sábado, 9 de maio de 2009

Um filho que tem mãe, tem todos os parentes

Reproduzi num álbum os mais belos versos e os mais expressivos pensamentos sobre as mães. Do poeta santista Martins Fontes, que evoquei no meu livro Vida e poesia de Olavo Bilac (Editora Novo Século, 5ª edição) são estes dois lindos versos:

"Ao pé das nossas mães, todos nós somos crentes...
Um filho que tem mãe, tem todos os parentes”

Eis aqui a mais bela quadra popular sobre as mães:

"Eu vi minha mãe rezando
Aos pés da Virgem Maria:
Era uma santa escutando
O que outra santa dizia."

Guerra Junqueiro, na opinião de Unamuno, era "el primeiro de los poetas portugueses" e também "uno de los mayores del mundo". Estas palavras do insigne ensaista se acham no livro “Por tierras de Portugal y de España.” O entusiasmo de Unamuno se justificava, pois Junqueiro foi um poeta extraordinário, dotado de imenso talento verbal, conforme podemos constatar, lendo estes versos do seu livro “A velhice do Padre Eterno”:

"Minha mãe, minha mãe! ai que saudade imensa
Do tempo em que ajoelhava, orando, ao pé de ti.
Caía mansa a noite, e andorinhas aos pares
Cruzavam-se voando em torno dos seus lares
Suspensos do beiral da casa onde nasci.
Era a hora em que já sobre o feno das eiras,
Dormia quieto e manso o impávido lebréu.
Vinham-nos da montanha as canções das ceifeiras,
E a lua branca, além, por entre as oliveiras,
Como a alma dum justo, ia em triunfo ao céu!...
E, mãos postas, ao pé do altar do teu regaço,
Vendo a lua subir, muda, alumiando o espaço,
Eu balbuciava a minha infantil oração,
Pedindo ao Deus que está no azul do firmamento
Que mandasse um alívio a cada sofrimento,
Que mandasse uma estrela a cada escuridão.
Por todos eu orava e por todos pedia,
Pelos mortos no horror da terra negra e fria,
Por todas as paixões e por todas as máguas,...
Pelos míseros que entre os uivos das procelas
Vão em noite sem lua e num barco sem velas
Errantes através do turbilhão das águas.
O meu coração puro, imaculado e santo
Ia ao trono de Deus pedir, como inda vai,
Para toda a nudez um pano do seu manto,
Para toda a miséria o orvalho do seu pranto
E para todo o crime o seu perdão de Pai!"

Foi o indestrutível amor materno que deu ao grande lírico português a inspiração para compor esta magnífica poesia. Talvez alguns amantes da poesia moderna a julguem retórica, verbosa, palavrosa, mas um insigne poeta moderno, Stéphane Mallarmé, após ouvir uma queixa do pintor Degas, soltou a seguinte afirmação:
- Não é com idéias que se fazem versos, é com palavras.
Sim, é a pura verdade, pois as palavras são para os poetas o que os sons são para os músicos...

quarta-feira, 6 de maio de 2009

A revolta contra o fascista Acordo Ortográfico

É lamentável que Lula, um homem que se considera de Esquerda, tenha apoiado um acordo de caráter fascista, a medida imposta por pequeno grupo de acadêmicos, sem qualquer consulta aos intelectuais, aos jornalistas, aos professores, aos estudantes, ao povo.
Há uma grande reação em Portugal contra o Acordo Ortográfico, esse monstrengo com cara de Mussolini. Um abaixo-assinado de mais de cem mil pessoas, lá na “santa terrinha”, exige a revisão do assunto. Vários escritores lusos chamam a decisão de “bizarrice” e acusam o texto do Acordo de conter “inúmeras contradições e até mesmo equívocos”. Só três jornais de lá resolveram adotar o novo procedimento. Magoado por causa desses fatos, o “imortal” mortal Arnaldo Niskier declarou no artigo “A reação à bizarrice”, publicado pela “Folha de S.Paulo”:
“O que dói um pouco, nisso tudo, é a posição de alguns escritores de Lisboa. Escrevem contra o Acordo e contra o Brasil, acusando-nos de tentativa de neocolonialismo” (11-3-2009).
Niskier, esses escritores não exageraram. Trata-se, é inquestionável, de uma tentativa de neocolonialismo lingüístico, estúpida como todas as tentativas dessa natureza.
Vasco Graça Moura, escritor português de prestígio, condena o Acordo e acha difícil a sua implementação na pátria de Gil Vicente. Nascida em Coimbra, no ano de 1962, a escritora Inês Pedrosa também se mostra contra o aborto parido pela Academia Brasileira de Letras. Ela recebeu em Portugal o Prêmio Máxima de Literatura, com o livro “Nas tuas mãos”, e afirma, categórica:
“Sou contra, porque, para começar, o Acordo é um produto falso, um produto pirata. Na verdade, ele não estabelece um acordo. Significa, então, jogar livros fora”.
O repórter da “Folha de S.Paulo” que a entrevistou, no inicio de 2009, quis saber o motivo pelo qual ela não vê o novo sistema como um acordo. Inês Pedrosa respondeu:
“Porque ele cria muita confusão, é inútil e prejudicial. É um acordo em desacordo. O hífen, por exemplo, gera confusão” (4-1-2009).
Mas a revolta contra o código fascista não ocorre apenas em Portugal. Acontece também no Brasil. Informa Ancelmo Gois, de “O Globo”, no comentário “Desacordo na ABL”: circula no meio editorial um e-mail atribuído a Sérgio Pachá, contendo pesadas críticas a essa lei de unificação do idioma português. Pachá, chefe do Serviço de Lexicografia e Lexicologia da Academia Brasileira de Letras, é um gramático competente. Ele estava sob as ordens do acadêmico Evanildo Bechara, o principal responsável pela gestação do Acordo, este feto repulsivo. Aqui vai um trecho do citado e-mail:
“As mudanças impostas pelos podres poderes da República, não pedem menos que a rejeição maciça [do Acordo] por parte da sociedade” (“O Globo”, 25-3-2009).
Baiano de Itaparica, ocupando na ABL a cadeira número 34, o escritor João Ubaldo Ribeiro meteu o pau no mussolinico regulamento-jumento, durante uma entrevista concedida ao “Correio Braziliense”. Segundo ele, autor de mais de um milhão de livros vendidos em dezesseis países, “ninguém vai levar muito a sério esta reforma”. Na sua tranquila opinião, ela contribuirá para piorar o conhecimento da língua portuguesa. Eis como Ubaldo explica a quase geral falta de respeito pela amalucada alteração ortográfica:
“Porque, em primeiro lugar, é muito perfunctória, pequena, apesar de afetar um número grande de palavras. Para mim, não enriquece em nada o entendimento da língua com qualquer um dos seus falantes. Sinceramente, não vejo nessa reforma nenhuma perspectiva realmente nova, a não ser dinheiro trocando de mãos” (“Correio Braziliense”, 4-1-2009).
A reforma, no entender de Ubaldo, criou a confusão e ainda por cima despesas, programas de texto para computador. Como exemplo da bagunça, ele diz que devido ao fim do trema, hoje ninguém sabe se a pronúncia correta é liquidificador (sem trema) ou liqüidificador (com trema).
Disparates se tornaram bem visíveis no acordo fascista. Um deles: não deve mais ser usado o acento diferencial entre as palavras homógrafas (com a mesma grafia). Exemplos: para (conjugação do verbo parar) e para (preposição simples); pelo (conjugação do verbo pelar) e pelo (substantivo). Todavia, foi mantido o acento diferencial da palavra pôde (terceira pessoa do singular do pretérito perfeito do indicativo do verbo poder), a fim de distingui-la de pode (terceira pessoa do singular do presente do indicativo do mesmo verbo). Quanta complicação e confusão!
Vejam agora a seguinte frase da manchete de um jornal:
“Crise mundial para o comércio”
Esta frase, por causa da reforma ortográfica, é ambígua. A crise parou o comércio ou apenas o ameaça?
Outra insensatez: o acento gráfico dos ditongos ei, eu, oi, desaparece nas palavras paroxítonas (vocábulos nos quais o acento tônico cai na penúltima sílaba), como idéia, epopéia, assembléia, bóia, jibóia. Todos sem acento. No entanto, em compensação, o acento agudo permanece nas palavras oxítonas (vocábulos nos quais o acento tônico cai na última sílaba), como rói, dói, herói, anéis, pastéis, céu, réu, troféu, papéis, chapéus.
Coitado do povo! Para escrever certo, ou melhor, errado, precisa compreender estas sutilezas gramaticais, aceitar estas regras esdrúxulas!
Jornal cheio de boas intenções, “O Estado de S.Paulo” convidou Evanildo Bechara para esclarecer em artigos dominicais as dúvidas sobre a reforma. Evanildo escreve corretamente mal. Dos seus textos retorcidos como cólicas hepáticas, pinga a chatice. Lê-lo é mergulhar não no sono, mas num pesadelo. E como é pernóstico! Em vez de usar a palavra usuário, emprega a palavra utente. Adora o substantivo ortógrafo. O seu estilo complicadíssimo é mais indigesto do que uma azeda macarronada coberta de mofo, baratas e percevejos. Amostra da sua linguagem trevosa, tediosa e misteriosa:
“Emprega-se o hífen nas palavras compostas por justaposição que não contêm formas de ligação e cujos elementos, de natureza nominal, adjetival, numeral ou verbal, constituem uma unidade sintagmática e semântica e mantêm acento próprio, podendo dar-se o caso de o primeiro elemento estar reduzido”.
Entenderam? Foi assim, com a sua escrita idêntica a um tenesmo (forte desejo de defecar ou urinar, acompanhado de sensação dolorosa), que o Evanildo ganhou fama...
Concluindo: ele produziu diversos artigos para O Estadão e é como se não tivesse feito nenhum.

domingo, 5 de abril de 2009

Ladrões de livros

Inúmeras vezes, no Brasil, as livrarias têm sido, para os intelectuais, agradáveis centros de reunião. Pelo menos foi assim no Rio de Janeiro de outrora. Quem penetrasse na Garnier, das quatro às seis da tarde, veria Sílvio Romero, Machado de Assis, Joaquim Nabuco, Olavo Bilac, Alberto de Oliveira, Raimundo Correira, sem falar em dezenas de outros. A Livraria Briguiet, situada na Rua do Ouvidor, era preferida por Pandiá Calógeras, Graça Aranha, José Veríssimo, Rui Barbosa, Medeiros e Albuquerque. E na Laemmert, que se localizava também na mesma rua, podiam ser encontrados Euclides da Cunha, João Ribeiro, Múcio Teixeira, Gonzaga Duque, Afonso Celso, Inglês de Sousa... Bons tempos, aqueles! Havia fraternidade. Os escritores se mostravam mais puros, menos preocupados com as famigeradas panelinhas e a hipotética glória literária.
Hoje, nas livrarias, não há mais tertúlias de escritores, mas sim de ladrões de livros. Já vi fulanos cometendo esses roubos. Agem às vezes em grupos, como se fossem professores realizando uma pesquisa bibliográfica. Roubam as obras não para ler, tornarem-se cultos, e sim para as vender nos sebos ou de outra maneira.
A classe desses ladrões é curiosa, eclética, e apresenta figuras bem pitorescas, dignas de serem estudadas pelos psicanalistas.
Afirmam alguns cronistas que Sir Edward Fitzgerald se viu condenado a dois anos de prisão, devido ao fato de ter surrupiado, em Paris, uma Bíblia rara...
Larápios de livros... Que se pode deduzir, quando tais tipos proliferam? Amor excessivo à cultura? Paixão invencível, descontrolada, que leva à insânia, a atos reprováveis? Em algumas ocasiões, acredito, é cleptomania. Em outras, trata-se de sem-vergonhice, de assalto.
Anatole France escreveu um romance intitulado O crime de Silvestre Bonnard, onde narra, com fino humor, a história de um velhote erudito, que rapta uma jovem para dá-la em casamento a um rapaz. Como dote, o encanecido tutor oferece aquilo que mais ama na existência: os seus preciosos livros. Mas à noite, no silêncio da casa adormecida, Silvestre levantava-se, saía furtivamente do quarto e ia retirar, da biblioteca, os volumes prediletos.
O rapto da protegida não se afigurava um crime, perante a consciência do bibliomano. Pouco versado em leis, desconhecia a gravidade do delito. Todavia, o roubo de vários livros, embora fossem seus, causou-lhe remorsos. É que Silvestre furtava o dote da moça. Quebrando a palavra empenhada, estabelecia uma brecha no sua dignidade. E isto, aos olhos de um cidadão honrado, torna-se uma falta imperdoável.
Merece indulgência um sujeito que age desta maneira? Sim. O motivo é tão humano que temos de ser complacentes.
Os plagiários são mais nocivos que os larápios de livros. É que estes roubam materialmente, enquanto os primeiros furtam raciocínios e imagens, ou melhor, as criações felizes da nossa inteligência, os frutos da árvore frondosa da nossa imaginação.
Quem me tira um livro da estante se apodera de um objeto amado, mas eu sei, no íntimo, que posso adquirir outro exemplar, em tudo idêntico ao que foi subtraído, caso a obra não esteja esgotada. Aquele, no entanto, que me despoja de uma bela frase e de um nobre pensamento, está me esbulhando de um tesouro. Nesta circunstância, asseguro, sinto-me lesado, expropriado.
É mais difícil caracterizar um plágio do que um roubo comum, pois há larápios super-habilidosos, exímios na arte de furtar idéias, de vesti-las com roupagens elegantes.
Aqui entre nós, leitor, quero confessar uma coisa. Para mim todo plagiário é um assaltante manhoso e sub-reptício, que rouba o produto do nosso cérebro empregando a mesma desenvoltura e o mesmo cinismo de um esperto ladrão de livros.

domingo, 15 de março de 2009

O CARRO CELESTIAL DE AYRTON SENNA - Artigo mais lido.


Livro inédito:
FHC, COLLOR, ITAMAR, MALUF, SARNEY E ENEAS SEM MÁSCARAS

(E TAMBÉM ACM, ROBERTO MARINHO, BRESSER PEREIRA, JÂNIO QUADROS, JUSCELINO KUBITSCHEK, ETC)


Capitulo: XXXIV

O CARRO CELESTIAL DE AYRTON SENNA

Evoquei neste livro as figuras de várias dos nossos políticos. Apareceram o Fernando Henrique, o Collor, o Maluf, o Sarney, o ltamar Franco, o Enéas, o Amaral Netto, o Antônio Carlos Magalhães, o Jânio Quadros, o Juscelino Kubitschek, etc, etc. Políticos vivos e mortos. Descrevi os lances de suas existências e, de alguns, os seus negativos aspectos morais. Confesso: ao narrar certos fatos me senti enojado. Pois bem, a fim de formar um contraste com esses aspectos negativos e com esses fatos, eu resolvi evocar, no Ultimo capitulo deste livro, um brasileiro já falecido, que não era político, que nunca ocupou qualquer cargo público, mas cuja vida curta foi um belo exemplo e um grande estimulo para todos nós, filhos de uma pátria onde a política se tornou sinônimo dos substantivos ‘mentira, hipocrisia, ladroeira, falsidade, incapacidade, corrupção’. Refiro-me a Ayrton Senna.
Eu não sou esportista e nunca fui adepto de nenhum esporte. Não sei nadar, nunca corri como um atleta e detesto as lutas de boxe. Também não gosto de automobilismo. Sou apenas um escritor, um cerebral, um homem apaixonado por livros e pela cultura. Não há para mim maior prazer do que o de ler e escrever, mas confesso que a morte do piloto Ayrton Senna me causou uma profunda emoção. Fiquei muito triste e o meu coração se encheu de pena.
Apesar de não gostar de automobilismo, no qual enxergo uma loucura e não um esporte, eu admirava a coragem de Senna. O seu patriotismo me comovia. Mesmo sem querer, lutando contra os meus próprios sentimentos, a emoção se apoderava da minha alma, quando via Ayrton Senna agitar a nossa bandeira, após ser o vencedor de uma corrida internacional. Um nó se formava na minha garganta e eu engolia a seco. Aquele rapaz modesto, erguendo a nossa bandeira, me devolvia o orgulho de ser brasileiro e conseguia tirar do meu coração, por alguns momentos, o ódio, a fúria, a revolta, que nunca deixei de alimentar contra os nossos políticos corruptos.
Ayrton Senna, nesses instantes, foi para mim a imagem do Brasil dinâmico, valente, idealista, vitorioso. Os dois se mesclavam, Senna e o Brasil. Ambos eram campeões, ou Senna era o Brasil e este era o Senna.
Quem poderia, como ele, encher o nosso peito de orgulho? O Antonio Rogério Magri, ex-ministro do Trabalho e da Previdência Social, que aceitou um suborno de 30 mil dólares? O deputado José Geraldo, do PMDB de Minas Gerais, que metendo a mão nos cofres públicos os criou três entidades sociais fantasmas, com sedes também fantasmas? O risonho, o vaidosíssimo Fernando Henrique Cardoso, deslumbrado presidente da Republica que entregou o Brasil aos agiotas do FMI e que não fez nada, absolutamente nada, em prol do seu país?
Esta gente sempre nos desiludiu. Mas Ayrton Senna estufava o nosso peito, fazia desabrochar em nossas caras, mesmo que não fosse na primavera, a nacarada flor do sorriso, da alegria apetecida. Ofertava esse prazer ao povo e ainda o socorria, pois só agora se sabe, depois de sua morte, que ele ajudou em segredo, às ocultas, deficientes físicos e entidades assistenciais. Deu milhares de dólares à Fundação Abrinq, à Associação de Assistência a Criança Defeituosa, ao Centro de Reabilitação do Hospital das Clinicas. Graças aquele piloto de ar tímido e gestos simples, máquinas caríssimas foram adquiridas no Exterior, como o aparelho Cybex, utilizado nas avaliações musculares. Com o dinheiro que ganhava nas pistas, arriscando a vida, Ayrton Senna patrocinou o tratamento de centenas de crianças carentes, portadoras de distúrbios cerebrais ou neurológicos.
Ele salvou a vida da jovem Regiane Maria dos Reis, que sofria de cirrose hepática crônica e necessitava urgentemente de um transplante de fígado. Os 65 mil dólares doados por Senna pagaram a operação da moça. E a sua bondade também favoreceu, no estado do Acre, uma instituição de assistência médica a índios e seringueiros, fundada pelo Chico Mendes. Inimigo do espalhafato, da caridade ruidosa e ostensiva, Senna exigia que essas ações jamais fossem reveladas.
Rapaz de olhar meio triste, Ayrton Senna declarava que durante as corridas, quase sempre, tinha o costume de conversar com Deus. Aliás, em 1988, após conquistar os seu primeiro título mundial no Japão, ele afirmou que havia contemplado Jesus Cristo num trecho do autódromo, antes do fim da prova. Leiam as suas palavras:
- Eu estava agradecendo a Deus pela vitória. Deus me presenteou. Era um presente enorme, essa vitória. Mesmo rezando eu estava superconcentrado, me preparando para uma curva longa, de 180 graus, quando vi a imagem de Jesus. Ele era tão grande, tão grande... Não estava no chão. Estava suspenso, com a roupa de sempre, e uma luz em volta. O seu corpo inteirinho subia para o céu, alto, alto, alto, ocupando todo o espaço. Eu vi essa imagem incrível, enquanto guiava o carro de corrida. Guiava com precisão, com força, com...
Ai, nesse momento, Ayrton Senna ficou mais emocionado, os seus olhos se umedeceram e ele acrescentou:
- É de enlouquecer, não é? É de enlouquecer...
Que moço estranho, o Ayrton Senna! Pairava no seu rosto a melancolia das criaturas que morrem cedo. Ayrton era um místico, um médium com o dom de ter visões, um ser repleto de bondade, de espiritualidade.
Agora eu o vejo como um espírito de luz, guiando no espaço negro da morte um belíssimo e resplandecente carro de corrida. Para onde vai esse carro etéreo, mais veloz do que os carros de corrida do nosso planeta? Vai em direção a Luz Suprema, à luz de todas as luzes, à luz que ressuscita os mortos e que se chama Deus. E de onde vem a força desse carro celestial do Ayrton? Vem de sua alma, da sua bondade, da sua piedade, da humana ternura do seu coração sensível e extremamente generoso...

A mocidade é bela, mas a desses cretinos é horrenda

No dia 10 de fevereiro de 2009, o calouro Bruno Ferreira, de vinte e um anos, do curso de Medicina Veterinária da Faculdade Anhanguera, em Leme, no interior do estado de São Paulo, foi levado em coma alcoólico para a Santa Casa daquela cidade. Dezenas de veteranos, aos berros, ou melhor, aos zurros, no decorrer de um trote, agrediram Bruno e outros calouros com chibatadas, obrigando-os a comer ração de cachorro, a nadar numa lama fedorenta, a ingerir grande quantidade de vodca e cachaça, a tomar banho no meio de montes de estrume, de restos de animais mortos. Um espetáculo ignóbil, de pura selvageria, de legitimo sadismo.
Na Universidade Federal de Goiás, os veteranos também embebedaram os calouros. Depois puseram coleiras neles. Uma jovem de dezenove anos desmaiou, mergulhada na embriaguês. Foi conduzida às pressas, em agudo estado de coma etílico, para o Hospital de Urgência de Goiânia.
Priscila Muniz, grávida de três meses, caloura de dezoito anos, teve de ser internada num hospital da cidade de Santa Fé do Sul, a 625 quilômetros de São Paulo, após sofrer no trote queimaduras de segundo grau, tanto nas costas como nas pernas e nos braços. A veterana que a atacou, valendo-se de forte mistura líquida de tiner e creolina, é aluna do curso de Pedagogia, ambiciona ser professora... Ela se aproximou da vítima e garantiu:
-Se eu não pegar você agora, vou pegar amanhã.
Tentando escapar, Priscila respondeu que estava grávida, mas mesmo assim a cretina despejou o líquido. Atingida, bem queimada, a caloura começou a passar mal, a perder os sentidos, antes de ser atendida no pronto-socorro.
O trote violento, bárbaro, tornou-se instituição sagrada no Brasil, pois os que o praticam, na maioria das vezes, não são punidos. A lei não existe para esses criminosos sádicos.
Em 1999, o estudante Edison Tsung Chi Hsueh morreu afogado numa piscina na USP, durante um trote regado a álcool, maconha e lança-perfume. Vomitando insultos, palavrões, os veteranos do curso de Medicina dessa universidade, mais de cinquenta, atiravam os calouros na água e pisavam nas mãos dos que, agarrados às bordas da piscina, queriam sair. Edison, rapaz tímido, de pesados óculos de grau, não sabia nadar. Ao fazer a autópsia, os legistas não encontraram, no seu cadáver, vestígios de álcool ou de drogas.
O DHPP, o Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa, investigou o caso. Logo veio a público um vídeo onde Frederico Carlos Jana Neto, o “Ceará”, sextanista do curso de Medicina, afirmou sorridente numa choperia, junto de vários amigos:
-Eu matei o japonês. Sim, eu matei o japonês que se afogou!
Interrogado pela polícia, ele disse:
-Juro, isto foi apenas uma brincadeira de mau gosto!
“Ceará” ficou quatro dias preso. Alunos e mestres da Faculdade de Medicina protestaram contra a sua detenção. Oito professores da USP o visitaram, hipotecando-lhe solidariedade.
Quatro veteranos, acusados de causar a morte de Edison, livraram-se da ação penal no ano de 2006, porque o Supremo Tribunal de Justiça trancou a ação, devido a “falta de justa causa para embasar a denúncia”.
Hsueh Feng Ming, engenheiro civil e pai do estudante Edison Tesung Chi Hsueh, perdeu a esperança de ver a condenação dos assassinos do seu filho e morreu de desgosto em 2008.
Amigo leitor, faço questão de salientar: rapazes como esses estudantes criminosos pensam que ser jovem é mostrar-se perverso, imbecil, débil mental. Não, seus idiotas. Ser jovem é agir como criatura inteligente, repleta de alma, de coração, de sentimentos nobres.
A mocidade é bela, mas a desses cretinos é horrenda

Sou, modéstia à parte, um escritor e jornalista superorganizado. Nunca abro a boca, nos debates dos programas de rádio ou de televisão, para falar sobre assuntos que não conheço. Já deixei nesses debates muita gente em situação difícil, pois estou extremamente bem informado. Documento tudo, posso provar tudo, graças às informações extraídas do meu rico arquivo, fruto de mais de quarenta anos de minuciosas pesquisas, de cuidadoso recolhimento de dados.
Adoto também esse método para escrever os meus livros e os meus artigos. Portanto o que vou informar aqui não pode ser posto em dúvida.
No ano de 1962, os veteranos de Medicina da PUC de Sorocaba, agarraram um calouro e o despiram. Em seguida ele foi colocado num barril cheio de água e volumosa quantidade cal. Consequência: o calouro morreu com a pele em fogo, toda queimada. E observem, os jovens cretinos que fizeram isto eram estudantes de Medicina! Imagine agora, amigo leitor, quantos pacientes eles mataram, se lograram concluir os seus cursos...
Em 1973, calouros da Escola Superior de Agronomia Luiz de Queiroz, de Piracicaba, foram obrigados a comer grama com urina de porco. Resultado: tiveram diarréias e vários pegaram graves infecções intestinais.
Em 1980, num trote, o jovem Carlos Alberto Sousa, por não permitir o corte dos seus cabelos, recebeu golpes nos rins, no estômago, no fígado, no peito. O agressor teve uma pena leve: apenas cinco anos de prisão.
Ainda em 1980, na Academia Militar de Realengo, do Rio de Janeiro, um calouro, depois de ser amarrado a trilhos de trem, sofreu um enfarte fatal.
Em 1992, surrado por veteranos do curso de Educação Física da Faculdade Maria Teresa, de Niterói, o calouro Roberto Alcântara de Oliveira quase perdeu a vida.
Em 1994, os veteranos queimaram vinte calouros com o corrosivo nitrato de prata, na Escola Técnica Conselheiro Antônio Prado (ETECAP), de Campinas.
Em 1997, desfigurado por socos e pontapés, a sangrar, o calouro Mário César Caliman tentou fugir do ataque dos veteranos, internando-se num matagal, onde aranhas venenosas o picaram, Submetido aos cuidados de médicos e enfermeiras de um hospital, Mário conseguiu sobreviver.
Em 2006, quinze veteranos da Universidade Federal de Uberlândia, forçaram um calouro a se deitar sobre um enorme formigueiro. O moço, sob centenas de picadas, ficou com o corpo todo ferido, inchado, ensanguentado. Dores insuportáveis o atenazaram no leito de um hospital, ele nem podia dormir. Dois dos seus agressores foram expulsos da universidade e treze ficaram suspensos por quatro meses. Pena leve...
A ferocidade dos jovens cretinos se expande de todas as maneiras. Orgulham-se de ser burros e perversos. As feras carniceiras – os tigres, os leões, os abutres, os crocodilos – são melhores do que eles, porque matam por imposição da lei da sobrevivência, mas os jovens cretinos ferem, espezinham, torturam, assassinam, por cálculo e sadismo, pelo exclusivo prazer de causar o mal.
Há poucos dias um estudante da Universidade Mackenzie agrediu sem nenhuma razão, no Jardim Guanabara de Campinas, o mendigo Irenaldo Onofre Salvador Júnior, homem fraco, doente, quase cego. O estudante raspou-lhe a cabeça, quebrou os seus dentes e encharcou as suas roupas com álcool.
Eu sinto pena do Brasil, ao olhar esses jovens degenerados. Poderemos confiar neles, quando se tornarem médicos, advogados, professores, engenheiros, políticos?
O poeta latino Ovídio escreveu estas palavras nas “Heroïdes”, coletânea de versos elegíacos:
“Ars fit, ubi a teneris crimen condiscitur annis” (verso 25 do capítulo IV).
É um verso que pode ser traduzido assim, de modo mais extenso:
“Quem desde os seus primeiros anos se acostuma com a maldade, faz logo do crime uma arte”.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Ricardo Noblat, de “O Globo”, não errou!

Leitora assídua da coluna de Ricardo Noblat, do jornal “O Globo”, a professora carioca Ana Rocha Moreira não se conforma com as críticas que ele vem sofrendo no referido matutino, por parte de uma equipe chefiada pelo Aluizio Maranhão. Leiam um trecho da carta de Ana, enviada a mim:
“Aluizio Maranhão condenou o Noblat, da sucursal de Brasília, porque ele disse no texto ‘Boa sorte, Obama!’, publicado na edição do dia 10 de novembro de 2008 de ‘O Globo’, que ‘Lula desfruta de uma popularidade de que presidente algum desfrutou”. Sublinhei o ‘desfruta de’. No entender do Aluizio e do seu grupo, a frase do Ricardo contém um vistoso erro de português, pois o verbo desfrutar, alegam eles, ‘não pede preposição’. Para o grupo o correto é assim: “desfruta uma popularidade”. Ora, volta e meia eu vejo em livros, jornais e revistas, à farta, este verbo com a preposição de. É uma regência aceita no Brasil, há dezenas de anos. Nas questões de linguagem, o uso, em casos dessa natureza, faz a regra. Concorda?”
Eu concordo professora. Basta dizer que no verbete desfrutar, inserido na página 484 do “Dicionário de usos do português do Brasil”, coordenado pelo professor Francisco S. Borba (Editora Ática, São Paulo, 2002), foram registradas estas três construções:
“...o passarinho de minha história desfruta de liberdade ampla e irrestrita.”
“O Brasil desfrutou de condições muito favoráveis.”
“O Sr. Gabriel Bernardes desfrutou de elevado conceito.”
A primeira frase é do jornal “O Popular”, de Goiânia; a segunda é do livro “Os servos da morte”, de Adonias Filho, lançado em 1965; e a terceira é do diário “Correio do Povo”, de Porto Alegre. Exemplos eloqüentes de uma regência adotada por jornais sérios e um escritor culto. Não se justifica, portanto, a crítica do Aluizio Maranhão e da sua equipe ao texto do Ricardo Noblat. Ele, Aluizio, e a tal equipe, precisam atualizar-se e deixar de agir como cegos fiscais da língua portuguesa.
Todavia, a história não acaba aqui. Mereceu mais uma censura da professora Ana Rocha Moreira a crítica irracional do Aluizio e do seu grupo a um outro texto do Ricardo Noblat, intitulado “Como jabuticaba”, aparecido na edição do dia 17 de novembro de 2008 de “O Globo”. Procedendo como um Hitler, como os ditadores do III Reich da Gramaticolândia, eles reprovaram fascistamente, nazistamente, esta construção do Noblat:
“...5% da receita do município servem para pagar os vereadores...”
Correção do Aluizio e da sua turma:
“...servem para pagar aos vereadores”...
Aluizio e o seus cupinchas não evoluíram, só aceitam, com o verbo pagar, o objeto indireto de pessoa. Esconjuram a sintaxe pagar alguém. Ora, Antonio de Moraes e Silva, no clássico “Diccionario da lingua portugueza”, cuja primeira edição é de 1813, já havia apoiado esta regência ao dar quatro exemplos:

I – Pagar as tropas.
II – Pagar os criados.
III – Pagar os trabalhadores.
IV – Pagar as dívidas.

Como observou Antenor Nascentes no livro “O problema da regência”, a primitiva transitoriedade direta do verbo pagar é que permitiu, ao nosso idioma, transformá-lo num transitivo direto, com objeto de pessoa.
Concluindo: a crítica do Aluizio Maranhão e de seus auxiliares aos textos do Ricardo Noblat não foi só injusta. Foi antes de tudo desastrosa e trouxe à nossa memória estas palavras do moralista francês Vauvenargues (1715-1747), colocadas nas “Réflexions et Maximes”:
“O erro é a noite dos espíritos e a armadilha da inocência”.
(“L’erreur est la nuit des esprits et le piège de l’innocence”).

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Escritor e jornalista, Fernando Jorge é autor do romance satírico “O grande líder”, cuja 5ª edição foi lançada pela Geração Editorial.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

O gringo que veio ao Brasil para insultar Santos Dumont

Quem me chamou a atenção para o insulto, o jato de lama podre arremessado por um gringo na imagem de Santos Dumont, foi o meu amigo Emil Farhat, autor de algumas obras clássicas da moderna literatura brasileira:
- Fernando, saiu na “Folha de S. Paulo” um ataque contra Santos Dumont, feito por um jornalista norte-americano. Ele afirmou que o Pai da Aviação "não é ninguém”.
Fui logo comprar a “Folha”, pois sou um dos biógrafos do genial inventor, um dos mais belos símbolos da nossa nacionalidade, autor de “As lutas, a glória e o martírio de Santos Dumont”, obra que me fez ganhar dois prêmios: o diploma Pioneiros da Aeronáutica, da Fundação Santos Dumont, e o diploma e a medalha Ordem do Mérito Aeronáutico, concedidos pela Comissão de Alto Nível do Ministério da Aeronáutica, durante a gestão do brigadeiro Paulo Salema Ribeiro.
O gringo que procurou enxovalhar o imperecível Santos Dumont se chama Barth Schwartz. Eis como ele se refere ao nosso patrício: '
"Tinha um quê de obsessão e talvez de megalomania. Se Brasília não for obsessão e megalomania, então não sei o que pode ser. Se Kubitschek não foi um megalomaníaco, ninguém mais foi. E fracassou. Assim como o Brasil, e Santos Dumont".
Difamador profissional, Barth Schwartz insultou de uma só vez o presidente Juscelino Kubitschek, o Brasil e Santos Dumont, que no seu entender não passam de "três fracassos". Depois este americano arrogante ainda teve a coragem de ridicularizar a Força Aérea Brasileira, da qual Santos Dumont é patrono:
"Fui a Petrópolis e me mostraram a casa de Santos Dumont. Não pude entrar, porque havia a banda da Força Aérea, tocando em homenagem ao Pai da Aviação. Era uma banda felliniana. Todos de uniforme. Sempre que um americano vê um latíno-americano de uniforme, não o leva a sério. Todas as associações com uma república de bananas vêm à cabeça".
Na ânsia de insultar o Brasil, o grosseiro Barth Schwartz observou, referindo-se ao nosso grande inventor.
"É interessante que ele fosse brasileiro. O fracasso dele é muito brasileiro".
Portanto, na sua opinião, Santos Dumont foi um fracassado, como fracassados somos todos nós, brasileiros. Vitoriosos são os filhos do Tio Sam, que levaram uma surra monumental na guerra do Vietnã e que agora, no campo da eletrônica, da tecnologia e da indústria automobilística, estão sendo esmagados pelos japoneses...
Um fato é incontestável: Santos Dumont, em 23 de outubro de 1906, conseguiu voar com o seu 14-bis. Esse vôo foi realizado diante dos membros do Aero Clube de Paris e de uma imensa multidão. Quanto a isto não há dúvidas, e a revista “The Illustrated London News”, a mais importante da Inglaterra, informou no seu número 3.524, do dia 3 de novembro de 1906, evocando essa proeza:
"The first flight of a machine heavier than air: Santos Dumont winning the Archdeacon Prize".
("O primeiro vôo de um aparelho mais pesado que o ar: Santos Dumont ganha o Prémio Archdeacon")
Por que Barth Schwartz está enlameando a glória de Santos Dumont? É simples: ele nasceu em Dayton, no Ohio, na mesma cidadezinha dos irmãos Wright. E o vôo de ambos, segundo asseveram os ianques, ocorreu em Kitty Hawk, na Carolina do Norte, no dia 17 de dezembro de 1903. Mas até os historiadores norte-americanos da aviação duvidam desse vôo, pois David C. Cooke indaga no seu livro “Who really invented the airplane”:
"Será que os Wrights realmente voaram naquele dia, na Colina Kill Devil? E se de fato o fizeram, foram os primeiros a elevar-se nos ares com asas construídas pelo homem? Será que inventaram mesmo o avião"? .
A fúria desvairada de Barth Schwartz contra Santos Dumont, se a analisarmos de modo frio, é o ódio impotente de um gringo que foi derrotado pela verdade histórica.
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Escritor e jornalista, Fernando Jorge é autor do livro “As lutas, a glória e o martírio de Santos Dumont”, cuja 5ª edição foi lançada pela Geração Editorial.