmandos, de corrupção, de improbidade administrativa.
O auxílio-cueca foi previsto no artigo 1º da Lei 11.328, de 2002, e no artigo 88 do Regimento Interno da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, mas os promotores Saad e Sílvio, na ação, mostraram a inconstitucionalidade da vantagem instituída. Além de violar o artigo 18 da Constituição do Estado, no entender de ambos, o auxílio-cueca “feria de morte a moralidade”.
Após esse “humanitário” auxílio ter sido suspenso, o deputado Barros Munhoz, do PSDB, presidente da Assembleia, declarou de modo firme, sob o domínio de uma raiva mal disfarçada:
“Não enxergo problemas no benefício. Existem coisas muito mais imorais em outras instituições do nosso país. O auxílio é legal, é claro, é transparente, sem nada de errado”.
Sua excelência se expressou de forma infeliz, porque salientou que há coisas mais imorais em nossa pátria. Ora, então eu pergunto: o auxílio-cueca, por ser “menos imoral”, deixa de ser imoral?
Juro, amigo leitor, eu compreendo a oculta indignação do deputado Barros Munhoz. E sinto enorme pena dos seus 93 colegas da Assembleia Legislativa de São Paulo, pois cada um deles, pobrezinhos, só conta, todos os meses, com o auxílio moradia de 2.250 reais; com o curto salário de 20 mil reais; com os ridículos 23 mil reais para certos gastos, como Correios, gasolina e compra de jornais; com a miséria de apenas 94 mil reais mensais, destinados à verba de gabinete, ao pagamento dos pouquíssimos 32 assessores de cada um...
Vejam agora os milhões e milhões de reais que os 94 parlamentares de São Paulo custam aos cofres públicos. Só o auxílio-cueca custava, todos os anos, mais de 3 milhões de reais a esses cofres.
Reprovo a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo por ter decidido não recorrer da sentença judicial que acabou com o poético auxílio. Tal medida, tomada pela Mesa Diretora, teve o respaldo unânime dos líderes de todos partidos.
Deputado Barros Munhoz e demais parlamentares, eu sustento: os senhores foram duros, insensíveis, maus, pelo fato de não contestarem o fim do abnegado auxílio-cueca, pois causaram uma grande mágoa às perfumadas cuecas paulistas de seda. As coitadinhas estão infelizes, pesarosas, chorando. Elas sentiam tanto orgulho em resguardar as vossas bem nutridas bundas! Quem as consolará, quem? O Paulo Salim Maluf? O prefeito João Izael, de Itabira, que sofre de bibliofobia aguda?

A MÁQUINA CONTRA A CORRUPÇÃO


Desfechado o Golpe de 1964, os militares alçaram a bandei­ra da luta contra o comunismo e a corrupção. No entanto, nunca houve tanta corrupção no pais como a que nós vimos ao longo do chamado “Movi­mento de 31 de março de 1964”. Espalhou-se o fedor das mordomias, das sinecuras, dos peculatos, dos estarrecedores escândalos financeiros cau­sados por empresas falidas, mas ajudadas pelo Banco Central, o cheiro nauseabundo dos casos do Halles, do Grupe Lume, da Crecif, da Audi, da Copeig, da Capemi, da Copersucar, da Coroa-Brastel, da Corretora Laurea­no. Só esta, por exemplo, trouxe prejuízos à nação da ordem de 46 bi­lhões de cruzeiros, uma soma que permitiria construir, de maneira folgada, cerca de 4.400 casas populares.
            Um dos líderes no Senado da campanha pela redemocratiza­ção, o gaúcho Paulo Brossard, sintetizou tudo na seguinte frase, em 1978:
“A democracia neste pais é relativa, mas a corrupção é absoluta.”
Tancredo Neves, no dia 16 de janeiro de 1985, foi eleito presidente da República. Eu liguei a minha televisão nesse dia e vi um repórter da TV Globo perguntar isto ao Fernando Henrique Cardoso, Iá no Congresso Nacional:
-Professor, agora, com a eleição do doutor Tancredo, ainda vai haver corrupção no Brasil?
Fernando Henrique respondeu, muito eufórico:
-Ah, isto não, isto não, nunca mais, nem daqui a cem anos!
O repórter quis saber:
-E por quê?
Verboso como sempre, o Fernando Henrique explicou:
-Não vai haver mais corrupção no Brasil porque nós, do PMDB, montamos uma esplêndida máquina para fiscalizar a máquina do Es­tado. A nossa máquina vai funcionar dia e noite, sem parar. Qualquer ato de corrupção será imediatamente descoberto e denunciado por nós!
Essa engrenagem, se ela existiu, nunca funcionou, pois do contrário, de 1990 a 1992, os deputados Cid Carvalho, Manoel Moreira e Genebaldo Carvalho não teriam lesado o Orçamento Federal. Citei apenas os três porque eles eram do PMDB, do partido que havia montado, segundo Fernando Henrique, a tal máquina capaz de denunciar os atos de corrupção. Aliás, como informa a edição do dia 28 de junho de 1990 do jornal O Estado de S. Paulo, o senhor Almir Candury, do PMDB de Rondônia, candi­datou-se a deputado e prometeu:
            -Vou ser o mais corrupto dos deputados. Estou comprando votos e disposto a fazer qualquer acordo, com papel passado em cartório, para me eleger.
Depois ele acrescentou:
-Quero ficar milionário com o meu mandato... O importante é que, de fato, sou o candidato da corrupção. Roubar todos roubam hoje em dia no Brasil.
Incrível, quanta desfaçatez! Cadê a máquina do PMDB contra a corrupção, ó Fernando Henrique? Ela é tão eficaz como a máquina de explorar o tempo do livro de H. G. Wells? E me responda, amigo leitor: acha que eu exagerei, quando disse que o outro nome do Brasil é Corruptolândia?

domingo, 13 de maio de 2012

É MUITO PERIGOSO FICAR LENDO UM ÚNICO LIVRO

Eu mostrei num artigo os erros de português e de latim do professor Luiz Geraldo Fonseca e Guerra, o mestre que lá no Recife se acha realmente numa posição superior, pois ele mora no alto do Mandu, o seu Olimpo, lugar de onde lança raios como um Júpiter pernambucano. Gosto muito do Recife e dos recifenses, dos nomes antigos dos seus becos e de suas ruas: Beco da Luxúria, Beco do Cirigado, Rua do Fogo, Rua do Peixe Frito, Rua dos Sete Peados Mortais... São lindos o Teatro Santa Isabel, os sobrados do Cais Martins de Barros, os rios Capibaribe, Beberibe e Jaboatão. E as frutas da capital de Pernambuco? O sabor afrodisíaco da manga, da mangaba, do caju, do sapoti, do abacaxi, do tamarindo! Pois é, gosto tanto do Recife e dos recifenses, que chego até a gostar do professor Guerra! Mas voltemos ao nosso assunto. Apreciem uma confissão desse professor: “...sou homem de um único livro.” Isto significa que o trovejante pedagogo do Alto do Mandu só lê um livro, como ele declarou: um exemplar de uma edição, de 1966, do Pequeno dicionário brasileiro da língua portuguesa, do Aurélio Buarque de Holanda. E incoerente, o professor Guerra é admirador da seguinte frase: “Timeo hominem unius libri” (“Temo o homem de um só livro”) Salienta Renzo Tosi, no Dizionario delle sentenze latine e greche, lançado em Milão no ano de 1991, pelo Editora Rizzoli: esta máxima de origem desconhecida, é atribuída a Santo Tomás de Aquino e serve “para ridicularizar a pessoa que, tendo uma única leitura, pretende conhecer a fundo determinado assunto, ensiná-lo e dissertar sobre ele”. Aliás, Renzo Tosi citou três variantes da máxima. Uma é em italiano: “Dio mi guardi da chi studia un libro solo” (“Deus me proteja de quem estuda num só livro”) Renzo alude à “troça que se faz do padre que só reza missa se tiver o missal diante de si”. Ora, o professor Luiz Geraldo se orgulha de ser “homem de um único livro”... Professor, meu angélico professor, isto é perigoso para a sua pessoa, é perigo-síssimo! É tão perigoso como só comer, todos os dias, uma salada de alfaces e de pepinos. Veja, professor, assim como o nosso organismo precisa de alimentos mais substanciosos, ricos em proteínas, vitaminas e sais minerais, o nosso cérebro, o nosso espírito, a nossa cultura, também não podem ser nutridos apenas com um só livro. Percorrer o texto de um só livro, ao longo da vida, é o mesmo que limitar a visão da nossa mente. É a miopia do intelecto, mas sem óculos... Os nazistas só liam um livro, o Mein Kampf (“Minha Luta”) de Adolf Hitler, e dessa obra repleta de ódio louco, selvagem, nasceu a fúria monstruosa dos fanáticos seguidores do Führer do Terceiro Reich contra a democracia representativa, os direitos humanos, a liberdade de imprensa, de expressão e de religião, o sadismo contra as raças, que eles chamavam de “inferiores”, dos judeus, ciganos, eslavos, índios e negros. Lamentou o escritor e poeta inglês Georg Herbert (1593-1633) nas sua obra Jacula Prudentum: (“ai de quem não lê mais que um livro!”) (“Woe to him that reads but one book”) Ficar a vida inteira lendo um único livro é como só conseguir ver uma árvore, ao penetrar em esplêndida e imensa floresta tropical.

domingo, 22 de abril de 2012

LAURO JARDIM DIVULGOU FATOS JÁ CONHECIDOS, COMO SE FOSSEM NOVIDADES SENSACIONAIS

Ri bastante com o procedimento do meu colega Lauro Jardim. Ele escreveu estas palavras na sua seção “Panorama – Radar”, da revista Veja: “Um Getúlio Vargas surpreendente emerge das páginas de Getúlio, o primeiro volume da trilogia que o jornalista Lira Neto lança pela Companhia das Letras em maio.” Após escrever isto, o meu colega acrescentou: “Uma das revelações do livro é o discurso de formatura do jovem Vargas, na Faculdade de Direito de Porto Alegre, em 1907. Ali, aos 25 anos, surge um Vargas seduzido pela filosofia de Nietzsche (‘esse alucinado genial’) e crítico à condição da mulher de então (‘amesquinhada, ser inferior, serpente tentadora do mal’)”. Dotados de excelente cultura, vários amigos meus se divertiram, quando leram as linhas acima. Um deles, o professor Luís Alberto Coutinho, de História do Brasil, fez diante dos seus alunos o seguinte comentário: -O senhor Lauro Jardim divulgou na seção “Panorama-Radar”, da revista Veja, fatos já conhecidos, como se fossem novidades sensacionais, pois o escritor Fernando Jorge, no segundo volume de sua obra Getúlio Vargas e o seu tempo, publicada com sucesso em 1994, portanto há mais de dezesseis anos, já havia narrado o que o Lira Neto contou. A obra de Fernando teve tanta repercussão, que ganhou o Prêmio Clio, da Academia Paulistana de História. E o professor leu, em voz alta, os trechos do meu livro nos quais evoco o discurso de formatura do moço Getúlio Dornelles Vargas, analisado por mim nas páginas 140, 141 e 142: “A cerimônia efetuou-se no salão nobre da Faculdade, em 25 de dezembro de 1907... O filósofo Nietzsche, na opinião de Getúlio, era um ‘alucinado genial’... Defende a mulher, não a considera um ser desprezível, a ‘serpente tentadora do mal’”... Luís Alberto Coutinho, tranquilo, continuou a ler para os seus alunos o texto que Lauro inseriu na seção “Panorama-Radar”, mostrando como novidade sensacional a mesma coisa já narrada por mim. Todos alunos riram, gracejaram. E um deles falou, repleto de ironia: -Roberto Civita, editor da Veja, e o Euripedes Alcântara, diretor de redação desse semanário, precisam aconselhar o Lauro Jardim a não divulgar fatos já conhecidos, como se fossem novidades sensacionais. Não fica bem numa revista séria e de categoria como a Veja, aparecer notícias velhas, sabidas por todos, à maneira de quem acha que está exibindo algo novo de grande importância... No encerramento da aula, o professor Luís Alberto Coutinho leu o epílogo do texto do Lauro Jardim, a respeito do livro de Lira Neto. Ainda julgando que ia divulgar uma bela novidade, um fato completamente desconhecido, o Lauro salientou: “Se hoje tal discurso (o da formatura de Getúlio) já causaria polêmica para um político, há 100 anos impediria qualquer carreira de decolar. Por isso os anos se passaram e Vargas trancafiou o libelo...” Depois Lauro informa que Alzira, a filha do gaúcho de São Borja, aconselhou a Fundação Getúlio Vargas a nunca divulgar o discurso: “Não pode e não deve ser publicado, sob hipótese alguma.” Lauro Jardim concluiu: “A orientação, ainda bem, não foi respeitada por Lira Neto”. Em frente dos seus alunos atentos, o professor Luís Alberto Coutinho pronunciou estas palavras: -Vejam agora, após eu ler um trecho do livro do Fernando Jorge, como o Lira Neto e o Lauro Jardim se especializaram no ofício de publicar notícias idosas, atacadas de reumatismo crônico. Os alunos – cabe aqui a vetusta expressão – riram a bandeiras despregadas. E com ar sarcástico o professor leu esta passagem da página 142 da minha biografia de Vargas: “Transcorridos mais de trinta anos, ao notar o interesse da filha Alzira pelo seu discurso de colação de grau, Getúlio declarou: -E agora não pode ser mais lido, quanto mais publicado.” Sentença do professor Luís Alberto Coutinho: -Tanto o Lira Neto como o Lauro Jardim, por divulgarem fatos superconhecidos, que pensam ser novidades sensacionais, parecem dois arrombadores de portas abertas... A gargalhada dos alunos estremeceu as vidraças da sala de aula. Uma até se partiu... Enviei uma carta ao Lauro, solicitando-lhe o obséquio de informar isto aos leitores da Veja: antes do Lira Neto, eu havia comentado o discurso de formatura do Getúlio, no meu livro de 1994. Lauro Jardim não me atendeu. Decerto raciocinou desta forma: -Se eu atender esse sujeito, a minha imagem na Veja poderá ficar danificada, pois fornecerei uma prova eloquente de ser um falso novidadeiro. Não quero arriscar-me. Que o Fernando Jorge vá para os confins do Inferno!

terça-feira, 13 de março de 2012

DRUMMOND E O ELEFANTE GERALDÃO

Conheci Carlos Drummond de Andrade no Rio de Janeiro, na época em que ele era funcionário do Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN). Quem me apresentou ao famoso filho de Itabira foi Rodrigo Melo Franco de Andrade (1893-1969), mineiro como o poeta e que dirigia este órgão. Drummond me ofereceu, com dedicatória, um exemplar do livro A rosa do povo, publicado em 1945, e eu lhe dei a primeira edição da minha obra sobre o Aleijadinho, na qual reproduzi o seu poema em louvor do nosso genial estatuário, cujo fecho é assim:

“Era uma vez um Aleijadinho,
não tinha dedo, não tinha mão,
raiva e cinzel lá isso tinha,
era uma vez um Aleijadinho,
era uma vez muitas igrejas
com muitos paraísos e muitos infernos,
era uma vez São João, Ouro Preto,
Sabará, Congonhas,
era uma vez muitas cidades,
e um Aleijadinho era uma vez”


Conversei com o poeta e antes de me despedir, ele me deu o seu telefone e o seu endereço, no bairro de Copacabana. Rodrigo Melo Franco de Andrade, de quem fui grande amigo, depois comentou:
-Fernando, o Drummond gostou de você, pois não costuma dar o seu telefone e o seu endereço.
A partir daí ficamos amigos. Sempre o visitava, quando ia ao Rio de Janeiro. E embora tivesse fama de ser um homem seco, de poucas palavras, Drummond, diante de mim, algumas vezes abriu-se em confidências. Certa ocasião me confessou:
-Julgam-me, como poeta, um cerebral, porém no fundo sou um emotivo, um nostálgico do passado. Sinto saudades da minha infância em Itabira, dos meus colegas do Grupo Escolar Dr. Carvalho Brito, das aulas particulares do professor Emílio Magalhães. Segundo o botânico alemão Martius, o topônimo Itabira significa “pedra fulgurante, chamejante”. Pois bem, caro amigo, ela é uma pedra que aquece o meu coração.
Vi os olhos azuis de Drummond se umedecerem. E pude contemplar o profundo amor que havia entre aquele homem retraído, magro, de testa alta – testa de intelectual – e a sua filha Maria Julieta, aliás parecidíssima com ele. Ambos exibiam o mesmo rosto, o mesmo olhar. Maria Julieta o beijava e o abraçava, volta e meia. E em 1987, no dia 5 de agosto, essa filha querida faleceu, vítima do câncer. Logo depois, no dia 17 do mesmo mês, Drummond foi ao encontro de Deus e de Julieta...
A minha intimidade com o poeta me permitia ser ousado. Um dia eu lhe disse:
-Qual é o Drummond verdadeiro? O poeta ou o prosador? Como poeta você viola as leis da sintaxe e como prosador as respeita, não se atreve a ser um gramaticida.
Sorrindo, ele respondeu:
-Você é terrível, Fernando. Os dois são sinceros, o poeta e o prosador. Se a poesia e a prosa fossem iguais, de naturezas idênticas, uma não se distinguiria da outra.
Autorizou-me a colocar esta minha irreverência no meu romance satírico O grande líder, atualmente na sexta edição.
Numa das vezes em que o visitei, eu quis saber:
-Você gostaria de escrever um romance?
O rosto de Drummond iluminou-se e ele se expandiu:
-Adoraria ser o autor de um romance fantástico, com a história de um elefante voraz, insaciável, que devora todos os dias, na hora do almoço, um boi, ou uma baleia, ou um hipopótamo. Até já escolhi o nome desse bicho: Geraldão. Devido ao seu apetite, fica do tamanho daquele morro de Ouro Preto, o Itacolomi, cuja altura é de 1.797 metros. Geraldão ambicionava namorar a elefanta Claudete e não conseguia, por causa do seu tamanho. E além disso, ao fazer cocô, emporcalhava tudo...
Nunca poderei me esquecer da gargalhada do Drummond, quando me contou esta história. Coisa rara, a gargalhada, pois era um homem discreto, que apenas sorria de leve. Ele me transmitiu a impressão, ao narrar a história do tal elefante, de ter voltado à sua infância, na longínqua Itabira de 1910....
Contarei numa segunda crônica um episódio curioso, desconhecido, da vida do meu amigo Carlos Drummond de Andrade.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

UMA REVISTA ÚTIL, PREJUDICADA PELO EVANILDO

A revista útil é a Nossa Língua, número 29, da editorial Duetto. Essa publicação obteve o apoio da improfícua Academia Brasileira de Letras, grêmio ridículo, anacrônico, repleto de solenes cadáveres ambulantes, sociedade tão estéril como o útero de uma mula. Quem prejudica a revista: o acadêmico Evanildo Bechara, com os seus artigos difusos, prolixos, mal escritos, nos quais os erros de português brilham, cintilam, à semelhança de reluzentes poças de lama sob os raios do sol.
Evanildo tornou-se o principal responsável pela monstruosa reforma ortográfica da língua portuguesa. Reforma nojenta, teratológica, pois tirou o trema das palavras, estabeleceu o caos entre a preposição para e o verbo parar, expulsou o acento de idéia (agora é idêia), de assembléia (agora é assemblêia), além de cometer outras burrices e inegáveis barbaridades.
A dinâmica revista Nossa Língua apresentou um artigo manquitola, necessitado urgentemente de muletas, desse agressor do idioma de Fernando Pessoa. Título do artigo coxo: “Os animais na linguagem dos homens”. Artigo quadrupedal, provido de ferraduras e arreio, inchado de nauseabundos erros de português. Texto que zurra, pateja, solta coices, agita o rabo. Evanildo merece estar na macabra Academia Brasileira de Letras, junto do apedeuta Paulo Coelho, cujos livros, sem qualquer exceção, todos eles, servem de exercício para a correção de textos.
Autor de obras causadoras de dispepsias cerebrais, o Evanildo escreveu logo no inicio do seu péssimo artigo, mixórdia mais indigesta que uma sopa de calhaus:
“Desde muito cedo acostumou-se o homem a conviver com os animais ditos ‘inferiores’ e a deles se aproveitar...”
Horrível, o “a deles”, porque é suficiente dizer “e deles se aproveitar”. Evanildo não se limita, às vezes, a escrever corretamente mal. Ele sempre escreve completamente mal.
Mais adiante esse bombástico gramaticóide salienta que Pangloss, personagem do Candide de Voltaire, chamou o planeta Terra de “o melhor dos mundos”. Citação incorreta. O certo é assim: “o melhor dos mundos possíveis” (“tout est pour le mieux dans le meilleur des mondes possibles”).
Uma frase ambígua do Evanildo:
“... aprendeu o homem a surpreender nos seus primos pobres propriedades, qualidades...”
Que diabo é isto? Vejam a falta de senso estético. Ele usou três palavras que começam com p e rimou propriedades com qualidades. Frase enigmática, de duplo sentido. Afinal de contas, são primos pobres ou pobres propriedades? É caso típico de anfibologia, vício de linguagem que consiste em redigir a frase de um modo que se presta a mais de uma interpretação. Aí vai este exemplo:
“A freguesa, na loja, pedia meia de mulher preta”.
Ela desejava meia preta ou queria comprar tal peça de mulher preta? O Evanildo fez a mesma confusão!
O vocabulário do Bechara é pobríssimo, é um mendigo esfarrapado. Pai da anêmica Gramática escolar da língua portuguesa, digna de receber uma abundante transfusão de sangue, esse Conselheiro Acácio da ABL repete os verbos sem o mínimo critério:
“Um dos animais que o homem tem mais perto de si e, por isso, tem observado...”
Se ele substituísse o primeiro tem pela palavra conserva, eliminaria a visível indigência vocabular...
Evanildo ignora, apesar de se considerar um gramático, que o a preposição para atrai de maneira normal os pronomes pessoais, objetivos e terminativos. Aqui exponho três passagens do seu artigo:
“... para aludir-se ao diabo”...
“... para referir-se as pessoas (falta o acento no as) ou coisas...”
“... para referir-se à zanga e à irritação.”
Aprenda, Evanildo, o correto é desta forma:
“... para se aludir e para se referir”.
Sabichão, quer que eu lhe ofereça exemplos? Ei-los:
“... para se remontarem ao puro idealismo” (Latino Coelho).
“... para se não levantarem ímpetos de ira” (Padre Manuel da Bernardes).
“... para se entregar quase rendidos à fortuna das forças africanas” (Camões).
No meio do seu aranzel, onde os erros de português se esparramam como um lixo fedorento, Evanildo declarou:
“... o português dos nossos dias teve necessidade de distinguir o cavaleiro e o cavalheiro, este empréstimo ao espanhol caballero”.
Preste atenção, Evanildo, não foi a nossa língua que emprestou à língua espanhola o substantivo cavalheiro e sim o contrário: o idioma de Cervantes deu ao idioma de Frei Luís de Sousa o substantivo caballero, transformado em cavalheiro. O professor Silveira Bueno, catedrático de filologia portuguesa da Universidade de São Paulo, mostrou este fato num verbete da página 655 do segundo volume do Grande dicionário etimológico-prosódico da língua portuguesa, obra em nove volumes da Editora Brasília, publicada no ano de 1974.
Não contente de ter lançado este erro abominável, o Evanildo Bechara pariu mais um da mesma natureza:
“Vê o homem no cavalo e demais bestas de carga o símbolo do trabalhador costumaz...”
Ora, a palavra costumaz não existe na nossa língua e sim o adjetivo contumaz, oriundo do latim contumax e que significa teimoso, opiniático, obstinado. Exemplo:
“... o contumaz espírito do erro não se acobarda, na presença dos respeitáveis triunfos de Cristo” (Camilo Castelo Branco)
Evanildo não parou de expelir erros de concordância no seu texto:
“Em algumas regiões de língua portuguesa tais noctívagos se dizem também morcego.”
Corrigindo: o substantivo morcego deve ficar no plural: morcegos. Aliás, a frase está mal escrita. Vamos aperfeiçoá-la:
“Em algumas regiões de língua portuguesa, tais noctívagos se chamam também morcegos”.
Coloquei uma vírgula depois de portuguesa, e substitui se dizem por se chamam. Não ficou melhor?
Evanildo é um pernóstico. Nos artigos que fez para o jornal O Estado de S.Paulo, a fim de justificar a maluca reforma ortográfica que patrocinou, em vez de empregar a palavra usuário, ele emprega o arcaico adjetivo utente. Quanto pedantismo!
Frequentes vezes, na sua lengalenga, Evanildo encaixou frases enigmáticas, abstrusas:
“De se lhe atribuir ao animal o trabalho excessivo deve ser tratado com a rédea curta...”
Entenderam? Trata-se de uma charada indecifrável? De um código secreto da Máfia? É um hieróglifo da época do faraó Akhenaton ou da época do faraó Tutancâmon?
O Evanildo mamou toda a documentação da sua logorréia nos trabalhos da pesquisadora Delmira Maçãs, porém sem citar os títulos desses trabalhos. Que descaramento!
Como uma praga de incômodos piolhos, os erros se multiplicam no blababá do tenaz esfrangalhador da língua portuguesa. Meu Deus, e o Bechara coordena os artigos da revista Nossa Língua! Coitado do pessoal desta publicação, coitados do Janir Hollanda, editor-chefe, do colaborador Caio Barbosa, da assistente Giselle Gomes, das editoras Érika dos Anjos e Márcia Araújo Almeida. Coitadinhos, coitadinhos! Acolham a minha solidariedade. E com o firme propósito de consolá-los, cito no fim do meu texto um pensamento do filósofo inglês Robert Burton (1577-1640), extraído do seu ensaio Anatomy of melancholy, publicado em 1621:
“A esperança e a paciência são dois soberanos remédios para tudo, são o descanso mais seguro e o mais suave coxim, sobre os quais podemos nos inclinar na adversidade.”
(“Hope and patience are two sovereign remedies for all, the surest reposals, the softest cushions to lean on in adversity”)

domingo, 18 de dezembro de 2011

PRESIDENTA DILMA: MANDE PARA OS CONFINS DO JUDAS OS LÍDERES DESSES PARTIDOS!

Fui amigo intimo do presidente Jânio Quadros. Frequentei durante anos a casa desse homem carismático, situada na rua Nove de Julho, número 880, em frente à Chácara Flora, no bairro paulistano Alto da Boa Vista. Ele me estimulava a escrever a sua biografia e chegou a enviar-me uma carta com estas palavras,no dia 15 de agosto de 1972:
“Se vai ser o meu biógrafo, asseguro-lhe que meus ossos dormirão em paz.”
Certa ocasião, após almoçar com ele e dona Eloá, sua esposa, eu lhe disse:
-Presidente, o senhor me pediu para eu ser o seu biógrafo, porém preciso obter uma informação que é essencial nesse caso, embora não ignore a sua aversão pelo assunto.
Jânio Quadros fitou-me de maneira firme e respondeu:
-Já sei, Fernandinho (ele me chamava pelo diminutivo, carinhosamente), você quer saber a causa da minha renúncia.
-Sim, presidente.
-Veja, meu caro, estamos num país onde ninguém renuncia a nada. Apenas D. Pedro I, no ano de 1831, renunciou em favor do seu filho, D. Pedro de Alcântara, então com cinco anos de idade. E note, D. Pedro I não era brasileiro... Aqui todos se aferram aos seus cargos, às suas posições, de modo até feroz. O vereador, o deputado, o prefeito, o governador, o secretário de Estado, o ministro, o presidente da República, agarram-se aos seus cargos como os cães famélicos se atiram a um pedacinho de osso coberto de pouca carne. Perder o cargo, para essa gente, é como morrer, tornar-se vítima de uma tragédia sangrenta. E no entanto eu apresentei a minha renúncia ao Congresso, no dia 25 de agosto de 1961, depois de menos de sete meses de governo. Renunciei ao cargo supremo, num país, repito, onde ninguém renuncia a nada, a nada!
Nesse momento o rosto de Jânio ficou bem vermelho. Falava exaltado. Temendo pela sua saúde, pronunciei estas palavras:
-Presidente, se este assunto o desagrada, eu...
Ele me interrompeu:
-Não, não, você merece ouvir o que estou dizendo. Isto me faz bem, me alivia.
Mais sereno, Jânio prosseguiu, após tomar um gole de uísque:
-Eu havia prometido, a milhões dos meus eleitores, travar um combate ininterrupto ao clientelismo, ao empreguismo, à ineficiência administrativa, à corrupção endêmica e à burocracia obsoleta. Ansiei por alcançar, neste sentido, a minha total independência em relação a grupos e a partidos. E não foi sem dificuldades que consegui efetuar o corte dos subsídios às importações de trigo e petróleo, a fim de atrair os empréstimos do Exterior à nossa combalida economia. Também transpus barreiras, quando optei pela neutralidade do Brasil em plena Guerra Fria. Assacaram contra mim a pecha de comunista, por reatar as relações diplomáticas com a União Soviética e por não aderir ao boicote a Cuba de Fidel Castro, promovido pelos Estados Unidos do governo Kennedy. Resumindo, eu, como presidente da República, achava-me com as mãos atadas, incapaz de cumprir as solenes promessas que fizera ao povo. Não dispunha de maioria no Congresso, o PSB e o PTB dominavam a Câmara e o Senado, opunham-se à minha política clara, sadia, regeneradora.
Jânio colocou a sua mão direita no meu ombro e outra vez de fisionomia rubra, agitado, com o cabelo caindo na testa, emitiu esta frase:
-Ninguém pode governar o Brasil se não tiver o apoio maciço do Congresso, ninguém!
O rosto dele parecia estar congestionado e os seus olhos despendiam fagulhas. No intento de acalmá-lo, desviei a conversa para outro assunto.
De fato nenhum homem ou mulher pode governar o nosso país se não tiver o apoio da Câmara Federal e do Senado. Eis aí o drama da presidenta Dilma Rousseff. Devido aos compromissos políticos que ela assumiu, para receber o indispensável apoio do Congresso e com este apoio dirigir a nação, Dilma nomeou sete ministros no primeiro ano do seu mandato e todos acabaram sendo demitidos, ou por corrupção, ou por atos reprováveis.
Antonio Palocci, ministro da Casa Civil, foi demitido no dia 7 de junho de 2011, pelo motivo de não explicar como multiplicou o seu patrimônio, entre os anos de 2006 e 2010.
Alfredo Nascimento, ministro do Transportes, foi demitido no dia 6 de julho do mesmo ano, por causa de um esquema de superfaturamento em obras públicas.
Nelson Jobim, ministro da Defesa, foi demitido no dia 7 do mês seguinte, depois de chamar os integrantes do governo de idiotas.
Wagner Rossi, ministro da Agricultura, foi demitido no dia 17 do mesmo mês de agosto, por atos de corrupção.
Pedro Novais, ministro do Turismo, foi demitido no dia 14 do mês seguinte, sob a acusação de usar o dinheiro dos cofres públicos em beneficio próprio.
Orlando Silva, ministro do Esporte, foi demitido no dia 26 de outubro de 2011, por se encontrar envolvido diretamente num esquema de desvio de recursos do programa Segundo Tempo.
Carlos Lupi, ministro do Trabalho, foi demitido no dia 4 de dezembro de 2011, acusado, entre outras coisas, de desvio das verbas de ONGs e de acumulo de cargos na Câmara dos Deputados e na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Este ex-ministro declarou: só sairia do cargo se fosse “abatido à bala”.
Como uma professora que expulsa, da sala de aula, sete maus alunos, a presidenta Dilma Rousseff enxotou do seu governo sete ministros...
Ela, a ex-guerrilheira, é dinâmica, inteligente, capacitada, mas para governar o Brasil de modo eficaz, precisa libertar-se, no decorrer do seu mandato, dos compromissos partidários. Dilma só deveria nomear pessoas de comprovada honestidade, não indicadas por qualquer partido, nem pelo PT, nem pelo PDT, nem pelo PMDB, nem pelo PSDB, enfim, negar-se a atender os pedidos dos líderes das várias agremiações políticas. Se estas lhe retirarem o apoio, movidas pela vingança, e Dilma ficar com minoria no Congresso, apesar de submeter a ele a aprovação de medidas acertadas, o povo a apoiará entusiasticamente, obrigando o Poder Legislativo da República a prestigiar o seu governo.
Presidenta Dilma: mande para os confins do Judas os líderes desses partidos!
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Escritor e jornalista, Fernando Jorge é autor do livro Se não fosse o Brasil, jamais Barack Obama teria nascido, cuja 3ª edição foi lançada pela Editora Novo Século