sábado, 5 de março de 2011

Estes não viveram!

Não viveram os que ficaram corroídos pela inveja do sucesso de alguém e se encheram de despeito.
Não viveram os que sempre entupiram os seus corações com o mais monstruoso dos ódios irracionais.
Não viveram os que nunca sentiram a presença silenciosa e emocionante da saudade.
Não viveram os que não se solidarizaram com os sofredores e os consolaram.
Não viveram os que procuraram corromper a pureza, a inocência, as virtudes, esmagando beija-flores, lírios, camélias e rosas.
Não viveram os que não acariciaram uma criança, não a beijaram, não brincaram com ela, ou lhe negaram um sorriso, uma palavra de ternura.
Não viveram os que, em nome da verdade, destruíram estupidamente as ilusões das almas ingênuas e sonhadoras.
Não viveram os que aplaudiram com cinismo o erro, o vício, a injustiça, o roubo, o crime, a venalidade, a corrupção, a prostituição.
Não viveram os que não amaram a cultura, a música, a poesia, a obra de arte, a beleza.
Não viveram os incapazes de ter pena de um infeliz, de um desgraçado, e que transformaram os seus corações em barras de gelo.
Não viveram os egocêntricos, que se preocuparam apenas com o seu bem-estar e fizeram de suas vidas uma auto-idolatria, sem ligar para mais ninguém.
Não viveram os jovens que zombaram dos velhos, e os desrespeitaram com a impaciência, a injúria, os cretinos atos de grosseria.
Não viveram os mesquinhos, que se mostraram pequeninos no modo de agir em relação aos nossos semelhantes e jamais tiveram um gesto de nobreza, de altruísmo, de desprendimento.
Não viveram os que só queriam “relaxar e gozar” e que acharam que o principal é encher o estômago, dormir bem, defecar bem e ter voraz e insaciável apetite sexual.
Não viveram os que só se preocuparam com os bens materiais, em detrimento dos bens espirituais, e que converteram os seus corações em metálicas caixas registradoras, cujo som é assim: dinheiro, dinheiro, dinheiro, dinheiro, dinheiro, dinheiro, dinheiro, dinheiro, dinheiro.
Não viveram os que, praticando uma ação vil, traíram a confiança de quem neles acreditava e assim emporcalharam as suas almas, cobrindo-as com fedorentos mantos de excremento.
Não viveram os falsos, os hipócritas, que Cristo comparou a “sepulcros brancos, caiados por fora, mas cheios de ossos de mortos e de podridão por dentro”.
Não viveram os que foram racistas, preconceituosos, e que por orgulho tolo, por se sentirem superiores, humilharam e maltrataram pessoas.
Não viveram os que não sentiram a dor indescritível de perder, levada pela morte, uma pessoa querida, pois como disse o poeta Francisco Otaviano, em versos nos quais a verdade resplandece:
Quem passou pela
vida em branca
nuvem e em plácido
repouso adormeceu,
quem não sentiu
o frio da desgraça,
quem passou pela
vida e não sofreu,
foi espectro de
homem, não foi
homem, só passou
pela vida, não viveu.
Meus amigos, viver é emocionar-se, no bom sentido, é sentir que temos alma, amor, sonhos, esperanças, coração, lágrimas, bondade, piedade, saudade. Quem não possui tudo isto não está vivo, é como um campo desprovido de flores, árvores, pássaros, sombras aconchegantes, só habitado por vermes, ossadas, escorpiões, mortíferas cobras geradas na região do horror e do espanto.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Mande benzer ou exorcizar o seu automóvel!

O ator James Dean (1931-1955) personificou a juventude americana rebelde. Ele tinha duas paixões: amava os animais e as motocicletas. Crescera no Meio Oeste dos Estados Unidos, frequentando em Los Angeles a Universidade da Califórnia. Quem o incentivou a ser ator foi a professora Adeline Nall, que era uma frustrada atriz de arte dramática. James fez pontas nos filmes comerciais de TV e em Nova York se tornou aluno do prestigioso Actors Studio, onde Marlon Brando havia estudado.
Impressionada com o desempenho do rapaz na peça The immoralist, sucesso da Broadway em 1953, quando James se destacou no papel de um homossexual árabe, a Warner Bros Pictures, um dos maiores estúdios de Hollywood, resolveu contratá-lo. Então ele brilhou no filme East of Eden (“Vidas amargas”), de 1955, dirigido por Elia Kazan e baseado num best-seller de John Steinbeck. Nesse filme, James é o filho carente e atormentado de Raymond Massey.
Duas películas, do ano de 1955, aumentaram a sua fama: Rebel whithout a cause (“Juventude transviada”), do diretor Nicholas Ray, e Giant (“Assim caminha a humanidade”), do diretor George Stevens.
No mundo inteiro os jovens se identificaram com a inquietação, o inconformismo, o comportamento neurótico dos personagens cinematográficos de James Dean e isto o transformou num mito, no símbolo de uma geração inimiga dos valores convencionais.
Pouco tempo depois, a caminho da cidade de Salinas, o moço James Dean morreu num acidente automobilístico, pois em alta velocidade o seu Porsche Spyder se chocou contra outro carro.
A morte trágica desse ator lhe deu a aura imperecível de uma lenda, da mesma categoria das lendas que mais tarde iriam cercar os Beatles, os Rolling Stones, Janis Joplin, Jimi Hendrix, o festival de Woodstock.
Caro leitor, agora vou narrar uma coisa que é muito estranha.
Após o acidente, os destroços do automóvel de James Dean foram levados a uma oficina. O motor do veículo despencou sobre o mecânico e quebrou-lhe as duas pernas.
Um médico, em seguida, comprou o motor e o colocou num carro de corrida. Logo o médico faleceu.
Consertaram numa oficina o Porsche de James Dean. Sem demora, um incêndio destruiu a oficina...
Exposto na cidade de Sacramento, capital do estado da Califórnia, o automóvel fatídico caiu do suporte e quebrou a bacia de um rapaz.
Lá no Oregon, o caminhão que transportava o carro, depois de derrapar, arrebentou a vitrina de uma loja.
Finalmente, no ano de 1959, o Porsche partiu-se em onze pedaços, enquanto se achava assentado sobre suportes de aço.
Eu não alimento a menor dúvida: o automóvel no qual James Dean morreu, ficou possuído pelo demônio. Nunca devem descrer da crueldade deste os católicos, os protestantes, os evangélicos, os espíritas, porque essa criatura maligna existe e tem diversos nomes: Lúcifer, Tentador, Satanás, Excomungado, Pé-de-Pato, Bode-Preto, Cão Tinhoso, Bruxo do Inferno, Principe das Trevas, Espírito do Mal. Abram a Bíblia e leiam nos versículos 1 e 2 do capítulo terceiro do livro de Zacarias:
“Deus me mostrou o sumo sacerdote Josué, o qual estava diante do Anjo do Senhor, e Satanás estava à mão direita dele, para se lhe opor.
Mas o Senhor disse a Satanás: o Senhor te repreende, ó Satanás, o Senhor que escolheu a Jerusalém, te repreende”...
Há na Bíblia outras referências ao demônio. Leiam, por exemplo, o versículo 26 do capítulo doze do Evangelho de São Mateus e o versículo 23 do capítulo três do Evangelho de São Marcos.
Ainda consoante a Bíblia, no capítulo quatro do Evangelho de São Mateus, o diabo tentou Jesus num monte bem alto e lhe ofereceu todos os reinos do mundo e a glória deles, proferindo estas palavras:
“Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares.”
Jesus o repeliu, como alguém que esmaga uma víbora:
“Retira-te, Satanás, porque está escrito: ao Senhor, teu Deus, adorarás, e só a ele darás culto”.
O assassinato é um dos prediletos meios de ação do Porco Sujo. Ele é o “Senhor da Morte”, conforme salienta o versículo 14 do capítulo dois da Epístola aos Hebreus:
“...aquele que tem o poder da morte, a saber, o diabo”.
Examinem o começo do versículo 44 do capítulo oito do Evangelho de São João:
“Ele (o diabo) foi homicida desde o princípio...”
Assim como o demônio pode invadir uma casa, apoderar-se de uma alma, também é capaz de se instalar num automóvel e levar quem o dirige à morte. Creio que tal fato ocorreu com James Dean. Portanto, amigo leitor, convém em certas circunstâncias mandar benzer o seu carro ou exorcizá-lo.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

UM LIVRO REPLETO DE ERROS DE PORTUGUÊS

Um livro de Paulo Coelho, intitulado O demônio e a srta. Prym está repleto de cacofonias, redundâncias, disparates, lugares-comuns, afirmativas absurdas, deficiências linguísticas, frases mal construídas e erros de regência verbal e colocação pronominal. Além disso, o escritor carioca não sabe inserir as vírgulas nos seus devidos lugares. Não sabe virgular. Também ignora que não se separa por vírgula o verbo do sujeito.
Mais do que o enredo anêmico, fragilíssimo, o que impressiona no livro é a enorme quantidade de solecismos, de erros de português. Examinemos alguns desses erros, apenas uma pequena parte. Já na página 35 encontrei este:
“...começou a rezar para sua avó, morta há algum tempo atrás...”
Eis aí uma expressão redundante. A ideia de passado está bem presente no verbo haver, não sendo necessário, portanto, o uso do advérbio atrás. Paulo Coelho repete o erro em outras páginas do livro:
“Há muitos anos atrás...” (página 36) – “Há três anos atrás...” (página 49) – “Há quatro dias atrás...” (página 58) – “...há milênios atrás” (página 60) – "Há três dias atrás..." (página 67).
Paulo não sabe usar a combinação da preposição em com o pronome demonstrativo aquele, na sua forma feminina, como se vê na página 37 de “O demônio e a srta. Prym”:
“De modo que resolveu matá-lo aquela mesma noite...”
A noite decidiu matar alguém, era uma criminosa? Se pudesse ser claro, correto, Paulo teria escrito assim:
“De modo que resolveu matá-lo naquela mesma noite...”
Monumental erro de concordância resplandece na página 121:
“Nada de apostas: aquele povo não merecia a fortuna que quase tiveram ao alcance das mãos.”
O verbo concorda com o sujeito em número e pessoa. É a regra geral, acima violada. Convido o amigo leitor para corrigir, junto de mim, a frase do Paulo Coelho:
“Nada de apostas: aquele povo não merecia a fortuna que quase teve ao alcance das mãos."
Paulo Coelho não conhece as regras básicas de colocação pronominal, é incapaz de meter o pronome se no seu devido lugar:
".. .desconhecendo que na maior parte das vezes comportam-se. . ." (página 23).
Eu e você, amigo leitor, vamos agora corrigir o autor de “O alquimista”:
“...desconhecendo que na maior parte das vezes se comportam...”.
Mas Coelho é teimoso, insistente e reincidente. Para ele o que não atrai pronome se:
“... o que mais temia transformou-se em realidade” (página 98) – "...há um momento em que um homem importante aproxima-se de Jesus" (página 138) – "E que, durante todos estes anos, tornou-se...” (página 160) – “... de modo que ninguém ali descobrisse que, em sua curta viagem até a cidade, transformara-se numa mulher rica”. (página 211).
Observem o cacófato da última frase: “numa mulher”. Aliás, na página 40 há este cacófato medonho: “uma maneira macabra”... É mamar demais, sem ter muito leite!
Aconselho a editora do Paulo Coelho a contratar um professor do nosso idioma para corrigir os gravíssimos erros de português desse escritor. Tais erros ensinam os seus leitores a falar errado, fazem a propaganda da ignorância.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

O CARRO CELESTIAL DE AYRTON SENNA

Apesar de não gostar de automobilismo, no qual enxergo uma loucura e não um esporte, eu admirava a coragem de Senna. O seu patriotismo me comovia. Mesmo sem querer, lutando contra os meus próprios sentimentos, a emoção se apoderava da minha alma, quando via Ayrton Senna agitar a nossa bandeira, após ser o vencedor de uma corrida internacional. Um nó se formava na minha garganta e eu engolia a seco. Aquele rapaz modesto, erguendo a nossa bandeira, me devolvia o orgulho de ser brasileiro e conseguia tirar do meu coração, por alguns momentos, o ódio, a fúria, a revolta que nunca deixei de alimentar contra os nossos políticos corruptos.
Sim, ele estufava o nosso peito, fazia desabrochar em nossas caras, mesmo que não fosse na primavera, a nacarada flor do sorriso, da alegria apetecida. Ofertava esse prazer ao povo e ainda o socorria, pois só agora se sabe, depois de sua morte, que ele ajudou em segredo, às ocultas, deficientes físicos e à entidades assistenciais. Deu milhares de dólares à Fundação Abrinq, à Associação de Assistência à Criança Defeituosa, ao Centro de Reabilitação do Hospital das Clinicas. Graças aquele piloto de ar tímido e gestos simples, máquinas carissimas foram adquiridas no exterior, como o aparelho Cybex, utilizado nas avaliações musculares. Com o dinheiro que ganhava nas pistas, arriscando sua vida, Ayrton Senna patrocinou o tratamento de centenas de crianças carentes, portadoras de distúrbios cerebrais ou neurológicos.
Ele salvou a vida da jovem Regiane Maria dos Reis, que sofria de cirrose hepática crônica e necessitava urgentemente de um transplante de fígado. Os 65 mil dólares doados por Senna pagaram a operação da moça. E a sua bondade também favoreceu, no estado do Acre, uma instituição de assistência médica a índios e seringueiros, fundada pelo Chico Mendes. Inimigo do espalhafato, da caridade ruidosa e ostensiva, Senna exigia que essas ações jamais fossem reveladas.
Rapaz de olhar meio triste, Ayrton Senna declarava que durante as corridas, quase sempre, tinha o costume de conversar com Deus. Aliás, em 1988, após conquistar o seu primeiro título mundial no Japão, ele afirmou que havia contemplado Jesus Cristo num trecho do autódromo, antes do fim da prova. Leiam as suas palavras:
-Eu estava agradecendo a Deus pela vitória. Deus me presenteou. Era um presente enorme, essa vitória. Mesmo rezando, eu estava super concentrado, me preparando para uma curva longa, de 180 graus, quando vi a imagem de Jesus. Ele era tão grande, tão grande... Não estava no chão. Estava suspenso, com a roupa de sempre, e uma luz em volta. O seu corpo inteirinho subia para o céu, alto, alto, alto, ocupando todo o espaço. Eu vi essa imagem incrível, enquanto guiava o carro de corrida. Guiava com precisão, com força, com...
Ai, nesse momento, Ayrton Senna ficou mais emocionado, os seus olhos se umedeceram e ele acrescentou:
-É de enlouquecer, não é? É de enlouquecer...
Que moço estranho, o Ayrton Senna! Pairava no seu rosto a melancolia das criaturas que morrem cedo. Ayrton era um místico, um médium com o dom de ter visões, um ser repleto de bondade, de espiritualidade.
Agora eu o vejo como um espírito de luz, guiando no espaço negro da morte um belíssimo e resplandecente carro de corrida. Para onde vai esse carro etéreo, mais veloz do que os carros de corrida do nosso planeta? Vai em direção à Luz suprema, à Luz de todas as luzes, à Luz que ressuscita os mortos e que se chama Deus. E de onde vem a força desse carro celestial do Ayrton? Vem de sua alma, da sua bondade, da sua piedade, da humana ternura do seu coração sensível e extremamente generoso...

domingo, 6 de fevereiro de 2011

JÂNIO QUADROS, NO PALÁCIO DA ALVORADA, FEZ O EMBAIXADOR DOS ESTADOS UNIDOS ENTRAR NO SEU GUARDA-ROUPA!

Fiz esta pergunta a Jânio Quadros, durante um dos meus almoços com ele, na sua casa da rua 9 de Julho, em Santo Amaro:
-Houve muita pressão dos Estados Unidos para o senhor apoiar a ação armada que o governo do presidente Kennedy planejava contra Cuba?
Eufórico, com o rosto mais vermelho, Jânio Quadros fitou-me. Bebeu um pouco de vinho e de modo desembaraçado, às vezes escandindo as sílabas de algumas palavras, começou a rememorar:
-Um mês depois da minha posse na presidência da República, nos fins de fevereiro de 1961, desembarcou em Brasília o Adolfo Berle Jr. Este, no ano de 1945, como embaixador dos Estados Unidos, havia contribuído para a derrubada do Estado Novo, da ditadura de Getúlio Vargas, mas eu jamais iria tolerar qualquer interferência do governo norte-americano em nossa política interna. Nem quis recebê-lo, pois não ignorava que o seu plano consistia em forçar o Brasil a participar de uma ação jurídica e diplomática cujo objetivo era legalizar a intervenção direta dos Estados Unidos em Cuba, como aconteceu na Coréia e no Congo, sob os auspícios da OEA e da ONU.
Indaguei, repleto de curiosidade:
-E de que maneira o senhor descascou o pepino?
-Eu não o descasquei. Quem o descascou foi o Afonso Arinos de Melo Franco, o meu ministro das Relações Exteriores, a quem incumbi de falar com o Berle. O enviado de Kennedy, vendo que não conseguia nada, pediu socorro ao John Moors Cabot, embaixador dos Estados Unidos no Brasil. Cabot, na ânsia de agradar o Berle e o Kennedy, ousou interferir em nossa vida política.
-Bem, e aí, o que o senhor fez?
-Impaciente, fervendo de indignação, mandei chamar o John Moors Cabot. Ele, muito sem jeito, entrou no meu gabinete. Decerto já sabia que eu me achava bem informado sobre o seu vil procedimento. Sentou-se na minha frente, diante de uma mesa baixa, e fui direto ao assunto: “embaixador Cabot, o senhor é o representante de um país com o qual a minha pátria, o Brasil, mantém tradicionais laços de amizade, desde a época de Tiradentes, mas agora o senhor não está se comportando bem!”
-O senhor teve a coragem de dizer isto?
-Sim, é claro, pois era a pura verdade!
-E ele, qual foi a sua reação?
-Ficou pálido. Eu o encarei de modo firme, sem desviar o meu olhar irado dos seus olhos, enquanto lhe dizia: “o senhor está metendo o bedelho em nossa vida política. Asseguro, o senhor não tem o direito de fazer isto, assim como o nosso embaixador em Washington não tem o direito de interferir nos assuntos internos dos Estados Unidos”.
-E aí, presidente, o que ele disse?
-Nervoso, a gaguejar, quis me contradizer. Reagi: “não, não, não, o senhor não me desminta, eu posso apresentar as provas! Vou adverti-lo, ou o senhor pára de meter o bedelho em nossa vida política, ou serei obrigado, para o bem dos tradicionais laços de amizade entre o Brasil e os Estados Unidos, a pedir ao seu governo a sua substituição por outro embaixador. Escolha”.
-E como acabou o encontro, presidente?
-Levantei-me e o despedi, sem lhe apertar a mão. Ele estava tão nervoso, tão atarantado, que em vez de sair pela porta do gabinete, entrou no meu guarda-roupa!
Eu e a dona Eloá rimos a valer, provocando os latidos dos três cães do casal.

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Escritor e jornalista, Fernando Jorge é autor do livro Se não fosse o Brasil, jamais Barack Obama teria nascido, lançado pela Editora Novo Século

sábado, 29 de janeiro de 2011

A DEFICIÊNCIA FÍSICA NÃO ELIMINA O VALOR

Recebi uma carta de um jovem que é deficiente físico, na qual ele declara:
"Nasci quase sem pernas e sem braços, com estas duas partes do meu corpo atrofiadas. Às vezes me entristeço, porque nem sempre é fácil, para mim, aceitar tal situação. Talvez o senhor possa animar-me, numa de suas crônicas. Ficarei grato."
Prezado leitor, atendendo ao seu pedido, vou evocar neste bate-papo uma das mais extraordinárias vidas do século XIX. É a de Arthur MacMurrough Kavanagh, nascido no dia 25 de março de 1831, terceiro filho de lady Harriet Margaret Le Poer Trench, segunda esposa de Thomas Kavanagh, parlamentar inglês. Quando Arthur saiu do ventre da mãe, uma empregada exclamou, ao vê-lo:
-Coitadinho! Deus o levará e assim será melhor para todos!
O menino tinha apenas dois cotos de alguns centímetros, no lugar onde deveriam estar os braços, e além disso as pernas lhe faltavam por completo. Mas Deus não quis levá-lo. Iria viver 58 anos, de maneira intensa.
Arthur cresceu. Ele possuía um sorriso franco, límpidos olhos azuis, ombros largos e uma testa espaçosa, indicadora de alta inteligência. Perseverante, aprendeu a escrever usando a caneta com os dentes. E a sua letra era boa. Logo se tornou o mais audacioso cavaleiro dos condados do interior da Irlanda. Como fazia isto? Seguro por correias a uma sela especial, e após empurrar para a frente os ombros largos, ele agarrava as rédeas com os dois cotos de braços.
Mostrou ser um ótimo atirador, de pontaria infalível. Eis o seu método: prendia a arma debaixo do coto do braço esquerdo e com o direito puxava o gatilho. Também foi um pescador habilíssimo. Atreveu-se até a pescar nas águas traiçoeiras das imediações do Círculo Ártico.
Apesar de não ter mãos, Arthur MacMurrough Kavanagh sabia desenhar muito bem e era um pintor de talento.
Em 1848, ele decidiu empreender uma longa viagem com o irmão mais velho, Thomas, e com o seu professor, o reverendo David Wood. Seria uma excursão quase sempre a cavalo, da Suécia até a Índia. E Arthur partiu. Atravessou a Finlândia, foi até a Rússia, desceu pelo Volga, navegou pelo Mar Cáspio, chegou à Pérsia e depois a Bombaim. Durante três anos o destemido homenzinho sem braços e sem pernas sofreu toda a espécie de privações: enfrentou períodos de fome, de doenças, de invernos duríssimos e de calores bárbaros.
No Teerã participou de caçadas ao lado do príncipe persa Malichos Mirza, filho do Xá Fat-Ali. E Arthur, ao ficar doente em 1850, passou a sua convalescença no magnífico harém desse príncipe. Imaginem como foi deliciosa a sua recuperação...
O dinheiro do homem sem pernas e sem braços acabou, mas ele não esmoreceu. Conseguiu arrumar um emprego em Aurugumbad, na Companhia das Índias Orientais. Sabem qual era a sua tarefa? Levar mensagens urgentes, a cavalo!
Contemplando a vida de Arthur, vemos como Goethe não errou ao escrever os seguintes versos na parte nona do poema “Hermann und Dorothea”:

“Aquele que se apoia numa vontade firme,
forja o mundo a seu gosto”

(“Aber wer fest auf dem Sinne beharrt,
Der bildet die Welt Sich” )


Baixinho, de pernas curtas (pernicurto), Napoleão era um gigante, do ponto de vista militar. Ele e o britânico Arthur MacMurrough Kavanagh são a prova de que a deficiência física desaparece, quando quem a carrega tem coragem, tenacidade, personalidade, inteligência, em suma, indiscutível valor próprio.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

UM RATO MERECE MAIS ESTIMA QUE CERTOS HOMENS

A senhorita Stella Thompson, de trinta e sete anos, que mora em Havant, Inglaterra, resolveu não se mudar do local onde vive, embora tenha herdado do progenitor uma vasta e moderna residência. O motivo é que ela não se conforma em abandonar um rato pelo qual se afeiçoou, chamado “Will-o’-the-Wild”.
-Se eu deixar esta casa – pergunta a mulher – quem tratará da alimentação de Will? É um ratinho muito tímido e não sabe defender a própria subsistência.
A senhorita Thompson, conforme declarou, já teve em certa ocasião nada menos de vinte e oito ratos soltos no seu apartamento.
-É bastante bonita e confortável a casa do meu pai, no Sussex – disse ela – porém não quero deixar Will sozinho. Levá-lo comigo seria uma solução arriscada, pois ele poderia morrer por estranhar o ambiente.
Esta inglesa sentimental, ao contrário de tantas criaturas do seu sexo, nutre uma profunda simpatia por esses ágeis roedores, que nunca foram, através dos séculos, animais benquistos.
Quase todos os irracionais são símbolos para o homem. A abelha representa a indústria; o galo, a vigilância; a formiga, o trabalho; o boi, a paciência; o leão, a força; a coruja, o estudo; a pomba, a paz; o cão, a fidelidade; a ovelha, a mansuetude... E o rato? Este é símbolo da cupidez e da podridão.
Os hindus veneram a vaca. No estado de Caxemira, aquele que tirar a vida de uma, é castigado com sete anos de cadeia. Em Madagascar, recebe pena de morte quem mata um crocodilo. O tigre, esse belo quadrúpede carniceiro, é adorado em Bengala e nas ilhas de Sonda. Até o urubu, o negro e feio urubu, tem os seus admiradores, porquanto no Daomé os nativos o respeitam como um deus. Mas... e o rato, quem o enaltece, lhe presta homenagens? Se não me engano, o seu único panegirista, na época contemporânea, foi Walt Disney, o criador dos desenhos animados de Mickey Mouse...
Dos outros animais o homem aprendeu inúmeras coisas valiosas. A aranha ensinou-lhe a arte de tecer. Alguns pássaros, como o joão-de-barro, deram exímias lições de engenharia. A raposa mostrou o que é a astúcia; a lebre, o que é a velocidade; a mula, o que é a obstinação... E assim por diante. O rato apenas ensinou o homem a ser guloso e rapinante.
O sexo frágil sempre demonstrou por ele uma tremenda antipatia. A senhorita Stella Thompson é uma exceção. Adora esses tratantes, estremece de ternura ao vê-los. Acha que são lindos, mimosos, encantadores. Nem lhe passa pelo cérebro que os patifezinhos transmitem a peste bubônica e a disenteria bacilar.
O amor é cego, dizem com razão. Eu compreendo, no entanto, porque essa inglesa excêntrica quer bem aos ratos. Solteirona, quase atingindo os quarenta, tem um coração ardente, repleto de meiguice. Como não pode extravasar todo o carinho que ele encerra junto a um esposo e a um filho, volta-se para os tais animalejos.
No fim das contas, aqui entre nós, amigo leitor, um rato merece mais estima que certos homens.
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Escritor e jornalista, Fernando Jorge é autor do livro Se não fosse o Brasil, jamais Barack Obama teria nascido, lançado pela Editora Novo Século