domingo, 19 de junho de 2016

Conselhos do pré-cadáver Fernando Jorge para o pré-cadáver Michel Temer

Eu, o sensato pré-cadáver Fernando Jorge, vou aqui dar quatorze conselhos ao esperto pré-cadáver Michel Temer, presidente da República. Sim, somos dois pré-cadáveres, pois estamos em faixas quase idênticas de idade provecta. A senhora Morte já nos espia com uma atenção especial. De repente, vupt!, ela agarrará nossas carcaças, jogando-nos num túmulo ou num forno crematório. Portanto, é lógico, peço a Michel Temer, colega pré-cadáver, o obséquio de acatar agora os meus conselhos, antes de adquirir o aspecto de defunto melancólico ou bem-humorado.
Primeiro conselho. Mantenha a calma, presidente, por ter sido citado quatro vezes nas apurações da operação Lava Jato. E continue firme, sereno, apesar do seu nome aparecer vinte e uma vezes, entre os anos de 1996 e 1998, nas planilhas apreendidas pela Polícia Federal na residência de um executivo da empresa Camargo Corrêa. O nome do meu colega pré-cadáver sempre se destaca nessas planilhas, junto de quantias que somam mais de 340 mil dólares.
Segundo conselho. Mostre ainda controle dos nervos, colega pré-cadáver, pois Romero Jucá, do PMDB, ministro do Planejamento, braço direito do senhor, um dos seus principais articuladores, responde a inquérito nas operações Lava Jato e Zelotes.
Terceiro conselho: Sorria, colega pré-cadáver, diante das acusações a Henrique Eduardo Alves, também do PMDB e ministro do Turismo. Esse afável colaborador de vossa excelência, sofre inquérito na operação Lava Jato, autorizado pelo Supremo Tribunal Federal, a fim de se apurar propina entregue à campanha dele, Eduardo Alves, ao governo do Estado do Rio Grande do Norte.
Quarto conselho. Despreze, colega pré-cadáver, as acusações a Geddel Vieira Lima, também do PMDB, ministro-chefe da Secretaria do seu governo. Olhe a cara séria, enérgica, fechada, desse homem que de acordo com relatório da Polícia Federal, permitia a empreiteira OAS usar de modo espúrio a sua influência de deputado em numerosas instituições públicas.
Quinto conselho. Abrace demoradamente, colega pré-cadáver, o Osmar Terra, seu ministro do Desenvolvimento Social e Agrário, também do mesmo PMDB, o partido político mais limpo do Brasil. Quanta insolência, o Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande do Sul se atreveu a apontar irregularidades em gestões de Osmar, tanto na Secretaria da Saúde como na prefeitura da cidade de Santa Rosa, e o condenou ao pagamento de elevada multa!
Sexto conselho. Hipoteque solidariedade, colega pré-cadáver, ao ministro Blairo Maggi, da Agricultura. Blairo, do PP, é vítima de duas ações civis públicas, por improbidade administrativa, ambas movidas pelo Ministério Público de Mato Grosso.
Sétimo conselho. Aperte a mão honesta, colega pré-cadáver, do seu ministro Mendonça Filho, da Educação e Cultura, do DEM. Ele se tornou alvo da sétima fase da operação Lava Jato, sob a acusação de ter recebido 250 mil reais de propina, das empreiteiras Odebrecht e Queiroz Galvão.
Oitavo conselho. Beije na boca, colega pré-cadáver, e o acaricie muito, fazendo cócegas nas suas peludas axilas, o ministro Gilberto Kassab, da Ciência, Tecnologia e Comunicações, membro do PSD. Kassab é réu numa ação de improbidade administrativa. Ousa sustentar, o Tribunal de Justiça de São Paulo: esse ex-prefeito da capital paulista não impediu, numa feira, a cobrança de propinas.
Nono conselho. Pronuncie um discurso, colega pré-cadáver, em defesa do José Serra, do PSDB, seu ministro das Relações Exteriores. Citado na lista dos beneficiados pela Odebrecht, ele violou a Lei Orgânica Municipal quando foi prefeito da cidade de São Paulo, porque não concedeu, de maneira correta, o aumento salarial dos servidores públicos municipais. Exibiu na sua gestão, em suma, escandalosa improbidade administrativa.
Décimo conselho. Ofereça uma caixa de vitaminas, colega pré-cadáver, como prova de admiração e amizade, ao Ricardo Barros, do PP, seu ministro da Saúde. O nome de Ricardo está na lista da Odebrecht. A Polícia Federal o investiga apenas por três coisinhas: corrupção passiva, peculato e fraude na licitação para contratos em serviços publicitários destinados à Prefeitura de Maringá. Tudo em benefício da empresa Meta Propaganda.
Décimo primeiro conselho. Envie, colega pré-cadáver, um CD com músicas do sanfoneiro Luiz Gonzaga, o “Rei do Baião”, ao Sarney Filho, do PV, seu ministro do Meio Ambiente. Sarneysinho, ou melhor, Sarneysão, teve de pagar multa altíssima, sob acusação de propaganda política desonesta, uma pena determinada pelo Ministério Público Federal.
Décimo segundo conselho. Entregue como presente um automóvel bem caro, de último tipo, colega pré-cadáver, ao Maurício Quintella, do PR, seu ministro dos Transportes. Criatura doce, de olhar meigo, Maurício, coitadinho, foi condenado por improbidade administrativa, dano ao erário e enriquecimento ilícito. Atualmente é alvo de inquérito que apura peculato.
Décimo terceiro conselho. Proteste de forma violenta, colega pré-cadáver, contra as acusações a Helder Barbalho, do super-ético PMDB, seu ministro da Integração Nacional. A nossa Justiça injusta o acusa de improbidade administrativa no período em que era prefeito de Ananindeua, cidade do Estado do Pará. Segundo essa Justiça, Helder desviou recursos do Sistema Único de Saúde (SUS).
Décimo quarto conselho. Não esconda a sua profunda admiração, colega pré-cadáver, pelo Moreira Franco, do impoluto PMDB, seu Secretário Especial de Investimento. No dia 27 de abril de 1998, o Supremo Tribunal Federal condenou Moreira, ex-governador do Rio de Janeiro, por haver cometido ato lesivo ao patrimônio público. Usou o dinheiro do povo com o objetivo de mandar imprimir o livro Moreira Franco, ele governou para todos, volume com 274 páginas, 180 fotos coloridas e tiragem de 50 mil exemplares. A Justiça o obrigou a devolver quantia equivalente a 150 mil dólares, por descumprimento do Artigo 37 da Constituição Estadual, que veda a autopromoção do administrador na publicidade de atos e obras públicas.
         Concluindo, eu, o escritor Fernando Jorge, modesto pré-cadáver, cumprimento entusiasticamente o pré-cadáver Michel Temer pela feliz, inteligentíssima escolha dos seus ministros. Parabéns, presidente, mil parabéns! Que espírito justo, sensato, criterioso, o de vossa excelência! E veja, estou emocionado, uma lágrima quente, cândida, luminosa, desliza pelo meu pálido rosto de pré-cadáver patriota...


Este artigo de Fernando Jorge teve tanta repercussão, que foi traduzido para o inglês e está sendo divulgado no mundo inteiro.

Nenhum comentário: