Eu coleciono as frases imbecis das pessoas mais famosas do Brasil. Já tenho centenas dessas frases e pretendo publicar um livro, ao qual darei este titulo: Dicionário das frases cretinas dos brasileiros celebres.
Baseado em frias análises, cheguei à uma conclusão: o poder, diversas vezes, também emburrece, cretiniza. Foi a única explicação lógica que eu encontrei para compreender as frases idiotas de pessoas famosas, cujos nomes se acham em evidência nos jormais, nas revistas, nos programas das emissoras de televisão.
Há vários anos, aliás, as besteiras dessa gente frequentam os noticiários.
Após assumir a presidência da Republica em 15 de março de 1985, o maranhense José Sarney vomitou a seguinte asneira:
“Realmente, estamos importando alimentos, mas isso é ótimo, porque significa que quem não comia está comendo."
Oh raciocínio genial! Cérebro privilegiado, o do senhor José Sarney! Ele merece, não há duvida, ser membro da estéril Academia Brasileira de Letras. Amigo leitor, curve a cabeça diante da robusta inteligência do singular poeta do livro Maribondos de fogo, obra onde a poesia foi assassinada por esses insetos chamejantes!
Ficaram célebres as frases cretinas do senhor Mário Amato, na época em que era presidente da FIESP. No mês de abril de 1989, por exemplo, ele fez este elogio à senhora Dorothéia Werneck, ministra do Trabalho do presidente Sarney:
-Ela é muito inteligente, apesar de ser mulher.
A frase é tão cretina, mas tão cretina, que dispensa qualquer comentário. E comentar o quê? Assim como uma rosa é apenas uma rosa, conforme dizia a Gertrude Stein, a m. é apenas uma m.
Mais tarde, em 21 de junho de 1992, justificando a sonegação de impostos como "a defesa da sociedade contra a elevada carga tributária”, o senhor Mário Amato garantiu:
-Sonegar impostos é proteger a sociedade brasileira. O crime compensa. Ninguém pode atirar a primeira pedra: somos todos corruptos.
Estas frases imorais, insultuosas, cretinas, geraram o protesto indignado de 150 empresários gaúchos e do senhor Luíz Carlos Mandelli, presidente da Federação de Indústrias do Rio Grande do Sul. Vários gângsteres de Chicago e Nova York, inclusive o impiedoso Al Capone, enviaram do Inferno, onde cumprem as suas penas eternas, calorosos telegramas de aplauso ao senhor Mário Amato.
Três meses depois, em outubro de 1992, o Amato expeliu outra frase cretina:
-Quando a mocidade, que está despontando para a cidadania, sai para as ruas, isso me amedronta e apavora.".
Sentir medo da mocidade consciente, patriótica! Olhem aí o cúmulo do reacionarismo! Mário Amato deveria tremer, borrar as calças, se fosse o contrário. Se os jovens se acomodam diante do erro, do arbítrio, da corrupção, da patifaria, da injustiça, isto sim é condenável e maléfico. Viva pois a mocidade estuante, vibrante, apaixonada, a bela e generosa mocidade que sai das escolas, das universidades, e vai às ruas para reagir, protestar, combater a opressão, defender a democracia, lutar pela liberdade, a indômita e esplêndida mocidade de quente e rubro sangue novo! Ela é que é a verdadeira esperança de meu país, o seu futuro radioso!
Durante a campanha pelas eleições diretas, no ano de 1989, o doutor Paulo Salim Maluf deu este conselho em Belo Horizonte, na Faculdade de Ciências Médicas:
-O que fazer com um camarada que estuprou uma moça e matou? Tá bom, tá com vontade sexual, estupra, mas não mata.
Frases soberbas, notáveis! Eu soube que o presidente da Sociedade Brasileira de Estupradores convocou uma reunião extraordinária para os sócios desse grêmio poderem aplaudir de pé, entusiasticamente, o doutor Paulo Salim Maluf, defensor dessa nova e revolucionária prática sexual, chamada "Estupra, mas não mata". Convém dizer: o “Maniaco do Parque”, o Francisco de Assis Pereira, tentou acatar o conselho do doutor Maluf, porém ele não se dominava na hora "H" e acabou estuprando e matando dezenas de moças nas clareiras do Parque do Estado, uma das maiores áreas verdes da cidade de São Paulo. Francisco, menino mau, por que você não se limitou a estuprar as moças, seguindo o excelente conselho do doutor Maluf, por quê?
Em 1995, o doutor Maluf confessou:
-Me orgulho muito dos povos árabes, mas sou de origem libanesa.
Ora, eu pergunto, e o Líbano não é um país árabe? É tão árabe que 75 por cento da sua população é muçulmana. Basta salientar: em 1945 o Líbano ingressou na Liga Árabe. Eis os nomes árabes de localidades do país dos cedros: Al Laban, Batrum, Bent Jbail, Dayr al Qamar, El Khiyam, Qurnat al-Hamrã, etc, etc.
Bem, e qual é a minha firme conclusão? A minha firme conclusão é simples: de fato o poder em nosso país muitas vezes burrifica, imbeciliza. Os miolos de certos fulanos que exercem o poder se desconjuntam e ficam soltos, boiando nas suas cabeças. Eles passam a ter os cérebros em compotas. Devido a esta metamorfose, começam a defecar pela boca.
sexta-feira, 26 de agosto de 2011
quarta-feira, 17 de agosto de 2011
VIVA A ALEGRIA!
Numa época em que tanta gente morre em consequência de desastres, epidemias, guerras e mil outras calamidades, digam-me se não é uma ventura morrer de alegria, simplesmente. Pois isto aconteceu, conforme os jornais noticiaram, à senhora Becker, de Essen, na Alemanha. Em 1939, ela contava sessenta anos e era mãe de onze filhos, sendo também bisavó. Nesta idade sofreu um ataque de catarata, ficando cega. Os médicos, temendo complicações, não quiseram operá-Ia. Há pouco tempo, com setenta e oito anos, a senhora Becker submeteu-se a uma operação cirúrgica, coroada de êxito. A alegria de conseguir ver, por fim, seus vinte e nove netos, dezessete bisnetos e nove trinetos, foi tal, tão excessiva, que ela não resistiu: morreu de emoção.
Se todos os seres pudessem se despedir da vida assim, no auge da felicidade! Morrer sorrindo, eufórico, deve ser uma volúpia. Um belo epílogo reconcilia o homem com a existência, por mais ingrata e adversa que esta tenha sido. O lamentável é que Santo Agostinho sentenciou:
"Acabamos sempre humilhados pela vida".
Eis uma dolorosa verdade. Ao percorrermos as biografias dos homens célebres, o nosso coração se sente confrangido. Com uma e outra rara exceção, quase todos sucumbiram tragicamente: Cícero degolado, Menandro afogado no Pireu, Eurípides despedaçado por uma matilha de cães, Sócrates envenenado, Abimeleque triturado pela mó de um moinho, Sansão esmagado sob as ruínas de um templo, Pirro caiu numa rua de Argos, vítima de pesada telha que lhe foi atirada à cabeça por uma mulher do povo.
Santo Deus! - exclamará o leitor - então não existiu ninguém importante no mundo que morresse em paz, num clima benigno? É claro que houve. Mas são tão poucos! Uma das mortes mais poéticas que conhecemos é a do pintor Rafael. Esse artista possuía uma fisionomia seráfica. Nele tudo era suave: o olhar, o perfil, a voz, os gestos. Foi, como Fra Angélico, um santo da arte. Viveu só para ela, cercado por um séquito de admiradores e discípulos. Expirou mansamente no seu atelier, no meio dos seus quadros, dos inúmeros amigos, enquanto a tarde, tranquila como o rosto de suas madonas, enlanguescia numa auréola de matizes opalescentes.
Talvez se o homem não temesse tanto a morte, a vida seria mais calma, aprazível. Esta certeza absoluta do nosso perecimento físico nos deixa sempre inquietos, sobressaltados. Estamos atentos, todos os minutos, na defesa da nossa carcaça. "O receio da morte é pior que a própria morte", afirmou Públio Ciro nas Sentenças.
De Thou, no cadafalso, contemplando o cadáver palpitante do seu companheiro Cinq-Mars, e percebendo que o carrasco se preparava para executá-Io, voltou-se para a multidão e disse:
-Sou homem, temo a morte, e o corpo desse amigo, estendido a meus pés, me perturba. Peço, por caridade, que me ocultem os olhos. Qual dos senhores poderia ceder-me um lenço?
A senhora Becker não foi a única criatura que pôde morrer de alegria. Quilon, um dos sete sábios da Grécia, tombou trespassado de contentamento ao beijar seu filho, um dos vencedores dos Jogos Olímpicos. Anacreonte expirou num festim, ébrio, soltando gargalhadas. O poeta Filemon pereceu de ataque de riso, ao ver que um burrico, aproximando-se de uma mesa, devorava os figos bons e atirava fora os podres. Aretino também sucumbiu de tanto rir. Sófocles, em virtude do sucesso alcançado por uma de suas peças. Natale Constantine, célebre cantor italiano, quando soube que Verdi havia escrito uma parte especial para ele, na ópera Atila. Calchas, adivinho grego, ao comentar, exultante, com alguns amigos, o fato de se ter vencido o dia da sua morte, por ele mesmo anunciada num dos seus vaticínios.
Morrer de alegria é bem melhor do que passar deste mundo para o outro sem ser afogado, como o Duque de Clarença, num tonel de malvasia, ou sem ser, como Brunilde, filha de Atanagildo, rei dos visigodos, arrastada pela cauda de um cavalo xucro.
É preferível extinguir-se feliz, satisfeito, pois é um privilégio assaz raro, que não tiveram homens do porte de um Dante, falecido no desterro, de um Lavoisier, cuja cabeça foi decepada pela guilhotina. É bem melhor, em vez de chorar, de se desesperar, crer na sobrevivência da alma, ser superior, sorrir da morte. Dirão: é muito fácil dar conselhos... Mas afirmo que não é difícil também segui-Ios. O cínico Alphonse Karr dizia que emitir conselhos distrai bastante aquele que os distribui e não obriga à nada aquele que os recebe. Em todo o caso, ouvindo as recomendações de vozes sobrenaturais, Joana d' Arc salvou a França e o estouvado D. Pedro I, não fazendo ouvidos de mercador às sensatas palavras proferidas pelo seu pai, proclamou a independência do Brasil... As nossas exortações de resignação cristã ante o irremediável não terão eficácia se o leitor tiver a mentalidade do arqueólogo italiano Giacomo Boni, o qual explicava desta maneira o segredo de suas vitórias nas escavações que fazia:
-É muito simples. Recolho os informes do monumento ou do objeto procurado. E onde os tratados dizem que não deve existir coisa alguma, mando cavar e sempre encontro qualquer coisa...
Se tudo vai mal, se nada nos entremostra uma perspectiva risonha, se até os amigos, nos momentos infaustos, afastam-se do nosso convívio, não fiquemos desesperados nem lamuriosos. O Altíssimo, para nos consolar, ofereceu-nos o riso, esse broquel de ouro que protege a nossa alma dos vilipêndios da adversidade.
O ríspido Licurgo levantou na Lacedemonia uma estátua ao riso, tão necessário, afirmava, para mitigar o trabalho, as amarguras da vida, a dureza das regras que ele prescrevia.
Saibamos viver bem humorados, pois assim, no instante fatal, não será difícil contemplar a incomplacente ceifeira de olhos frios.
Instrui a Bíblia, nos Provérbios, que o "coração alegre constitui bom remédio, mas um espírito abatido seca os ossos."
Exaltemos, nesta época insípida e utilitarista, a Alegria, essa jucunda fada Viviana que transmuda, com o leve toque da sua varinha de cristal, cravejada de safiras, a capciosa víbora do pessimismo em cambiante colar de turmalinas, o lodo viscoso e infecto do Aqueronte em ametistas de tons rubentes, nas quais Merlin, o Mago, reteve cativas algumas gotas nevadas caídas do seio de uma sílfide.
Quando tudo nos parecer desfavorável, nas horas longas de tédio e desalento, quando estivermos despojados de todas fantasias da Ilusão, sem um vintém de Fé, sedentos de Ideal, voltemos nosso olhar fosco para ela, a rósea e radiante Alegria, deusa ornada pelas flores vermelhas e cetinosas do amaranto, imperatriz da azul Bizâncio dos meus sonhos, cujas almenaras, ostentando cúpulas douradas de faiança, são braços suplicantes de pedra, erguendo, às amplidões estelares, minhas ansiosas e esperançosas preces!
Quis me expressar assim, com esta linguagem ultra-poética. E se estou sendo ridículo, anacrônico, paciência...
Se todos os seres pudessem se despedir da vida assim, no auge da felicidade! Morrer sorrindo, eufórico, deve ser uma volúpia. Um belo epílogo reconcilia o homem com a existência, por mais ingrata e adversa que esta tenha sido. O lamentável é que Santo Agostinho sentenciou:
"Acabamos sempre humilhados pela vida".
Eis uma dolorosa verdade. Ao percorrermos as biografias dos homens célebres, o nosso coração se sente confrangido. Com uma e outra rara exceção, quase todos sucumbiram tragicamente: Cícero degolado, Menandro afogado no Pireu, Eurípides despedaçado por uma matilha de cães, Sócrates envenenado, Abimeleque triturado pela mó de um moinho, Sansão esmagado sob as ruínas de um templo, Pirro caiu numa rua de Argos, vítima de pesada telha que lhe foi atirada à cabeça por uma mulher do povo.
Santo Deus! - exclamará o leitor - então não existiu ninguém importante no mundo que morresse em paz, num clima benigno? É claro que houve. Mas são tão poucos! Uma das mortes mais poéticas que conhecemos é a do pintor Rafael. Esse artista possuía uma fisionomia seráfica. Nele tudo era suave: o olhar, o perfil, a voz, os gestos. Foi, como Fra Angélico, um santo da arte. Viveu só para ela, cercado por um séquito de admiradores e discípulos. Expirou mansamente no seu atelier, no meio dos seus quadros, dos inúmeros amigos, enquanto a tarde, tranquila como o rosto de suas madonas, enlanguescia numa auréola de matizes opalescentes.
Talvez se o homem não temesse tanto a morte, a vida seria mais calma, aprazível. Esta certeza absoluta do nosso perecimento físico nos deixa sempre inquietos, sobressaltados. Estamos atentos, todos os minutos, na defesa da nossa carcaça. "O receio da morte é pior que a própria morte", afirmou Públio Ciro nas Sentenças.
De Thou, no cadafalso, contemplando o cadáver palpitante do seu companheiro Cinq-Mars, e percebendo que o carrasco se preparava para executá-Io, voltou-se para a multidão e disse:
-Sou homem, temo a morte, e o corpo desse amigo, estendido a meus pés, me perturba. Peço, por caridade, que me ocultem os olhos. Qual dos senhores poderia ceder-me um lenço?
A senhora Becker não foi a única criatura que pôde morrer de alegria. Quilon, um dos sete sábios da Grécia, tombou trespassado de contentamento ao beijar seu filho, um dos vencedores dos Jogos Olímpicos. Anacreonte expirou num festim, ébrio, soltando gargalhadas. O poeta Filemon pereceu de ataque de riso, ao ver que um burrico, aproximando-se de uma mesa, devorava os figos bons e atirava fora os podres. Aretino também sucumbiu de tanto rir. Sófocles, em virtude do sucesso alcançado por uma de suas peças. Natale Constantine, célebre cantor italiano, quando soube que Verdi havia escrito uma parte especial para ele, na ópera Atila. Calchas, adivinho grego, ao comentar, exultante, com alguns amigos, o fato de se ter vencido o dia da sua morte, por ele mesmo anunciada num dos seus vaticínios.
Morrer de alegria é bem melhor do que passar deste mundo para o outro sem ser afogado, como o Duque de Clarença, num tonel de malvasia, ou sem ser, como Brunilde, filha de Atanagildo, rei dos visigodos, arrastada pela cauda de um cavalo xucro.
É preferível extinguir-se feliz, satisfeito, pois é um privilégio assaz raro, que não tiveram homens do porte de um Dante, falecido no desterro, de um Lavoisier, cuja cabeça foi decepada pela guilhotina. É bem melhor, em vez de chorar, de se desesperar, crer na sobrevivência da alma, ser superior, sorrir da morte. Dirão: é muito fácil dar conselhos... Mas afirmo que não é difícil também segui-Ios. O cínico Alphonse Karr dizia que emitir conselhos distrai bastante aquele que os distribui e não obriga à nada aquele que os recebe. Em todo o caso, ouvindo as recomendações de vozes sobrenaturais, Joana d' Arc salvou a França e o estouvado D. Pedro I, não fazendo ouvidos de mercador às sensatas palavras proferidas pelo seu pai, proclamou a independência do Brasil... As nossas exortações de resignação cristã ante o irremediável não terão eficácia se o leitor tiver a mentalidade do arqueólogo italiano Giacomo Boni, o qual explicava desta maneira o segredo de suas vitórias nas escavações que fazia:
-É muito simples. Recolho os informes do monumento ou do objeto procurado. E onde os tratados dizem que não deve existir coisa alguma, mando cavar e sempre encontro qualquer coisa...
Se tudo vai mal, se nada nos entremostra uma perspectiva risonha, se até os amigos, nos momentos infaustos, afastam-se do nosso convívio, não fiquemos desesperados nem lamuriosos. O Altíssimo, para nos consolar, ofereceu-nos o riso, esse broquel de ouro que protege a nossa alma dos vilipêndios da adversidade.
O ríspido Licurgo levantou na Lacedemonia uma estátua ao riso, tão necessário, afirmava, para mitigar o trabalho, as amarguras da vida, a dureza das regras que ele prescrevia.
Saibamos viver bem humorados, pois assim, no instante fatal, não será difícil contemplar a incomplacente ceifeira de olhos frios.
Instrui a Bíblia, nos Provérbios, que o "coração alegre constitui bom remédio, mas um espírito abatido seca os ossos."
Exaltemos, nesta época insípida e utilitarista, a Alegria, essa jucunda fada Viviana que transmuda, com o leve toque da sua varinha de cristal, cravejada de safiras, a capciosa víbora do pessimismo em cambiante colar de turmalinas, o lodo viscoso e infecto do Aqueronte em ametistas de tons rubentes, nas quais Merlin, o Mago, reteve cativas algumas gotas nevadas caídas do seio de uma sílfide.
Quando tudo nos parecer desfavorável, nas horas longas de tédio e desalento, quando estivermos despojados de todas fantasias da Ilusão, sem um vintém de Fé, sedentos de Ideal, voltemos nosso olhar fosco para ela, a rósea e radiante Alegria, deusa ornada pelas flores vermelhas e cetinosas do amaranto, imperatriz da azul Bizâncio dos meus sonhos, cujas almenaras, ostentando cúpulas douradas de faiança, são braços suplicantes de pedra, erguendo, às amplidões estelares, minhas ansiosas e esperançosas preces!
Quis me expressar assim, com esta linguagem ultra-poética. E se estou sendo ridículo, anacrônico, paciência...
domingo, 10 de julho de 2011
O deslumbramento de Matthew Shirts diante da espertalhona Camille Paglia
Matthew Shirts é um americano que se transformou em colunista de O Estado de S.Paulo. Só escreve a respeito de ninharias, de futilidades. Ler as suas crônicas é como ouvir uma conversa mole, tediosa, sonífera. Confesso, se estou com insônia, eu o leio e durmo logo. E agora pergunto: por que o Ruy Mesquita deixa a lenga-lenga desse gringo chatíssimo abusar da nossa paciência, no jornal onde Monteiro Lobato encantou os seus leitores? É a velha mania do brasileiro prestigiar o estrangeiro, sobretudo os patrícios de Obama, em vez de dar apoio aos nossos escritores e jornalistas de valor.
O paulificante Matthew Shirts, expulso da Chatolândia, o país dos chatos, por ser mais chato do que o rei de tal país, gatafunhou o seguinte na crônica “De Cleópatra a Justine Bieber”:
“Dia desses tive o privilégio de passar a tarde, aqui em São Paulo, com a superestrela intelectual Camille Paglia.”
Essa Camille é uma escritora malandra, metida a besta, especializada em causar escândalos, em soltar palavras completamente idiotas. Pariu um ensaio horroroso, intitulado Personas sexuais: arte e decadência, de Nefertite a Emily Dickinson, lido por milhões de leitores ignorantes, desprovidos de senso crítico. Obra publicada no Brasil, em 1993, pela Companhia das Letras, editora cujos livros se acham repletos de grosseiros erros de português. Louco de entusiasmo, em delírio, mergulhado num histérico alucinamento apoteótico, o verborrágico Matthew Shirts colocou nos cornos da lua o ensaio teratológico da ridícula vigarista. Eis um trecho do seu desvario:
“O livro (de Camille) é genial; pulsante é o adjetivo que me vem à cabeça. Uma obra-prima da história intelectual e da arte.”
Matthew Shirts não entende nada de literatura. Que péssima escolha, a do adjetivo pulsante! Já o critiquei no meu livro Vida e obra do plagiário Paulo Francis – O mergulho da ignorância no poço da estupidez, pois ele afirmou isto, na edição do dia 24 de junho de 1995 de O Estado de S.Paulo:
“Para quem se interessa pelos valores e emoções intelectuais das últimas décadas, recomendo muito o livro Trinta anos esta noite, de Paulo Francis.”
Eu o corrigi no meu livro. Declarei que ele, o frenético, o assanhadíssimo Matthew Shirts, devia ter escrito assim, de modo correto:
“Para quem se interessa por insultos pessoais, descrições de cenas pornográficas, ataques estúpidos aos árabes, ao Alcorão, a Portugal, ao general Castello Branco, às mulheres em geral, à Câmara Federal, e gosta também de ver graves erros de português, acompanhados de dezenas de informações erradas, recomendo muito o livro Trinta anos esta noite, de Paulo Francis.”
Explodindo de amor pela tapeadora Camille Paglia, que faz jus ao seu sobrenome, porque do ponto de vista literário ela é frágil como uma palha, o logorreico Matthew Shirts salientou na sua crônica intragável, com sabor de purgante fervido, que a irresistível, a incomparável, a maravilhosa, a divina Camille criticou o lesbianismo, apesar de ser lésbica. Após nos fornecer a notável informação, esse americano ansioso por virar paulistano caiu em êxtase diante desta cretinice da machona:
“... o homem, ao se tornar homossexual, fica 50% mais esperto; ao virar lésbica, uma mulher perde 25% da inteligência.”
Babou de admiração, o Matthew Shirts, depois de ler esta imensa besteira. Talvez até desfaleceu, soluçando:
-Ai, ai, ai, como a Camille Paglia é genial, como é genial! Ai, ai, ai, ai, ai, ai, eu não aguento! Eu a amo demais, demais!
Após almoçar com ela, Matthew chegou à redação da revista onde trabalha, a National Geographic Brasil, e não conteve o entusiasmo. Contou tudo para os colegas aos brados. Imagino como foi a sua gritaria:
-Eu adoro a Camille! Camille é gênio, gênio, gênio, gênio! Shakespeare estava certo! O powerful love, that in some respects makes a beast a man; in some other, a man a beast! (“Oh, amor todo poderoso, que de certa maneira fazes de uma besta um homem, e também de certa maneira fazes de um homem uma besta!”)
Matthew garante: Camille está vidrada pelo Brasil e já efetuou sete viagens para cá. Pudera! Essa embrulhona percebeu que em nosso país existem milhares de débeis mentais, capazes de adorá-la, de aplaudir todos os dias, em qualquer hora, as suas parvoíces, os seus raciocínios malucos, as suas frases tão ilógicas como a de um bêbado que ingeriu uma mistura de cocaína, maconha, vinho, vodca e cachaça.
Se a Camille Paglia equilibrar na sua cabeça tonta um penico cheio de cocô fedorento, e andar pelas nossas ruas vomitando disparates, ela vai encontrar milhares de fervorosos admiradores, dispostos a segui-la.
Christian Furchtegott Gellert (1715-1769), poeta e moralista alemão, acertou em cheio ao escrever estas palavras na sua obra Fabeln:
“Um tolo sempre encontra um outro ainda mais tolo, que o olha com admiração”.
(Ein Thor find allenmal noch einen grössern Thoren, der seinem Wert zu schätzen weiss).
O paulificante Matthew Shirts, expulso da Chatolândia, o país dos chatos, por ser mais chato do que o rei de tal país, gatafunhou o seguinte na crônica “De Cleópatra a Justine Bieber”:
“Dia desses tive o privilégio de passar a tarde, aqui em São Paulo, com a superestrela intelectual Camille Paglia.”
Essa Camille é uma escritora malandra, metida a besta, especializada em causar escândalos, em soltar palavras completamente idiotas. Pariu um ensaio horroroso, intitulado Personas sexuais: arte e decadência, de Nefertite a Emily Dickinson, lido por milhões de leitores ignorantes, desprovidos de senso crítico. Obra publicada no Brasil, em 1993, pela Companhia das Letras, editora cujos livros se acham repletos de grosseiros erros de português. Louco de entusiasmo, em delírio, mergulhado num histérico alucinamento apoteótico, o verborrágico Matthew Shirts colocou nos cornos da lua o ensaio teratológico da ridícula vigarista. Eis um trecho do seu desvario:
“O livro (de Camille) é genial; pulsante é o adjetivo que me vem à cabeça. Uma obra-prima da história intelectual e da arte.”
Matthew Shirts não entende nada de literatura. Que péssima escolha, a do adjetivo pulsante! Já o critiquei no meu livro Vida e obra do plagiário Paulo Francis – O mergulho da ignorância no poço da estupidez, pois ele afirmou isto, na edição do dia 24 de junho de 1995 de O Estado de S.Paulo:
“Para quem se interessa pelos valores e emoções intelectuais das últimas décadas, recomendo muito o livro Trinta anos esta noite, de Paulo Francis.”
Eu o corrigi no meu livro. Declarei que ele, o frenético, o assanhadíssimo Matthew Shirts, devia ter escrito assim, de modo correto:
“Para quem se interessa por insultos pessoais, descrições de cenas pornográficas, ataques estúpidos aos árabes, ao Alcorão, a Portugal, ao general Castello Branco, às mulheres em geral, à Câmara Federal, e gosta também de ver graves erros de português, acompanhados de dezenas de informações erradas, recomendo muito o livro Trinta anos esta noite, de Paulo Francis.”
Explodindo de amor pela tapeadora Camille Paglia, que faz jus ao seu sobrenome, porque do ponto de vista literário ela é frágil como uma palha, o logorreico Matthew Shirts salientou na sua crônica intragável, com sabor de purgante fervido, que a irresistível, a incomparável, a maravilhosa, a divina Camille criticou o lesbianismo, apesar de ser lésbica. Após nos fornecer a notável informação, esse americano ansioso por virar paulistano caiu em êxtase diante desta cretinice da machona:
“... o homem, ao se tornar homossexual, fica 50% mais esperto; ao virar lésbica, uma mulher perde 25% da inteligência.”
Babou de admiração, o Matthew Shirts, depois de ler esta imensa besteira. Talvez até desfaleceu, soluçando:
-Ai, ai, ai, como a Camille Paglia é genial, como é genial! Ai, ai, ai, ai, ai, ai, eu não aguento! Eu a amo demais, demais!
Após almoçar com ela, Matthew chegou à redação da revista onde trabalha, a National Geographic Brasil, e não conteve o entusiasmo. Contou tudo para os colegas aos brados. Imagino como foi a sua gritaria:
-Eu adoro a Camille! Camille é gênio, gênio, gênio, gênio! Shakespeare estava certo! O powerful love, that in some respects makes a beast a man; in some other, a man a beast! (“Oh, amor todo poderoso, que de certa maneira fazes de uma besta um homem, e também de certa maneira fazes de um homem uma besta!”)
Matthew garante: Camille está vidrada pelo Brasil e já efetuou sete viagens para cá. Pudera! Essa embrulhona percebeu que em nosso país existem milhares de débeis mentais, capazes de adorá-la, de aplaudir todos os dias, em qualquer hora, as suas parvoíces, os seus raciocínios malucos, as suas frases tão ilógicas como a de um bêbado que ingeriu uma mistura de cocaína, maconha, vinho, vodca e cachaça.
Se a Camille Paglia equilibrar na sua cabeça tonta um penico cheio de cocô fedorento, e andar pelas nossas ruas vomitando disparates, ela vai encontrar milhares de fervorosos admiradores, dispostos a segui-la.
Christian Furchtegott Gellert (1715-1769), poeta e moralista alemão, acertou em cheio ao escrever estas palavras na sua obra Fabeln:
“Um tolo sempre encontra um outro ainda mais tolo, que o olha com admiração”.
(Ein Thor find allenmal noch einen grössern Thoren, der seinem Wert zu schätzen weiss).
quinta-feira, 19 de maio de 2011
O sonho é a nossa alma que sai do corpo
Sim, acredito, o sonho é a nossa alma que sai do corpo. Embora católico, possuo forte mediunidade e não alimento a menor dúvida: nós, seres humanos, somos espíritos materializados. Chico Xavier, nas páginas 443 e 503 do seu livro Parnaso de além túmulo (10ª edição), referiu-se a essa minha mediunidade.
Quando sonho com pessoas afastadas de mim há longo tempo, elas já faleceram, sem antes eu ter sabido disso. No sonho a pessoa conversa comigo. Sinto, nesses encontros realizados num outro plano, uma sensação absoluta de felicidade. Extravaso ternura, amor, carinho. Ao acordar fico tão emocionado que choro. Podem me chamar de “anormal”, se quiserem...
Conheci, no meu tempo de adolescente, uma jovem nascida nos Estados Unidos. Era bem bonita e tinha quatorze anos. Havia sofrido um tombo, num dia de chuva, na calçada em frente do portão de entrada da Graded School, escola americana do bairro do Paraíso. Eu a socorri e levei-a a uma farmácia, pois o seu joelho sangrava sem parar. Após o curativo, acompanhei a menina até a sua casa.
Mostrou-se gratíssima. Se me via, pegava a minha mão para puxar conversa. Ela mal sabia se expressar em português e eu nem entendia direito o seu inglês, mas percebi que a linda menina americana ficou gostando de mim, um garoto magrinho, feio, desprovido de qualquer atrativo físico. Uma tarde, sentados num banco do grande jardim da escola, ela apertou a minha mão e disse:
-Querro ser seu namorrada.
Arregalei os olhos, surpreso. Ela repetiu:
-Seu namorrada.
Respondi, sem jeito:
-Mary, é melhor sermos apenas amigos, friends.
Quis saber porquê e expliquei:
-Você é americana e eu sou brasileiro. Somos muitos diferentes.
A resposta foi imediata:
-Love is blind (o amor é cego).
Eu tentei argumentar:
-Você é loura, anglo-saxônica, e sou um brasileiro descendente de árabes, de beduínos. Os seus pais não gostariam de vê-la namorar um fulano como eu...
Depois frisei que a família dela era de ascendência nobre, britânica. Ela, perto de mim, parecia uma princesa e eu um plebeu... Mary ouviu e pronunciou estas palavras:
-The course of true love never did run smooth.
Não entendi. Rindo, ela escreveu a frase num papel e com esforço procurou traduzi-la para o português. Guardo até hoje a tradução nesse papel:
O caminho do amor verdadeiro nunca foi fácil.
Esta frase, a rigor, é do personagem Lisandro no primeiro ato da peça A midsummer night’s dream (“Sonho de uma noite de verão”), de William Shakespeare.
As colegas americanas de Mary, sempre que a viam ao meu lado, soltavam risadas e lhe diziam, mas não na minha frente:
-O que você viu neste brasileiro feio, raquítico, magrinho? Está louca? Trocou a beleza pela feiúra, o Scott por esse tal Ferrnandoss?
Scott era um belo, alto e musculoso rapaz americano, jogador de basktball. As jovens gringas da Graded School achavam que ele se parecia com o Clark Gable, o sedutor astro do filme Gone with the wind (“E o vento levou”). Mary, como resposta, citava este velho provérbio:
Beauty is in the eye the beholder.
(“Quem o feio ama, bonito lhe parece”).
Não sei se fui de fato namorado completo da mocinha da pátria do presidente Truman ou apenas seu amigo. Jamais procurei beijá-la, mas ela me dava beijinhos no rosto, acariciando as minhas mãos. Sentia-me algo ridículo, meio atrapalhado. Talvez eu fosse vítima de um complexo esmagador, pois os brasileiros, naquela época, julgavam-se inferiores aos norte-americanos. Aliás, hoje milhões dos meus patrícios ainda se consideram uma sub-raça diante deles ou então se tornam seus imitadores, brazilian monkeys, macacos brasileiros...
Um dia, após dois anos de namoro singelo, no decorrer do qual eu lhe punha balinhas de caramelo na boca, Mary me disse com o rosto cheio de lágrimas:
-Ferrnadoss, eu voltar United States! Eu voltar!
As suas lágrimas quentes rolavam. Emocionei-me. Só nesse momento percebi que o meu afeto por ela ia além da amizade.
Mary regressou aos Estados Unidos. Nunca mais soube do seu destino, embora ela houvesse prometido que me enviaria cartas. Não as mandou. Há duas semanas, porém, a minha namoradinha americana me apareceu num sonho. Ria e beijava-me. Estava muito feliz. Eu também me sentia muito feliz ao seu lado. No sonho beijei-a pela primeira vez e experimentei uma sensação de imensa felicidade.
Acordei chorando, com a impressão de tudo ter sido real, e disse a mim mesmo:
-Não a vejo há mais de quarenta anos. Ela morreu, sinto isto. A minha alma se encontrou com a sua alma.
Ontem, uma ex-colega de Mary na Graded School me reconheceu. Perguntei:
-E a Mary?
A ex-colega me contou que ela, logo depois de voltar para os Estados Unidos, foi vítima de um acidente automobilístico e ficou numa cadeira de rodas, sem poder falar e movimentar as pernas, os braços, as mãos. E concluiu:
-Mary morreu há duas semanas.
Invadiu-me uma tristeza indescritível. Pensei: a minha alma, e a alma da mocinha americana que me amou, encontraram-se numa outra dimensão, graças a um sonho. Estiveram bem juntas, a fim de aliviar as saudades que eu sentia dela e ela sentia de mim...
Quando sonho com pessoas afastadas de mim há longo tempo, elas já faleceram, sem antes eu ter sabido disso. No sonho a pessoa conversa comigo. Sinto, nesses encontros realizados num outro plano, uma sensação absoluta de felicidade. Extravaso ternura, amor, carinho. Ao acordar fico tão emocionado que choro. Podem me chamar de “anormal”, se quiserem...
Conheci, no meu tempo de adolescente, uma jovem nascida nos Estados Unidos. Era bem bonita e tinha quatorze anos. Havia sofrido um tombo, num dia de chuva, na calçada em frente do portão de entrada da Graded School, escola americana do bairro do Paraíso. Eu a socorri e levei-a a uma farmácia, pois o seu joelho sangrava sem parar. Após o curativo, acompanhei a menina até a sua casa.
Mostrou-se gratíssima. Se me via, pegava a minha mão para puxar conversa. Ela mal sabia se expressar em português e eu nem entendia direito o seu inglês, mas percebi que a linda menina americana ficou gostando de mim, um garoto magrinho, feio, desprovido de qualquer atrativo físico. Uma tarde, sentados num banco do grande jardim da escola, ela apertou a minha mão e disse:
-Querro ser seu namorrada.
Arregalei os olhos, surpreso. Ela repetiu:
-Seu namorrada.
Respondi, sem jeito:
-Mary, é melhor sermos apenas amigos, friends.
Quis saber porquê e expliquei:
-Você é americana e eu sou brasileiro. Somos muitos diferentes.
A resposta foi imediata:
-Love is blind (o amor é cego).
Eu tentei argumentar:
-Você é loura, anglo-saxônica, e sou um brasileiro descendente de árabes, de beduínos. Os seus pais não gostariam de vê-la namorar um fulano como eu...
Depois frisei que a família dela era de ascendência nobre, britânica. Ela, perto de mim, parecia uma princesa e eu um plebeu... Mary ouviu e pronunciou estas palavras:
-The course of true love never did run smooth.
Não entendi. Rindo, ela escreveu a frase num papel e com esforço procurou traduzi-la para o português. Guardo até hoje a tradução nesse papel:
O caminho do amor verdadeiro nunca foi fácil.
Esta frase, a rigor, é do personagem Lisandro no primeiro ato da peça A midsummer night’s dream (“Sonho de uma noite de verão”), de William Shakespeare.
As colegas americanas de Mary, sempre que a viam ao meu lado, soltavam risadas e lhe diziam, mas não na minha frente:
-O que você viu neste brasileiro feio, raquítico, magrinho? Está louca? Trocou a beleza pela feiúra, o Scott por esse tal Ferrnandoss?
Scott era um belo, alto e musculoso rapaz americano, jogador de basktball. As jovens gringas da Graded School achavam que ele se parecia com o Clark Gable, o sedutor astro do filme Gone with the wind (“E o vento levou”). Mary, como resposta, citava este velho provérbio:
Beauty is in the eye the beholder.
(“Quem o feio ama, bonito lhe parece”).
Não sei se fui de fato namorado completo da mocinha da pátria do presidente Truman ou apenas seu amigo. Jamais procurei beijá-la, mas ela me dava beijinhos no rosto, acariciando as minhas mãos. Sentia-me algo ridículo, meio atrapalhado. Talvez eu fosse vítima de um complexo esmagador, pois os brasileiros, naquela época, julgavam-se inferiores aos norte-americanos. Aliás, hoje milhões dos meus patrícios ainda se consideram uma sub-raça diante deles ou então se tornam seus imitadores, brazilian monkeys, macacos brasileiros...
Um dia, após dois anos de namoro singelo, no decorrer do qual eu lhe punha balinhas de caramelo na boca, Mary me disse com o rosto cheio de lágrimas:
-Ferrnadoss, eu voltar United States! Eu voltar!
As suas lágrimas quentes rolavam. Emocionei-me. Só nesse momento percebi que o meu afeto por ela ia além da amizade.
Mary regressou aos Estados Unidos. Nunca mais soube do seu destino, embora ela houvesse prometido que me enviaria cartas. Não as mandou. Há duas semanas, porém, a minha namoradinha americana me apareceu num sonho. Ria e beijava-me. Estava muito feliz. Eu também me sentia muito feliz ao seu lado. No sonho beijei-a pela primeira vez e experimentei uma sensação de imensa felicidade.
Acordei chorando, com a impressão de tudo ter sido real, e disse a mim mesmo:
-Não a vejo há mais de quarenta anos. Ela morreu, sinto isto. A minha alma se encontrou com a sua alma.
Ontem, uma ex-colega de Mary na Graded School me reconheceu. Perguntei:
-E a Mary?
A ex-colega me contou que ela, logo depois de voltar para os Estados Unidos, foi vítima de um acidente automobilístico e ficou numa cadeira de rodas, sem poder falar e movimentar as pernas, os braços, as mãos. E concluiu:
-Mary morreu há duas semanas.
Invadiu-me uma tristeza indescritível. Pensei: a minha alma, e a alma da mocinha americana que me amou, encontraram-se numa outra dimensão, graças a um sonho. Estiveram bem juntas, a fim de aliviar as saudades que eu sentia dela e ela sentia de mim...
sexta-feira, 6 de maio de 2011
Marta Suplicy não gostou de mim...
É verdade, amigo leitor, a Marta Suplicy não gostou de mim. Vou explicar o motivo. Quando ela foi candidata a prefeita de São Paulo pela segunda vez, a produção do programa “Resumo da Ópera”, dirigido pelo excelente comunicador Fernando Mauro e apresentado todas as sextas-feiras pela TV Aberta, Canal 9, das sete às oito da noite, convidou-me para ser um dos seus entrevistadores. Aceitei o convite.
Além de minha pessoa, mais três jornalistas compareceram, a fim de formular perguntas à candidata. Programa ao vivo, com grande audiência. Fernando Mauro é um comunicador nato, muito simpático, inteligente. Ele sabe conduzir o “Resumo da Ópera” de maneira firme, imparcial, e prender a atenção dos telespectadores.
Marta Suplicy se sentou a pouca distância do mediador. Ela estava vestida de forma discreta, mas notei que os seus pés, calçados com sandálias brancas, achavam-se empoeirados, não vou dizer sujos. Ao ver o meu olhar fixo nos seus alvos pés, ela os escondeu. Decerto, na sua campanha eleitoral, frenquentava os bairros da periferia, andando por ruas sem calçamento. Não era falta de higiene...
Os meus companheiros, no programa, lançavam as perguntas e Marta Suplicy respondia, desembaraçada. Tendo chegado a minha vez, o Fernando Mauro avisou-a, em tom de brincadeira:
-Cuidado com ele, o Fernando Jorge é especializado em pegadinhas.
Tranquilo, soltei estas palavras:
-Senhora Marta Suplicy, a senhora é candidata a prefeita da cidade de São Paulo e não ignora que quem concorre a um cargo público, como é o seu caso, deve sempre falar a verdade. Então, por favor, diga-me em qual fonte se baseou para declarar que hoje, em todo o Brasil, não existe uma só família onde alguém não esteja separado, ou o pai de um filho, ou a esposa de um marido, ou um irmão de um irmão, etc. A sua afirmativa foi publicada pela revista Veja – São Paulo, há duas semanas.
Algo nervosa, Marta Suplicy respondeu:
-Ah, meu Deus, nem é preciso citar nenhuma pesquisa! Isto é do conhecimento geral! Todo mundo sabe!
Repliquei, de modo sereno:
-Desculpe-me, mas se não citar a fonte na qual se baseou para declarar que hoje, em todo o Brasil, de sul a norte, de leste a oeste, não existe uma única família onde alguém não esteja separado, então a senhora generalizou, a sua afirmação não corresponde à verdade.
Marta Suplicy fitou-me com os seus olhos em chamas e a resposta veio rápida:
-Ah, meu Deus, o senhor é teimoso! Repito, isto é do conhecimento geral!
Voltei à carga:
-Senhora Marta Suplicy, sou amigo de mais de quarenta famílias e em nenhuma delas alguém está separado. Desculpe-me, a senhora generalizou.
Atrás da candidata, o meu caro amigo Fernando Mauro juntou as palmas das mãos, como que implorando para eu me conter.
Um companheiro do programa fez a ela a seguinte pergunta:
-A senhora tem mais alguma ambição política, além desta, de ser eleita prefeita de São Paulo?
Resposta da candidata:
-Não, não tenho mais nenhuma outra ambição política. Só quero ser eleita prefeita de São Paulo para ajudar esse povo sofrido, martirizado, que vive penando nos pontos de ônibus. Prometeram a esse povo querido mais de dez corredores de ônibus e até agora não lhe deram nenhum. Eu prometo, vou dar a ele mais linhas de ônibus e corredores novos.
Interrompi as palavras da candidata:
-A senhora me desculpe, mas está havendo aí uma incoerência, um paradoxo.
Com os olhos novamente em chamas, Marta Suplicy interrogou:
-Como assim? Que incoerência?
-A senhora tem mais uma ambição política, além desta de ser eleita prefeita de São Paulo.
-Não compreendo!
-A senhora, há pouco tempo, concedeu uma entrevista ao jornal O Globo do Rio de Janeiro e assegurou, nessa entrevista, que vai ser no Brasil a primeira mulher a se tornar presidente da República. Portanto a senhora alimenta uma ambição política ainda maior.
Procurando manter-se calma, Marta Suplicy me contestou:
-Ah, meu Deus, o senhor implicou comigo, resolveu pegar no meu pé!
Tive vontade de lhe dizer:
-Não quero pegar no seu pé, porque ele está muito empoeirado.
Ela começou a explicar:
-Eu disse de fato que ia ser a primeira mulher a se tornar presidente da República no Brasil, porém em outra circunstância, pois agora estou apoiando, com o Lula, a candidatura da minha amiga Dilma Rousseff.
Respondi, sempre calmo:
-Perdoe-me, o nome da Dilma já havia sido divulgado, quando a senhora afirmou que ia ser a primeira mulher no Brasil a alcançar a presidência da República. Posso provar isto, guardo no meu arquivo a sua entrevista, com a respectiva data.
Um pouco exaltada, Marta Suplicy não se conteve:
-É, não há dúvida, o senhor resolveu implicar comigo!
Tratei logo de responder:
-Em absoluto! Não tenho nada pessoalmente contra sua pessoa. E tanto é verdade, que eu já a defendi!
-O senhor me defendeu?
-Defendi-a na página 98 do meu livro Vida e obra do plagiário Paulo Francis, publicado pela Geração Editorial, pois ele, o Francis, desrespeitou a senhora num texto aparecido em novembro de 1992 no jornal O Estado de S.Paulo. Texto repleto de sentido erótico.
-Eu não soube disso.
-Vou enviar-lhe o meu livro contra o Paulo Francis, onde a defendo. E também a defendi num artigo publicado em agosto de 2005 na revista IMPRENSA, pois o jornalista Marcelo Coelho chamou-a de perua na revista Veja. Ora, segundo o dicionário Aurélio, um dos significados do substantivo perua no sentido chulo é meretriz. Critiquei o Marcelo, salientando que nunca é elegante chamar uma senhora de perua, porque esta palavra se aplica a uma prostituta ou a uma mulher de aparência e comportamento exagerados.
E conclui, como quem encerra uma premissa:
-Assim sendo, é fácil deduzir que venho agindo, em relação à senhora, com inegável imparcialidade.
Após o fim do programa, um pouco mais amistosa e sorrindo de leve, Marta Suplicy me disse:
-Sabe de uma coisa? Eu devia lhe dar um puxãozinho de orelha....
Além de minha pessoa, mais três jornalistas compareceram, a fim de formular perguntas à candidata. Programa ao vivo, com grande audiência. Fernando Mauro é um comunicador nato, muito simpático, inteligente. Ele sabe conduzir o “Resumo da Ópera” de maneira firme, imparcial, e prender a atenção dos telespectadores.
Marta Suplicy se sentou a pouca distância do mediador. Ela estava vestida de forma discreta, mas notei que os seus pés, calçados com sandálias brancas, achavam-se empoeirados, não vou dizer sujos. Ao ver o meu olhar fixo nos seus alvos pés, ela os escondeu. Decerto, na sua campanha eleitoral, frenquentava os bairros da periferia, andando por ruas sem calçamento. Não era falta de higiene...
Os meus companheiros, no programa, lançavam as perguntas e Marta Suplicy respondia, desembaraçada. Tendo chegado a minha vez, o Fernando Mauro avisou-a, em tom de brincadeira:
-Cuidado com ele, o Fernando Jorge é especializado em pegadinhas.
Tranquilo, soltei estas palavras:
-Senhora Marta Suplicy, a senhora é candidata a prefeita da cidade de São Paulo e não ignora que quem concorre a um cargo público, como é o seu caso, deve sempre falar a verdade. Então, por favor, diga-me em qual fonte se baseou para declarar que hoje, em todo o Brasil, não existe uma só família onde alguém não esteja separado, ou o pai de um filho, ou a esposa de um marido, ou um irmão de um irmão, etc. A sua afirmativa foi publicada pela revista Veja – São Paulo, há duas semanas.
Algo nervosa, Marta Suplicy respondeu:
-Ah, meu Deus, nem é preciso citar nenhuma pesquisa! Isto é do conhecimento geral! Todo mundo sabe!
Repliquei, de modo sereno:
-Desculpe-me, mas se não citar a fonte na qual se baseou para declarar que hoje, em todo o Brasil, de sul a norte, de leste a oeste, não existe uma única família onde alguém não esteja separado, então a senhora generalizou, a sua afirmação não corresponde à verdade.
Marta Suplicy fitou-me com os seus olhos em chamas e a resposta veio rápida:
-Ah, meu Deus, o senhor é teimoso! Repito, isto é do conhecimento geral!
Voltei à carga:
-Senhora Marta Suplicy, sou amigo de mais de quarenta famílias e em nenhuma delas alguém está separado. Desculpe-me, a senhora generalizou.
Atrás da candidata, o meu caro amigo Fernando Mauro juntou as palmas das mãos, como que implorando para eu me conter.
Um companheiro do programa fez a ela a seguinte pergunta:
-A senhora tem mais alguma ambição política, além desta, de ser eleita prefeita de São Paulo?
Resposta da candidata:
-Não, não tenho mais nenhuma outra ambição política. Só quero ser eleita prefeita de São Paulo para ajudar esse povo sofrido, martirizado, que vive penando nos pontos de ônibus. Prometeram a esse povo querido mais de dez corredores de ônibus e até agora não lhe deram nenhum. Eu prometo, vou dar a ele mais linhas de ônibus e corredores novos.
Interrompi as palavras da candidata:
-A senhora me desculpe, mas está havendo aí uma incoerência, um paradoxo.
Com os olhos novamente em chamas, Marta Suplicy interrogou:
-Como assim? Que incoerência?
-A senhora tem mais uma ambição política, além desta de ser eleita prefeita de São Paulo.
-Não compreendo!
-A senhora, há pouco tempo, concedeu uma entrevista ao jornal O Globo do Rio de Janeiro e assegurou, nessa entrevista, que vai ser no Brasil a primeira mulher a se tornar presidente da República. Portanto a senhora alimenta uma ambição política ainda maior.
Procurando manter-se calma, Marta Suplicy me contestou:
-Ah, meu Deus, o senhor implicou comigo, resolveu pegar no meu pé!
Tive vontade de lhe dizer:
-Não quero pegar no seu pé, porque ele está muito empoeirado.
Ela começou a explicar:
-Eu disse de fato que ia ser a primeira mulher a se tornar presidente da República no Brasil, porém em outra circunstância, pois agora estou apoiando, com o Lula, a candidatura da minha amiga Dilma Rousseff.
Respondi, sempre calmo:
-Perdoe-me, o nome da Dilma já havia sido divulgado, quando a senhora afirmou que ia ser a primeira mulher no Brasil a alcançar a presidência da República. Posso provar isto, guardo no meu arquivo a sua entrevista, com a respectiva data.
Um pouco exaltada, Marta Suplicy não se conteve:
-É, não há dúvida, o senhor resolveu implicar comigo!
Tratei logo de responder:
-Em absoluto! Não tenho nada pessoalmente contra sua pessoa. E tanto é verdade, que eu já a defendi!
-O senhor me defendeu?
-Defendi-a na página 98 do meu livro Vida e obra do plagiário Paulo Francis, publicado pela Geração Editorial, pois ele, o Francis, desrespeitou a senhora num texto aparecido em novembro de 1992 no jornal O Estado de S.Paulo. Texto repleto de sentido erótico.
-Eu não soube disso.
-Vou enviar-lhe o meu livro contra o Paulo Francis, onde a defendo. E também a defendi num artigo publicado em agosto de 2005 na revista IMPRENSA, pois o jornalista Marcelo Coelho chamou-a de perua na revista Veja. Ora, segundo o dicionário Aurélio, um dos significados do substantivo perua no sentido chulo é meretriz. Critiquei o Marcelo, salientando que nunca é elegante chamar uma senhora de perua, porque esta palavra se aplica a uma prostituta ou a uma mulher de aparência e comportamento exagerados.
E conclui, como quem encerra uma premissa:
-Assim sendo, é fácil deduzir que venho agindo, em relação à senhora, com inegável imparcialidade.
Após o fim do programa, um pouco mais amistosa e sorrindo de leve, Marta Suplicy me disse:
-Sabe de uma coisa? Eu devia lhe dar um puxãozinho de orelha....
domingo, 1 de maio de 2011
Palavras para o meu leitor casado com uma mulher barbuda
Recebi a carta de um leitor que declarou isto:
“Casei-me com uma jovem linda, bem feminina, de rosto delicado e voz suave. Mas após cinco anos de matrimônio, pêlos de barba surgiram na sua fisionomia. Eles não pararam de crescer e ela, cansada de cortá-los, tornou-se barbuda! Hoje carrega uma abundante barba negra. Muitos pensam que a minha esposa é homem!”
O meu leitor levou-a a um endocrinologista. Este, depois de examiná-la cuidadosamente, informou-lhe: a jovem não é hermafrodita, com genes dos dois sexos, nem transexual, criatura predisposta a mudar de sexo, do ponto de vista psicológico. Ela é mesmo mulher, porém vítima da anomalia chamada hipertricose ou hirsutismo, cuja característica é o acentuado aumento da pilosidade. Tal anomalia pode ser geral, em todo corpo, ou localizada no rosto, de caráter genético ou adquirido. E certos distúrbios provocam a hipertricose, como a insuficiência ovariana e o excesso de atividade das glândulas supra-renais.
Cheio de angústia, o meu leitor não sabe o que fazer. Ele a ama bastante e vive ao seu lado numa fazenda de Minas Gerais, longe do convívio social. A esposa barbuda está grávida do segundo filho. O meu leitor pergunta:
“Existiram mulheres barbudas que deram à luz? Se existiram, este fato me consolará um pouco. Verei que não sou o único homem que teve filhos com uma mulher barbuda.”
Prezado leitor, sim, existiram. Uma delas foi a alemã Lisa Schoeffer, nascida em Hamburgo, no século XIX. Dona de barba espessa, comprida, era lindíssima e gerou quatro filhas também muito bonitas, mas sem barbas.
Ficou famoso, na Espanha do inicio do século XX, o caso da sedutora Viola Mercedes. Desde a idade de três anos, ela começou a ter pêlos nas partes laterais das faces, ou melhor, suíças, que pouco a pouco se transformaram numa barba cerrada. Mercedes, bem feminina, de voz doce, envolvente, casou-se aos dezessete anos e as suas filhas não não apresentavam nenhuma anormalidade.
Um quadro do pintor espanhol José Ribera (1591-1652), mestre do realismo barroco, intitulado La mujer barbuda, exibe uma senhora de barba enorme, farta, junto do seu marido, e sustentando nos braços o filho recém-nascido. Um seio da barbuda aparece na tela. Pormenor interessante: o marido tem barba, mas a dela é bem maior do que a dele...
Portanto, prezado leitor, você não é o único homem do mundo cuja esposa barbuda virou mãe.
Sempre houve mulheres barbudas e várias ficaram famosas.
Anne de Vaux, no século XVII, heroína da cidade francesa de Lille, lugar-tenente no regimento de Mercy, tinha barba no queixo.
A mais célebre mulher barbuda dos Estados Unidos foi Annie Jones, do século XIX. Menina ainda, o audacioso empresário Phineas Taylor Barnum, incomparável showman, mostrou-a em Nova York, no picadeiro do seu circo. Ela possuía, desde os nove meses, além de vastos bigodes, uma barba opulenta. Annie fez a felicidade de três maridos e ficou viúva, pela última vez, aos vinte e sete anos. Ganhou milhares de dólares. Orgulhava-se tanto dos seus bigodes, da sua barba, que pediu no testamento para ser enterrada com ambos. Queria, até no além, ostentar os títulos de Super-Mulher Barbuda e Super-Mulher Bigoduda...
Outra americana barbuda famosa: a senhora Post Myers, na primeira década do século XX. Bem cedo, com pouca idade, a sua barba e o seu bigode nasceram. Post era dotada de beleza rara. Os rapazes enviavam-lhe cartas apaixonadas. E aos quatorze anos a barba da adolescente já media quinze centímetros de largura. Antes de completar dezoito anos, quatro moços a pediram em casamento, mas ela os rejeitou e só deu o seu coração a um senhor chamado Myers, que era homem de negócios. Depois de se casar, a encantadora jovem bigoduda e barbuda explicou:
“O meu marido gosta da minha barba. Ele a acha muito bonita e sempre me diz que se eu a cortar, abandona-me”.
Post Myers e o seu esposo tiveram três filhos: duas meninas e um menino. Morreram quando eram pequenos. O casal não conseguiu saber se as duas meninas iam herdar da mãe os pêlos faciais.
Evoquei todos estes fatos a fim de convencer o meu leitor a aceitar de modo natural a barba da sua esposa. Faço questão de aconselhá-lo a não ter preconceito. Ele, o preconceito, é a idiotice vitoriosa, a miopia da mente, das células cerebrais. Só admito um preconceito: o preconceito contra o preconceito.
Se é verdadeiro, o amor nos obriga a amar tudo na criatura amada: verruga, calvície, nariz meio torto, pé ou orelhas avantajados. A prova disso é que se a pessoa muito querida falece com uma dessas características, passamos a sentir saudades até de qualquer defeito do seu físico.
O gosto é caprichoso, pois inúmeras vezes gostamos de coisas que outros abominam. Reza a quadra popular, colocada por Afrânio Peixoto no livro Trovas brasileiras:
“Duas coisas neste mundo
São minha grande paixão:
Perna grossa cabeluda,
Peito em pé no cabeção”
Ora, se as pernas grossas cabeludas de uma mulher são amadas, por que um barbudo rosto feminino não pode ser?
“Casei-me com uma jovem linda, bem feminina, de rosto delicado e voz suave. Mas após cinco anos de matrimônio, pêlos de barba surgiram na sua fisionomia. Eles não pararam de crescer e ela, cansada de cortá-los, tornou-se barbuda! Hoje carrega uma abundante barba negra. Muitos pensam que a minha esposa é homem!”
O meu leitor levou-a a um endocrinologista. Este, depois de examiná-la cuidadosamente, informou-lhe: a jovem não é hermafrodita, com genes dos dois sexos, nem transexual, criatura predisposta a mudar de sexo, do ponto de vista psicológico. Ela é mesmo mulher, porém vítima da anomalia chamada hipertricose ou hirsutismo, cuja característica é o acentuado aumento da pilosidade. Tal anomalia pode ser geral, em todo corpo, ou localizada no rosto, de caráter genético ou adquirido. E certos distúrbios provocam a hipertricose, como a insuficiência ovariana e o excesso de atividade das glândulas supra-renais.
Cheio de angústia, o meu leitor não sabe o que fazer. Ele a ama bastante e vive ao seu lado numa fazenda de Minas Gerais, longe do convívio social. A esposa barbuda está grávida do segundo filho. O meu leitor pergunta:
“Existiram mulheres barbudas que deram à luz? Se existiram, este fato me consolará um pouco. Verei que não sou o único homem que teve filhos com uma mulher barbuda.”
Prezado leitor, sim, existiram. Uma delas foi a alemã Lisa Schoeffer, nascida em Hamburgo, no século XIX. Dona de barba espessa, comprida, era lindíssima e gerou quatro filhas também muito bonitas, mas sem barbas.
Ficou famoso, na Espanha do inicio do século XX, o caso da sedutora Viola Mercedes. Desde a idade de três anos, ela começou a ter pêlos nas partes laterais das faces, ou melhor, suíças, que pouco a pouco se transformaram numa barba cerrada. Mercedes, bem feminina, de voz doce, envolvente, casou-se aos dezessete anos e as suas filhas não não apresentavam nenhuma anormalidade.
Um quadro do pintor espanhol José Ribera (1591-1652), mestre do realismo barroco, intitulado La mujer barbuda, exibe uma senhora de barba enorme, farta, junto do seu marido, e sustentando nos braços o filho recém-nascido. Um seio da barbuda aparece na tela. Pormenor interessante: o marido tem barba, mas a dela é bem maior do que a dele...
Portanto, prezado leitor, você não é o único homem do mundo cuja esposa barbuda virou mãe.
Sempre houve mulheres barbudas e várias ficaram famosas.
Anne de Vaux, no século XVII, heroína da cidade francesa de Lille, lugar-tenente no regimento de Mercy, tinha barba no queixo.
A mais célebre mulher barbuda dos Estados Unidos foi Annie Jones, do século XIX. Menina ainda, o audacioso empresário Phineas Taylor Barnum, incomparável showman, mostrou-a em Nova York, no picadeiro do seu circo. Ela possuía, desde os nove meses, além de vastos bigodes, uma barba opulenta. Annie fez a felicidade de três maridos e ficou viúva, pela última vez, aos vinte e sete anos. Ganhou milhares de dólares. Orgulhava-se tanto dos seus bigodes, da sua barba, que pediu no testamento para ser enterrada com ambos. Queria, até no além, ostentar os títulos de Super-Mulher Barbuda e Super-Mulher Bigoduda...
Outra americana barbuda famosa: a senhora Post Myers, na primeira década do século XX. Bem cedo, com pouca idade, a sua barba e o seu bigode nasceram. Post era dotada de beleza rara. Os rapazes enviavam-lhe cartas apaixonadas. E aos quatorze anos a barba da adolescente já media quinze centímetros de largura. Antes de completar dezoito anos, quatro moços a pediram em casamento, mas ela os rejeitou e só deu o seu coração a um senhor chamado Myers, que era homem de negócios. Depois de se casar, a encantadora jovem bigoduda e barbuda explicou:
“O meu marido gosta da minha barba. Ele a acha muito bonita e sempre me diz que se eu a cortar, abandona-me”.
Post Myers e o seu esposo tiveram três filhos: duas meninas e um menino. Morreram quando eram pequenos. O casal não conseguiu saber se as duas meninas iam herdar da mãe os pêlos faciais.
Evoquei todos estes fatos a fim de convencer o meu leitor a aceitar de modo natural a barba da sua esposa. Faço questão de aconselhá-lo a não ter preconceito. Ele, o preconceito, é a idiotice vitoriosa, a miopia da mente, das células cerebrais. Só admito um preconceito: o preconceito contra o preconceito.
Se é verdadeiro, o amor nos obriga a amar tudo na criatura amada: verruga, calvície, nariz meio torto, pé ou orelhas avantajados. A prova disso é que se a pessoa muito querida falece com uma dessas características, passamos a sentir saudades até de qualquer defeito do seu físico.
O gosto é caprichoso, pois inúmeras vezes gostamos de coisas que outros abominam. Reza a quadra popular, colocada por Afrânio Peixoto no livro Trovas brasileiras:
“Duas coisas neste mundo
São minha grande paixão:
Perna grossa cabeluda,
Peito em pé no cabeção”
Ora, se as pernas grossas cabeludas de uma mulher são amadas, por que um barbudo rosto feminino não pode ser?
sexta-feira, 15 de abril de 2011
A bondade é a ponte de luz entre a lama da Terra e o Céu
A Bondade é a ponte de luz entre a lama da Terra e os páramos estelares, a escada argêntea que Jacó viu em sonhos, pela qual subiam e desciam anjos.
Um sacerdote quis incutir no coração de certo crente o sentimento da generosidade. Por isto começou a perguntar:
-Supõe, meu filho, que tu possuis duas casas e a igreja está na pobreza. Serias capaz de vender uma das casas para ajudar a tua igreja?
O crente respondeu:
-Sem dúvida, padre.
-E se possuísses duas fazendas, sacrificarias uma em favor da igreja, se preciso fosse?
-Claro, por que não?
O sacerdote prosseguiu:
-Se por acaso possuísses dois cavalos, não venderias um, doando o seu valor à Caixa de Socorro da igreja?
-Sim, sim, com toda certeza.
-Muito bem, meu filho. Mas se tivesses só duas vacas não venderias uma, a fim de auxiliar a igreja?
-Perfeitamente.
O religioso estava encantado com o espírito magnânimo do crente. De modo que voltou a indagar:
-Suponhamos que não possuísses senão duas cabritas. Venderias uma, para dar esmola à tua igreja?
-Isto não! – exclamou o crente – isto não!
-Estranho que negues uma cabrita em benefício da igreja – disse o padre, surpreso – foste tão generoso em sacrificar casa, fazenda, cavalo e vacas...
-O motivo – explicou o crente – é que eu não possuo nem casas, nem fazendas, nem cavalos, nem vacas. Tenho apenas duas cabritas!
Quanta gente é semelhante a este homem! Quanta gente só consegue ser generosa com aquilo que não tem! Mas na hora do desprendimento, da filantropia, quando se pede o mínimo sacrifício em prol de uma ação meritória, a boa vontade desaparece, evapora-se como fumaça, restando apenas os despojos inúteis das palavras vãs...
São João, o Esmoler, gostava de contar a história do senhor Pierre, um recebedor da fazenda pública que vivia em Alexandria. Funcionário endinheirado, nunca dava esmolas, repelindo os pobres com expressões ásperas.
Um mendigo, certa vez, perguntou aos companheiros:
-Qual de nós conseguiu receber esmolas do senhor Pierre?
Os infelizes se calaram. Um deles afirmou:
-Pois bem, irei à procura do senhor Pierre e me comprometo a obter uma esmola.
Tentaram dissuadi-lo. Mas ele se dirigiu à casa do mau cristão. Ao chegar encontrou o padeiro sobraçando uma cesta de pães. O senhor Pierre apareceu e o pedinte logo lhe solicitou uma “esmolinha, pelo amor de Deus”.
-Vagabundo – bradou o impiedoso – vá embora!
O mísero, porém, insitiu. Colérico, o senhor Pierre abaixou-se para apanhar uma pedra, a fim de jogá-la no desgraçado. Não a encontrando, agarrou um dos pães e o lançou à cabeça do importuno:
-Retira-te, sem vergonha!
O mendigo pegou o pão e escapuliu:
-Obrigado, senhor Pierre, obrigado! Que o bom Deus vos recompense pela esmola que acabais de me conceder!
À noite, o inclemente recebedor da fazenda pública teve um sonho tétrico. Havia morrido e achava-se no tribunal do Padre Eterno. Ecoava um côro lúgubre de vozes celestiais, enquanto o envolvia uma atmosfera pressaga. Enxergou em frente de si uma balança, cujo prato da esquerda continha todos os pecados da sua vida. Apavorado, ele os contemplava. O medo cresceu ao observar que não existia uma única obra louvável no prato direito. Jesus Cristo, ali perto, cercado de querubins, apresentava um rosto severo. Os arcanjos repetiam, tristemente:
-Não há nada para colocar no lado direito!...
O Altíssimo já ia pronunciar a fatídica sentença, quando surgiu um anjo:
-Esperai, Senhor, esperai! Desejo depositar uma coisa no lado direito da balança!
O serafim trazia o pão lançado pelo senhor Pierre na cabeça do mendigo. Entretanto o demônio, que estava presente, protestou:
-Como podeis colocar do lado direito um pão arremessado por ódio à cabeça de um pobre?
-Pouco importa – respondeu o anjo – ele largou esse pão ao desditoso que lhe evocara o nome de Deus.
E dizendo isto o pôs no prato vazio.
Maravilha das maravilhas! Este pequeno pão, sujo e amassado, fez desaparecer as obras malignas que repousavam à esquerda. No mesmo instante a balança inclinou-se do lado direito. O senhor Pierre mal pôde conter um grito de júbilo. Molhado de suor, despertou com os olhos cheios de lágrimas.
A partir dessa noite compreendeu o valor da esmola, transformando-se num homem caridoso.
Conhecem o caso verídico do menino inglês que legou, num testamento, os seus brinquedos a um amigo, pouco antes de falecer?
Aconteceu em Londres. O garoto Michael Leslie, de dez anos, acordou durante a noite e viu que seus pais adotivos estavam mortos, em consequência de terem inalado gás, uma vez que, por descuido, deixaram aberta a torneira do fogão. Meio tonto, o menino ainda conseguiu escrever um bilhete, onde declarou que ia morrer, razão pela qual deixava seus brinquedos ao colega de escola Roger Simpson.
Este acontecimento abalou a opinião pública. Todos se emocionaram com a trágica história dessa criança que prestes a abandonar o mundo não se esqueceu de executar um tocante ato de bondade.
Michael, procedendo desta forma, deu aos adultos uma singela e eloquente lição de amor ao próximo.
Quem se mostra caridoso não dá apenas. Recebe também, embora isto pareça paradoxal. Porque ao protegermos os deserdados da sorte, nossa alma se acrisola, purifica-se, perde as arestas. O Egoísmo, horrendo Narciso, foge do indivíduo solidário com a dor universal.
Algumas esmolas, em lugar de empobrecer, tornam mais rico o ofertante.
São Pedro, descrevendo Cristo ao centurião Cornélio, proferiu estas palavras simples e comoventes:
“Passou fazendo o bem”
Oxalá todos os homens pudessem ter na sepultura semelhante epotáfio!
Um sacerdote quis incutir no coração de certo crente o sentimento da generosidade. Por isto começou a perguntar:
-Supõe, meu filho, que tu possuis duas casas e a igreja está na pobreza. Serias capaz de vender uma das casas para ajudar a tua igreja?
O crente respondeu:
-Sem dúvida, padre.
-E se possuísses duas fazendas, sacrificarias uma em favor da igreja, se preciso fosse?
-Claro, por que não?
O sacerdote prosseguiu:
-Se por acaso possuísses dois cavalos, não venderias um, doando o seu valor à Caixa de Socorro da igreja?
-Sim, sim, com toda certeza.
-Muito bem, meu filho. Mas se tivesses só duas vacas não venderias uma, a fim de auxiliar a igreja?
-Perfeitamente.
O religioso estava encantado com o espírito magnânimo do crente. De modo que voltou a indagar:
-Suponhamos que não possuísses senão duas cabritas. Venderias uma, para dar esmola à tua igreja?
-Isto não! – exclamou o crente – isto não!
-Estranho que negues uma cabrita em benefício da igreja – disse o padre, surpreso – foste tão generoso em sacrificar casa, fazenda, cavalo e vacas...
-O motivo – explicou o crente – é que eu não possuo nem casas, nem fazendas, nem cavalos, nem vacas. Tenho apenas duas cabritas!
Quanta gente é semelhante a este homem! Quanta gente só consegue ser generosa com aquilo que não tem! Mas na hora do desprendimento, da filantropia, quando se pede o mínimo sacrifício em prol de uma ação meritória, a boa vontade desaparece, evapora-se como fumaça, restando apenas os despojos inúteis das palavras vãs...
São João, o Esmoler, gostava de contar a história do senhor Pierre, um recebedor da fazenda pública que vivia em Alexandria. Funcionário endinheirado, nunca dava esmolas, repelindo os pobres com expressões ásperas.
Um mendigo, certa vez, perguntou aos companheiros:
-Qual de nós conseguiu receber esmolas do senhor Pierre?
Os infelizes se calaram. Um deles afirmou:
-Pois bem, irei à procura do senhor Pierre e me comprometo a obter uma esmola.
Tentaram dissuadi-lo. Mas ele se dirigiu à casa do mau cristão. Ao chegar encontrou o padeiro sobraçando uma cesta de pães. O senhor Pierre apareceu e o pedinte logo lhe solicitou uma “esmolinha, pelo amor de Deus”.
-Vagabundo – bradou o impiedoso – vá embora!
O mísero, porém, insitiu. Colérico, o senhor Pierre abaixou-se para apanhar uma pedra, a fim de jogá-la no desgraçado. Não a encontrando, agarrou um dos pães e o lançou à cabeça do importuno:
-Retira-te, sem vergonha!
O mendigo pegou o pão e escapuliu:
-Obrigado, senhor Pierre, obrigado! Que o bom Deus vos recompense pela esmola que acabais de me conceder!
À noite, o inclemente recebedor da fazenda pública teve um sonho tétrico. Havia morrido e achava-se no tribunal do Padre Eterno. Ecoava um côro lúgubre de vozes celestiais, enquanto o envolvia uma atmosfera pressaga. Enxergou em frente de si uma balança, cujo prato da esquerda continha todos os pecados da sua vida. Apavorado, ele os contemplava. O medo cresceu ao observar que não existia uma única obra louvável no prato direito. Jesus Cristo, ali perto, cercado de querubins, apresentava um rosto severo. Os arcanjos repetiam, tristemente:
-Não há nada para colocar no lado direito!...
O Altíssimo já ia pronunciar a fatídica sentença, quando surgiu um anjo:
-Esperai, Senhor, esperai! Desejo depositar uma coisa no lado direito da balança!
O serafim trazia o pão lançado pelo senhor Pierre na cabeça do mendigo. Entretanto o demônio, que estava presente, protestou:
-Como podeis colocar do lado direito um pão arremessado por ódio à cabeça de um pobre?
-Pouco importa – respondeu o anjo – ele largou esse pão ao desditoso que lhe evocara o nome de Deus.
E dizendo isto o pôs no prato vazio.
Maravilha das maravilhas! Este pequeno pão, sujo e amassado, fez desaparecer as obras malignas que repousavam à esquerda. No mesmo instante a balança inclinou-se do lado direito. O senhor Pierre mal pôde conter um grito de júbilo. Molhado de suor, despertou com os olhos cheios de lágrimas.
A partir dessa noite compreendeu o valor da esmola, transformando-se num homem caridoso.
Conhecem o caso verídico do menino inglês que legou, num testamento, os seus brinquedos a um amigo, pouco antes de falecer?
Aconteceu em Londres. O garoto Michael Leslie, de dez anos, acordou durante a noite e viu que seus pais adotivos estavam mortos, em consequência de terem inalado gás, uma vez que, por descuido, deixaram aberta a torneira do fogão. Meio tonto, o menino ainda conseguiu escrever um bilhete, onde declarou que ia morrer, razão pela qual deixava seus brinquedos ao colega de escola Roger Simpson.
Este acontecimento abalou a opinião pública. Todos se emocionaram com a trágica história dessa criança que prestes a abandonar o mundo não se esqueceu de executar um tocante ato de bondade.
Michael, procedendo desta forma, deu aos adultos uma singela e eloquente lição de amor ao próximo.
Quem se mostra caridoso não dá apenas. Recebe também, embora isto pareça paradoxal. Porque ao protegermos os deserdados da sorte, nossa alma se acrisola, purifica-se, perde as arestas. O Egoísmo, horrendo Narciso, foge do indivíduo solidário com a dor universal.
Algumas esmolas, em lugar de empobrecer, tornam mais rico o ofertante.
São Pedro, descrevendo Cristo ao centurião Cornélio, proferiu estas palavras simples e comoventes:
“Passou fazendo o bem”
Oxalá todos os homens pudessem ter na sepultura semelhante epotáfio!
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